quinta-feira, 21 de outubro de 2021

REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE III)

Este post é a continuação de REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE II)

As minhas desculpas por só hoje vir dar continuidade a um assunto que deixei em suspenso há quase 22 meses.

Uma “primeira reunião de curso” muito especial

Chegou a altura de vos contar o que foi a dita “primeira reunião de curso” do V Ano Médico de 1931-32, evento que nem sempre tem sido relatado com o detalhe que merece e cuja data exacta tem ficado na sombra.

Faço-vos tal relato a partir das notícias que saíram no Diário de Coimbra [1], Gazeta de Coimbra [2] e O Ponney [3], notícias razoavelmente pormenorizadas, bem demonstrativas do prestígio que aquele curso granjeava na cidade, um curso que, liderado pelo “Pantaleão” (Henrique Pereira da Mota), tinha acabado de introduzir a Venda da Pasta na Queima das Fitas.

O evento teve lugar em 5 de Junho de 1932, domingo, nove dias depois do cortejo da Queima em que pela primeira vez desfilaram os cocos e cartolas (conforme testemunho de Maria José Carmona da Mota [4]). Eis como decorreu o encontro:

A seguir ao almoço, levando gaiteiros à frente, rumaram os futuros médicos (55 maduros) ao pátio da Universidade dispostos a representar a rábula de que se tratava de uma reunião de curso de antigos estudantes já bem instalados na vida. Para tanto, vestiram-se à futrica com os seus melhores fatos, cobriram-se com chapéus de coco ou de revirão e muniram-se de bengala.

Tirada a fotografia da praxe nas escadas da Capela da Universidade, ei-los que descem triunfantes e ruidosos até à Baixa, seguindo o mesmo percurso dos cortejos da Queima, para poderem receber os aplausos de quem estivesse na rua ou às janelas.

Uma vez na Baixa, o programa incluiu uma muito oportuna visita ao Laboratório Matos Beja. E digo “muito oportuna” porque logo se lhe seguiu uma sessão de comes e bebes – a que os vários jornais dão nomes diferentes, mas O Ponney apelida de “Xarope Peitoral ó clock Five” –, durante a qual os futuros médicos e alguns dos seus Professores e Assistentes confraternizaram e trocaram discursos e se nomeou uma comissão para organizar a reunião de curso de daí a 5 anos.

Imagino que, já bem-dispostos, lhes deve ter sabido bem sair para o ar puro e caminhar até ao Choupal, seriam umas seis da tarde, para cumprir a última parte do anunciado programa – afixar numa árvore uma lápide de papelão (ou cartolina, consoante a fonte) com duas quadras do seu colega e poeta Vasco de Campos, já que ir fazê-lo no Penedo da Saudade seria levar longe de mais (digo eu) a rábula da reunião de curso de antigos estudantes: 

«Adeus, Coimbra! Em teu seio
Vivemos a mocidade,
E desse encanto nos veio
A mais profunda saudade!

Se cá voltarmos, um dia,
Já velhinhos, alquebrados,
Dá-nos de novo alegria,
Lembra-nos tempos passados!...»

Escreveu ainda o Diário de Coimbra que «a lápide de cartolina será substituída por outra de mármore, brevemente» e que, durante a cerimónia, o curso ainda teve oportunidade de exercitar as suas artes médicas ao reanimar – «ministrando-lhe imediatamente vida artificial e injectando-a» (sic)  uma rapariga que acabava de ser salva de morrer afogada no Mondego.

Uma fotografia para a História

 

A fotografia da reunião de curso foi obtida da Revista Rua Larga [5], local de onde a consegui reproduzir em melhor estado. Porém, a foto foi publicada no mesmo número de O Ponney [3] que deu a notícia do encontro, legendada como segue: «Último curso de Urologia, clinicamente vestido, na sua despedida ou por outra, na sua primeira reunião». “Curso de Urologia” porque este número do jornal era dedicado ao Congresso Hispano-Português de Urologia que nesse dia se iniciava em Coimbra; “clinicamente vestido” por os seus membros se encontrarem já vestidos como médicos e não como alunos.

Como convidada especial do grupo vemos a Maria Marrafa, antiga distribuidora de sebentas, que viria a falecer três anos mais tarde (13/12/1935). Logo atrás da Maria Marrafa está Henrique Pereira da Mota, o irrequieto “Pantaleão”, que, a adivinhar pelo seu currículo, só pode ter estado na organização desta jornada.

Como o dia estava frio e tinha chovido pela manhã [6], muitos levaram consigo sobretudo ou gabardina e houve quem substituísse a bengala pelo guarda-chuva.

De entre os 55 quintanistas que se contam na fotografia – qual deles o de aspecto mais respeitável – , cerca de 50% estão de chapéu de coco; mais ou menos 30% usam chapéu de revirão; oito estão em cabelo; e um só (!) usa cartola, que acabou por ser a forma que a tradição fez chegar até aos meus dias (anos 60) e até aos dias de hoje; afinal, a forma mais fácil de ser fabricada artesanalmente.

