quarta-feira, 16 de abril de 2014

“CAPAS NEGRAS”. UM RETRATO DESFOCADO DA REALIDADE

“Capas Negras”, uma fita de Armando Miranda, filmada em Coimbra (parte final no Porto) em 1946, foi estreada na cidade do Mondego em 19/05/1947 sob forte pateada dos estudantes. A contestação levou a que ministro da Educação Nacional proibisse a exibição da fita, uma semana depois. O filme, que apesar de mal-amado em Coimbra viria a ser um êxito de bilheteira no país e no estrangeiro, seria passado 33 anos mais tarde no Teatro de Gil Vicente, por alturas da retoma das praxes académicas (1980) e pela mão da própria Direcção da AAC, gesto que, na prática, emprestou um aval de credibilidade a um retrato da academia de Coimbra de 1946/47 em que esta própria não se revira na altura.
A crónica anterior “CAPAS NEGRAS”. AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ! – recorda a cronologia dos acontecimentos. Na crónica de hoje procurarei analisar o grau de adesão do filme à realidade académica coimbrã daquela época e descortinar as razões do descontentamento e burburinho que se levantou.
E importa desde já referir que a acção do filme está bem datada, quer pela celebração dos 40 anos do curso jurídico de 1906 quer pela exibição do cartaz da Queima de 1946. E, assim sendo, não é desculpável a utilização de clichés e realidades que o argumento vai buscar, porventura, a velhos livros de memórias de estudantes mas que, naquela altura, não correspondiam já à realidade.
Quando vemos hoje o filme, descontraidamente sentados no sofá e com o distanciamento de quase 70 anos, não podemos deixar de sorrir com o argumento e exultar, até, como aquele final “hollywoodesco”, delirantemente impossível. E a pergunta surge de imediato – Então onde é que está o mal? Mas, tal como o diabo, o mal está nos detalhes...
     Das minudências que não matam mas amolentam…
Ainda não tinham decorrido 5 minutos e já o argumento registava 2 razoáveis calinadas, ao chamar “vicente” ao toucado da tricana – confundindo o toucado propriamente dito com a fitinha preta que o segurava – e ao dizer que a tricana Joaninha tinha «vivido e amado desde Santa Clara Nova a Santo António dos Olivais». Como escreveu o cronista do “Sempre Fixe”, talvez fosse «para evitar confusões com Santa Clara-a-Velha, que fica p’ró Alentejo» [A], pois que, em Coimbra, existia, apenas,… Santa Clara.
A crítica não deixou passar estes deslizes em claro. E a tricana que constitui a segunda mais importante figura feminina do filme foi apelidada de «tricana do “ancien regime”, amavelmente cedida pelo Rancho de Coimbra» [A] porque os trajes daquele cliché de tricana há muito não eram utilizados, tresandando a folclore. E a mostrar que não dá para inventar quando se faz um filme datado, ainda por cima relativo ao ano anterior à sua estreia, veja-se a crítica que foi feita à reunião dos 40 anos do curso jurídico: «…(o antigo estudante), quando volta, não vai confraternizar com os antigos colegas em tabernas sórdidas» [B]. A 70 anos de distância, ninguém ligaria a este pormenor e até acharia que era muito típico.
Tratando-se, embora, de pequenos descuidos – como trocar o “Portugal dos Pequeninos” pelo “Ninho dos Pequeninos” (existiam os dois mas em locais diferentes), dizer que os professores universitários também envergam capa e batina (envergavam toga e uma batina de modelo diferente) ou referir “vem aí o acto grande», (prova que nos remete para o séc. XIX) – estas incongruências revelaram um guião pouco cuidado, foram alvo de chacota e ajudaram a engrossar o coro de protestos que os verdadeiros erros de palmatória e as «ofensas ao brio e hombridade do estudante coimbrão» [B] haveriam de provocar.
     Dos fados e canções…
Como exemplo de tais erros de palmatória e desrespeito total pelas tradições coimbrãs, a cena da serenata é de arrepiar e não me admiraria se tivesse sido alvo da primeira grande pateada na noite da estreia. Sigamos a cena: dentro da tasca da Ti Zefa, ouvem-se, vindos do exterior, os primeiros acordes do fado de Coimbra “Feiticeira”; Maria de Lisboa (Amália Rodrigues), a criada da tasca, abre a janela e apoia-se no parapeito, a escutar; do arvoredo surge o estudante José Duarte (Alberto Ribeiro), vestido de capa e batina e acompanhando-se a si mesmo à guitarra; terminado o fado, Maria de Lisboa dá-lhe réplica, cantando uma canção de Lisboa que José Duarte vai acompanhando, finda a qual, o estudante entende por bem dar-lhe tréplica, cantando a canção “Coimbra” de Raul Ferrão e José Galhardo, canção que, anos mais tarde, correria mundo como "Avril au Portugal"!
Dando de barato que nos anos 40 as serenatas tinham por alvo apenas as colegas ou as meninas da sociedade coimbrã, sobra ainda um chorrilho de contradições. Desde logo o facto de o cantor se acompanhar a si próprio, recuperando o cliché do Hilário (séc. XIX), quando nos anos 40 a segregação entre cantores e instrumentistas era sagrada, mesmo que o cantor soubesse também tocar guitarra ou viola. Depois, a exposição da mulher à janela, contrária à tradição vigente, que obrigava a uma dissimulação por detrás das cortinas, agradecendo apenas com o abrir e fechar de luzes. Por maioria de razão, o despautério de pôr a contemplada a dar réplica, tomando parte activa na serenata. E, finalmente, o facto nada menor de se simular uma serenata de Coimbra onde apenas existe um fado de Coimbra, num conjunto de três canções! Aliás, a este propósito, o filme é sintomático: apresentando-se como uma fita de homenagem a Coimbra e à sua academia, passa 13 canções em “voz on”, sendo que apenas 2 são de Coimbra! E ainda queriam que a malta não pateasse…
