sábado, 26 de junho de 2010

FOGUEIRAS DE S. JOÃO

    Celebrou-se na noite passada o S. João no Porto, com o povo na rua, alho-porro, erva-cidreira, martelinhos, algazarra, eu sei lá que mais. De Coimbra chegam-me os ecos do costume: meia dúzia de “fogueiras”, que não chegam para ser notícia de jornal. E, no entanto…
    Até meados do século passado, o S. João tinha em Coimbra uma grande tradição. Mais lógico me pareceria que se festejasse o Santo António, santo que fez os seus estudos no Convento de Santa Cruz, antes de partir para Lisboa e de ter chegado a Pádua, e que se diz que terá passado algum tempo no Mosteiro dos Olivais.

    Mas não! As preferências iam para o S. João, esse santo casamenteiro a quem as raparigas confiavam a escolha de um bom marido, perito em "desencalhar" as que se sentissem desesperadas, como se deduz desta deliciosa e bem antiga quadra:

                    Ó meu rico S. João,
                    Casai-me, que bem sabeis:
                    O casar é aos catorze
                    Eu já tenho dezasseis...
    S. João é um santo folião, eu diria mesmo, um santo “desencaminhador”, cujas festividades misturam ritos ligados à figura de S. João Baptista com ritos pagãos herdados das celebrações do solstício de Verão.

    Recordo-me bem do pátio da casa onde nasci, em Ançã, onde na noite de S. João se saltava por cima duma fogueira – enorme para as minhas pernas de garoto – e se dançava de roda, encadeando os braços, ao som das quadras matreiras do santo:
                    Fogueiras do S. João
                    N
o que elas vieram dar
                   
Roubaram-me o meu amor
                   
Na maior força de amar.
    Mas nas fogueiras do S. João no interior da cidade de Coimbra, há muito que não havia fogueira alguma com lenha e fogo vivo. Pelos anos 40 a 60 do século passado, as fogueiras eram essencialmente arraiais onde se dançava ao ar livre, com danças marcadas por um "mandador". Quando o "mandador" folgava para molhar o bico ou tratar de outras precisões, era a altura da malta "dançar agarrado", modalidade menos espectacular para os mirones mas muito do agrado de quem estava ali para tentar a sua sorte. Célebres eram as fogueiras do Bairro de Celas, onde o "povo Salatina" foi realojado depois da destruição da Velha Alta. O arraial ocupava todo o largo redondo no meio do bairro, onde pontificava a imagem de S. João Evangelista, de cuja coroa saíam - como raios de Sol - os festões enfeitados que partiam em direcção ao casario circundante. Recordam-me alguns amigos que o largo era inclinado, o que não facilitava que a mole humana fizesse a roda mas sempre desculpava alguns desequilíbrios mais afoitos aquando da "dança agarrada".

    Indo mais atrás, à segunda metade do Séc. XIX, fossem elas na Alta, na Baixa ou no Calhabé, as fogueiras são-nos descritas como um conjunto de postes colocados em redor de um outro, ao centro e mais alto, ornamentados com buxos de verdura e festões, donde pendiam balões venezianos, sendo o conjunto iluminado por bicos de gás ou candeeiros de petróleo. Ali se "prantavam" os tocadores – viola, violão, guitarra, harmónio, ferrinhos, castanholas… – e um "mandador" a quem cabia marcar a coreografia das danças enquanto, no dizer de Trindade Coelho, andava a cachopada numa roda-viva nos braços dos estudantes, e os estudantes numa roda-viva nos braços da cachopada.
    As fogueiras eram a festa das tricanas. Elas é que organizavam, punham e dispunham. Elas eram as rainhas da festa e, lá mais pelos calores adentro, eram também a causa das zaragatas em que fatalmente as fogueiras haveriam de terminar, por mor das arremetidas dos estudantes, dos risinhos folgados das tricanas e da ciumeira dos futricas.
    As letras das músicas que se cantavam e dançavam chegaram até nós em livros da época e, mais recentemente, foram compiladas numa edição da C.M.C. (ver Nota 1). Mas é interessante que algumas delas aparecem também em fados de Coimbra que ainda hoje se cantam. À primeira vista parecem quadras soltas, sem qualquer sequência. Mas, se repararmos melhor, notaremos que elas retratam as tensões existentes no triângulo amoroso "estudantes – tricanas – futricas". E, com um pouco de fantasia, poderemos até imaginá-las como fazendo parte de uma desgarrada onde as três partes se iam mutuamente provocando.
    Por exemplo, a conhecida quadra:
                    O amor do estudante
                    Não dura mais que uma hora
                    Toca o sino, vai prà aula
                    Vêm as férias, vai-se embora...
... é claramente uma provocação ou um aviso de um futrica para uma tricana. Perante o desafio, responde a tricana, com soberba:
                    O meu amor é estudante
                   
