quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O PENEDO NÃO ACABOU!

Caros amigos,
Há quase um ano que o Penedo d@ Saudade não apresenta nenhuma nova crónica, o que pode, até, ter criado a convicção de que o blogue acabou.
Porém, não é esse o caso. O problema é que tenho há vários anos entre mãos a escrita de uma obra dedicada à minha República e decidi que deveria terminá-la até ao final do corrente ano de 2016.
O cumprimento deste objectivo, simultaneamente com outros projectos que tenho entre mãos, obrigou a que o blogue “Penedo d@ Saudade” tivesse de ficar congelado até 2017, ano em que voltará à actividade que teve desde a sua criação em Fevereiro de 2010.
A página “Penedo d@ saudade – TERTÚLIA” no facebook mantém-se activa.

Zé Veloso

quarta-feira, 25 de março de 2015

COIMBRA, P’RA SER COIMBRA…


Coimbra, p’ra ser Coimbra
Três coisas há-de contar
Guitarras, tricanas lindas
Capas negras a adejar.

Esta é a quadra mais cantada e mais conhecida do chamado Vira de Coimbra, uma canção de raiz popular – mais tarde apropriada pelos estudantes – cujas origens são anteriores ao século XVIII [1]. A sua música, para além de ser dançada como vira que é, servia igualmente para cantares ao desafio entre as gentes da cidade, fossem eles estudantes, futricas ou tricanas, como acontecia nas tabernas e bordéis ou por altura das antigas fogueiras. Por tal razão, o Vira de Coimbra é hoje cantado com uma panóplia de quadras soltas diversas, provenientes de várias épocas, por vezes improvisadas no calor do descante e contradizendo-se, até, entre si, como acontece com as que caracterizam de forma tão díspar o “amor do estudante”. Veja-se que, para o futrica intriguista, «dizem que amor de estudante não dura mais que uma hora» enquanto, para a tricana apaixonada, «só o meu é tão velhinho qu’inda se não foi embora».

Mas voltemos à quadra «Coimbra p’ra ser Coimbra…» que evoca uma certa Coimbra Académica de antanho, boémia, apaixonada e vibrante, que se foi perpetuando ao longo de muitas gerações universitárias e que ainda não morreu de todo, seja porque ainda hoje anda pela cidade seja porque continua viva na memória de muitos que por lá andaram no passado.

«Coimbra p’ra ser Coimbra…» tem tudo o que uma quadra precisa para resultar bem:
  • Desde logo e a abrir, um número cabalístico – «três coisas»!
  • A seguir, as «guitarras» – românticas, vibrantes, pungentes, nas mãos jovens e apaixonadas de um estudante – com o único senão de, como regra, os grandes guitarristas de Coimbra não terem sido os estudantes, mas sim, futricas ou antigos estudantes!
  • Depois, as «tricanas lindas», essa estirpe de mulher onde nunca foi descrito um só exemplar que não fosse belo!
  • E, por fim, as «capas negras», essas capas da cor da morte e da tristeza que, paradoxalmente, quando postas «a adejar», irradiam a alegria da juventude, da nossa Coimbra académica de sempre!

Porém, estas «três coisas» – guitarras, tricanas lindas e capas negras – nem sempre coexistiram ao longo dos 530 anos de permanência da universidade em Coimbra e não terão convivido em conjunto por mais de algumas décadas, não chegando, porventura, a meio século, como veremos adiante.

Das guitarras…

Comecemos pelas guitarras. É sabido que desde muito cedo os estudantes cantaram pelas ruas de Coimbra, sozinhos ou acompanhando os seus habitantes. Eram cantos de saudade e de amor, bem como cantigas populares. É também sabido que, nesses cantares, normalmente nocturnos, os estudantes se faziam acompanhar por instrumentos vários, entre os quais cordofones, mas não necessariamente por guitarras, já que estas só viriam a aparecer em Coimbra pelo século XIX, seja na sequência da entrada em Portugal da guitarra inglesa, como têm afirmado vários autores, seja através da evolução da cítara portuguesa, a guitarra-cítara, como mais recentemente se tem vindo a admitir [2]. Mas tanto no séc. XIX como no início do séc. XX, «a guitarra portuguesa não era o instrumento predilecto, entre a comunidade estudantil ou popular. Na verdade, os instrumentos de corda mais tocados seriam a viola toeira, o violão, o cavaquinho, o bandolim entre outros» [2]. E foi o malogrado Augusto Hilário, que estudou em Coimbra entre 1889 e 1896, vindo a falecer de tuberculose antes ainda de terminar o curso de Medicina, a primeira grande referência de estudante de Coimbra cantor e tocador de guitarra. Ainda que celebrizado pela sua voz, o seu nome ficaria para sempre ligado ao seu instrumento de eleição: «Eu quero que o meu caixão tenha uma forma bizarra… a forma de um coração, a forma de uma guitarra!...»

Para o comum dos mortais, a guitarra que por aquele tempo se tocava em Coimbra, bem como no resto do país, pouco diferiria das de hoje. Mas, para os mais conhecedores, as diferenças existem e são bem grandes. Foi nas décadas de 20 e 30 do século passado que Artur Paredes, um guitarrista exímio, futrica como o eram os melhores guitarristas de Coimbra daquela época, revolucionou o instrumento, alterando-lhe significativamente a fisionomia (e, também, a afinação e a forma de o tocar). Primeiro, com a ajuda da pequena oficina de Raul Simões, guitarreiro de Coimbra; depois, em parceria com os guitarreiros de Lisboa Kim Grácio e João Pedro Grácio, Artur Paredes faria surgir, por volta de 1940, um modelo de guitarra com uma nova sonoridade, que, aos poucos, ganharia o seu espaço e que é hoje adoptada pela quase totalidade dos grandes guitarristas portugueses, independentemente da sua proveniência. Na prática, a guitarra de Coimbra tornou-se a guitarra portuguesa. E o ensino da guitarra em Coimbra que, no meu tempo de estudante, estava a cargo do barbeiro da AAC, tem hoje escolas e professores com fartura… e até as estudantes já aprendem a tocar tal instrumento.

Das tricanas lindas….

Quando o valor da nova guitarra de Artur Paredes foi finalmente reconhecido em Coimbra, na sequência da sua aparição numa serenata na Sé Velha em 1945 (embora futrica, Paredes tocava igualmente no meio académico sendo aceite como um dos seus), já as tricanas tinham deixado de ocupar, na vida dos estudantes, o espaço que tão bem tinham sabido reservar para si durante quatro séculos.

Mas quem eram elas, afinal? De uma forma geral, eram as mulheres da classe baixa da terra: mulheres do campo, lavadeiras, engomadeiras, criadas de servir. Não só em Coimbra se chamavam assim. Também em Ílhavo, Aveiro ou Ovar havia tricanas. Curiosamente, tricana era também o nome dado à saia que usavam e ao pano de que era feita essa saia.

Entre as tricanas havia muita rapariga nova e bonita. À falta de raparigas, numa terra onde havia uma população flutuante de milhares de rapazes solteiros que estavam fora de casa meses e meses a fio, fácil é de perceber que nenhuma delas chegasse a ser feia. O cortejar dos rapazes era constante, «namoriscando as moças com parolas latinas» [3]; moças simples, à procura de sonhos e melhores condições. Com o tempo, as tricanas foram realçando os seus encantos naturais; de geração em geração, o contacto com gente mais culta permitiu-lhes algum refinamento e sofisticação. Algumas tornaram-se verdadeiras cortesãs. Outras acreditaram, simplesmente, que um amor verdadeiro e um futuro melhor as esperaria no final de anos de promessas doces e carícias ardentes. Terminados os cursos, ficavam por vezes os “rebentos”, cuja paternidade faziam questão de não esconder. Li algures que futrica – um nome que fede à distância – seria uma corruptela de fitrica, sendo fitrica uma abreviatura de filho de tricana. E mais não digo. Quereis saber o porquê dessa animosidade ancestral entre estudantes e futricas? Cherchez la femme!