Um parêntesis para dizer que, se Amália Rodrigues tinha defensores e detractores, o mesmo se não passava com Alberto Ribeiro, verdadeiramente detestado entre os estudantes. O seu ar de “dandy” e a sua voz afectada não casavam com o “standard” do estudante coimbrão. E foi tomado de ponta. Por isso ou por ter tido a ousadia de cantar um fado de Coimbra, ou até pelas duas coisas. Mas dizia-se que não o cantava bem, sendo «acusado de não perceber nada do estilo de Coimbra» [C], «apesar de ensaiado directamente pela mão de Ângelo Vieira de Araújo» [C].
Querendo saber mais a respeito da voz de Alberto Ribeiro, pedi a opinião ao Dr. Augusto Camacho, contemporâneo do filme e actual decano dos cantores de fado de Coimbra, o qual fez questão de me dizer que não tinha concordado com a pateada. Na sua opinião, Alberto Ribeiro cantava muito bem mas… «para cantar é preciso haver expressão (sentimento, alma, entrega), interpretação (colocação de voz, volume, técnica de canto) e dicção». E, para ele, Alberto Ribeiro, sendo exímio na interpretação, pecava na expressão. Utilizando um dito lisboeta, eu diria que não é fadista quem quer mas sim quem nasceu fadista. E diria mais: em termos de dicção, com a ressalva de a péssima sonorização do filme me poder ter induzido em erro, pareceu-me ouvir trocas de vv pelos bb na interpretação da “Feiticeira”, o que, a confirmar-se, não teria deixado de ter irritado uma cidade que se gabava de ser onde melhor se falava o português, ou seja, o português sem sotaque algum.
Continuando no tema das canções, também nas fogueiras de São João o guião não escapou à repescagem de tradições do séc. XIX, entretanto caídas em desuso. Isto porque, em 1946, tricanas, estudantes e futricas já não cantavam mais ao desafio. Mas, mesmo querendo repescar uma tal tradição, bom seria que o tivessem feito com uma música popular da terra e não com mais uma modinha a lembrar o Santo António de Lisboa.
Quanto ao segundo fado de Coimbra – a balada “Vou partir”, interpretada por Domingos Marques – não sofreu contestação aparente. Porém, a ideia de colocar os quintanistas em cortejo pelas cercanias da cidade, a cantar a sua balada de despedida, é pura fantasia. Digamos que, neste caso, os guionistas foram precursores de algo que se tornou banal no meio académico pós 1980 – o inventar de tradições.
            Do viver numa República…
Várias vozes se levantaram – inclusive no comunicado da Rás-Teparta, república onde decorreu uma parte das filmagens – dizendo que aquilo não era uma verdadeira república, quer no cenário montado quer na forma de viver. De facto, fica muito a dever à realidade aquela sala que mais parece um albergue espanhol, onde quem quer estudar tem de gramar com os outros em cima (como se o quarto não fosse o local normal de estudo), onde, salvo o caloiro (!?), nunca se despe uma batina, seja para jogar à batota seja para estar ao cavaco (como se alguém andasse dentro de casa "com o seu único e melhor fato"), onde, no meio do barulho, um estudante alerta «Baixinho! Por causa da vizinhança…» (esquecendo que as Repúblicas estavam sempre instaladas em casas sem vizinhos quer por baixo quer por cima, e tal problema não se colocava)!
Quanto ao “prego”, descontando as trapacices do Manecas (Artur Agostinho) de que mais adiante falarei, ele era um recurso tradicional do estudante de Coimbra. Havia, porém, um último recurso que, infelizmente, o guião não se lembrou de incluir – o “andar á lebre”. Foi pena, já que “pregos” há em todo o lado, enquanto “andar à lebre” só em Coimbra o conheci.
            Das tradições académicas e da praxe…
Na cena da trupe, a imobilização do caloiro, de tesoura e varapau (?) em riste, bem à mostra para a câmara, lembra-me aqueles postais ilustrados antigos. Mas nem a tesoura se exibia nessa fase anterior ao rapanço propriamente dito nem o varapau era usado. Seria uma moca invertida? Mas o que verdadeiramente pôs o filme a ridículo, enquanto suposto retrato das praxes, foi o veterano que, candidamente, «pede protecção para o caloiro»! Em Coimbra, a protecção nunca se pediu! Quem tinha direito a proteger, fosse veterano, quintanista, uma simples senhora ou uma irmã, dizia apenas “Está protegido!”. Se é um direito, não se pede. Exerce-se!
Ao contrário da cena da trupe, a do rasganço está bastante natural, a contrastar com a artificialidade de uma boa parte das cenas! Só lhe aponto um senão: é sabido que naquela época todos os formados eram de imediato rasgados, fosse qual fosse a nota obtida; porém, a sequência da cena (onde são anunciadas as notas de 3 alunos mas apenas José Duarte é rasgado) permite a conclusão apressada de que o rasganço acontece como sinal de júbilo pela mais alta classificação obtida (15 valores).
Em termos de tradições a académicas, outra coisa que não caiu bem foi o estender das capas para serem pisadas pelo juiz, já que era uma distinção raríssima, só concedida a figuras de muito elevado prestígio. Admito que os tempos tenham banalizado este procedimento que, quando visionei o filme, nada me espantou, num contexto irreal de um juiz que julga não de acordo com a lei mas de acordo com o seu sentimento coimbrão.