Estudante de Latim
                   
Se ele se chegar a formar
                   
Ninguém tenha dó de mim...
... ainda que não deixe de confessar quanto o amor do estudante a traz cativa e a faz sofrer:
                    Amor como o de estudante
                    N
ão há outro não há não
                    L
eva toda a nossa vida
                    R
ouba o nosso coração.
    E quando o estudante se procura justificar perante a cidade:
                    Ó cidade de Coimbra
                    A
rrasada sejas tu
                    C
om beijinhos e abraços
                    N
ão te quero mal nenhum...
... logo um futrica, despeitado, contra-ataca e deita uma acha mais para a fogueira:
                    As tricanas todo o ano
                    V
ão plantar os seus amores
                    L
á no jardim do engano:
                    N
o coração dos doutores.
   A batalha aquece. O verniz está quase a estalar. Mas o estudante não desarma e vira-se para a tricana com voz insinuante:
                    Eu vim a Coimbra ao estudo
                    C
om tenções de me formar
                    A
penas vi os teus olhos
                    N
unca mais pude estudar...
... e quando a tricana se solta, ardente e graciosa:
                    Ó amor dá-me os teus braços
                    Q
ue eu dou-te o meu coração
                    A
ndo louca por abraços
                    F
ogueiras de S. João...
... a desordem está armada. Sai murro seco entre os homens, enquanto o mulherio acode pelos de fora e se delicia com o espectáculo.

    E vai-se depois até à Fonte do Castanheiro, hoje completamente ao abandono, no arrabalde da Arregaça. Era lá que todas as fogueiras se juntavam no final da folia. E ninguém mais se deitava antes que o sol raiasse, fazendo jus à expressão “noite de S. João”. Nas Memórias do Mata Carochas, conta-se que, ali chegados, todos faziam libações e abluções e os rapazes arrancavam canas bravas, davam-nas às raparigas e voltava-se no mesmo entusiasmo, em procissão da Cana Verde.
    Dizia a tradição que, naquela noite, as águas da Fonte do Castanheiro eram abençoadas, tal como os orvalhos e ervas várias, possuindo virtudes e poderes mágicos. Mas havia que aproveitar bem a noite... já que as virtudes daquela água só duravam até ao raiar do Sol. E que virtudes, Deus meu! Escreve Octaviano Sá que aquela era a água milagrosa, que traz noivo às raparigas!
                    Lembras-te ainda, Maria
                    D
a noite de S. João?
                    T
u contavas as estrelas
                    E
u as areias do chão.
    Zé Veloso
PS1: Esta crónica foi publicada inicialmente em 26 Jun 2010, tendo sido revista e acrescentada em 26 Jun 2011.
PS2: No primeiro Comentário a este post registei alguma informação adicional sobre as quadras utilizadas.
Nota 1: Fogueiras de S. João, o que elas vieram dar..., um estudo etnomusicológico das fogueiras de Coimbra, de Avelino Rodrigues Correia.