A foto acima pode ser observada com mais qualidade na pág. 73 da Fotobiografeta de “Pantaleão” [7]. 

Um curso que deixou marcas

Desde sempre os cursos de Medicina foram cursos prestigiados… e amados. A cidade ainda recordava os tempos em que o resultado dos exames de formatura dos médicos eram anunciados numa Congregação final e se todos fossem aprovados nemine discrepante – mas só nessas condições – estralejariam girândolas de foguetes lançados da Torre da Universidade e da Alameda de Camões e ouvir-se-ia o Hino Académico a anunciar a boa nova; e a cidade seguia ansiosa a espera daquele resultado, em comunhão com os estudantes.

O curso de Henrique Pereira da Mota (Pantaleão), Albino Gonçalves Dias (Topsius), Hugo de Moura Eloy, Justiniano d’Oliveira, Luís Olayo e tantos outros não era já desse tempo, mas estaria decidido a não deixar Coimbra sem que nela ficasse a sua marca e sem que dela tivesse uma despedida à altura dos seus pergaminhos.

A Venda Pasta tinha sido um sucesso, com uma visibilidade enorme. Toda a cidade teve a oportunidade de assistir e aplaudir da primeira fila, e os jornais não se cansaram de louvar a benemérita iniciativa. A sua continuidade estaria, portanto, assegurada. Já a ideia de levar os quintanistas a participar no cortejo da Queima, fazendo-os desfilar de fraque e chapéu de coco – uma ideia genial e revolucionária! – não terá tido a visibilidade esperada, o que facilmente se comprova pela total ausência de notícias nos periódicos de Coimbra.

O curso não podia despedir-se da cidade de uma forma tão pífia! Tenho para mim – especular um bocadinho não será crime... – que o pouco impacto do desfile de fraque e chapéu de coco no final do cortejo poderá ter espicaçado o curso e tê-lo-á levado a desencadear a insólita “primeira reunião de curso” em termos capazes de atrair os jornais e a população, deixando ao mesmo tempo uma imagem icónica para as gerações vindouras – os quintanistas de chapéu com suas bengalas em riste!

Será altura de dizer que o evento foi previamente publicitado, através de pequenos artigos que saíram de véspera e no próprio dia (Gazeta de Coimbra [8] e Diário de Coimbra [9] e [10]), onde se anunciava, inclusivamente, a presença do Reitor, Dr. Manuel Braga, e de outras individualidades que acabaram por não comparecer. Como se diria hoje, o curso “tinha boa imprensa” e “meteu a carne toda no assador”.

Bem hajam!, pela vossa iniciativa… e atrevimento.

Notícia da Gazeta de Coimbra de 4/6/1932

 

 








Notícia do Diário de Coimbra de 4/6/1932

 

 









Notícia do Diário de Coimbra de 5/6/1932

 






Zé Veloso

 

[1]     «Novos doutores, em medicina. A sua depedida a Coimbra», in Diário de Coimbra, 6-06-1932.

[2]     «Uma curiosa festa dos quintanistas de Medicina», in Gazeta de Coimbra, 7-06-1932.

[3]     «Reunião do Curso Médico 31-32», in O Ponney, 4-07-1932.

[4]     CARMONA DA MOTA, Maria José de Figueiredo. Testemunhos. Edição do autor, 2.ª ed. rev. e aum. Coimbra, 1997.

[5]     «Para o estudo das praxes coimbrãs», in Rua Larga, 1-08-1959.

[6]     Observações Meteorológicas, Magnéticas e Sismológicas Feitas no Instituto Geofísico no ano de 1932. 1ª Parte - Observações Meteorológicas, Vol. LXXI. Coimbra, Tipografia Atlântida, 1937.

[7]     Fotobiografeta de “Pantaleão”, https://tunauc.files.wordpress.com/2020/12/henrique_pereira_da_mota_pantaleao_2020.pdf.

[8]     «Uma Festa Académica», in Gazeta de Coimbra, 4-06-1932.

[9]     «Quartanistas de Medicina», in Diário de Coimbra, 4-06-1932.

[10]   «Quintanistas de Medicina», in Diário de Coimbra, 5-06-1932. 

sábado, 12 de junho de 2021

10 DE JUNHO DE 1951. UMA FINAL PERDIDA, DUAS CANÇÕES ESQUECIDAS

 

Como é natural, recordamos sempre com gosto as duas Taças de Portugal que já ganhámos, ambas contra o que seria de esperar, qual David lutando contra Golias: em 1939, na primeira de todas as Taças, demos 4-3 nas Salésias a um Benfica que nessa época nos tinha ganho já por duas vezes; e em 2012, um Sporting emproado, que dizia ter contado as favas antes mesmo de entrar no Jamor, não conseguiu contrariar o golo solitário imposto por uma Briosa que tinha ficado pelo fundo da tabela no Campeonato.