Finalmente, a filmagem do cortejo da Queima de 46, do Largo da Feira ao Largo da Portagem, é um documento cheio de interesse, que me lembra em muita coisa a Queima do meu ano (1966). Destaco alguns pormenores: (i) um grupo – que penso dever ser de quintanistas – que prescinde da cartola, “fraque” e bengala (fantasia criada depois de 1932) e se apresenta de borla e capelo (!); (ii) o elevado número de estudantes de capa e batina que se apresentam de laço (cheira a festa!) e sem colete (cheira a Verão!); (iii) as estudantes fitadas que, nesta altura, iam nos carros com seus vaporosos vestidos. E dá para ver uma parte do Largo da Feira ainda intacta, o Arco da Traição ainda não demolido e a pala de entrada do Teatro Avenida ainda de pé.
            Questões comportamentais e de imagem…
Mas, a avaliar pelos escritos dos jornais, o que mais deixou a academia fula foi aparecerem, como elementos centrais do filme, comportamentos reprováveis em que a generalidade dos estudantes se não revia, afectando a imagem do académico de Coimbra que, graças «à inconsistência criminosa do argumento ( … ) aparece deturpado e amesquinhado» [D].
A gota de água que encheu o copo terá sido a figura do estudante Manecas (Artur Agostinho), o qual – à custa de espoliar as palonças (sic) da cidade, a quem, uma a uma, ia prometendo casamento – era a fonte de sustento da República nos dias de aperto. Tomando a parte pelo todo, o estudante de Coimbra sentia-se, assim, apelidado de “chulo” com todas as letras.
E também de “falhado”! Como escreveu Rui Vieira Miller [B], o filme resultou «(n)uma coisa mais falsa do que Judas que apenas serve para espalhar por essas terras que o estudante de Coimbra passa a vida entre mulheres e vinho, se sustenta com o produto de roubos e com o dinheiro de amantes, para acabar por tirar um 15 na Faculdade de Direito e ter depois o escritório às moscas»
E até o comportamento do juiz foi criticado, por ser indigno de um juiz formado em Coimbra – «… um juiz que abandona a sua integridade de julgador impoluto pela sentimentalidade dum faduncho com laivos de Coimbra e fortes odores de Mouraria, dum faduncho que substitui com vantagem o estafado peru de antanho…» [E]
            Uma academia atraiçoada…
Ao saber que estava sendo rodado um filme de nome “Capas Negras”, criou-se a expectativa de que ele respeitasse e desse o devido relevo às tradições da academia, exaltando os seus valores, que tanto prestígio e tanta saudade tinham trazido a Coimbra ao longo de séculos. E, afinal, o que se via agora? – Uma fita onde os interesses comerciais tinham ditado um argumento que amesquinhava os estudantes e as raparigas da cidade; um argumento cheio de erros, alguns deles grosseiros; e uma injecção de fados e canções de opereta a cheirar a Lisboa, logo ali, na terra onde Hilário, Menano, Bettencourt, Paradela de Oliveira, Goes e muitos mais tinham dado voz ao fado de Coimbra.
A academia fora usada! O seu nome e o peso das suas tradições, bem como o valor iconográfico das suas capas negras, tinham sido apenas um chamariz para que alguém ganhasse dinheiro à sua custa e, ainda por cima, maltratando-a.
«A academia sentiu-se revoltada com justa razão…» [D]. Mas no meio do torvelinho destas emoções, ainda que a generalidade das críticas fossem endereçadas a Armando Miranda e seus colaboradores directos, também a República Rás-Teparta não deixou de ser visada. No mínimo, terão sido ingénuos ao aceitar que uma boa parte das filmagens decorresse dentro da República sem que conhecessem o argumento, confiando apenas em que, supostamente depois das filmagens, Armando Miranda cuidasse «de saber da (sua) opinião sobre a qualidade das cenas a apresentar» [F].Também terão concitado contra si algumas más vontades já que, tanto quanto me foi referido, coube-lhes a missão de escolher os estudantes que entraram como figurantes nas filmagens, havendo quem, gostando de entrar, tivesse ficado de fora.
            Uma academia que não quer ser objecto de feira…
Mas o que os estudantes da Rás-Teparta não saberiam (a República fora fundada apenas em 1942/43 e por estudantes vindos de fora), é que, ao abrirem as portas a Armando Miranda sem consultar o resto da academia, estavam a contrastar em absoluto com o que se passara em 1941 com António Lopes Ribeiro, o qual, querendo fazer um filme sobre os estudantes de Coimbra mas não dispensando a sua colaboração, apresentou e discutiu o argumento com os seus representantes, numa reunião a que assistiu, até, o vice-Reitor Dr. Maximino Correia [G]. Isso mesmo foi lembrado, três dias depois da exibição do “Capas Negras”, em carta publicada no Diário de Coimbra pelo estudante de Medicina João Belarmino Soares da Mota, cujo extracto transcrevo abaixo [H]. A descrição deste episódio mostra bem o denodo com que os estudantes de Coimbra de então defendiam o legado que lhes fora deixado por séculos de história; e ajuda a compreender o calor posto na sua defesa em toda esta saga do “Capas Negras”.  
«Há anos, António Lopes Ribeiro, quis fazer um filme sobre a história da Academia coimbrã. E no Salão Nobre da A. Académica falou do seu projecto aos estudantes.
«Respondeu-lhe, por estes, o então aluno da Faculdade de Medicina, Fernando Namora, chamando-lhe a atenção para certos pontos que o realizador cinematográfico deveria observar ao tratar de tal assunto.
«António Lopes Ribeiro tinha acentuado o condicionalismo a impor ao filme, por motivos de ordem comercial.
«Fernando Namora respondeu que a Academia de Coimbra não desejaria ser tratada como objecto de feira.
«E tudo ficou por aí.»