Mas, um belo dia, algo começa a mudar: numa universidade onde nunca se formara uma só mulher, forma-se a primeira nos finais do séc. XIX; e se até 1912 o número máximo de alunas por ano era apenas de oito, a partir daí não pára de aumentar; e, no início da década de 40, rondava já os 20%. A pouco e pouco, as tricanas foram deixando de ser tão lindas… e, com o rodar do tempo, foram perdendo definitivamente a importância que tinham no coração dos estudantes, até se tornarem figuras de folclore do Rancho de Coimbra. Como dizia o poeta, «todo o mundo é composto de mudança».

Das capas negras a adejar…

Quando D. João III transferiu definitivamente a universidade para Coimbra, já as capas negras faziam parte da indumentária dos escolares, embora o traje fosse diferente do de hoje. As capas negras vêm, por isso mesmo, de tão longe quanto as tricanas mas, ao contrário destas últimas, conseguiram renascer das cinzas das duas vezes em que estiveram moribundas no passado século XX.

A última vez em que tal aconteceu já pouco interessa para estas contas, pois que também as tricanas já por cá não andavam. Foi ao longo de toda a década de 70, durante o luto que se seguiu à crise académica de 1969. Com luto não há praxe nem festas e sem elas ninguém gasta dinheiro na compra dum traje que tem dificuldade em competir com a moda dos blue jeans e que, ainda por cima, foi conotado com a reacção por obra e graça dos movimentos revolucionários. Nesta década, a capa e batina haveria de sumir-se de todo, o que levou a Câmara Municipal, preocupada com a preservação dos ex-libris da cidade, a isentar de bilhetes nos eléctricos os estudantes que se apresentassem com ela vestida!

O outro período de rejeição das capas negras foi do final do séc. XIX até ao início dos anos 20 do século passado, quando a capa e batina, para além de ter sido muito contestada, foi igualmente aviltada, chegando a usar-se coletes, calças ou gravatas de outras cores que não a preta. Aliás, a contestação à obrigatoriedade do uso do traje dentro do perímetro universitário era de tal maneira forte, que o dito uso foi tornado facultativo apenas 19 dias depois de instaurada a República!

E, como corolário da baixa estima que então havia pelas capas negras, aqui fica o registo da primeira quadra do “Vira de Coimbra” gravado por Lucas Junot para a Columbia em Maio de 1927, onde «um estudante a cantar» aparece em lugar das «capas negras a adejar» [1].

Coimbra, p’ra ser Coimbra
Três coisas há-de contar
Guitarras, tricanas lindas
E um estudante a cantar.

Resumindo e concluindo…

Quanto à guitarra, apesar de se saber que por todo o século XIX ela já era tocada em Coimbra em salões de dança e teatros [2], não é possível apontar a data em que passou a ser utilizada pelos estudantes nas suas serenatas; mas é bem provável que tal tenha acontecido já no declinar do séc. XIX. Com alguma segurança, é Augusto Hilário a primeira figura de peso que associa a guitarra aos estudantes e à serenata de Coimbra, o que acontece na primeira metade da década de 1890. E, a partir daí, tal associação continua até aos dias de hoje, sem qualquer descontinuidade.

Quanto às tricanas, a sua origem é anterior à vinda dos estudantes para Coimbra. E é seguro que, no início dos anos 30, ainda tinham lugar central no imaginário romântico do estudante masculino, como bem o prova a capa do livro de curso ao cimo, datado de 1932. Porém, admito que esse papel se tenha diluído ao longo de toda a década de 40. Ficamos, assim, com cerca de meio século de coexistência das guitarras com as tricanas. Poderá, até, ter sido um pouco mais.

Mas, ao entrarmos com as capas negras, teremos de descontar a segunda década do século XX, que foi uma década madrasta para a capa e batina, em que muitos não a usaram e muitos outros a usaram mal. Como dizia o outro: «É só fazer as contas…».

Zé Veloso

[1] Conforme António Manuel Nunes, in Registos fonográficos de Lucas Rodrigues Junot (1902-1968), Guitarra de Coimbra (Parte I), http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2005/05/registos-fonogrficos-de-lucas.html.

[2] Conforme Luis Pedro Ribeiro Castela, in A Guitarra Portuguesa e a Canção de Coimbra. Subsídios para o seu estudo e contextualização, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, 2011.

[3] Segundo a Eufrósina, peça teatral escrita à volta de 1542, cinco anos depois de D. João III ter transferido de novo a universidade para Coimbra.

- A primeira foto, cedida pela Dra. Ana Maria Barros, é da capa do Livro do Curso de Medicina de 1927-33, a que pertenceu seu pai, o professor de Obstetrícia Dr. Albertino da Costa Barros. Pertenceram também a este curso outras conhecidas figuras de Coimbra, de que destaco o Dr. Adolfo Rocha (Miguel Torga) e o Dr. Júlio Pais Mamede (Condorcet).
- A foto do Hilário foi obtida pelo autor do blogue, a partir de um painel de uma exposição temporária sobre a guitarra de Coimbra, no Edifício Chiado.
- A foto da guitarra de Coimbra foi obtida da internet.
- A foto da estátua da tricana (que se encontra a meio do Quebra Costas) foi tirada pelo autor do blogue.
- A última foto foi obtida do livro Coimbra Vida Académica, de Cristina Henriques, …

terça-feira, 10 de março de 2015

TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE!