Também costumamos relembrar com certo orgulho, ainda que a amargura nos invada, aquelas duas Taças que perdemos de forma tão ingrata na década em que tivemos as melhores equipas de sempre: a final de loucos de 1967 contra o Vitória de Setúbal, quando o Jacinto João fez o 3-2 aos 144 (!) minutos; e a final de 1969, em plena crise académica, em que Eusébio nos desfeiteou por 2-1 no prolongamento depois de termos estado a ganhar a 5 minutos do fim.

Mas há uma quinta final que é muito pouco referida e da qual também eu não me lembraria, não fora um amigo ter-me enviado as letras de duas canções que as claques cantaram nessa altura, canções que, também elas, foram caindo no esquecimento.

Vamos aos factos! A final foi no Jamor a 10 de Junho de 1951, fez anteontem precisamente 70 anos! Foi contra o Benfica e perdemos pela bonita soma de 5-1.

Pela Académica alinharam Capela, Branco, Torres, Melo, José Miguel, Azeredo, Duarte, Gil, Macedo, Nana (cap.) e Bentes, sendo treinador Oscar Tellechea. Mas contam-nos o João Santana e o João Mesquita – que nestas coisas do futebol de antanho são quem mais sabe –, que os nossos jogadores estavam em péssima forma física devido à época de exames e que, para ajudar à missa, tiveram contra si uma arbitragem que a imprensa da época reconheceu ter-nos sido altamente desfavorável. Enfim, por alguma razão viemos de lá com uma abada.

Porém, nem por isso deixámos Lisboa de cabeça baixa, depois de termos feito a festa antes e durante o jogo. «E, mesmo após a derrota, um grupo de estudantes, encabeçado pelo inevitável Augusto Martins, ainda teve disposição para ir visitar a redacção de “A Bola”. Fazendo tal alarido que deixou estupefactos os lisboetas que circulavam pelo Bairro Alto, para quem aquela gente só podia ter acabado de ganhar a Taça de Portugal»… Enfim, era assim naquele tempo. Era assim a Académica!

Voltando às letras das canções que a claque cantou, elas constam de um panfleto frente e verso, tipografado pela Atlântida, que foi distribuído às claques que se deslocaram de Coimbra até Lisboa, quer em caravana automóvel, quer em comboio especial.

De um lado do folheto temos DÁ CÁ A TAÇA, que deveria ser cantada com música de “Larga a Mala”. Não consegui encontrar esta música, mas admito que se tratasse de “Olha a Mala” (carregar), que aqui está interpretada por Celeste Rodrigues em 1955.

Do outro lado do folheto temos o HINO DA ACADEMIA, que deveria ser cantado com música de “Tomara que Chova” (carregar), que aqui está interpretada por Emilinha Borba em 1950.   


Rezam as crónicas que a canção mais cantada foi esta última, cuja estrofe final é bem premonitória:

E do Estádio Nacional
A Taça de Portugal
Só a nós trazer compete
E fique toda a gente a saber
(Sempre é bom isto lembrar)
Que a história se repete.

Repetiu-se em 2012 e poderá bem repetir-se mais à frente! Haja esperança!

Zé Veloso

PS: Depois te ter colocado este post na página do Facebook Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA, recebi um comentário de Francisco Bento Soares, que afirma recordar-se de que seu irmão e seus colegas, quando regressados de Lisboa em 1951, cantavam a seguinte quadra: Podem emalar a trouxa / Boa noite ó tia Maria / Que a malta não ligava à Taça / Já toda a gente sabia.
Esta quadra é, obviamente, uma adaptação da conhecida quadra de 1939: São horas de emalar a trouxa / Boa noite ó tia Maria / Que a malta ganhava a Taça / Já toda a gente sabia! (quadra que chegou até nós também na versão: São horas de emalar a trouxa / Boa noite, tia Maria / Que a Briosa ganhava a Taça / Obrigado! Já cá se sabia!  

- Foto da equipa retirada do livro Académica. História do Futebol de João Santana e João Mesquita.

- Fotos do folheto cedidas pelo grande academista Luís Pinheiro de Almeida.

sábado, 6 de março de 2021

CARTA PARA JORGE CONDORCET

 

Caro Jorge, deixa-me reviver,

Primavera de 1964, Férias da Páscoa. O Coro Misto (ou Místaro, como dizia o Sô Chico) vai em digressão pelo Norte do país. A cena passa-se em Lamego. Mas repetir-se-á na noite seguinte em Vila Real e depois em Chaves e Póvoa do Varzim.

O cine-teatro está apinhado. Depois de o Coro ter interpretado o seu alinhamento e antes que a jornada acabe com os Fados e Guitarradas, estamos a meio das Variedades.

É a vez d’Os Álamos. E é de cima do palco que observo o que se passa à minha frente. De súbito, em vez de sair mais uma música yé-yé, como seria de esperar de uma formação tipo Les Chats Sauvages, arrancamos com o Nivram, o único tema jazzístico dos Shadows. O público surpreende-se… e mais intrigado fica quando, do fundo da plateia, começa a vir um “bruá” de risos que cresce a pouco e pouco e cuja causa ninguém entende nas filas cá mais para a frente, por muito que estendam os pescoços na nossa direcção, pois que é no palco que é suposto acontecerem as coisas. Que se passa?

