sábado, 12 de junho de 2021

10 DE JUNHO DE 1951. UMA FINAL PERDIDA, DUAS CANÇÕES ESQUECIDAS

 

Como é natural, recordamos sempre com gosto as duas Taças de Portugal que já ganhámos, ambas contra o que seria de esperar, qual David lutando contra Golias: em 1939, na primeira de todas as Taças, demos 4-3 nas Salésias a um Benfica que nessa época nos tinha ganho já por duas vezes; e em 2012, um Sporting emproado, que dizia ter contado as favas antes mesmo de entrar no Jamor, não conseguiu contrariar o golo solitário imposto por uma Briosa que tinha ficado pelo fundo da tabela no Campeonato.

Também costumamos relembrar com certo orgulho, ainda que a amargura nos invada, aquelas duas Taças que perdemos de forma tão ingrata na década em que tivemos as melhores equipas de sempre: a final de loucos de 1967 contra o Vitória de Setúbal, quando o Jacinto João fez o 3-2 aos 144 (!) minutos; e a final de 1969, em plena crise académica, em que Eusébio nos desfeiteou por 2-1 no prolongamento depois de termos estado a ganhar a 5 minutos do fim.

Mas há uma quinta final que é muito pouco referida e da qual também eu não me lembraria, não fora um amigo ter-me enviado as letras de duas canções que as claques cantaram nessa altura, canções que, também elas, foram caindo no esquecimento.

Vamos aos factos! A final foi no Jamor a 10 de Junho de 1951, fez anteontem precisamente 70 anos! Foi contra o Benfica e perdemos pela bonita soma de 5-1.

Pela Académica alinharam Capela, Branco, Torres, Melo, José Miguel, Azeredo, Duarte, Gil, Macedo, Nana (cap.) e Bentes, sendo treinador Oscar Tellechea. Mas contam-nos o João Santana e o João Mesquita – que nestas coisas do futebol de antanho são quem mais sabe –, que os nossos jogadores estavam em péssima forma física devido à época de exames e que, para ajudar à missa, tiveram contra si uma arbitragem que a imprensa da época reconheceu ter-nos sido altamente desfavorável. Enfim, por alguma razão viemos de lá com uma abada.

Porém, nem por isso deixámos Lisboa de cabeça baixa, depois de termos feito a festa antes e durante o jogo. «E, mesmo após a derrota, um grupo de estudantes, encabeçado pelo inevitável Augusto Martins, ainda teve disposição para ir visitar a redacção de “A Bola”. Fazendo tal alarido que deixou estupefactos os lisboetas que circulavam pelo Bairro Alto, para quem aquela gente só podia ter acabado de ganhar a Taça de Portugal»… Enfim, era assim naquele tempo. Era assim a Académica!

Voltando às letras das canções que a claque cantou, elas constam de um panfleto frente e verso, tipografado pela Atlântida, que foi distribuído às claques que se deslocaram de Coimbra até Lisboa, quer em caravana automóvel, quer em comboio especial.

De um lado do folheto temos DÁ CÁ A TAÇA, que deveria ser cantada com música de “Larga a Mala”. Não consegui encontrar esta música, mas admito que se tratasse de “Olha a Mala” (carregar), que aqui está interpretada por Celeste Rodrigues em 1955.

Do outro lado do folheto temos o HINO DA ACADEMIA, que deveria ser cantado com música de “Tomara que Chova” (carregar), que aqui está interpretada por Emilinha Borba em 1950.   


Rezam as crónicas que a canção mais cantada foi esta última, cuja estrofe final é bem premonitória:

E do Estádio Nacional
A Taça de Portugal
Só a nós trazer compete
E fique toda a gente a saber
(Sempre é bom isto lembrar)
Que a história se repete.

Repetiu-se em 2012 e poderá bem repetir-se mais à frente! Haja esperança!

Zé Veloso

- Foto da equipa retirada do livro Académica. História do Futebol de João Santana e João Mesquita.

- Fotos do folheto cedidas pelo grande academista Luís Pinheiro de Almeida.

sábado, 6 de março de 2021

CARTA PARA JORGE CONDORCET

 

Caro Jorge, deixa-me reviver,

Primavera de 1964, Férias da Páscoa. O Coro Misto (ou Místaro, como dizia o Sô Chico) vai em digressão pelo Norte do país. A cena passa-se em Lamego. Mas repetir-se-á na noite seguinte em Vila Real e depois em Chaves e Póvoa do Varzim.

O cine-teatro está apinhado. Depois de o Coro ter interpretado o seu alinhamento e antes que a jornada acabe com os Fados e Guitarradas, estamos a meio das Variedades.

É a vez d’Os Álamos. E é de cima do palco que observo o que se passa à minha frente. De súbito, em vez de sair mais uma música yé-yé, como seria de esperar de uma formação tipo Les Chats Sauvages, arrancamos com o Nivram, o único tema jazzístico dos Shadows. O público surpreende-se… e mais intrigado fica quando, do fundo da plateia, começa a vir um “bruá” de risos que cresce a pouco e pouco e cuja causa ninguém entende nas filas cá mais para a frente, por muito que estendam os pescoços na nossa direcção, pois que é no palco que é suposto acontecerem as coisas. Que se passa?