Parte I
Quem não se lembra do Teixeira? – Ó ‘tor, tem aí um cigarro? – Não fumo, pá! – Umm… ó ‘tor, então paga-me um fino e uma sandes?
Figura bizarra, fisicamente distorcida, um misto de homem e criança… conheci-o na década de 50, era eu bicho no D. João III – hoje José Falcão. Nessa altura ele engraxava numa barbearia que ficava no 13 da Tenente Valadim, um pouco à frente do quiosque que faz esquina com a Praça da República. O corte de cabelo ficava em 4$00, mais 5 tostões de gorjeta e outro tanto para o Teixeira engraxar, ou seja, com 5 mil reis estava a festa feita.
O Teixeira, que décadas mais tarde viria ser conhecido por “Taxeira”, andaria nessa altura pelos 30 anos mas a sua figura pouco se modificou depois disso. É que o tempo ia passando... e o Teixeira não. As gerações de estudantes foram deslizando à sua frente, à razão de duas por década, mas o Teixeira era sempre o mesmo, ainda que a imagem que ele de nós via se lhe fosse toldando na retina, à medida que a sua imagem em nós tão nítida permanecia.
Estou a vê-lo agora na barbearia! De fato-macaco azul, sentado à minha frente sobre a caixa da ferramenta, por certo em terceira mão e com a madeira surrada do castanho e preto da graxa. Cabelo farto, de poupa à Elvis, barba de uma semana – santos de casa não fazem milagres... – cigarro encharcado ao canto da boca – "Provisórios"? "Definitivos"? "20-20-20"? Talvez “Kentuky”, que a cigarro dado não se olha a marca… – uma perna encolhida, outra estendida na minha direcção. Penso que nessa altura não usava ainda sapatilhas.
Ao que me lembre, era um pouco trapalhão na sua arte: punha a graxa com os dedos, deixava que a dita lambesse as meias do cliente e julgo que, de quando em vez, cuspia no pano para melhor fazer correr o lustro. Olhar ausente, resmungava as últimas da Académica nos raros intervalos que o barbeiro deixava para intervenções alheias. Às vezes zarpava da barbearia sem aviso, para exaspero do Sô António, o qual acumulava as funções de barbeiro com as de patrão e contava com o Teixeira para combater a concorrência da barbearia da porta mesmo abaixo, onde o Sô Carlos lhe disputava a clientela.
Mas o Teixeira, não dava a sensação de ter um gosto especial pela profissão de engraxador, o que só lhe creditava sabedoria. Do que ele gostava mesmo era de ir com a malta! Ir nas latadas, saltar para arena na garraiada, posar em tudo o que fosse fotografia de curso, rasganço ou cortejo da Queima, viver na crava pelas Repúblicas e cafés, apregoar o Ponney e a Via Latina com a sua voz roufenha, conviver de igual para igual com os da sua classe: os estudantes!
E a malta, que na sua irreverência juvenil tantas vezes é cruel para as figuras bizarras da sociedade, a malta brincava com ele mas não o gozava ou, se o fazia, era com o carinho com que se trata um irmão mais novo. Alguém me contou que o Teixeira sabia dois poemas de cor e os recitava (à sua maneira…), a pedido e em cima dum banco; mas só o fazia depois de se certificar de que não andassem futricas por perto. Afinal, ele tinha sido um dia proclamado “Quartanista de Medicina honoris causa” e tratava os caloiros por tu, como conta Reis Torgal no seu Coimbra – Boémia da Saudade. Brincar com a família, sim! Mas nunca na presença de estranhos…
Muita gente tem estórias do Teixeira para contar, desde a ida ao casino da Figueira, de fraque e anel de brasão no dedo, onde só terá sido desmascarado por querer oferecer um pirolito a uma requintada senhora, até ao telefonema que terá feito ao Reitor da Universidade a pedir satisfações, aquando da crise de 69. A última que li foi-me descrita por um amigo [1] nestes termos: «… Foram com ele a Barcelona (Clínica Barraquer), estava ele quase cego. Recusou-se a ir de avião, por lhe provocar imenso medo essa ideia. Disseram-lhe que iriam de camioneta. Pois a cegueira dele era tal que ele embarcou no avião e, durante a viagem, dizia que as estradas espanholas eram maravilhosas, pois o autocarro não fazia ruídos nenhuns. Enfim, a Academia tratava sempre bem as suas "figuras"!»
E tratava… o melhor que podia: dava-lhe abrigo – num torreão (antiga bilheteira) do campo de Santa Cruz, tendo o Zé Freixo e Belmiro por anfitriões – até que um dia lhe fizeram mesmo uma casa de verdade! Dava-lhe de comer nas Repúblicas e cantinas, dava-lhe cigarros, tratava-lhe da cegueira e outros achaques, sentava-o à mesa do café, apaparicava-o… e até tinha lugar cativo no autocarro da Briosa!
Só há alguns anos, lendo o livro de Reis Torgal e pedindo informações a amigos, soube o seu verdadeiro nome. Chamava-se Raúl dos Reis Carvalheira. O nome Teixeira foi-lhe posto por ser sósia dum interior esquerdo do Benfica – Teixeira de seu nome – que a malta odiava por ter deixado os dentes marcados na barriga do Faustino, half-centro da Académica, por volta de 1940. Desde que as parecenças foram descobertas, passaram a chamar Teixeira ao Raúl, que começava a aparecer nas latadas; quanto ao verdadeiro Teixeira, o do Benfica, passou a Academia a chamar-lhe "Cão", por razões que bem se entendem.
O Teixeira nasceu em Torres do Mondego, que na altura ainda era freguesia de Santo António dos Olivais, em 9/9/1926, tendo falecido na Casa dos Pobres, na Rua Adelino Veiga, em 29/2/2000.
A última vez que o vi foi já há muitos anos. Achei-o feliz. Uma espécie de lenda viva, muito acarinhado, muito cegueta e, talvez por isso, pairando um pouco acima do quotidiano. Que se passou desde então? Como viveu os últimos anos? Como morreu? Não sei. Mas admito que tenha sido em paz. Quem tinha uma família do tamanho da Academia não se deve ter sentido sozinho.
Parte II
A origem do nome Teixeira está explicada mais acima. Porém, a partir de determinada altura na década de 80, o Teixeira passou a ser igualmente conhecido por “Taxeira”, ao que se supõe, devido «à taxa que se encarregava de cobrar através do apelo: “moedinha, ó sócio”» [2] . No início dos anos 90, os dois nomes ainda coexistiam; mas quando falamos com estudantes que chegaram a Coimbra mais tarde, verificamos que estes já só retiveram o nome “Taxeira”.
E foi “Taxeira” que ficou registado na placa que se encontra à entrada de uma pequena rua transversal à Rua de Aveiro, já que em 2007 a edilidade de Coimbra resolveu atribuir o nome de uma rua da cidade à memória desta ilustre figura, cuja última profissão conhecida foi a de ardina. [3]
Mas quem era, afinal, o verdadeiro Teixeira, o do Benfica, o tal que em Coimbra ganhou a alcunha de “Cão”? Ouçamos, então o contraditório, pela pena do blogue Glórias do Passado, de cuja extensa biografia aqui transcrevo apenas um curto extracto [4]:
«O popular “Semilhas”, “Gasogéneo” ou “Marreco” foi um dos mais emblemáticos e categorizados futebolistas portugueses da década de 40, essencialmente, envergando, com êxito, as cores do SL Benfica, do Vitoria SC e também de Portugal, tornando-se mesmo, no primeiro jogador açoriano a representar as Selecção Nacional. Natural da Horta, Ilha do Faial, nos Açores, Joaquim Teixeira, o seu verdadeiro nome, nasceu no dia 18 de Março de 1917.» Era, portanto, quase dez anos mais velho que o seu sósia, o nosso Teixeira.
A Parte I desta crónica foi escrita em 2/3/2011, sob o título “TAXEIRA”, UM FUTRICA ESTUDANTE. Posteriormente, entendi ser mais adequado alterar o título para TEIXEIRA, UM FUTRICA ESTUDANTE, como forma de não contribuir para o esquecimento da alcunha original do nosso “Quartanista de Medicina honoris causa”. Para além disso, foram surgindo novas informações que me pareceu interessante acrescentar a uma página que, segundo as estatísticas do blogue, continua a ser razoavelmente visitada.
Foi por essas razões que, ao texto inicial, acrescentei agora a Parte II e reeditei a crónica.

Post Scriptum
Há alguns anos atrás, fui até Coimbra e lembrei-me de revisitar o 13 da Tenente Valadim, curioso de rever a velha barbearia ou o que dela restasse. Queria bisbilhotar, saber quem por lá estaria, se o estabelecimento ainda mexia, se teria mudado de ramo… De facto, tudo deveria estar diferente e eu só esperava poder entrar ou, mesmo ficando à porta, antever a cadeira de barbeiro do Sô António e imaginar o Teixeira engraxando na parte de trás, no enfiamento da janela, enquanto, na porta mais abaixo, o outro barbeiro, o Sô Carlos, procurava afanosamente combater a concorrência da barbearia onde o Teixeira engraxava.
Razão tinha quem dizia que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes!...
Zé Veloso
[1] Francisco José Carvalho Domingues.
[2] Conforme folheto referente ao descerramento da placa toponímica e dados biográficos da reunião da Comissão de Toponímia de 14 de Maio de 2007.
[3] Para localização da rua, vide Google Maps:
https://www.google.pt/maps/@40.214818,-8.430372,3a,90y,358.78h,89.63t/data=!3m4!1e1!3m2!1skKgFdXq9-DWtWwBa75z1EA!2e0
[4] http://gloriasdopassado.blogspot.pt/2011/01/joaquim-teixeira.html
As fotografias onde aparece o Teixeira pertencem ao Arquivo Formidável da IMAGOTECA – Biblioteca Municipal de Coimbra – e foram cedidas exclusivamente para ser utilizadas no Penedo d@ Saudade, não podendo ser cedidas a outrem sem a devida autorização.
A fotografia de Joaquim Teixeira, que chegou a ser o melhor marcador do Benfica na época de 1944/45, foi obtida do blogue Glórias do Passado.
As restantes fotos foram obtidas pelo autor deste blogue.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