És tu, Jorge Condorcet, que, imponente na tua casaca branca, cheia de caricas ao peito a simular medalhas, e trazendo uma vistosa flor na mão, vens descendo lentamente pelo corredor central da plateia em direcção ao palco.

Mas antes de cá chegares, há que fazer o primeiro número. Tu sabes que na primeira fila está a gente importante da terra. E que num dos lugares centrais deverá sentar-se a filha, ou talvez a jovem esposa, do Presidente da Câmara ou do Governador Civil. É para ela que te diriges, cortês, fazendo menção de lhe entregar a flor, que a jovem aceita, levantando-se da cadeira, confiante. Mas a mão que tu estendes à moça esconde um caule partido, de tal forma que, no instante seguinte, a pobre rapariga fica literalmente agarrada ao pau, enquanto tu segues impassível, de flor na mão, a caminho do palco, sob o riso e o aplauso da plateia. Ainda a actuação não começou e já tu, Jorge Condorcet, tens o público agarrado!

Presenciei esta cena dezenas de vezes e nunca me cansei de a ver. Dezenas de vezes estive atrás de ti, Jorge, em digressões do Coro Misto e do Orfeon (Angola e Açores), já que Os Álamos actuaram durante alguns anos nas Variedades daqueles organismos. E nunca nos cansávamos de te ver, apesar de já conhecermos de cor o teu repertório, porque tu nos davas a ilusão de que nos ensinavas a fazer os truques – o que nunca acontecia – e porque nos encantava ver a maneira como embarrilavas o público com a tua simplicidade e um humor muito fino, onde não havia espaço para o azedume. Um “ilusionista humorístico”, não um “ilusionista cómico”, como fizeste questão de me emendar, quando te dei a corrigir o texto que sobre os Condorcet escrevi em Os Lysíadas [1]. E tu fazias as coisas de uma forma tão elegante, que apenas uma vez vi um gesto de despeito nas moças que eram desfeiteadas no “truque” da flor; ao invés, terminado o efeito surpresa, também elas recebiam com alegria o seu aplauso, como qualquer partenaire.

Diz a tua biografia que frequentaste «em Coimbra as Faculdades de Medicina, de Farmácia, de Letras e de Ciências e Tecnologia desde 1950 a 1980, tendo completado o Curso Profissional de Farmácia, o Bacharelato e a Licenciatura (antes de Bolonha) em Biologia no ramo científico» [2] e que actuaste «mais de 1000 vezes em perto de 150 estados da Europa, África, América, Ásia e Oceânia» [2]. Mas o que aqui gostaria de destacar é a transversalidade e a consensualidade da tua pessoa dentro da Academia de Coimbra. Entre outras coisas que nem vou referir, actuaste com o Orfeon Misto (mais tarde, Coro Misto), o Orfeon, a Tuna, os Antigos Orfeonistas e os Antigos Tunos – sempre pro bono –, e foste até hoje o único sócio da Académica a quem foi dado o emblema de platina (75 anos de filiação ininterrupta)!

Mas tu, Jorge, tu tiveste a quem sair! Antes de ti existiu teu pai, Júlio, cuja história me apetece relembrar.

Júlio Condorcet, médico radiologista nascido em 1903, que cursou em Coimbra nas décadas de 20 e 30 do século passado, era uma pessoa extremamente criativa e divertida cujas façanhas e partidas nos são contadas em vários livros de memórias, quer de antigos colegas de curso, quer de outros compagnhons de route dos tempos em que, continuando a viver em Coimbra, se cruzou com muitas outras gerações de académicos nas quais fez amigos. Para se ter uma ideia do seu espírito irrequieto, deixo-vos aqui o que sobre ele escreveu Camilo de Araújo Correia [3]:

Condorcet foi um aluno de medicina com tanto de estudioso como de pândego. Não sei se por necessidade, se para arranjar mais uns cobres para a estroinice, foi também sebenteiro. Noites e noites a passar à máquina os apontamentos colhidos nas aulas, ditados por um condiscípulo, seu colaborador na preparação das sebentas.

Certa noite, a certa altura, saiu esta frase dos apontamentos:

– …”diz a mitologia que foram uns corvos que tiraram aos deuses o poder de curar e o deram aos homens”…

– Alto aí! – cortou o Condorcet.

– Que é?!

– Como se chamam esses corvos?

– Sei lá! Aqui não está nome nenhum…

– Mas devia estar! Uns corvos dessa importância não podem deixar de ter nome, caramba!... Ora deixa cá ver… deixa cá ver… Que dizes a “Giribites”? [4]

– Põe lá o nome que quiseres mas olha que pode dar mau resultado! – cortou o companheiro, morto por andar para a frente com os apontamentos.

Não deu mau resultado. O que deu foi um gozo medonho nos exames de “História da Medicina” desse ano.

Na primeira referência de um examinando aos “corvos Giribites” o lente deu um salto na cadeira e perguntou fora de si:

– Corvos quê?!!