És tu, Jorge Condorcet, que, imponente na tua casaca branca, cheia de caricas ao peito a simular medalhas, e trazendo uma vistosa flor na mão, vens descendo lentamente pelo corredor central da plateia em direcção ao palco.

Mas antes de cá chegares, há que fazer o primeiro número. Tu sabes que na primeira fila está a gente importante da terra. E que num dos lugares centrais deverá sentar-se a filha, ou talvez a jovem esposa, do Presidente da Câmara ou do Governador Civil. É para ela que te diriges, cortês, fazendo menção de lhe entregar a flor, que a jovem aceita, levantando-se da cadeira, confiante. Mas a mão que tu estendes à moça esconde um caule partido, de tal forma que, no instante seguinte, a pobre rapariga fica literalmente agarrada ao pau, enquanto tu segues impassível, de flor na mão, a caminho do palco, sob o riso e o aplauso da plateia. Ainda a actuação não começou e já tu, Jorge Condorcet, tens o público agarrado!

Presenciei esta cena dezenas de vezes e nunca me cansei de a ver. Dezenas de vezes estive atrás de ti, Jorge, em digressões do Coro Misto e do Orfeon (Angola e Açores), já que Os Álamos actuaram durante alguns anos nas Variedades daqueles organismos. E nunca nos cansávamos de te ver, apesar de já conhecermos de cor o teu repertório, porque tu nos davas a ilusão de que nos ensinavas a fazer os truques – o que nunca acontecia – e porque nos encantava ver a maneira como embarrilavas o público com a tua simplicidade e um humor muito fino, onde não havia espaço para o azedume. Um “ilusionista humorístico”, não um “ilusionista cómico”, como fizeste questão de me emendar, quando te dei a corrigir o texto que sobre os Condorcet escrevi em Os Lysíadas [1]. E tu fazias as coisas de uma forma tão elegante, que apenas uma vez vi um gesto de despeito nas moças que eram desfeiteadas no “truque” da flor; ao invés, terminado o efeito surpresa, também elas recebiam com alegria o seu aplauso, como qualquer partenaire.

Diz a tua biografia que frequentaste «em Coimbra as Faculdades de Medicina, de Farmácia, de Letras e de Ciências e Tecnologia desde 1950 a 1980, tendo completado o Curso Profissional de Farmácia, o Bacharelato e a Licenciatura (antes de Bolonha) em Biologia no ramo científico» [2] e que actuaste «mais de 1000 vezes em perto de 150 estados da Europa, África, América, Ásia e Oceânia» [2]. Mas o que aqui gostaria de destacar é a transversalidade e a consensualidade da tua pessoa dentro da Academia de Coimbra. Entre outras coisas que nem vou referir, actuaste com o Orfeon Misto (mais tarde, Coro Misto), o Orfeon, a Tuna, os Antigos Orfeonistas e os Antigos Tunos – sempre pro bono –, e foste até hoje o único sócio da Académica a quem foi dado o emblema de platina (75 anos de filiação ininterrupta)!

Mas tu, Jorge, tu tiveste a quem sair! Antes de ti existiu teu pai, Júlio, cuja história me apetece relembrar.

Júlio Condorcet, médico radiologista nascido em 1903, que cursou em Coimbra nas décadas de 20 e 30 do século passado, era uma pessoa extremamente criativa e divertida cujas façanhas e partidas nos são contadas em vários livros de memórias, quer de antigos colegas de curso, quer de outros compagnhons de route dos tempos em que, continuando a viver em Coimbra, se cruzou com muitas outras gerações de académicos nas quais fez amigos. Para se ter uma ideia do seu espírito irrequieto, deixo-vos aqui o que sobre ele escreveu Camilo de Araújo Correia [3]:

Condorcet foi um aluno de medicina com tanto de estudioso como de pândego. Não sei se por necessidade, se para arranjar mais uns cobres para a estroinice, foi também sebenteiro. Noites e noites a passar à máquina os apontamentos colhidos nas aulas, ditados por um condiscípulo, seu colaborador na preparação das sebentas.

Certa noite, a certa altura, saiu esta frase dos apontamentos:

– …”diz a mitologia que foram uns corvos que tiraram aos deuses o poder de curar e o deram aos homens”…

– Alto aí! – cortou o Condorcet.

– Que é?!

– Como se chamam esses corvos?

– Sei lá! Aqui não está nome nenhum…

– Mas devia estar! Uns corvos dessa importância não podem deixar de ter nome, caramba!... Ora deixa cá ver… deixa cá ver… Que dizes a “Giribites”? [4]

– Põe lá o nome que quiseres mas olha que pode dar mau resultado! – cortou o companheiro, morto por andar para a frente com os apontamentos.

Não deu mau resultado. O que deu foi um gozo medonho nos exames de “História da Medicina” desse ano.

Na primeira referência de um examinando aos “corvos Giribites” o lente deu um salto na cadeira e perguntou fora de si:

– Corvos quê?!!

– Giribites… – respondeu, a medo, o aluno?

– Giribites?!?!... Onde é que o senhor aprendeu isso?

Como, nesse tempo, os lentes não podiam ouvir falar em “sebentas”, o rapaz foi-se defendendo com a mentirazinha do costume.

– Foi num livro que me emprestaram… já bastante antigo…

– Hum… bem… bem…

Assim desarmado, o mestre continuou o exame sem mais incidentes. Incidentes houve, depois, com os alunos que não sabiam dizer o nome dos corvos!!!