22 comentários:

  1. 1.
    No “Vira de Coimbra”, que é cantado em forma de desgarrada, utiliza-se quase sempre a quadra “Dizem que amor de estudante / Não dura mais que uma hora / Toca a cabra, vai pràs aulas / Vêm as férias, vai-se embora”. Julgo que se trata de uma quadra não original, burilada já pelos estudantes a seu favor.
    A quadra que deverá ser a original foi registada por Trindade Coelho no In Illo Tempore e corresponde à que utilizei no post. É muito mais venenosa do que a que hoje se canta! Não só porque afirma claramente que “O amor do estudante não dura...”, não se refugiando num vago “Dizem que amor de estudante não dura…”, como também porque em lugar de “toca a cabra” se diz “toca o sino”, expressão com uma carga muito mais depreciativa, por reduzir os estudantes a meninos internos de um colégio de frades. Ai futricas! E depois não queriam que a pancadaria rebentasse...
    Outra quadra muito cantada no “Vira de Coimbra” – “Dizem que amor de estudante / Não dura mais que uma hora / Só o meu é tão velhinho / Qu’ inda se não foi embora” – é claramente a resposta de uma tricana à provocação de um futrica.
    2.
    A canção de S. João que guardo na memória de garoto, e que porventura continuará a ser ainda hoje cantada, tinha duas quadras:
    - “Fogueiras do S. João / No que elas vieram dar / Roubaram-me o meu amor / Na maior força de amar”
    - “Ó amor dá-me os teus braços / Qu’ eu dou-te o meu coração / Ando louco(a) por abraços / Fogueiras de S. João”.
    3.
    A quadra com que termino o post – “Lembras-te ainda, Maria / Da noite de S. João? / Tu contavas as estrelas / Eu as areias do chão” – foi retirada da COIMBRA ANTIGA E MODERNA, 1886, de A. C. Borges de Figueiredo, o qual sugere que ela possa não ser originária de Coimbra mas sim importada de outra localidade.
    Zé Veloso

    ResponderEliminar
  2. E o mandador (vi e ouvi o "Calmeirão",largo do Borralho)gritava, madrugada alta, "sopeirame", futricas, estudantes (fardados) ou disfarçados
    -E vai de roda...Dancem suas badalhocas...não estejam aí "abozeiradas"-
    “Fogueiras do S. João / No que elas vieram dar / Roubaram-me o meu amor / Na maior força
    de amar”
    -E repete... ao contrário, e vai com palmas...
    Roubaram-me o meu amor ....
    E eu serrei...aperta aperta...
    Qu’ eu dou-te o meu coração
    Alarga....alarga ...
    Ando louco(a) por abraços
    E meia volta...
    Fogueiras de S. João”.
    E outra meia...ao contrário...
    E continua...
    Pois, então, para aquecer:
    Não te encoste à parreira
    Que a parreira deita pó
    Encostate à minha cama
    Sou solteiro(a) e durmo só...
    E também, mais tarde:
    Eu fui às iscas, ao Julião
    Comi-lhas todas
    Ferrei-lhe o cão
    Etc. Etc
    O meu abraço
    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Ola... Vocês têm mesmo uma veia poética...
    Pena que se tenha perdido nas gerações.
    Saudações Lysas

    ResponderEliminar
  4. Caríssimo Veloso:
    As fogueiras que referes - a do Bairro de Celas e a do mercado do Calhabé - também são do meu tempo.
    E, dessas, do que então se cantava, para além do já referido pelo Ricardo, recordo:

    Ai agora
    É que me maneio
    É que me maneio
    É que me rebolo,
    Nos braços do meu amor
    Agora é que me consolo.

    Vem registado em "Coimbra para ser Coimbra" de João Conde Veiga, que se formou em Direito e praticamente meu contemporâneo.
    Eram aqueles amores "que não duravam mais que uma hora" e o pessoal estava mais que disponível para distribuir consolos.
    Já não havia tricanas das autênticas, mas sim as sopeiras das redondezas e as idas à Fonte do Castanheiro também já eram coisas do passado.
    Quanto a fogueiras de fogo vivo, e não enveredando pela celebração do fogo, pelos solstícios, vinda do fundo dos tempos, em tempos mais recuados elas existiram mesmo em Coimbra, com o óbvio baile popular.
    Por volta de 1860 - com base nas Memórias do Mata Carochas - era assim,no Castelo:
    Às sete horas já o tição crepitava na fogueira, sempre muito alimentada para iluminar bem o lugar das danças.
    Às oito horas, o grito uníssono de - Viva S. João!
    As banzas rompiam o fado, as raparigas formavam roda por casais, cantadores soltavam as primeiras coplas de qualquer fado e o delírio imperava sem tréguas!