– Giribites… – respondeu, a medo, o aluno?

– Giribites?!?!... Onde é que o senhor aprendeu isso?

Como, nesse tempo, os lentes não podiam ouvir falar em “sebentas”, o rapaz foi-se defendendo com a mentirazinha do costume.

– Foi num livro que me emprestaram… já bastante antigo…

– Hum… bem… bem…

Assim desarmado, o mestre continuou o exame sem mais incidentes. Incidentes houve, depois, com os alunos que não sabiam dizer o nome dos corvos!!!

– … foram uns corvos da mitologia… Ia dizendo o aluno.

– Como se chamavam esses corvos? Perguntava o mestre, atento à lengalenga.

– …… – Emudeciam os ignorantes.

– Giribites, senhor!... Giribites!... Vocês não estudam nada!... É tudo pela rama… tudo pela rama!...»

Júlio Condorcet, que era um animador de serões nato, quer nas tertúlias académicas quer fora delas, desde cedo se iniciou na arte do ilusionismo, adoptando como nome artístico Conde d’Orcet, the King of Embarrilation, inspirando-se para tal no seu próprio nome (Condorcet) e também na controversa figura do artista amador e nobre francês da primeira metade do séc. xix Comte d’Orsay. Aliás, disseste-me tu, Jorge, que em tempos tinhas visto cartões de visita do teu pai relativos à sua actividade artística, mas não te recordavas já se neles estaria Conde d’Orcet ou Conde d’Orsay.

Contrariamente ao que muitos pensam, Condorcet não é nome de família! É nome próprio!... como tu próprio me contaste:

Tudo começou na geração de teu pai, nado em Montemor-o-Velho, cujo nome completo era Júlio Condorcet de Carvalho Pais Mamede. Nessa altura era normal serem os padrinhos a escolher os nomes próprios dos afilhados; e o nome Júlio Condorcet foi “negociado” entre a família (a mãe do menino chamava-se Júlia) e o padrinho, que, vindo da zona de Abrantes, gostava do nome Condorcet, nome popular por ali.

E se o nome era popular por Abrantes, mais popular ficou depois por Coimbra, onde, mesmo na vida profissional, todos tratavam o Dr. Júlio Pais Mamede por Dr. Condorcet.

O Dr. Condorcet logo que teve um filho varão, ou seja, logo que tu nasceste, resolveu dar continuidade à dinastia com ele começada e chamou-te Jorge Condorcet (dos Reis Pais Mamede). E a partir daí foi-se consolidando a tradição de colocar o nome Condorcet como segundo nome próprio dos primogénitos varões da família Pais Mamede, que passou a ser conhecida por muitos como “Família Condorcet”.

Conheci a Família Condorcet na Praia de Mira das longínquas décadas de 40 e 50, quando as famílias de banhistas, que todas se conheciam, criavam as suas próprias diversões. O Dr. Condorcet, teu pai, estava ali como peixe na água, com a sua criatividade e irreverência, ajudado por meios que mais ninguém tinha na altura – gravador de fio, máquinas de filmar e projectar. De tarde reunia-se com o meu pai e mais dois comparsas e gravavam um “Jornal Sonoro” que via «a luz do dia todas as noites às 22 horas!» [5] a partir da varanda do café mais concorrido da Praia.  

Por essa altura tinhas mais dez anos do que eu, um puto de calções, pelo que pouco nos falávamos. Na década de 60, porém, fizemos uma boa amizade durante as digressões do Coro Misto e do Orfeon; a tua jovialidade quebrava barreiras! Depois disso estivemos meio século sem nos vermos, apenas tendo trocado alguns telefonemas. Finalmente, demos de caras um com outro no Palácio de S. Marcos, aquando das comemorações do 730.º aniversário da UC. Agora já éramos da mesma idade…

Foi a 1 de Março de 2020, precisamente um ano antes de nos deixares. A foto diz tudo sobre a alegria do reencontro! Não mais esquecerei este teu sorriso bom, Jorge.

Até sempre!

Zé Veloso

06/03/2021

PS: Três semanas depois de publicada esta carta, o Luís Filipe Colaço, meu colega d'Os Álamos,  editou e publicou no YouTube um “cover” do vídeo original “100 anos Ilusionismo Condorcet”, que apresenta a parte de ilusionismo do Espectáculo "Venham mais 30" Comemorativo dos 30 anos da Associação dos Antigos Tunos da Universidade de Coimbra (AATUC) e dos 100 anos de Ilusionismo da Família, “cover” esse que sonorizou com a música do “Nivram” em fundo, de forma a recriar o ambiente que descrevo mais acima. Carregue AQUI.
Obrigado, Colaço.


[1]  VELOSO, Zé. Os Lysíadas. Vol. I, De Coimbra ao Porto. 1.ª Edição, MinervaCoimbra, Coimbra, Fevereiro 2020.

[2]  «Jorge Condorcet», in Antigos Tunos da Universidade de Coimbra, https://www.uc.pt/aatuc/Colaboracoes/Condorcet.