– … foram uns corvos da mitologia… Ia dizendo o aluno.

– Como se chamavam esses corvos? Perguntava o mestre, atento à lengalenga.

– …… – Emudeciam os ignorantes.

– Giribites, senhor!... Giribites!... Vocês não estudam nada!... É tudo pela rama… tudo pela rama!...»

Júlio Condorcet, que era um animador de serões nato, quer nas tertúlias académicas quer fora delas, desde cedo se iniciou na arte do ilusionismo, adoptando como nome artístico Conde d’Orcet, the King of Embarrilation, inspirando-se para tal no seu próprio nome (Condorcet) e também na controversa figura do artista amador e nobre francês da primeira metade do séc. xix Comte d’Orsay. Aliás, disseste-me tu, Jorge, que em tempos tinhas visto cartões de visita do teu pai relativos à sua actividade artística, mas não te recordavas já se neles estaria Conde d’Orcet ou Conde d’Orsay.

Contrariamente ao que muitos pensam, Condorcet não é nome de família! É nome próprio!... como tu próprio me contaste:

Tudo começou na geração de teu pai, nado em Montemor-o-Velho, cujo nome completo era Júlio Condorcet de Carvalho Pais Mamede. Nessa altura era normal serem os padrinhos a escolher os nomes próprios dos afilhados; e o nome Júlio Condorcet foi “negociado” entre a família (a mãe do menino chamava-se Júlia) e o padrinho, que, vindo da zona de Abrantes, gostava do nome Condorcet, nome popular por ali.

E se o nome era popular por Abrantes, mais popular ficou depois por Coimbra, onde, mesmo na vida profissional, todos tratavam o Dr. Júlio Pais Mamede por Dr. Condorcet.

O Dr. Condorcet logo que teve um filho varão, ou seja, logo que tu nasceste, resolveu dar continuidade à dinastia com ele começada e chamou-te Jorge Condorcet (dos Reis Pais Mamede). E a partir daí foi-se consolidando a tradição de colocar o nome Condorcet como segundo nome próprio dos primogénitos varões da família Pais Mamede, que passou a ser conhecida por muitos como “Família Condorcet”.

Conheci a Família Condorcet na Praia de Mira das longínquas décadas de 40 e 50, quando as famílias de banhistas, que todas se conheciam, criavam as suas próprias diversões. O Dr. Condorcet, teu pai, estava ali como peixe na água, com a sua criatividade e irreverência, ajudado por meios que mais ninguém tinha na altura – gravador de fio, máquinas de filmar e projectar. De tarde reunia-se com o meu pai e mais dois comparsas e gravavam um “Jornal Sonoro” que via «a luz do dia todas as noites às 22 horas!» [5] a partir da varanda do café mais concorrido da Praia.  

Por essa altura tinhas mais dez anos do que eu, um puto de calções, pelo que pouco nos falávamos. Na década de 60, porém, fizemos uma boa amizade durante as digressões do Coro Misto e do Orfeon; a tua jovialidade quebrava barreiras! Depois disso estivemos meio século sem nos vermos, apenas tendo trocado alguns telefonemas. Finalmente, demos de caras um com outro no Palácio de S. Marcos, aquando das comemorações do 730.º aniversário da UC. Agora já éramos da mesma idade…

Foi a 1 de Março de 2020, precisamente um ano antes de nos deixares. A foto diz tudo sobre a alegria do reencontro! Não mais esquecerei este teu sorriso bom, Jorge.

Até sempre!

Zé Veloso

06/03/2021

[1]  VELOSO, Zé. Os Lysíadas. Vol. I, De Coimbra ao Porto. 1.ª Edição, MinervaCoimbra, Coimbra, Fevereiro 2020.

[2]  «Jorge Condorcet», in Antigos Tunos da Universidade de Coimbra, https://www.uc.pt/aatuc/Colaboracoes/Condorcet.

[3]  CORREIA, Camilo de Araújo. Coimbra Minha. Almedina, Coimbra, 1989.

[4]  Fernando Rolin disse-me um dia que o nome dos corvos seria “Giribitsman” e não “Giribites”.

[5]  VELOSO, Maria Vitória Pinheiro das Neves Veloso de Carvalho Serra; colab. VELOSO, José Luís M. P. À Mesa Éramos Dez. Edição da autora, 2019.


domingo, 22 de novembro de 2020

100 ANOS DA TOMADA DA BASTILHA!

Há dez anos atrás escrevi aqui um post sobre a Tomada da Bastilha, com aquilo que então sabia sobre o assunto.
Agora, que se passam 100 anos sobre aquele memorável evento, achei interessante ir procurar mais fundo, para melhor perceber o que aconteceu e porque aconteceu, procurando contribuir para o esclarecimento da verdade histórica, já que têm sido publicadas versões (e opiniões) nem sempre concordantes entre si sobre os referidos factos, seus antecedentes e sua importância.
Para tanto, consultei e confrontei tudo o que consegui encontrar, desde depoimentos de conjurados e de jornais da época até livros e artigos de revistas que foram publicados a partir dos anos 40.
Essa pesquisa está na base do artigo que poderão ler nas págs. 7 a 16 do n.º 55 da revista Capa e Batina (número especial que a AAECL - Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em Lisboa acaba de editar para assinalar o I Centenário da Tomada da Bastilha), onde encontrarão outros depoimentos a propósito desta data.
Para aceder ao PDF CARREGAR AQUI.
Nota: Para uma visão geral clicar nas setas < >; para ler clicar na nuvem.
Se tiver dificuldade em trabalhar com o link acima, abra o PDF AQUI.