Zé Veloso
[A]“O filme negro da academia”, rubrica “Arrufadas de Coimbra”, in “Sempre Fixe” de 29/5/1947
[B] Rui Vieira Miller, “O escândalo de Capas Negras”, in “Via Latina” de 10/07/1947
[C] AMNunes, “Coimbra é uma lição” in “Guitarra de Coimbra (Parte I)”, http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2006/08/coimbra-uma-lio-rainha-incontestada-e.html
[D] “Crónica de Cinema. Capas Negras”, in Diário de Coimbra de 21/5/1947
[E] “Carta do Presidente da Direcção da Associação Académica de Coimbra ao Ministro da Educação Nacional, in Via Latina” de 10/6/1947
[F] Mário V. Trêpa, “Crónica dos Descobrimentos da Real República Rás-Teparta”, edição do autor, Santo Tirso, 2004
[G] António José Soares, “Saudade de Coimbra” 1934-1949”, Jul, Ago e Nov 1941 e Mar 1942, Almedina.
Nota: O tema é desenvolvido por AJS sob o item “República dos Pardais”, título previsto para o filme que António Lopes Ribeiro não conseguiria realizar.
[H] Carta de João Belarmino Soares da Mota, aluno da F. de Medicina, in Diário de Coimbra de 22/5/1947