[3]  CORREIA, Camilo de Araújo. Coimbra Minha. Almedina, Coimbra, 1989.

[4]  Fernando Rolin disse-me um dia que o nome dos corvos seria “Giribitsman” e não “Giribites”.

[5]  VELOSO, Maria Vitória Pinheiro das Neves Veloso de Carvalho Serra; colab. VELOSO, José Luís M. P. À Mesa Éramos Dez. Edição da autora, 2019.


domingo, 22 de novembro de 2020

100 ANOS DA TOMADA DA BASTILHA!

Há dez anos atrás escrevi aqui um post sobre a Tomada da Bastilha, com aquilo que então sabia sobre o assunto.
Agora, que se passam 100 anos sobre aquele memorável evento, achei interessante ir procurar mais fundo, para melhor perceber o que aconteceu e porque aconteceu, procurando contribuir para o esclarecimento da verdade histórica, já que têm sido publicadas versões (e opiniões) nem sempre concordantes entre si sobre os referidos factos, seus antecedentes e sua importância.
Para tanto, consultei e confrontei tudo o que consegui encontrar, desde depoimentos de conjurados e de jornais da época até livros e artigos de revistas que foram publicados a partir dos anos 40.
Essa pesquisa está na base do artigo que poderão ler nas págs. 7 a 16 do n.º 55 da revista Capa e Batina (número especial que a AAECL - Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Lisboa acaba de editar para assinalar o I Centenário da Tomada da Bastilha), onde encontrarão outros depoimentos a propósito desta data.
Para aceder ao PDF CARREGAR AQUI.
Nota: Para uma visão geral clicar nas setas < >; para ler clicar na nuvem.
Se tiver dificuldade em trabalhar com o link acima, abra o PDF AQUI.

Zé Veloso

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE II)

À procura do rasto das cartolas

Quando entramos numa biblioteca à procura de qualquer coisa cuja existência desconhecemos, nem sempre encontramos o que lá nos levou, mas nunca saímos de mãos vazias. Foi o que me aconteceu quando fui em busca de notícias sobre o desfile dos finalistas de Medicina (armados de bengalas e chapéus de coco) no cortejo da Queima das Fitas de 27 de Maio de 1932.
Tinha a convicção de que os jornais de Coimbra teriam noticiado o desfile com a mesma ênfase com que tinham tratado na véspera a Venda da Pasta, evento que também naquele ano se estreara, exactamente pela mão do mesmo curso e por iniciativa do mesmo estudante – Henrique Pereira da Mota, o célebre Pantaleão. Mas estava enganado. Nem uma palavra!
Resolvi, então, andar para a frente. Percorri, linha a linha, as notícias da Queima no Diário de Coimbra, Gazeta de Coimbra e O Despertar entre 1932 e 1943 (12 anos!) e nova surpresa: toda a atenção dos repórteres vai para os novos fitados, para a descrição dos carros, para a atribuição dos prémios aos melhores carros, para o júri e seu palanque, para a alegria esfusiante da estudantada e suas famílias, para os forasteiros – “Japão”! –, para as “toilettes” das senhoras, para os gaiteiros e as bandas, para as janelas engalanadas com colchas, para os brindes com espumante, até para a condenação dos excessos,… mas cartolados no cortejo… nem vê-los! Afinal, a festa não era deles, a festa era dos quartanistas.
Minto! Há uma excepção a confirmar a regra, uma nota no final da notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1941, pela qual ficamos a saber que, para além dos chapéus altos, a tradição também contemplava chapéus de palha.
E, ao percorrer O Ponney, o panorama é idêntico, já que encontrei vestígios das cartolas unicamente no n.º 125 (27/5/1936), onde, no CONVITE para o FUNERAL do jornal (que prematura e enganosamente se anunciava para o dia seguinte), se estabelece um conjunto de regras em que, logo à cabeça, aparece:

Tradições que não terão chegado sê-lo ou não chegaram aos nossos dias

Mas a leitura dos jornais permite-nos descortinar outros costumes relacionados com a despedida dos velhos quintanistas que não chegaram até aos dias de hoje. O mais antigo que apanhei refere-se a um “Cortejo dos Quintanistas” de que fala O Ponney de 21/4/1934, numa entrevista que faz ao Presidente da Comissão Central da Queima das Fitas. Tal cortejo teria lugar no “Dia dos Quintanistas”, o que me leva a supor que, por esta altura, a integração dos velhos quintanistas no cortejo da Queima não estaria ainda estabilizada.
Por outro lado, como se depreende dos recortes abaixo, no início da década de 40 do século passado existia a figura do "padrinho", figura que já não chegou à Coimbra dos anos 60 do meu tempo.
Extractos de notícia da Gazeta de Coimbra de 28/5/1940