Zé Veloso

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE II)

À procura do rasto das cartolas

Quando entramos numa biblioteca à procura de qualquer coisa cuja existência desconhecemos, nem sempre encontramos o que lá nos levou, mas nunca saímos de mãos vazias. Foi o que me aconteceu quando fui em busca de notícias sobre o desfile dos finalistas de Medicina (armados de bengalas e chapéus de coco) no cortejo da Queima das Fitas de 27 de Maio de 1932.
Tinha a convicção de que os jornais de Coimbra teriam noticiado o desfile com a mesma ênfase com que tinham tratado na véspera a Venda da Pasta, evento que também naquele ano se estreara, exactamente pela mão do mesmo curso e por iniciativa do mesmo estudante – Henrique Pereira da Mota, o célebre Pantaleão. Mas estava enganado. Nem uma linha!
Resolvi, então, andar para trás. Percorri, palmo a palmo, as notícias da Queima no Diário de Coimbra, Gazeta de Coimbra e O Despertar entre 1932 e 1943 (12 anos!) e nova surpresa: toda a atenção dos repórteres vai para os novos fitados, para a descrição dos carros, para a atribuição dos prémios aos melhores carros, para o júri e seu palanque, para a alegria esfusiante da estudantada e suas famílias, para os forasteiros – “Japão”! –, para as “toilettes” das senhoras, para os gaiteiros e as bandas, para as janelas engalanadas com colchas, para os brindes com espumante, até para a condenação dos excessos,… mas cartolados no cortejo… nem vê-los! Afinal, a festa não era deles, a festa era dos quartanistas.
Minto! Há uma excepção a confirmar a regra, uma nota no final da notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1941, pela qual ficamos a saber que, para além dos chapéus altos, a tradição também contemplava chapéus de palha.
E ao percorrer O Ponney o panorama é idêntico, já que encontrei vestígios das cartolas unicamente no n.º 125 (27/5/1936), onde, no CONVITE para o FUNERAL do jornal (que prematura e enganosamente se anunciava para o dia seguinte), se estabelece um conjunto de regras em que, logo à cabeça, aparece:

Tradições que não terão chegado sê-lo ou não chegaram aos nossos dias

Mas a leitura dos jornais permite-nos descortinar outros costumes relacionados com a despedida dos velhos quintanistas que não chegaram até aos dias de hoje. O mais antigo que apanhei refere-se a um “Cortejo dos Quintanistas” de que fala O Ponnney de 21/4/1934, numa entrevista que faz ao Presidente da Comissão Central da Queima das Fitas. Tal cortejo teria lugar no “Dia dos Quintanistas”, o que me leva a supor que, por esta altura, a integração dos velhos quintanistas no cortejo da Queima não estaria ainda estabilizada.
Por outro lado, como se depreende dos recortes abaixo, no início da década de 40 do século passado existia a figura do "padrinho", figura que já não chegou à Coimbra dos anos 60 do meu tempo.
Extractos de notícia da Gazeta de Coimbra de 28/5/1940







Extracto de notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1942

Extracto de notícia do Diário de Coimbra de 28/5/1943









Notas finais

Se é verdade que a inexistência de notícias sobre os cartolados em 1932 e nos anos que mais de perto se lhe seguiram poderá ser atribuída ao facto de que o centro da festa estava nos fitados, também é de admitir que a nova moda tenha levado o seu tempo a pegar e a ter alguma visibilidade.
Nos recortes do Diário de Coimbra de 1942 e 1943 acima está bem evidente um outro ícon associado ao finalista, que me parece ter vindo a ser sistematicamente esquecido. Refiro-me ao charuto, que tendo aparecido em 1932 conjuntamente com a bengala e o chapéu de coco, ainda nos anos 60 fazia parte dos adereços do cartolado masculino.
A estes dois posts seguir-se-á um terceiro, dedicado à Primeira Reunião do Curso dos Cocos, que encerrará a trilogia de posts de aprofundamento da origem das cartolas e bengalas na Queima.
Zé Veloso

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE I)



Há muito que ando para escrever sobre a origem das cartolas e das bengalas na Queima das Fitas, mas o tempo não tem dado para tudo. Agora, porém, passado que foi o pré-lançamento do primeiro volume d’Os Lysíadas [1], no VI Milenário da Real República dos LyS.O.S., é altura de voltar a animar o Penedo d@ Saudade e o tema parece-me interessante para a rentrée.
Para os estudiosos das tradições académicas é natural que este preâmbulo faça levantar o sobrolho: – Mas a origem das cartolas e das bengalas não está já devidamente estabelecida? Retomando uma frase que ficou célebre nos anos 70, talvez vos possa dizer: – Olhe que não, olhe que não!...
Vamos aos factos!