    As danças de roda deviam ser o "fim da picada", pois:
    "Cada homem tem em frente uma dama que anda para trás e o homem para a frente, enquanto se canta e findo o coro batem as embigadas e aí se floreia à vontade, tudo à voz do marcador:
    E vai mais uma!; E mais outra, chegadinhos!; E vira atrás e lá vai uma!; E mai outra!; Torna a virar!; E rodou; E uma e passa!;
    Alfim, se vai percorrendo toda a roda, dançando-se com todas as raparigas, caprichando cada qual nas denguices, nos requebros, no saracoteio, nos remexidos, no diabo, enfim, capaz de ressuscitar um morto!
    As modas maia apreciadas eram " O Ladrão" e o "Manel Ceguinho":

    O ladrão morreu
    Já lá vai p'ro Pio
    À saída da porta
    Deu um assobio.

    CORO
    Toma, leva amor, já lá vai p'ro Pio.
    ( o Pio era o cemitério, já nessa altura na Conchada.)

    O Manel Ceguinho
    Já não tem, não tem
    Aqui nesta terra
    Quem lhe queira bem!

    Os fados de Coimbra, que também se cantavam,eram por exemplo:

    O amor do estudante
    Não dura mais que uma hora
    Toca a cabra, vai p'ras aulas
    Vêm as férias, vai-se embora.

    Ó Coimbra , nobre cidade
    Dos estudos e das uvas;
    Os estudantes já foram,
    As moças estão viúvas!

    Ao alvorecer suspendia-se o acompanhamento e todos seguiam para a Fonte do Castanheiro, sempre tocando, dançando, pulando, fazendo o diabo (ou coisas do diabo, será de acrescentar!).
    Ali chegados todos faziam libações, abluções e os rapazes arrancavam canas bravas, davam-nas às raparigas e voltava-se no mesmo entusiasmo, em procissão da Cana Verde.
    Chegados à fogueira, dançava-se uma última roda de malhão, faziam-se as despedidas até à noite e tudo dispersava ao som de vivas ao S. João.

    Nessa época não haveria muita pancadaria nas fogueiras:
    Os futricas da Baixa não se atreviam a vir à Alta e os daqui relacionavam-se bem com a Academia.

    (Vou encerrar antes que isto "pife" e voltarei com a Fonte do Castanheiro)

    ResponderEliminar
  5. A Fonte do Castanheiro
    Ainda me lembro de, nos meus tempos de Liceu e hóspede de Salatinas de pura gema, quando - relembrando tempos passados - se falava nas idas à Fonte do Castanheiro, na noite de S. João, haver uma certa malícia tanto no tom das vozes como no cruzar de olhares cúmplices.
    Esse sentir vem bem definido na quadra recolhida pelo Conde Veiga, na obra já citada:

    Eu fui ver nascer o Sol
    À Fonte do Castanheiro,
    Amei e comi castanhas
    Agora, toco pandeiro!

    A ida à Fonte do Castanheiro foi sempre um dos rituais obrigatórios dessa noite única, que se reflectem em muitas modas desses tempos:

    As moças que aqui brincam
    À roda deste pinheiro
    Vão acabar com a dança
    À Fonte do Castanheiro.

    Vamos seguindo,
    Tocando no pandeiro...
    Vamos beber água
    À Fonte do Castanheiro.

    Está nos chamando
    Cupido brejeiro,
    Cantar e dançar
    Na Fonte do Castanheiro.

    Esta fonte ainda existe, lá para os lados da Arregaça, junto a uma rua com o mesmo nome.

    Ainda no meu tempo era praticamente um arrabalde e o que não seria nos séculos anteriores.

    Quantas labaredas, dos "fogos do solstício", não terão sido dominadas ao longo desses rústicos caminhos!

    Para terminar:
    Quase toda a gente que escreveu sobre os seus tempos de Coimbra, deixou um registo sobre as fogueiras.
    E dessas referências ressalta que eram as tricanas as rainhas da festa.

    Veloso: Como diria o Ricardo, "abuzeirei-me" deste teu espaço. Perdoa-me.