Extracto de notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1942

Extracto de notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1943









Notas finais

Se é verdade que a inexistência de notícias sobre os cartolados em 1932 e nos anos que mais de perto se lhe seguiram poderá ser atribuída ao facto de que o centro da festa estava nos fitados, também é de admitir que a nova moda tenha levado o seu tempo a pegar e a ter alguma visibilidade.
Nos recortes do Diário de Coimbra de 1942 e 1943 acima está bem evidente um outro ícon associado ao finalista, que me parece ter vindo a ser sistematicamente esquecido. Refiro-me ao charuto, que tendo aparecido em 1932 conjuntamente com a bengala e o chapéu de coco, ainda nos anos 60 fazia parte dos adereços do cartolado masculino.
A estes dois posts seguir-se-á um terceiro, dedicado à Primeira Reunião do Curso dos Cocos, que encerrará a trilogia de posts de aprofundamento da origem das cartolas e bengalas na Queima.
Zé Veloso

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE I)



Há muito que ando para escrever sobre a origem das cartolas e das bengalas na Queima das Fitas, mas o tempo não tem dado para tudo. Agora, porém, passado que foi o pré-lançamento do primeiro volume d’Os Lysíadas [1], no VI Milenário da Real República dos LyS.O.S., é altura de voltar a animar o Penedo d@ Saudade e o tema parece-me interessante para a rentrée.
Para os estudiosos das tradições académicas é natural que este preâmbulo faça levantar o sobrolho: – Mas a origem das cartolas e das bengalas não está já devidamente estabelecida? Retomando uma frase que ficou célebre nos anos 70, talvez vos possa dizer: – Olhe que não, olhe que não!...
Vamos aos factos!

O que até há pouco se sabia

Do que até há pouco tinha vindo ao conhecimento do grande público [2], as cartolas e as bengalas teriam aparecido na Queima pela primeira vez em 1932 – não no cortejo, mas cerca de uma semana depois dele –, numa reunião de curso dos finalistas de Medicina desse ano, curso a que pertencia o Dr. Henrique Pereira da Mota, que ficou conhecido pela alcunha de Pantaleão.
Sobre o que em concreto se terá passado, vejamos o que escreveu em 1985 António José Soares [3] – que julgo ter sido o primeiro a colocar em livro o que os jornais noticiaram à época –, sendo esta a versão dos factos que tem vindo a ser sucessivamente repetida, ainda que nem sempre havendo o cuidado de indicar a fonte:
Poucos dias depois de largarem as suas fitas amarelas, os quintanistas de Medicina tiveram a sua primeira reunião de curso…
Apresentaram-se de chapéu de côco, ou de chapéu alto, de bengala e fumando charuto…
[…]
Descerraram uma lápide no Choupal (…de papelão, é certo), confraternizaram num lauto banquete, e tiraram uma fotografia nas escadas da capela da Universidade, envergando trajes respeitáveis, com chapéu alto, coco, chapéus de revirão, bengalas e outros acessórios de vestuário, a lembrar individualidades prestigiadas e respeitáveis que se tivessem formado ainda no séc. XIX.

O que há de novo

Acontece, porém, que enquanto esgravatava à procura de informação para escrever Os Lysíadas, tive acesso a um pequeno livro de memórias [4] escrito por Maria José de Figueiredo Carmona da Mota, então viúva do Pantaleão, onde a autora dá o seu testemunho sobre uma série de episódios da vida de seu falecido marido. E logo no primeiro testemunho, que a seguir reproduzo na íntegra, se afirma que as cartolas (aliás, os cocos) desfilaram mesmo no cortejo de 1932.
– TESTEMUNHO 1 – A Queima das Fitas aproximava-se. Os Grelados trabalhavam activamente ultimando a ornamentação dos carros alegóricos, organizando os festejos, angariando donativos. Deslocavam-se à Figueira da Foz por causa da garraiada, enfeitavam o salão do Baile de Gala, contratavam artistas para abrilhantar, no Parque, as noites das várias Faculdades.
Por toda a parte havia agitação, alegria; todas as conversas da malta acabavam no assunto do dia: a Queima.
Tudo isto causava uma sensação estranha misto de saudade e inveja nos finalistas da Academia.
Sentiam-se ainda estudantes. Ostentavam com orgulho as suas largas fitas mas sofriam com a marginalização a que eram votados. Os reis da festa eram os outros, a quem talvez, em tempos, tivessem feito sentir os rigores da Praxe e que agora se erguiam vitoriosos conquistando os loiros, pondo-os a eles na “prateleira”.
Mas alguns não se conformavam, eram ainda estudantes, estes dias também lhes pertenciam. Não tinham ainda abdicado. A capa e batina continuava a cobri-los e faziam parte integrante da velha Briosa.
Era preciso prová-lo e não se esconderem na sombra.
Então o Pantaleão lançou a ideia apoiada por unanimidade e assim um numeroso grupo de estudantes finalistas primorosamente bem postos com fraques e chapéus de côco ou sobrecasacas e cartolas, de bengala e charuto – símbolo da prosperidade que os esperava no futuro – fechava o cortejo da Queima das Fitas.
Grito de saudade por deixarem Coimbra e a praxe! – Brado de esperança pelo futuro.
Tratando-se de uma edição familiar de distribuição muito reduzida, a preciosa informação não circulou. Mas a sua lógica é cristalina!
Por um lado, dá-nos a conhecer a motivação para o acto – o despeito dos finalistas por não poderem participar na festa.
Por outro, o precedente de ter havido cocos e cartolas no próprio cortejo afigura-se mais plausível como detonador da tradição do que a existência dessas mesmas vestimentas numa simples «primeira reunião de curso».