O que até há pouco se sabia

Do que até há pouco tinha vindo ao conhecimento do grande público [2], as cartolas e as bengalas teriam aparecido na Queima pela primeira vez em 1932 – não no cortejo, mas cerca de uma semana depois dele –, numa reunião de curso dos finalistas de Medicina desse ano, curso a que pertencia o Dr. Henrique Pereira da Mota, que ficou conhecido pela alcunha de Pantaleão.
Sobre o que em concreto se terá passado, vejamos o que escreveu em 1985 António José Soares [3] – que julgo ter sido o primeiro a colocar em livro o que os jornais noticiaram à época –, sendo esta a versão dos factos que tem vindo a ser sucessivamente repetida, ainda que nem sempre havendo o cuidado de indicar a fonte:
Poucos dias depois de largarem as suas fitas amarelas, os quintanistas de Medicina tiveram a sua primeira reunião de curso…
Apresentaram-se de chapéu de côco, ou de chapéu alto, de bengala e fumando charuto…
[…]
Descerraram uma lápide no Choupal (…de papelão, é certo), confraternizaram num lauto banquete, e tiraram uma fotografia nas escadas da capela da Universidade, envergando trajes respeitáveis, com chapéu alto, coco, chapéus de revirão, bengalas e outros acessórios de vestuário, a lembrar individualidades prestigiadas e respeitáveis que se tivessem formado ainda no séc. XIX.

O que há de novo

Acontece, porém, que enquanto esgravatava à procura de informação para escrever Os Lysíadas, tive acesso a um pequeno livro de memórias [4] escrito por Maria José de Figueiredo Carmona da Mota, então viúva do Pantaleão, onde a autora dá o seu testemunho sobre uma série de episódios da vida de seu falecido marido. E logo no primeiro testemunho, que a seguir reproduzo na íntegra, se afirma que as cartolas (aliás, os cocos) desfilaram mesmo no cortejo de 1932.
– TESTEMUNHO 1 – A Queima das Fitas aproximava-se. Os Grelados trabalhavam activamente ultimando a ornamentação dos carros alegóricos, organizando os festejos, angariando donativos. Deslocavam-se à Figueira da Foz por causa da garraiada, enfeitavam o salão do Baile de Gala, contratavam artistas para abrilhantar, no Parque, as noites das várias Faculdades.
Por toda a parte havia agitação, alegria; todas as conversas da malta acabavam no assunto do dia: a Queima.
Tudo isto causava uma sensação estranha misto de saudade e inveja nos finalistas da Academia.
Sentiam-se ainda estudantes. Ostentavam com orgulho as suas largas fitas mas sofriam com a marginalização a que eram votados. Os reis da festa eram os outros, a quem talvez, em tempos, tivessem feito sentir os rigores da Praxe e que agora se erguiam vitoriosos conquistando os loiros, pondo-os a eles na “prateleira”.
Mas alguns não se conformavam, eram ainda estudantes, estes dias também lhes pertenciam. Não tinham ainda abdicado. A capa e batina continuava a cobri-los e faziam parte integrante da velha Briosa.
Era preciso prová-lo e não se esconderem na sombra.
Então o Pantaleão lançou a ideia apoiada por unanimidade e assim um numeroso grupo de estudantes finalistas primorosamente bem postos com fraques e chapéus de côco ou sobrecasacas e cartolas, de bengala e charuto – símbolo da prosperidade que os esperava no futuro – fechava o cortejo da Queima das Fitas.
Grito de saudade por deixarem Coimbra e a praxe! – Brado de esperança pelo futuro.
Tratando-se de uma edição familiar de distribuição muito reduzida, a preciosa informação não circulou. Mas a sua lógica é cristalina!
Por um lado, dá-nos a conhecer a motivação para o acto – o despeito dos finalistas por não poderem participar na festa.
Por outro, o precedente de ter havido cocos e cartolas no próprio cortejo afigura-se mais plausível como detonador da tradição do que a existência dessas mesmas vestimentas numa simples «primeira reunião de curso».

Uma fotografia e várias interrogações

A foto acima, pertencente ao acervo da família do Dr. Henrique Pereira da Mota (Pantaleão), “cheira” inquestionavelmente a Queima das Fitas. Inclino-me para que tenha sido tirada no dia do cortejo de 1932, embora nada o garanta.
Segundo fui informado, à nossa direita, de coco, está o Pantaleão. Também de coco, mas à nossa esquerda, está o seu inseparável companheiro de farras e de República, Castelão de Almeida. Os estudantes do meio não estão identificados.
A fotografia levanta algumas interrogações que importa discutir.
Apesar de vir referido em Testemunhos [4] que os estudantes finalistas desfilaram de fraque ou sobrecasaca, não me repugna que os da foto estejam, ao que me parece, de batina, pois admito que nem todos tenham conseguido mobilizar a tempo tais vestes, sendo obrigados a improvisar a partir do que tinham mais à mão. Ressalvo, no entanto, que só o Pantaleão está identificado como aluno de Medicina.
Já a presença de Castelão de Almeida é intrigante, uma vez que era aluno de Direito e nem sequer tinha ainda posto fitas, não fazendo sentido que desfilasse no cortejo. Mas tal poderá ser explicado se a foto corresponder a um momento de confraternização entre amigos, antes ou depois do cortejo, porventura gente da Real República Ribatejana (como era o caso de Castelão e Pantaleão).
Igualmente intrigante é a espessa cobertura que os dois estudantes de coco na cabeça me parece trazerem aos ombros. Será a capa dobrada?
Outra questão para a qual peço ajuda: que prédio(s) aparece(m) ao fundo, na fotografia? Debalde tentei identificá-los em fotos da Velha Alta, bem como no trajecto entre a Alta e a Portagem. Se a foto foi tirada na zona da R.R.R., diz Lamy [5] que nessa data a República se encontrava na Rua dos Militares.