    ResponderEliminar
  6. A Fonte do Castanheiro.
    Os comentários recebidos neste post confirmam o que todos os escritos dizem: No final das fogueiras havia sempre uma romaria até à Fonte do Castanheiro (assim como no Porto se vai até às Fontaínhas: deve haver por aí semelhanças nos rituais antigos).
    A Fonte do Castanheiro aparece nos escritos como situando-se para os lados da Estrada da Beira – Calhabé.
    No Google é visível a Rua da Fonte do Castanheiro, perto do antigo campo da Arregaça. Alguém me consegue confirmar se a dita fonte ainda está por lá e enviar-me as suas coordenadas?

    ResponderEliminar
  7. Meu caro Zé Veloso
    A minha primeira nota, foi muito ligeira, apressada, um pouco brejeira e, até, com erro ortográfico.A tua prosa e qualidade na exposição merece atenção, a mais cuidada, com que sempre a leio.
    Fazes um boa distinção entre as”quadras”, as que têm um tema e um ritmo de desgarrada -com outras letras, acompanhadas à concertina, também as ouvi nas feiras beirãs de Vizeu (Sátam, Ladário,Castendo) ou romarias (St.Luzia, Srª.Lapa, Srª.Remédios)- e as “modas” das fogueiras de S.João, na Alta e Bairro de Celas,em Coimbra que vivi em menino e rapaz.
    Já com 10 anos (1946) e até aos 25, com os desterrados para o Bairro de Celas, pude dar conta dos factos, ainda que sem” entrar na dança”, ano após ano. As diversas comissões de residentes, para continuar com a tradição da Alta, organizavam a festança no Largo de S.João –a 20 metros da casa que eu habitava- onde está,ainda, a figura do Santo , mas o S.João Evangelista, dizem os entendidos.Esta monumental figura foi transladada do frontal do chamado colégio dos Loios,no alçado para o Largo da Feira dos Estudantes, como se pode ver na figura que apresentas, no tema da Queima das Fitas.
    Na Alta, nas fogueiras do Largo do Castelo (Hospital dos Lázaros, Arco do Castelo, Farmácia Pinheiranda, Leitaria do Raul, Livraria do Castelo,Encadernação do Correia, Taberna do Espanhol, morada do Dim-Dim, nos seus limites), não tenho memória de labaredas.Já eram outros tempos…só quando ardeu o Governo Civil.
    Outras labaredas a que assisti,ao colo de minha mãe, mas não me lembro-Julho de 1938,Festas da Rainha Santa, exercício dos bombeiros na Praça da República.
    No Bairro de Celas,as ornamentações seguiam um padrão comum, com os chamados “festões” de verdura, argolas de papel de cores diversas, balões, lâmpadas.Uns “festões” rodeavam o largo, outros,
    saindo de diferentes pontos do circulo , concorriam para um poste, nas costas da figura santo, culminando na” coroa de espinhos”. Os residentes colaboravam nesta ornamentação.
    O “palanque” dos músicos ora dentro, ora fora do circulo.Variando de composição e número, mas com frequente presença de 2 ou 3 elementos da Banda da PSP, um deles, com o enorme trombone. Lembro o vizinho Sr. Artur, que já partiu, com a concertina que, de vez a quando, animava o Bairro.
    Nas traseiras do palanque, o improvisado balcão das bebidas(pipo branco / tinto, petiscos, peixe frito), em formato quadrado/rectangular, para atendimento rápido, em pé, dos clientes.Anos depois, já era vulgar a cerveja, sem destronar o tintol.
    Havia instalação sonora para, horas antes, aquecer o ambiente, a debitar musica popular e a pré-anunciar a festa.Muitos residentes e visitantes colocavam cadeiras a marcar os lugares, onde era possível.
    As “modas” eram, predominantemente, de roda, com e sem palmas, em frente e volta para trás, arreda…arreda, e eu brinquei…ora bate , bate ,com o pé no chão…e meia volta, e outra meia, braços no ar…e balança…balança,que lindo barquinho.., etc, conforme o mandador.Não havia desgarrada, nem fado.
    Cantadeiras, sim.Não me ocorrem os nomes-podia perguntar à Maria,vizinha e ainda moradora, irmã do Adriano-também já partiu-nos seus 70 anos.