DA ENTRUDADA AOS CORSOS DE PACOTILHA

É Carnaval. Pelos corsos que despontam todos os anos, feitos cogumelos, por esse país fora, as meninas seminuas vâo-se constipando ao ritmo do samba, como se a tradição não nos tivesse deixado trajes trapalhões próprios para um Carnaval de inverno e bombos mais condizentes com os ritmos do nosso folclore.
No início desta retro-colonização brasileira ainda cá vinham umas estrelas de primeira grandeza, cabeças de cartaz de telenovelas que passavam o Carnaval entre nós para entretém dos papalvos. Mas rapidamente o pessoal percebeu que, mesmo com tais enxertos, os nossos corsos de pacotilha jamais passariam de uma imitação barata e deslocada daquilo que a televisão nos mostra no sambódromo do Rio. E, para ajudar à festa, as chuvas de Fevereiro têm-se encarregado de desmobilizar as gentes e de mandar para a valeta, ano após ano, o dinheiro gasto nestes investimentos de alto risco, já que a chuva está para o Carnaval como o Circo Luftman – o tal que trazia sempre chuva – estava para Coimbra.
No entanto, e estranhamente, a cena repete-se todos os anos. E agora até começa mais cedo, com o desfile das escolas primárias e dos infantários! No caso que me tocou em sorte, foi logo na quinta-feira! E lá vão os papás comprar os fatos e os avós levar os meninos e depois vem a chuva e o desfile não sai e os miúdos já choram e acaba tudo ranhoso na urgência do hospital, que a criancinha apanhou frio e o avô só não lhe deu um treco porque não calhou…
… e qualquer dia já ninguém se lembra que no Carnaval se faziam partidas, se travestiam homens e mulheres, se vinha para a rua vestido com trapos velhos, se faziam grandes bailes ou os chamados assaltos, se libertavam tabus e paixões proibidas, a coberto da máxima no Carnaval ninguém leva a mal… e até havia corsos, em terras que tinham essa tradição, embora em moldes bem diferentes do standard brasileiro que está hoje na moda.
No meu tempo era assim. E como seria em Coimbra, um século antes?
As notícias que chegaram até nós são do Carnaval de 1854, ano em que se deram os graves acontecimentos que ficaram conhecidos pelos nomes de Entrudada ou Tomarada. Tais notícias não são coincidentes entre si mas os relatos convergem na brutalidade de algumas brincadeiras: «jogava-se o entrudo com limões de cera, que partiam vidros, cabeças e cegavam; com laranjas verdes, ovos, vermelhão, fundo de panela e pó de sapateiro»«verdadeiras batalhas, cujos combatentes despediam, uns contra os outros, ovos, laranjas e outros que tais projécteis, que por vezes se tornavam ofensivos».
É Domingo Gordo, 26/02/1854, e na Praça de S. Bartolomeu (actual Praça do Comércio) a malta joga ao entrudo. De um grupo de estudantes, que se diverte, sai um ovo, tipo bala perdida, que atinge o peito de uma senhora que está à janela de sua casa, senhora essa que tem a seu lado um tal Lima Valentão [1], o qual responde de forma desproporcionada, atirando da janela abaixo uma panela de barro e empunhando uma espingarda. A estudantada irrompe pela escada do prédio, enquanto Lima Valentão escapa pelo telhado. Salta a futricagem em defesa dos do seu bairro, desata tudo ao biscoito, a polícia toma partido pelos da terra, a estudantada leva uma coça e vai lamber as feridas para o bairro alto. Estava aceso o rastilho que haveria de dar lugar a várias incursões de guerrilha entre os dois territórios até que, na terça-feira, cerca de 600 estudantes (numa universidade que contava nesse ano com 894 matrículas) invadem em força o bairro baixo, sendo rechaçados a tiro pelas forças de segurança.
Por considerarem que a actuação da polícia não tinha sido imparcial em toda esta contenda, uma delegação de 200 estudantes partiu a pé para Lisboa, a fim de reclamar junto da rainha D. Maria II, mas uma força militar impediu-a de continuar a marcha em Tomar. De regresso a Coimbra, fundaram uma associação secreta, que viria a durar apenas seis meses – A Liga Académica – com a finalidade de «sustentar o afastamento de todas as relações com os filhotes da terra, fazer a ronda nocturna pela cidade para a protecção dos estudantes, e organizar uma Cooperativa de consumo, em que por conta dos associados mandassem vir de fora de Coimbra os géneros alimentícios».
Esta é, em resumo, a história da Tomarada (ou Entrudada) que nos conta Sousa Lamy na sua obra monumental – A ACADEMIA DE COIMBRA. 1537-1990 – a partir de fontes idóneas, como Teófilo Braga, Martins de Carvalho e Eduardo de Noronha, obra que lamento profundamente ter ido consultar para compor esta crónica.
E lamento profundamente porque, se me tenho ficado pelas MEMÓRIAS DO MATA-CAROCHAS do Dr. Antão de Vasconcelos, aquele livro fabuloso que tem o encanto de nunca sabermos onde acaba a realidade e começa a fantasia, ter-vos-ia deixado aqui algo muito mais adequado à quadra do entrudo, não necessariamente uma patranha de Carnaval mas uma história bem mais sanguinolenta e façanhuda. Ter-vos-ia falado das dezenas de estudantes e futricas gravemente feridos ou mortos, sendo que, no caso dos estudantes, quase todos apanhados à falsa-fé e, alguns deles, apunhalados ou baleados pelas costas. Ter-vos-ia dito que vieram tropas de fora, que confraternizaram com os futricas, o que mais enraiveceu os estudantes. Ter-vos-ia contado que os estudantes que marcharam para Lisboa eram 1500, mais do que a população universitária de então (!), organizados em três batalhões que se distinguiam pelas cores branca, azul e encarnada, armados e embarretados com o saque de quantas armas e carapuças pela calada de uma só noite conseguiram obter em Coimbra. E que, para saírem da cidade sem darem nas vistas, atravessando a ponte sobre o Mondego à meia-noite em ponto, lançaram previamente o fogo aos quatro cantos da cidade, atraindo para aí a população e a tropa. E que, uma vez chegados a Tomar, na iminência de um confronto que resultaria numa carnificina dos estudantes, o oficial do exército português que lhes fora fazer frente se recusara a fazer disparar os seus homens e «a dizimar por centenas aqueles rapazes cheios de vida e de brios, as esperanças da Pátria». E «reunido o Conselho de Estado ou o Gabinete, pouco importa», e com a anuência da Rainha, que tenazmente tomara partido pelos estudantes, «foi então ordenado à tropa que batesse em retirada» e aos nossos garbosos académicos lá lhes foi permitido marcharem sobre Lisboa, onde foram aboletados por conta do governo, chamando-se a esta façanha a Rendição do exército português e a tomada de Lisboa! E passaram em formatura «sob as janelas onde se encontrava a Soberana, destacando uma comissão que pediu a mudança da Universidade para o palácio de Mafra»! Ah!, malta dum raio! Como escreveu Antão de Vasconcelos, «Quem conhecer esta parte da história da Universidade de Coimbra, jámais enfrentará uma capa e batina sem se desbarretar respeitosamente ante o símbolo da União e do Brio»!
Nesta coisa de escrever sobre o passado é importante encontrar as boas fontes e não ficar pelas bicas inquinadas que alimentam pequenos riachos. Mas é bem verdade que a água de alguns riachos pode ser bem mais saborosa que a das fontes mais fidedignas!…

Zé Veloso 

[1] Segundo Sousa Lamy, Lima Valentão era a alcunha de João Lúcio de Figueiredo Lima, natural de Sandomil, Guarda, que havia de se formar Filosofia em 1855.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

EUSÉBIO, VÍTOR CAMPOS, A BRIOSA, E O “FORMIDÁVEL”

Eusébio morreu precisamente há um ano, no dia 5 de Janeiro de 2014. Nos dias que se seguiram, quase tudo foi dito e escrito sobre a sua pessoa, o seu valor e as paixões que desencadeou. Passado um ano, pouco mais havendo a dizer, quero assinalar a data lembrando, apenas, que lhe ficarei eternamente grato por me ter devolvido o orgulho de ser português naquela jornada dos 5-3 à Coreia do Norte, no Mundial de 66. Foi um delírio que ainda hoje recordo de cor em todos os seus pormenores.

Mas a vida é cheia de meandros, de voltas surpreendentes. E os intérpretes rapidamente passam de salvadores a carrascos, consoante os papéis que ela lhes reserva. A eles, que os desempenham; e a nós, que assistimos do peão ou da bancada.

Três anos passados, estávamos na final da Taça de 69, em plena crise académica. O ambiente em Coimbra era de cortar à faca. Os ecos da crise dificilmente escapavam para fora dos muros da cidade, com a imprensa, a rádio e a televisão controladas pela censura. Mas ir até ao Jamor e fazer ali «um dos maiores comícios de sempre contra o regime», como mais tarde haveria de escrever Carlos Pinhão, era um desafio dos diabos. O regime estremeceu. O Presidente da República fez gazeta, não fosse o caso de voltar a passar vergonha. O mesmo fez o Ministro da Educação, que tutelava o desporto. Contrariamente ao que era hábito, a final não foi transmitida em directo pela televisão! Revistaram-se comboios e viaturas à procura de cartazes e panfletos alusivos à crise universitária. Nunca tanto agente da PIDE terá assistido a um jogo de futebol. A Briosa foi impedida de alinhar de branco e braçadeira preta (solidarizando-se com o luto académico), como tinha feito na meia-final em Alvalade. Mas os jogadores apresentaram-se no campo de capa preta pelos ombros, mostrando, assim, que estavam com a Academia que, de capa e batina, se apinhava no peão e na bancada. Artur Jorge, a cumprir serviço militar em Mafra, não foi dispensado para o Jamor mas telefonou na véspera a Vítor Campos, para o hotel onde a equipa estagiava, sugerindo que, caso a Briosa ganhasse o encontro, a equipa se dirigisse à superior sul onde estaria o Presidente da AAC e o convidasse para dar a volta de honra. Previa-se que daí pudesse nascer uma marcha até Lisboa, que desceria a Avenida da Liberdade… se a deixassem!