Uma frase intrigante

É curioso notar que a forma como está escrito o penúltimo parágrafo do TESTEMUNHO 1 acima – «um numeroso grupo de estudantes finalistas […] fechava o cortejo» – nem nos diz se todos os finalistas de Medicina aderiram à façanha, nem elimina a hipótese de estudantes de outros cursos terem aderido à ideia do Pantaleão.
Foi à procura de respostas para esta e outras questões que fiz uma busca exaustiva nos jornais que por aqueles dias se publicavam em Coimbra. Mas disso vos darei conta no próximo post  REVISITANDO A ORIGEM DAS CARTOLAS E BENGALAS NA QUEIMA (PARTE II).
Entretanto, fico a aguardar os vossos comentários e qualquer ajuda que possam dar-me.
Zé Veloso


Foto inicial: Cartolas deixadas no corredor de entrada da Real República dos LyS.O.S. (Porto) por antigos repúblicos (foto Zé Veloso)
Última foto: descrita no texto (foto do acervo da família de Henrique Pereira da Mota – Pantaleão)
[1]   VELOSO, Zé. Os Lysíadas. Vol. I, De Coimbra ao Porto. Edição Especial Comemorativa do VI Milenário da Real República dos LyS.O.S., MinervaCoimbra, Coimbra, Novembro 2019.
[2]   Ver um apanhado em «Notas à Margem da Cartola, Bengala, Laço e Roseta dos Finalistas Universitários», in Notas & Melodias, http://notasemelodias.blogspot.com/2014/04/notas-origem-da-cartola-bengala-e.html.
[3]   SOARES, António José. Saudades de Coimbra. 1917-1933. Almedina, 1985.
[4]   CARMONA DA MOTA, Maria José de Figueiredo. Testemunhos. Edição do autor, 2.ª ed. rev. e aum. Coimbra, 1997.
[5]   LAMY, Alberto Sousa. A Academia de Coimbra. 1537–1990. Rei dos Livros, Lisboa, 1990.


sexta-feira, 14 de julho de 2017

DO TEATRO ACADÉMICO DO SÉC. XIX AO TEATRO ACADÉMICO DE GIL VICENTE


Nos tempos em que andei em Coimbra– terminei os Preparatórios de Engenharia em 1966 – nunca prestei grande atenção ao edifício da Biblioteca Geral da Universidade. É desculpável. Tinha as aulas espalhadas pelos Gerais, pelas Físicas e pelas Químicas; e, na correria entre salas, quando atravessava o Pátio das Mamudas virava naturalmente as costas à austera Biblioteca, enquanto ia lavando os olhos na paisagem ondulante das carinhas larocas e tímidas mini-saias que desciam os degraus da Faculdade de Letras.

Nessa altura, a Biblioteca Geral parecia-me ser, à semelhança das já terminadas Faculdades de Letras e de Medicina, um edifício construído de raiz, em cima das demolições dos anos 40... Puro engano! Inaugurada em 1956, ela fora construída a partir da destruição parcial de uma Faculdade de Letras anterior, que não chegou a durar duas décadas, da qual se aproveitaram os alicerces e alguma parte do miolo, mas cujas fachadas foram totalmente remodeladas.

Mas que defeito teria essa antiga Faculdade de Letras – um interessante projecto do arq.º Silva Pinto – para ser assim desaproveitada? Independentemente do facto de Cottinelli Telmo, o Papa da remodelação da Alta, achar que faltava dignidade ao edifício (!?), havia quem lhe apontasse o pecado de possuir um grande vão interior, que serviria bem à sala de leitura de uma (futura) biblioteca, mas que tinha pouco aproveitamento numa Faculdade de Letras…

E tudo isto porque esta antiga Faculdade de Letras também não fora um edifício projectado de raiz, mas sim a adaptação do projecto de um teatro académico, cuja construção, nunca concluída, começara na primeira década do séc. xx, e da qual se tinham aproveitado… os alicerces; de tal forma que o enorme vão onde hoje está instalada a sala de leitura da Biblioteca Geral correspondia, no projecto do dito teatro, ao espaço reservado à caixa do palco, plateia, camarotes e galerias!

E se recuarmos no tempo até ao séc. xix, o que vamos encontrar naquele local é o célebre Teatro Académico que nos é descrito por Trindade Coelho no In Illo Tempore, o qual, ao ser demolido em 1888, deixou a academia sem um dos polos aglutinadores da vida cultural universitária e sem o edifício que, durante cinquenta anos, foi sede da Associação Académica e dos organismos que a precederam.