Fotografia do cartaz do filme obtida do blogue "Restos de Colecção"

3 comentários:

  1. António Nunes refere várias vezes que o varapau era muitíssimo utilizado pelos estudantes, muito mais do que a moca, chegando, até, a questionar por que razão a moca ficou com insígnia de praxe em detrimento do varapau (em tudo mais fácil de adquirir e usar prontamente, pois qualquer cabo de vassoura servia, até).

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    1. Obrigado pelo comentário.
      A questão do varapau é interessante mas António Nunes ao referi-la, deverá estar a falar de tempos mais antigos.
      O filme está bem datado: 1946, segundo o cartaz da Queima que aparece logo numa das cenas iniciais. E por essa altura, segundo testemunhos directos que recolhi, o varapau não existia nas trupes. Apenas a moca.

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    2. Entretanto, para tirar isto mais a limpo, falei telefonicamente com dois antigos estudantes de Coimbra daquela época (um privilégio, pois que vão sendo cada vez mais raros). Um deles, trupista ferrenho na segunda metade da década de 50. O outro, frequentou o Liceu D. João III na primeira metade da década de 40, estando já na Universidade à data de rodagem do filme; este não era dado a fazer trupes mas teve de fugir delas e, ao que me contou, chegou a enfiar um murro no olho dum chefe de trupe para se safar com sucesso a um rapanço.
      Ambos ficaram espantadíssimos quando lhes perguntei se, no seu tempo, as trupes usavam varapaus. «Mocas sim! Mas varapaus?» Não só nunca tinham visto como nunca em tal coisa tinham ouvido falar.
      Tais respostas levam-me a admitir que o uso de varapaus pelas trupes será um “costume de antanho”, referente a épocas bem anteriores à dos anos 40 do século XX já que, a não ser assim, alguma memória de tal prática haveria de ter passado para as gerações seguintes.

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