Mas Eusébio não deixou! A 5 minutos dos 90 a Briosa vencia por 1-0, quando o Simões levou o jogo para prolongamento e, finalmente, já na 2.ª parte do dito, o Pantera Negra acabou com o sonho. Com o nosso, claro. Que o dele era não só ganhar a taça mas, sobretudo, vestir a camisola da Briosa, o que veio a conseguir no final do jogo, graças à troca de camisolas que se seguiu à peleja! Só foi pena que na época de 69/70 não tivesse vindo estudar para Coimbra…

Vou rebobinar o filme três anos e volto ao Mundial de 66. Assisto agora, via TV, à meia-final de Wembley, contra a Inglaterra. Vejo um Eusébio massacrado até à medula das canelas por um Nobby Stiles que, se as regras fossem as de hoje, à meia hora de jogo já estaria expulso três vezes por acumulação de amarelos. Vejo uma equipa estoirada, jogando em condições desiguais, com menos tempo de repouso e mais viagens entre jogos, num campo que não era o inicialmente previsto, favorecendo a Inglaterra, tudo sancionado por obra e graça de uma negociação com contrapartidas nunca explicadas ou por pura ingenuidade de cordeiros que se oferecem à degola perante os súbditos de Sua Magestade. E vejo uma raiva que só parou, ao fim de 90 minutos, no choro convulsivo de um homem que acreditou sempre e que merecia ter sido considerado o melhor jogador do torneio – Eusébio!


Na fotografia que ficou para a posteridade, Eusébio aparece confortado por dois homens. Um é Manuel da Luz Afonso, o seleccionador nacional. Está no seu papel. O outro tem consigo uma máquina fotográfica e traz no braço direito uma braçadeira que o identifica como fotógrafo autorizado. É estranho, não é? Não deveria este fotógrafo estar do outro lado da barricada, a tentar bater a chapa para depois a vender? Que fotógrafo será este?

Há um ano, um canal de televisão deu na íntegra a repetição do jogo, incluindo esta cena, e permitiu-me ver que o dito fotógrafo vinha de fora do relvado para o centro do terreno, de frente para Eusébio, juntamente com outros companheiros de profissão e que, ao ver o desespero do jogador, em vez de se preparar para bater a chapa, aproximou-se dele e passou a caminhar atrás de si, falando-lhe e confortando-o na sua tristeza.

Foi essa a razão pela qual Fernando Marques, cauteleiro de profissão, fotógrafo nas horas vagas, nascido em Coimbra em 1911, onde viria a falecer em 1996, mais conhecido por “Formidável”, doido pela Académica, que ao longo de décadas registou em rolo todo o tipo de eventos que aconteceram em Coimbra, cidade que viria a acolher o seu arquivo fotográfico na Imagoteca da Casa da Cultura, foi essa a razão – dizia eu – pela qual Fernando Marques, o “Formidável”, que tem fotografias suas publicadas em vários jornais, incluindo jornais desportivos, não tem no seu espólio a fotografia do choro do Eusébio. Porque o "Formidável" personificava a solidariedade coimbrã dos anos 60. E, antes de ser fotógrafo, era cauteleiro. E os cauteleiros conhecem os dramas da vida e sabem que a seguir aos maiores dramas melhores dias virão.

Não quero terminar esta crónica sem uma palavra para o Vítor Campos, contemporâneo dos meus tempos de Coimbra, hoje distinto médico, médio esquerdo da Briosa no jogo da final da Taça de 1969, que, na foto ao cimo, aparece com o Eusébio, já depois da troca das camisolas. Para ele, aqui deixo um forte abraço e os votos de continuação da excelente recuperação que sei que está a acontecer. E que 2015 seja para si um ano de sorte, apesar de já cá não estar o “Formidável” para lhe vender a cautela que o há-de ajudar a atingir em breve a plena forma.

Zé Veloso

Nota: Contrariamente ao que a foto mais acima sugere, foi José Belo e não Vítor Campos quem trocou de camisola com Eusébio.

Foto 1: Vítor Campos e Eusébio no final da Taça de 1969. Obtida do livro Académica. História do Futebol, João Santana e João Mesquita, Almedina, Coimbra, 2008, pág. 223.

Foto 2: Final do jogo da meia-final do Mundial de 1966, Inglaterra-2, Portugal-1. Da esquerda para a direita: “Formidável”, Eusébio, Manuel da Luz Afonso, Foto obtida da internet.

sábado, 10 de maio de 2014

A VENDA DA PASTA. MODELO ESGOTADO OU INICIATIVA A RELANÇAR?