    ResponderEliminar
  8. Ricardo Figueireedo4 de julho de 2010 às 19:17

    Desentendimentos,também.Aconteciam com uns sopapos, intervenção dos agentes(2) da PSP destacados no local e dos “ membros da Comissão”. Ou por copos…ou por apalpões, ou por uma coisa e outra.
    Nada de grave, a noite ia alta e os pipos, também, ao alto.
    As “modas” de roda predominavam, mas já se transmitia música para “dançar agarradinho”, com vocalista, ao vivo.Para descansar o pessoal e justificar o”bar” que teria que produzir receita para suportar os custos e as baldas dos borlistas e maus pagadores.
    Este, um resumo, por um mirone, residente, que não entrava na dança.
    S.António, S.João e S.Pedro, longas noites de barulho que me obrigavam a deixar o quarto, ir para a Império (Sr. Manuel Oliveira, que teve padaria na Rua da Trindade -Alta)estudar.
    O tempo era escasso, às 13, do outro dia, tinha que assinar “o livro do ponto”.
    - Zé Roque, amanhã no Penedo da Meditação, 7 horas, dizia eu, há mais de 50 anos.
    E… acabou…como gritava o mandante.Sem fogueira, mas com o balão que muitas das vezes, não chegava a subir.

    ResponderEliminar
  9. Caro amigo
    A Fonte do Castanheiro ainda existe, está em regular estado de conservação.Vai ser alvo de uma restauração adequada (Junta de Freguesia de St. Antº. Olivais).Junto ao campo da Arregaça.

    ResponderEliminar
  10. Visitei a Fonte do Castanheiro no Verão passado. Foi uma odisseia para a descobrir, de tal forma se encontra abandonada. Fica na Rua da Fonte do Castanheiro, desviada 20 ou 30 metros da via. Chega-se até ela por uma estreita escadaria entalada entre duas casas antigas. Foi um milagre encontrar quem, na vizinhança, me soubesse indicar o acesso. Fiquei feliz por encontrá-la. Fiquei desolado ao vê-la!
    Zé Veloso

    ResponderEliminar
  11. Introduzi a voz do mandante, quanto a memória me permite e podem recordar.Estou a ouvir
    Abraço
    E vai de roda...agarra o par, mulher dentro...
    "Fogueiras do S.Jo...ão;O que elas vieram dar;Roubaram-me o meu amor;Na maior força de amar".
    E repete...ao contrário com palmas)"
    (E eu serrei...)
    Ó amor dá-me os teus braços;
    (E atrás, vai com palmas..)
    Que eu dou-te o meu coração;
    (E eu dancei..)
    Ando louco por abraços:
    (E ao contrário...)
    Fogueiras do S.João".
    E vai de roda...

    ResponderEliminar
  12. Acabei de descobrir este Blog.
    Como tudo o que diz respeito a Coimbra me dá imenso prazer, fico sempre nostálgico quando se trata da Coimbra antiga e das suas tradições.
    Também eu fui e sou ainda fã do Ramim e do Bentes.Também eu nasci nas Fogueiras do Romal e continuo a não faltar todos os anos quer ao Romal (que já não é o que era), quer ao Largo do Marquês de Pombal onde o grupo Grupo Etnográfico de Coimbra faz reviver as danças de roda ou melhor dizendo, as Danças de Terreiro. Aproveito sempre para ensinar a rapaziada que procura acertar com as danças.
    Deram cabo da Alta mas não conseguem dar cabo das nossas memórias. Quase nada me lembro da velha Alta, pois era muito miudo.
    Continua a manter-se, através dos Grupos Folclóricos, a tradição de ir à Fonte do Castanheiro.
    Das cantadeiras apenas me lembro da Emilia do Julião, no Romal, que não afinava quando o pessoal cantava;

    Eu fui às iscas
    ao Julião,
    comi-lhas todas,
    ferrei-lhe o cão

    Veio o polícia,
    p'ra me prender,
    virei-lhe as costas,
    pus-me a mexer..