Uma fotografia e várias interrogações

A foto acima, pertencente ao acervo da família do Dr. Henrique Pereira da Mota (Pantaleão), “cheira” inquestionavelmente a Queima das Fitas. Inclino-me para que tenha sido tirada no dia do cortejo de 1932, embora nada o garanta.
Segundo fui informado, à nossa direita, de coco, está o Pantaleão. Também de coco, mas à nossa esquerda, está o seu inseparável companheiro de farras e de República, Castelão de Almeida. Os estudantes do meio não estão identificados.
A fotografia levanta algumas interrogações que importa discutir.
Apesar de vir referido em Testemunhos [4] que os estudantes finalistas desfilaram de fraque ou sobrecasaca, não me repugna que os da foto estejam, ao que me parece, de batina, pois admito que nem todos tenham conseguido mobilizar a tempo tais vestes, sendo obrigados a improvisar a partir do que tinham mais à mão. Ressalvo, no entanto, que só o Pantaleão está identificado como aluno de Medicina.
Já a presença de Castelão de Almeida é intrigante, uma vez que era aluno de Direito e nem sequer tinha ainda posto fitas, não fazendo sentido que desfilasse no cortejo. Mas tal poderá ser explicado se a foto corresponder a um momento de confraternização entre amigos, antes ou depois do cortejo, porventura gente da Real República Ribatejana (como era o caso de Castelão e Pantaleão).
Igualmente intrigante é a espessa cobertura que os dois estudantes de coco na cabeça me parece trazerem aos ombros. Será a capa dobrada?
Outra questão para a qual peço ajuda: que prédio(s) aparece(m) ao fundo, na fotografia? Debalde tentei identificá-los em fotos da Velha Alta, bem como no trajecto entre a Alta e a Portagem. Se a foto foi tirada na zona da R.R.R., diz Lamy [5] que nessa data a República se encontrava na Rua dos Militares.

Uma frase intrigante

É curioso notar que a forma como está escrito o penúltimo parágrafo do TESTEMUNHO 1 acima – «um numeroso grupo de estudantes finalistas […] fechava o cortejo» – nem nos diz se todos os finalistas de Medicina aderiram à façanha, nem elimina a hipótese de estudantes de outros cursos terem aderido à ideia do Pantaleão.
Foi à procura de respostas para esta e outras questões que fiz uma busca exaustiva nos jornais que por aqueles dias se publicavam em Coimbra. Mas disso vos darei conta no próximo post  REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE II).
Entretanto, fico a aguardar os vossos comentários e qualquer ajuda que possam dar-me.
Zé Veloso

Aditamento feito em 22/10/2021

A foto acima foi amplamente discutida na página do Facebook “Penedo d@ Saudade – TERTÚLIA” em que divulguei este post pela primeira vez (12/12/2019). Eis o mais relevante:

- não se conseguiu identificar o local onde a fotografia foi tirada, o que aponta para que se situasse, efectivamente, na velha Alta já destruída.

- admitiu-se que o segundo aluno a contar da esquerda fosse Herculano Gonçalves, de Medicina, Pandeireta da TAUC em 1928-29, o que veio posteriormente a ser confirmado na Fotobiografeta de “Pantaleão”;

- aventou-se a hipótese de os alunos dos extremos terem pelo ombros um capote ou mesmo um gabão.

- O cocos não aparecem visíveis nas fotos conhecidas da Queima de 32 (este assunto está desenvolvido no final do post REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE III).


Foto inicial: Cartolas deixadas no corredor de entrada da Real República dos LyS.O.S. (Porto) por antigos repúblicos (foto Zé Veloso)
Última foto: descrita no texto (foto do acervo da família de Henrique Pereira da Mota – Pantaleão)
[1]   VELOSO, Zé. Os Lysíadas. Vol. I, De Coimbra ao Porto. Edição Especial Comemorativa do VI Milenário da Real República dos LyS.O.S., MinervaCoimbra, Coimbra, Novembro 2019.
[2]   Ver um apanhado em «Notas à Margem da Cartola, Bengala, Laço e Roseta dos Finalistas Universitários», in Notas & Melodias, http://notasemelodias.blogspot.com/2014/04/notas-origem-da-cartola-bengala-e.html.
[3]   SOARES, António José. Saudades de Coimbra. 1917-1933. Almedina, 1985.
[4]   CARMONA DA MOTA, Maria José de Figueiredo. Testemunhos. Edição do autor, 2.ª ed. rev. e aum. Coimbra, 1997.
[5]   LAMY, Alberto Sousa. A Academia de Coimbra. 1537–1990. Rei dos Livros, Lisboa, 1990.