Quis saber o que se passa hoje em dia com a Venda Pasta. Telefonei para Coimbra e falei com alguns fitados e cartolados recentes: – Venda da Pasta? Verbena? Que é isso? Nunca ouvi falar…
Fico preocupado! Será que a Venda da Pasta já foi vendida? Será que a culpa é do maldito memorando e andam a cortar nas gorduras da Queima?
Desconfiado, vou até à internet: Depois de desbravar caminho entre as semanas académicas (que se vão acotovelando umas às outras), um cartaz da Queima (onde uns quantos puxam pela corda uma torre que não sei se está a cair se a erguer-se) e o "verdadeiro cartaz" (aquele que faz correr a malta, com Daniela Mercury, Quim Barreiros, Xutos & Pontapés …), lá encontro, por fim, o tão desejado anúncio da Venda da Pasta, seguida da Verbena – Será a 13 de Maio, terça-feira, e o dinheiro angariado destina-se à Casa de Infância Elísio de Moura.
Afinal sempre há. A malta é que lhe deve ligar pouco… Vamos lá à história desde o princípio.
A Venda da Pasta é mais uma das iniciativas do famoso curso médico de 1931/32 (ano da formatura), de que faziam parte os não menos célebres Henrique Pereira da Mota (mais conhecido por “Pantaleão”) e Castelão de Almeida (fundador do “Poney”).
A sua origem é referida por vários autores. Mas pareceu-me interessante trazer aqui o testemunho da viúva do grande “Pantaleão” que, em 1997, editou um pequeno livro [ 1 ] de homenagem à memória do seu falecido marido:
«O asilo da Infância Desvalida que fora adoptado pelo Professor Doutor Elísio de Moura estava em dificuldades.
«Apesar da abnegação do Professor que a ele consagrava todos os seus haveres, o crescente número de órfãs fazia com que a administração fosse cheia de espinhos.
«Aproximava-se a “Queima das fitas” e então a ideia luminosa surgiu.
Pela mão dos quintanistas, as gentis pequeninas asiladas seguiam pela Baixa vendendo pastazinhas com fitas das cores das várias faculdades.
«Radiante, mais feliz do que elas – que gozavam o prazer da liberdade – lá ia o “Pantaleão” fazendo os impossíveis para angariar o máximo para a meritória obra de amor e benemerência que tantas meninas acarinhou e tornou aptas para serem úteis e felizes.»
Para além da grande admiração e carinho que a academia e a cidade sempre devotaram ao Professor Elísio de Moura, há um aspecto que será menos conhecido e que admito que tenha ajudado esta ligação entre a academia e uma obra assistencial específica. É que, segundo o Diário de Coimbra [ 2 ], a Casa da Infância Dr. Elísio de Moura (anteriormente Asilo da Infância Desvalida), «teve a sua origem na “Sociedade de Beneficência Protectora da Infância Desvalida”, fundada em 9 de Julho de 1835 pela Reitoria da Universidade de Coimbra, cabendo a presidência a um professor universitário. Tal cargo seria exercido por Elísio de Moura a partir de 1922». E, segundo se depreende das palavras acima de Maria José Carmona da Mota, entre 1922 e 1932, o asilo terá sido mesmo adoptado por Elísio de Moura.
Nos anos 50 e 60 a Venda da Pasta era o prato forte do Dia do Quintanista, uma segunda-feira calma, estrategicamente entalada entre a garraiada de domingo e o cortejo de terça, dia que os quintanistas aproveitavam para usar as suas fitas uma última vez, já que no dia seguinte desfilariam de cartola e só poderiam voltar a usá-las no dia da formatura. [ 3 ]
E, pela manhã, lá iam os quintanistas buscar as “meninas do Dr. Elísio de Moura” para vender as pastas. Para as miúdas – «princesas por um dia», nas palavras do filho do “Pantaleão” [ 4 ] – era uma jornada inesquecível mas, também, fatigante. Sempre aos pares e acompanhadas por um quintanista (às vezes por um casalinho de quintanistas), percorriam as ruas da cidade, almoçavam num restaurante, lanchavam numa pastelaria e, ao final da tarde, ainda era vê-las na Verbena do Jardim Botânico [ 5 ], ora gingando ao som da música do baile ora brincando ou dormindo já nos braços dos quintanistas a quem tinham sido confiadas.
Veio a crise académica de 69, o luto académico e o consequente cancelamento de todo o programa da Queima das Fitas. Foi então que o Professor Elísio de Moura foi ter com a Comissão da Queima (ou da Verbena, não sei ao certo) e mostrou a sua preocupação pela falta que a receita da venda das pastinhas faria à sua obra de beneficência. Poderia não haver Queima mas a instituição e as suas meninas não deveriam sair prejudicadas. E a excepção foi aberta. E as "meninas do Dr. Elísio de Moura" saíram à rua na segunda feira que deveria ter sido o dia do quintanista. Nos seus uniformes domingueiros - saia azul de pregas, blusa cor-de-rosa, soquete branco e sapatinho preto – foram levadas pelas mãos dos quintanistas, percorreram a cidade, venderam as pastinhas, almoçaram e lancharam nos restaurantes e pastelarias… e só não terminaram o dia ao som da música porque nesse fim de dia já não houve baile! E os quintanistas que as foram buscar de manhã e as levaram de volta ao orfanato tinham a batina fechada e a capa pelos ombros, em sinal de luto, e as fitas iam recolhidas dentro das suas pastas.
Hoje, a Venda da Pasta e a Verbena, ainda que fazendo parte do programa, estão esquecidas. Só consegui saber no que consistem através de um interessante trabalho de mestrado de uma ex-aluna da U.C. [ 6 ], onde se explica que «a Verbena consiste num lanche organizado pela Queima das Fitas destinado inicialmente às crianças da Casa da Infância Doutor Elysio de Moura que participam na Venda da Pasta»; mais se refere que «actualmente, é aberta a todas as crianças das casas de solidariedade social de Coimbra» e que, «para além do lanche, é oferecido, às crianças, um pequeno espectáculo».
Aparentemente, evoluímos no bom sentido, estendendo o lanche e o espectáculo – que agora são no Parque Verde – a uma comunidade mais vasta de crianças e adolescentes. Mas o que se ganhou em quantidade parece ter-se perdido em humanidade, em carinho, em proximidade entre os estudantes e as crianças ou os jovens daquelas casas. É que o número de estudantes que se apresentam para acompanhar as crianças na Venda da Pasta tem vindo a decrescer todos os anos e de tal sorte que, em 2013, apenas 20 (vinte) se voluntariaram para tal, numa universidade que nesse ano andou pelos 22.000 alunos e onde, seguramente, mais de 1.000 serão quintanistas, ou melhor, bolognezes ou marquezes, segundo as denominações do actual Código da Praxe.
Diz o Diário de Coimbra [ 7 ] que não só a Casa da Infância como também a Comissão da Queima das Fitas ficaram surpreendidas com a baixa adesão em 2013. De facto, é caso para pensar e tirar daí algumas conclusões.
Serão os estudantes de hoje menos solidários e menos generosos que os de ontem? Será falta de informação ou de mediatização? Será que a atenção se dispersa no meio de tanta festa, tanta algazarra, tanta publicidade? Será que o evento é hoje um fardo de baixo retorno e se mantém no programa da Queima por pura inércia, apenas porque veio no pacote que em 1980 foi herdado das gerações anteriores?
Ou será que os estudantes de hoje são igualmente solidários e generosos e que é tempo de estender a Venda da Pasta às outras instituições que já são chamadas a participar na Verbena, de acreditar no potencial de mobilização que uma tal acção teria junto da comunidade universitária, e de relançar – à dimensão da Queima de hoje – a iniciativa que “Pantaleão” e os seus pares lançaram há 82 anos atrás?
Fica a sugestão.
Zé Veloso
Nota: As pastinhas da foto são de 1966. A foto foi obtida, com a devida licença, do blogue “O  cão que fuma”, http://www.caoquefuma.com/2011/01/da-serie-vida-que-levei-17-capitulo.html
[ 1 ] Maria José de Figueiredo Carmona da Mota, “Testemunhos”, 1997, distribuição restrita a familiares e amigos
[ 2 ] “Estudantes vendem hoje pastas a favor da Casa de Infância Elísio de Moura”, in Diário de Coimbra de 7/5/2013.
[ 3 ] Hoje, claro está, com o cortejo ao domingo, estas e outras lógicas foram alteradas, a demonstrar os perigos de efectuar mudanças bruscas num sistema que levou dezenas de anos a sedimentar.
[ 4 ] Eng.º Augusto Carmona da Mota, estudante de Coimbra e primeiro Mor da Real República dos Ly-S.O.S. (Porto)
[ 5 ] A Verbena, que no meu tempo era no Jardim Botânico mas teve também lugar no Jardim da Sereia e, caso chovesse, no ginásio do D. João III, era um baile descontraído, ao final da tarde, que dava pelo nome completo de “Verbena e Pôr-do-Sol”. Verbena seria o baile e Pôr-do-Sol seria o lanche? Ou seria o contrário? Ou não se faria distinção alguma? Já não sei ao certo.
[ 6 ] Ana Rita Rigueira Montezuma da Sá Marta, “A Praxe Académica na Universidade de Coimbra”, Mestrado de Política Cultural Autárquica, Faculdade de Letras da UC, 2010/2011 (http://www.academia.edu/5176195/Patrimonio_Mundial_-_A_Praxe_Academica_da_Universidade_de_Coimbra#)

[ 7 ] “Venda da Pasta mobilizou (apenas) 20 estudantes”, in Diário de Coimbra de 8/5/2013.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