    Um abraço,
    Henrique Melo

    ResponderEliminar
  13. Caro Henrique Melo,
    Foi com imenso prazer que li o seu comentário, o qual me traz informação sobre as fogueiras de hoje, que agradeço imenso, dado que não estava ao corrente do que me conta. São acontecimentos que não passam para a grande comunicação social… que não chegam a Lisboa e ao resto do país.
    Aliás, esta crónica suscitou tantos comentários e informações adicionais da primeira vez que saiu, que me levou a revê-la passado um ano, incorporando muito do saber desses comentários e de outras coisas que, entretanto fui procurando.
    Não há dúvida: vou ter de estar nas fogueiras do S. João de Coimbra do próximo ano e gostaria de aí o conhecer.
    Tem o meu endereço de e-mail (jveloso700@gmail.com). Fico a aguardar o seu contacto.
    Zé Veloso

    ResponderEliminar
  14. A opinião de um estudante, em Direito, lisboeta:
    "Dos ensaios e fogueiras nascem casamentos, algumas participações por desfloramento e vozes para o teatro da Trindade.
    Antigamente, dizem-me, as fogueiras eram na rua, sem qualquer estrado e dançava toda a gente; havia bordoada quando qualquer mais atrevido dançava à baile de mascaras. As fogueiras vão até Julho, celebrando-se então o concurso entre todos e disputa do prémio da cidade.
    Estas festas têem uma côr local: a mecanica de tudo isto é interessante. Mas para quem vem de Lisboa, é pouco ou talvez demasiado em ingenua poesia, e por isso eu não me aclimatei ainda.Tenho saudades da minha Lisboa(1904)."
    In Cartas de uma tricana(Coimbra 1903 a 1908)Herlander Ribeiro-ed.1936

    ResponderEliminar
  15. Onde posso encontrar a música da letra das fogueiras de são joão?

    ResponderEliminar
  16. Cara Lúcia Leal
    Em tempos folheei um livro que tinha várias partituras de músicas do S. João mas não sei agora como encontrá-lo.
    Vou colocar a pergunta na página "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA" no Facebook a ver se alguém saberá.
    Mas tavez se arranje outra alternativa. Mande-me um mail para jveloso700@gmail.com

    ResponderEliminar
  17. Não li as notas anteriores, mas esta está muito interessante. Por todo o país, até à minha juventude, época em que vivia na Beira Alta, toda a população da vila participava nos festejos de S. João, uns mais do que outros. Mas ninguém ficava indiferente. O teu texto trouxe-me à memória toda essa tradição que se vai desvanecendo e perdendo a espontaneidade. Entristece-me ver como hoje tudo se converte em espectáculo mediático.
    Esta tua crónica é mais um excelente trabalho, um registo histórico importante,
    Obrigada, Zé Veloso.
    Um abraço.
    Marinela

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado, Marinela!
      O espectáculo puro e duro é, de facto, algo em que algumas das tradições populares se foram transformando. Mas cá está este blogue - e tantos outros mais - para ajudar a que a raiz das coisas se não perca na folhagem do tempo.
      Um abraço,
      Zé Veloso

      Eliminar
  18. COIMBRA NO S. JOÃO: VERSOS PARA O POVO CANTAR E GUARDAR NO CORAÇÃO...
    Coimbra: Casa Minerva, 1952 - In 8º de 30p.

    Abraço
    JPBaeta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado, João Baeta, pela informação.
      Abraço
      Zé Veloso

      Eliminar
  19. Caro Veloso
    Mais umas notas para acrescentar ao que já consta sob o titulo “ Fogueiras de S João”, em Coimbra ( com fogueira) e que encontrei nas minhas leituras, referidas ao ano de 1882:
    “Depois veio o S. João. A noite de cantigas e fogueiras accendeu a alma alegre da mocidade. Os bailes à roda de chammas ateadas por lenha e barris que cheiravam a alcatrão, convidavam as raparigas aos requebros, e saracotearem-se com a desenvoltura dos verdes anos, estimuladas ainda por quadras lyricas da fina flor de cabbelo solto e capas nos braços…….
    Os futricas faziam roda, e assistiam calados, mas alguns mordiscavam o bigode como cavalos arabes o freio quando nervosos e conscientes da próxima luta”
    In António Claro- Memórias de um vencido-1882 a 1921-1923 pag. 73

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado, Ricardo, por ires sempre juntando mais e mais informação.
      Abraço,
      Zé Veloso

      Eliminar