As voltas que o mundo dá! Ou melhor, as voltas que este espaço deu! Mas comecemos a história pelo princípio:

No quarteirão onde hoje se encontra a Biblioteca Geral, mandou D. João III edificar, em 1549, o Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, destinado a alojar clérigos indigentes que viessem estudar para a Universidade. Em 1838, já depois do decreto de extinção das ordens religiosas, o imóvel é entregue à recém-criada Nova Academia Dramática que, depois de sucessivas transformações, haveria de dar lugar à Associação Académica de Coimbra. Fazem-se obras no claustro do edifício para aí alojar o Teatro Académico, que é inaugurado em 1839. Ao longo dos anos que se seguiram, o Colégio Real foi partilhado com outros organismos, entre eles o Instituto de Coimbra (depreciativamente tratado por Clube dos Lentes), o qual surgiu como dissidente da Academia Dramática de Coimbra, entidade que, entretanto, tinha sucedido à Nova Academia Dramática.

Mas em 1888, na sequência de um incêndio de consequências terríveis no Teatro Baquet do Porto, onde terá morrido mais de uma centena de pessoas, o Teatro Académico foi alvo de uma auditoria que concluiu por insuficientes condições de segurança e determinou a imediata demolição de todo o imóvel. É certo que o edifício estava degradado, mas houve quem visse na rapidez desta decisão uma resposta oportunista à disseminação das ideias republicanas que grassavam na academia, da qual o Teatro Académico era ponto de encontro e uma importante fonte de receita. E lembro que, pouco tempo antes, a 3/11/1887, a Academia Dramática de Coimbra se transformara na Associação Académica, que teve como primeiro presidente António Luís Gomes, um prestigiado estudante republicano.

Abro aqui um parêntesis para salientar a curiosidade de a Associação Académica de Coimbra ter na sua génese uma Academia Dramática e um Teatro Académico!

Demolido o teatro e sem casa onde morar, a Associação foi atirada para o Colégio da Trindade em 1890 e ocupou posteriormente prédios acanhados na Rua Larga e na Rua do Cosme, enquanto se aguardava que uma nova sede e um novo teatro fossem construídos no local onde tinham existido as anteriores instalações; porém, vinte anos depois, as obras ainda se arrastavam, entre indefinições do projecto, e pouco subiam além das fundações. Até que, em 1913, o Governo decide atribuir o edifício em construção à recém-criada (1911) Faculdade de Letras e despachar a Associação Académica para o Colégio de S. Paulo Eremita na Rua Larga, edifício que tinha sido o último colégio a ser fundado em Coimbra, já no tempo de D. João V.


O edifício era bom, mas o presente vinha envenenado, pois que a Associação Académica teria de se apertar no r/c, enquanto no 1.º andar e nas águas furtadas viveria o Instituto de Coimbra – o Clube dos Lentes –, com o qual as coisas não tinham corrido bem no Colégio Real de S. Paulo Apóstolo. E embora houvesse a promessa de que o Instituto sairia para outro lado a breve trecho, a verdade é que, passados sete anos, estes inimigos de estimação ainda ali se mantinham.

E foi por isso que, em 25 de Novembro de 1920, os do r/c perderam a paciência e decidiram fazer o despejo dos que viviam por cima, às 6 e 45 da matina, inda os galos estavam a esfregar os olhos. Chamaram ao golpe A Tomada da Bastilha. E por ali se quedaram até que o camartelo investiu uma vez mais contra a sua sede, aquando da remodelação da Cidade Universitária

Caída a Bastilha, a AAC transferiu-se em 1949 para o Palácio dos Grilos (Colégio de Santa Rita, construído pelos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, a quem o povo chamava Grilos), onde continuava a não haver teatro, mas – ironia do destino! – tinha por vizinhos, uma vez mais… o Instituto de Coimbra / Clube dos Lentes. E chegados a 1954, como a construção de uma nova sede, agora prevista para a Praça da República, continuasse atrasada, um grupo de estudantes voltou a ocupar as instalações do Clube dos Lentes, numa segunda Tomada da Bastilha, simbólica, de apenas uma noite.

Não imaginavam, porém, estes revoltosos, que a desejada saída para uma nova sede viria a ser tão agitada e, até… contrariada pelos próprios estudantes! É que, chegados a Maio de 1962, estando iminente o encerramento da sua sede – na sequência de conflitos que se arrastavam entre a academia e o governo e que culminaram na chamada crise de 62 –, os estudantes decidiram trancar-se dia e noite no Palácio dos Grilos, de onde só viriam a sair com a intervenção da polícia de choque e sob a ameaça de prisão dos elementos da Direcção da AAC.

A crise de 62 e a ocupação do Palácio pela polícia de choque – que resultou no fecho da sede da AAC e obrigou a passar as Assembleias Magnas para o Campo de Santa Cruz – ditaram, para além da punição de muitos estudantes, o luto académico e, com ele, o cancelamento dos festejos da Queima e da Tomada da Bastilha de 62, e das latadas do início do ano de 62/63.

Entretanto, uma nova sede estava já construída e pronta a funcionar junto à Praça da República, mas a academia recusava-se a ocupá-la sem garantias de que viesse a ser por si gerida. Só viria a ser aberta em Outubro de 1963, um mês antes de voltar a haver eleições para a AAC. Durante vários anos ela foi a minha segunda casa: cantina, sala de ensaios, local de convívio e de estudo, que alternava com os muitos cafés da cidade...

