quarta-feira, 15 de agosto de 2012

VOU ENCHER A BILHA E TRÁGO-A

    À entrada do Parque Manuel Braga, um painel de azulejos tem pintada uma bem conhecida quadra de António Nobre. Qual o significado desta quadra? Será apenas uma evocação do “Basófias” ou será algo mais do que isso?

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    Trata-se de uma quadra que é de inclusão quase obrigatória na letra da desgarrada que dá pelo nome de “Vira de Coimbra”. Sendo este o único fado de Coimbra que se coaduna com a minha voz, cantei-a anos a fio em encontros de amigos… mas nunca me preocupei verdadeiramente com o seu sentido. Era claro que teria a ver com o “Basófias” e com a sua falta de água durante a estiagem. Mas por que razão haveria eu de ir encher uma bilha de água ao rio?

    Entretanto, passei os olhos pelo , onde aquela quadra aparece, e foi então que entendi o óbvio: quem vai encher a bilha não é o estudante que canta o fado mas sim uma tricana. Trata-se, afinal, de uma versão moderna das cantigas de amigo…

    Até ao século XIX e ainda nas primeiras décadas do século XX, a “Coimbra dos amores” não estava ligada à Alta. Estava ligada ao Mondego e à parte baixa da cidade.

    Do Choupal até à Lapa foi Coimbra os meus amores…, canta Zeca Afonso, um fado de Mário Faria da Fonseca, gravado por Edmundo Bettencourt nos finais da década de 1920. E acrescenta Ó Coimbra do Mondego e dos amores que eu lá tive.

    E quanto a Augusto Hilário, lenda-viva que estudou em Coimbra de 1886 a 1896, diz o fado que leva o seu nome que cantava alta noite no Choupal e que toda a tricana escutava.

    No nosso tempo não teremos dedicado grande atenção ao Mondego e aos seus arrabaldes, até porque quem estudava em Coimbra tinha já a possibilidade de se deslocar no fim-de-semana até outras paragens fora de portas. Alguns de nós não terão, sequer, estado na Lapa ou no Choupal… muito menos alta noite. Mas o mesmo se não passava antigamente.

    Os saudosos campos do Mondego, de que fala Camões, eram então procurados amiúde pela população académica para passar os seus tempos de lazer, não apenas aos domingos, dias santos e de tolerância de ponto, mas também nas tardes durante a semana (já que apenas havia aulas de manhã), até que a cabra tocasse “as tristres” e os obrigasse a recolher ao estudo. E por ali se divertiam os escolares, fruindo a paisagem e cortejando as moças da terra – as tricanas – a quem iam prometendo casamento para depois das formaturas.

    Das margens do Mondego, e da sua bonita ponte de pedra, assistia-se, assim, à passagem de dois ciclos anuais, distintos mas simultâneos: o ciclo dos amores entre o estudante e a tricana, amores que fortificam nas estações mais frias para terminar em pleno Verão, no final de cada ano lectivo, com a partida para férias; e o ciclo das águas do Mondego – o “Basófias” – cujas cheias ocorrem no Inverno, na época em que os amores florescem, despreocupados e viçosos, mas cujas águas secam com a chegada do Verão.

    A quadra que vimos acima é a 7.ª de um conjunto de 18 quadras soltas, que António Nobre agrupou no sob o título Para as Raparigas de Coimbra. Se colocarmos em sequência 3 dessas quadras (7.ª, 8.ª, 13.ª e, novamente, a 7.ª), a sobreposição daqueles dois ciclos torna-se evidente.

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?

    No Inverno não tens fadigas,
    E tens água para leões!
    Mondego, das raparigas,
    Estudantes e violões!

    Agora, são tudo amores
    À roda de mim, no cais,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    O Painel de azulejos à entrada do Parque Manuel Braga parecerá, para muitos, uma simples evocação do “Basófias” antes da regularização do Mondego.

    Mas não será só isso. O que o painel expressa é o desabafo triste de uma mulher que amou, que se sentiu abandonada ao ver partir, talvez para sempre, o seu amado, e que viu secar as suas lágrimas nas areias quentes de um Mondego indiferente à sua mágoa.

    Zé Veloso 

3 comentários:

  1. Está muito interessante esta tua análise sobre as quadras que António Nobre dedica aos jogos amorosos entre as tricanas e os estudantes de Coimbra. Por acaso, li num pequeno estudo do "Só" que há poemas que apresentam uma singularidade estrutural que os diferencia dos demais...referindo-se ao facto de eles serem constituídos em contraponto, ou seja, em forma de vozes que se respondem, se completam ou se contrapõem. "Essa estrutura contrapontística - ou dialógica - patenteia-se através da disposição gráfica das estrofes, dos elementos formais nelas utilizados e dos temas desenvolvidos". Ao dispores as quadras na sequência 7-8-13-7,seleccionaste os desabafos da tricana, saltando outras quadras "em contraponto"...(Será?)

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    1. Obrigado, Marinela,
      O que eu fiz foi procurar no mesmo poema outras quadras que focassem o tema "Mondego" e ver que relação havia entre elas, de forma a entender o que o poeta tinha a dizer sobre tal tema "às raparigas de Coimbra".
      Agora que me chamaste a atenção, vou ver se encontro mais alguma coisa de relevante.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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    2. Marinela, a construção a que te referes pode estar presente noutros poemas do SÓ mas não no poema "Para as Raparigas de Coimbra". Não encontro nas 18 quadras soltas nada que se pareça com o que referes. São mesmo "quadras soltas" e apenas isso.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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