“CAPAS NEGRAS”. UM RETRATO DESFOCADO DA REALIDADE

“Capas Negras”, uma fita de Armando Miranda, filmada em Coimbra (parte final no Porto) em 1946, foi estreada na cidade do Mondego em 19/05/1947 sob forte pateada dos estudantes. A contestação levou a que ministro da Educação Nacional proibisse a exibição da fita, uma semana depois. O filme, que apesar de mal-amado em Coimbra viria a ser um êxito de bilheteira no país e no estrangeiro, seria passado 33 anos mais tarde no Teatro de Gil Vicente, por alturas da retoma das praxes académicas (1980) e pela mão da própria Direcção da AAC, gesto que, na prática, emprestou um aval de credibilidade a um retrato da academia de Coimbra de 1946/47 em que esta própria não se revira na altura.
A crónica anterior “CAPAS NEGRAS”. AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ! – recorda a cronologia dos acontecimentos. Na crónica de hoje procurarei analisar o grau de adesão do filme à realidade académica coimbrã daquela época e descortinar as razões do descontentamento e burburinho que se levantou.
E importa desde já referir que a acção do filme está bem datada, quer pela celebração dos 40 anos do curso jurídico de 1906 quer pela exibição do cartaz da Queima de 1946. E, assim sendo, não é desculpável a utilização de clichés e realidades que o argumento vai buscar, porventura, a velhos livros de memórias de estudantes mas que, naquela altura, não correspondiam já à realidade.
Quando vemos hoje o filme, descontraidamente sentados no sofá e com o distanciamento de quase 70 anos, não podemos deixar de sorrir com o argumento e exultar, até, como aquele final “hollywoodesco”, delirantemente impossível. E a pergunta surge de imediato – Então onde é que está o mal? Mas, tal como o diabo, o mal está nos detalhes...
     Das minudências que não matam mas amolentam…
Ainda não tinham decorrido 5 minutos e já o argumento registava 2 razoáveis calinadas, ao chamar “vicente” ao toucado da tricana – confundindo o toucado propriamente dito com a fitinha preta que o segurava – e ao dizer que a tricana Joaninha tinha «vivido e amado desde Santa Clara Nova a Santo António dos Olivais». Como escreveu o cronista do “Sempre Fixe”, talvez fosse «para evitar confusões com Santa Clara-a-Velha, que fica p’ró Alentejo» [A], pois que, em Coimbra, existia, apenas,… Santa Clara.
A crítica não deixou passar estes deslizes em claro. E a tricana que constitui a segunda mais importante figura feminina do filme foi apelidada de «tricana do “ancien regime”, amavelmente cedida pelo Rancho de Coimbra» [A] porque os trajes daquele cliché de tricana há muito não eram utilizados, tresandando a folclore. E a mostrar que não dá para inventar quando se faz um filme datado, ainda por cima relativo ao ano anterior à sua estreia, veja-se a crítica que foi feita à reunião dos 40 anos do curso jurídico: «…(o antigo estudante), quando volta, não vai confraternizar com os antigos colegas em tabernas sórdidas» [B]. A 70 anos de distância, ninguém ligaria a este pormenor e até acharia que era muito típico.
Tratando-se, embora, de pequenos descuidos – como trocar o “Portugal dos Pequeninos” pelo “Ninho dos Pequeninos” (existiam os dois mas em locais diferentes), dizer que os professores universitários também envergam capa e batina (envergavam toga e uma batina de modelo diferente) ou referir “vem aí o acto grande», (prova que nos remete para o séc. XIX) – estas incongruências revelaram um guião pouco cuidado, foram alvo de chacota e ajudaram a engrossar o coro de protestos que os verdadeiros erros de palmatória e as «ofensas ao brio e hombridade do estudante coimbrão» [B] haveriam de provocar.
     Dos fados e canções…
Como exemplo de tais erros de palmatória e desrespeito total pelas tradições coimbrãs, a cena da serenata é de arrepiar e não me admiraria se tivesse sido alvo da primeira grande pateada na noite da estreia. Sigamos a cena: dentro da tasca da Ti Zefa, ouvem-se, vindos do exterior, os primeiros acordes do fado de Coimbra “Feiticeira”; Maria de Lisboa (Amália Rodrigues), a criada da tasca, abre a janela e apoia-se no parapeito, a escutar; do arvoredo surge o estudante José Duarte (Alberto Ribeiro), vestido de capa e batina e acompanhando-se a si mesmo à guitarra; terminado o fado, Maria de Lisboa dá-lhe réplica, cantando uma canção de Lisboa que José Duarte vai acompanhando, finda a qual, o estudante entende por bem dar-lhe tréplica, cantando a canção “Coimbra” de Raul Ferrão e José Galhardo, canção que, anos mais tarde, correria mundo como "Avril au Portugal"!
Dando de barato que nos anos 40 as serenatas tinham por alvo apenas as colegas ou as meninas da sociedade coimbrã, sobra ainda um chorrilho de contradições. Desde logo o facto de o cantor se acompanhar a si próprio, recuperando o cliché do Hilário (séc. XIX), quando nos anos 40 a segregação entre cantores e instrumentistas era sagrada, mesmo que o cantor soubesse também tocar guitarra ou viola. Depois, a exposição da mulher à janela, contrária à tradição vigente, que obrigava a uma dissimulação por detrás das cortinas, agradecendo apenas com o abrir e fechar de luzes. Por maioria de razão, o despautério de pôr a contemplada a dar réplica, tomando parte activa na serenata. E, finalmente, o facto nada menor de se simular uma serenata de Coimbra onde apenas existe um fado de Coimbra, num conjunto de três canções! Aliás, a este propósito, o filme é sintomático: apresentando-se como uma fita de homenagem a Coimbra e à sua academia, passa 13 canções em “voz on”, sendo que apenas 2 são de Coimbra! E ainda queriam que a malta não pateasse…
Um parêntesis para dizer que, se Amália Rodrigues tinha defensores e detractores, o mesmo se não passava com Alberto Ribeiro, verdadeiramente detestado entre os estudantes. O seu ar de “dandy” e a sua voz afectada não casavam com o “standard” do estudante coimbrão. E foi tomado de ponta. Por isso ou por ter tido a ousadia de cantar um fado de Coimbra, ou até pelas duas coisas. Mas dizia-se que não o cantava bem, sendo «acusado de não perceber nada do estilo de Coimbra» [C], «apesar de ensaiado directamente pela mão de Ângelo Vieira de Araújo» [C].
Querendo saber mais a respeito da voz de Alberto Ribeiro, pedi a opinião ao Dr. Augusto Camacho, contemporâneo do filme e actual decano dos cantores de fado de Coimbra, o qual fez questão de me dizer que não tinha concordado com a pateada. Na sua opinião, Alberto Ribeiro cantava muito bem mas… «para cantar é preciso haver expressão (sentimento, alma, entrega), interpretação (colocação de voz, volume, técnica de canto) e dicção». E, para ele, Alberto Ribeiro, sendo exímio na interpretação, pecava na expressão. Utilizando um dito lisboeta, eu diria que não é fadista quem quer mas sim quem nasceu fadista. E diria mais: em termos de dicção, com a ressalva de a péssima sonorização do filme me poder ter induzido em erro, pareceu-me ouvir trocas de vv pelos bb na interpretação da “Feiticeira”, o que, a confirmar-se, não teria deixado de ter irritado uma cidade que se gabava de ser onde melhor se falava o português, ou seja, o português sem sotaque algum.
Continuando no tema das canções, também nas fogueiras de São João o guião não escapou à repescagem de tradições do séc. XIX, entretanto caídas em desuso. Isto porque, em 1946, tricanas, estudantes e futricas já não cantavam mais ao desafio. Mas, mesmo querendo repescar uma tal tradição, bom seria que o tivessem feito com uma música popular da terra e não com mais uma modinha a lembrar o Santo António de Lisboa.
Quanto ao segundo fado de Coimbra – a balada “Vou partir”, interpretada por Domingos Marques – não sofreu contestação aparente. Porém, a ideia de colocar os quintanistas em cortejo pelas cercanias da cidade, a cantar a sua balada de despedida, é pura fantasia. Digamos que, neste caso, os guionistas foram precursores de algo que se tornou banal no meio académico pós 1980 – o inventar de tradições.
            Do viver numa República…
Várias vozes se levantaram – inclusive no comunicado da Rás-Teparta, república onde decorreu uma parte das filmagens – dizendo que aquilo não era uma verdadeira república, quer no cenário montado quer na forma de viver. De facto, fica muito a dever à realidade aquela sala que mais parece um albergue espanhol, onde quem quer estudar tem de gramar com os outros em cima (como se o quarto não fosse o local normal de estudo), onde, salvo o caloiro (!?), nunca se despe uma batina, seja para jogar à batota seja para estar ao cavaco (como se alguém andasse dentro de casa "com o seu único e melhor fato"), onde, no meio do barulho, um estudante alerta «Baixinho! Por causa da vizinhança…» (esquecendo que as Repúblicas estavam sempre instaladas em casas sem vizinhos quer por baixo quer por cima, e tal problema não se colocava)!
Quanto ao “prego”, descontando as trapacices do Manecas (Artur Agostinho) de que mais adiante falarei, ele era um recurso tradicional do estudante de Coimbra. Havia, porém, um último recurso que, infelizmente, o guião não se lembrou de incluir – o “andar á lebre”. Foi pena, já que “pregos” há em todo o lado, enquanto “andar à lebre” só em Coimbra o conheci.
            Das tradições académicas e da praxe…
Na cena da trupe, a imobilização do caloiro, de tesoura e varapau (?) em riste, bem à mostra para a câmara, lembra-me aqueles postais ilustrados antigos. Mas nem a tesoura se exibia nessa fase anterior ao rapanço propriamente dito nem o varapau era usado. Seria uma moca invertida? Mas o que verdadeiramente pôs o filme a ridículo, enquanto suposto retrato das praxes, foi o veterano que, candidamente, «pede protecção para o caloiro»! Em Coimbra, a protecção nunca se pediu! Quem tinha direito a proteger, fosse veterano, quintanista, uma simples senhora ou uma irmã, dizia apenas “Está protegido!”. Se é um direito, não se pede. Exerce-se!
Ao contrário da cena da trupe, a do rasganço está bastante natural, a contrastar com a artificialidade de uma boa parte das cenas! Só lhe aponto um senão: é sabido que naquela época todos os formados eram de imediato rasgados, fosse qual fosse a nota obtida; porém, a sequência da cena (onde são anunciadas as notas de 3 alunos mas apenas José Duarte é rasgado) permite a conclusão apressada de que o rasganço acontece como sinal de júbilo pela mais alta classificação obtida (15 valores).
Em termos de tradições a académicas, outra coisa que não caiu bem foi o estender das capas para serem pisadas pelo juiz, já que era uma distinção raríssima, só concedida a figuras de muito elevado prestígio. Admito que os tempos tenham banalizado este procedimento que, quando visionei o filme, nada me espantou, num contexto irreal de um juiz que julga não de acordo com a lei mas de acordo com o seu sentimento coimbrão.
Finalmente, a filmagem do cortejo da Queima de 46, do Largo da Feira ao Largo da Portagem, é um documento cheio de interesse, que me lembra em muita coisa a Queima do meu ano (1966). Destaco alguns pormenores: (i) um grupo – que penso dever ser de quintanistas – que prescinde da cartola, “fraque” e bengala (fantasia criada depois de 1932) e se apresenta de borla e capelo (!); (ii) o elevado número de estudantes de capa e batina que se apresentam de laço (cheira a festa!) e sem colete (cheira a Verão!); (iii) as estudantes fitadas que, nesta altura, iam nos carros com seus vaporosos vestidos. E dá para ver uma parte do Largo da Feira ainda intacta, o Arco da Traição ainda não demolido e a pala de entrada do Teatro Avenida ainda de pé.
            Questões comportamentais e de imagem…
Mas, a avaliar pelos escritos dos jornais, o que mais deixou a academia fula foi aparecerem, como elementos centrais do filme, comportamentos reprováveis em que a generalidade dos estudantes se não revia, afectando a imagem do académico de Coimbra que, graças «à inconsistência criminosa do argumento ( … ) aparece deturpado e amesquinhado» [D].
A gota de água que encheu o copo terá sido a figura do estudante Manecas (Artur Agostinho), o qual – à custa de espoliar as palonças (sic) da cidade, a quem, uma a uma, ia prometendo casamento – era a fonte de sustento da República nos dias de aperto. Tomando a parte pelo todo, o estudante de Coimbra sentia-se, assim, apelidado de “chulo” com todas as letras.
E também de “falhado”! Como escreveu Rui Vieira Miller [B], o filme resultou «(n)uma coisa mais falsa do que Judas que apenas serve para espalhar por essas terras que o estudante de Coimbra passa a vida entre mulheres e vinho, se sustenta com o produto de roubos e com o dinheiro de amantes, para acabar por tirar um 15 na Faculdade de Direito e ter depois o escritório às moscas»
E até o comportamento do juiz foi criticado, por ser indigno de um juiz formado em Coimbra – «… um juiz que abandona a sua integridade de julgador impoluto pela sentimentalidade dum faduncho com laivos de Coimbra e fortes odores de Mouraria, dum faduncho que substitui com vantagem o estafado peru de antanho…» [E]
            Uma academia atraiçoada…
Ao saber que estava sendo rodado um filme de nome “Capas Negras”, criou-se a expectativa de que ele respeitasse e desse o devido relevo às tradições da academia, exaltando os seus valores, que tanto prestígio e tanta saudade tinham trazido a Coimbra ao longo de séculos. E, afinal, o que se via agora? – Uma fita onde os interesses comerciais tinham ditado um argumento que amesquinhava os estudantes e as raparigas da cidade; um argumento cheio de erros, alguns deles grosseiros; e uma injecção de fados e canções de opereta a cheirar a Lisboa, logo ali, na terra onde Hilário, Menano, Bettencourt, Paradela de Oliveira, Goes e muitos mais tinham dado voz ao fado de Coimbra.
A academia fora usada! O seu nome e o peso das suas tradições, bem como o valor iconográfico das suas capas negras, tinham sido apenas um chamariz para que alguém ganhasse dinheiro à sua custa e, ainda por cima, maltratando-a.
«A academia sentiu-se revoltada com justa razão…» [D]. Mas no meio do torvelinho destas emoções, ainda que a generalidade das críticas fossem endereçadas a Armando Miranda e seus colaboradores directos, também a República Rás-Teparta não deixou de ser visada. No mínimo, terão sido ingénuos ao aceitar que uma boa parte das filmagens decorresse dentro da República sem que conhecessem o argumento, confiando apenas em que, supostamente depois das filmagens, Armando Miranda cuidasse «de saber da (sua) opinião sobre a qualidade das cenas a apresentar» [F].Também terão concitado contra si algumas más vontades já que, tanto quanto me foi referido, coube-lhes a missão de escolher os estudantes que entraram como figurantes nas filmagens, havendo quem, gostando de entrar, tivesse ficado de fora.
            Uma academia que não quer ser objecto de feira…
Mas o que os estudantes da Rás-Teparta não saberiam (a República fora fundada apenas em 1942/43 e por estudantes vindos de fora), é que, ao abrirem as portas a Armando Miranda sem consultar o resto da academia, estavam a contrastar em absoluto com o que se passara em 1941 com António Lopes Ribeiro, o qual, querendo fazer um filme sobre os estudantes de Coimbra mas não dispensando a sua colaboração, apresentou e discutiu o argumento com os seus representantes, numa reunião a que assistiu, até, o vice-Reitor Dr. Maximino Correia [G]. Isso mesmo foi lembrado, três dias depois da exibição do “Capas Negras”, em carta publicada no Diário de Coimbra pelo estudante de Medicina João Belarmino Soares da Mota, cujo extracto transcrevo abaixo [H]. A descrição deste episódio mostra bem o denodo com que os estudantes de Coimbra de então defendiam o legado que lhes fora deixado por séculos de história; e ajuda a compreender o calor posto na sua defesa em toda esta saga do “Capas Negras”.  
«Há anos, António Lopes Ribeiro, quis fazer um filme sobre a história da Academia coimbrã. E no Salão Nobre da A. Académica falou do seu projecto aos estudantes.
«Respondeu-lhe, por estes, o então aluno da Faculdade de Medicina, Fernando Namora, chamando-lhe a atenção para certos pontos que o realizador cinematográfico deveria observar ao tratar de tal assunto.
«António Lopes Ribeiro tinha acentuado o condicionalismo a impor ao filme, por motivos de ordem comercial.
«Fernando Namora respondeu que a Academia de Coimbra não desejaria ser tratada como objecto de feira.
«E tudo ficou por aí.»