Do complexo da nova sede fazia parte o tão desejado teatro, que também nasceria envolto em polémica, e não apenas por causa do seu modelo de gestão... ou autogestão. A academia sonhava com um teatro só para si e queria que ele se chamasse Teatro Académico. Porém por sugestão de Paulo Quintela (TEUC), a sala viria a denominar-se Teatro de Gil Vicente. E tudo isto alimentava uma contestação surda, que rebentou em pancadaria entre estudantes e polícia, aquando da sua inauguração prematura em Setembro de 1961 para acolher o festival de teatro VIII Delfíada, altura em que também abriram de forma experimental a cantina e as salas de convívio da Associação.

Inaugurado o teatro e terminada esta espécie de ante-estreia, a sala esteve fechada durante quatro longos anos, até ser aberta em Julho de 1965, 77 anos e 5 meses depois de o último espectáculo se ter realizado no velhinho Teatro Académico do séc. xix. E foi já depois do 25 de Abril de 1974, em data que não consegui ainda apurar (– Quem sabe? – Quem ajuda?) que o teatro passou a chamar-se Teatro Académico de Gil Vicente. Custou mas foi!

Apesar de o seu significado ser profundo, o facto de o teatro ter tido dois nomes é uma singularidade que passou despercebida à generalidade da Academia e da cidade. Mas que não passará despercebida a quem se der ao trabalho de comparar atentamente as duas fotos logo acima. 

POSFÁCIO: Felizmente para a academia, enquanto todos estes factos se passavam, existia ao fundo da Avenida Sá da Bandeira uma sala de espectáculos alheia que, ano após ano, ia acolhendo as récitas de despedida, os saraus da Queima, os filmes em noite de latada, os cineclubes e o mais que houvesse, como se de um vero teatro académico se tratasse – o Teatro Avenida! Naquelas noites de glória, ele foi o Teatro Académico de dezenas de gerações de estudantes, entre as quais a minha se inclui!

Inaugurado em 20 de Janeiro de 1893 com o nome de Teatro Circo do Príncipe Real D. Luís Filipe, também ele não viria a resistir ao camartelo, já nos finais da década de 1980. Teve, porém, um final menos digno do que o do velho Teatro Académico, sobre cujas ossadas existe hoje uma biblioteca para matar a sede de saber. Ao Teatro Avenida acharam mais próprio botar-lhe em cima um centro comercial para matar a fome do consumo! Mas a sua alma continuará viva enquanto ele viver na recordação dos que nele e com ele vibraram.

Tendo eu começado esta crónica pelo que existe hoje no local onde outrora existiu o primeiro Teatro Académico, faz sentido que a termine referindo o que foi demolido para construir em seu lugar o Teatro Académico de Gil Vicente. E o que foi demolido chamava-se Jardim de Infância D. Maria do Resgate Salazar (nome dado em homenagem à mãe de António de Oliveira Salazar), vulgarmente conhecido por Ninho dos Pequenitos, da obra social do Professor Bissaya Barreto. A demolição do velho Ninho dos Pequenitos determinou a sua passagem para a Quinta da Rainha, abaixo do Liceu D. João III, onde se construíram novas instalações, lado a lado com o Instituto Maternal.

Como dizia o Poeta: «Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades!» 

Zé Veloso

Fotografias: obtidas na internet

Bibliografia:

- A Velha Alta… Desaparecida. Edição da Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, Almedina, 2.ª edição, 1991.

- AGUIAR, Cristóvão de. Com Paulo Quintela à Mesa da Tertúlia. Edição do autor, 2005.

- AGUIAR, Cristóvão de. Nova Relação de Bordo. Cristóvão de Aguiar e Publicações Dom Quixote, 2004.

- «As Novas Instalações da A.A. - Exposição», in Via Latina, n.º 135, 16-12-1961.

- COELHO Trindade. In Illo Tempore. Estudantes, Lentes e Futricas. Livraria Aillaud & C.ª, 1902, https://ia800300.us.archive.org/18/items/inillotemporees00coelgoog/inillotemporees00coelgoog.pdf.

- «Instituto de Coimbra o percurso de uma Academia > Sedes» in História da Ciência na UC, http://www.uc.pt/org/historia_ciencia_na_uc/Textos/instituto/sedes (acedido em 13/10/2016)

- LAMY, Alberto Sousa. A Academia de Coimbra. 1537-1990. Rei dos Livros, 1990.

- NUNES, António M. «O Teatro Avenida», in Guitarra de Coimbra, 5/3/2006, http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2006/03/o-teatro-avenida-vista-geral-da.html (acedido em 28/6/2017).

- NUNES, Avelãs. «A nova sede», in Via Latina, n.º 132-133, 28-11-1961.

- «O primeiro Teatro Académico de Coimbra - o berço da A.A.C.», in Centelha, http://bloguecentelha.blogspot.pt/2007/11/o-primeiro-teatro-acadmico-de-coimbra-o.html (acedido em 10/10/2016).

- «O Teatro Baquet. (Cidade do Porto), in Monumentos Desaparecidos, http://monumentosdesaparecidos.blogspot.pt/2009/10/o-teatro-baquet-cidade-do-porto.html (acedido em 10/10/2016).

- ROSMANINHO, Nuno. O Poder da Arte. O Estado Novo e a Cidade Universitária de Coimbra. 2006, Imprensa da Universidade de Coimbra.

- SANTANA, João; MESQUITA, João. Académica. História do Futebol. Almedina, 2008.

- SOARES, António José. Saudades de Coimbra, 3 volumes (1901 a 1949). Almedina, 1985.