Zé Veloso
[A]“O filme negro da academia”, rubrica “Arrufadas de Coimbra”, in “Sempre Fixe” de 29/5/1947
[B] Rui Vieira Miller, “O escândalo de Capas Negras”, in “Via Latina” de 10/07/1947
[C] AMNunes, “Coimbra é uma lição” in “Guitarra de Coimbra (Parte I)”, http://guitarradecoimbra.blogspot.pt/2006/08/coimbra-uma-lio-rainha-incontestada-e.html
[D] “Crónica de Cinema. Capas Negras”, in Diário de Coimbra de 21/5/1947
[E] “Carta do Presidente da Direcção da Associação Académica de Coimbra ao Ministro da Educação Nacional, in Via Latina” de 10/6/1947
[F] Mário V. Trêpa, “Crónica dos Descobrimentos da Real República Rás-Teparta”, edição do autor, Santo Tirso, 2004
[G] António José Soares, “Saudade de Coimbra” 1934-1949”, Jul, Ago e Nov 1941 e Mar 1942, Almedina.
Nota: O tema é desenvolvido por AJS sob o item “República dos Pardais”, título previsto para o filme que António Lopes Ribeiro não conseguiria realizar.
[H] Carta de João Belarmino Soares da Mota, aluno da F. de Medicina, in Diário de Coimbra de 22/5/1947

Fotografia do cartaz do filme obtida do blogue "Restos de Colecção"