À entrada do Parque Manuel Braga, um painel de azulejos
tem pintada uma bem conhecida quadra de António Nobre. Qual o significado desta
quadra? Será apenas uma evocação do “Basófias” ou será algo mais do que isso?
Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
Trata-se de uma quadra que é de inclusão quase
obrigatória na letra da desgarrada que dá pelo nome de “Vira de Coimbra”. Sendo
este o único fado de Coimbra que se coaduna com a minha voz, cantei-a anos a fio
em encontros de amigos… mas nunca me preocupei verdadeiramente com o seu sentido.
Era claro que teria a ver com o “Basófias” e com a sua falta de água durante a
estiagem. Mas por que razão haveria eu de ir encher uma bilha de água ao rio?
Entretanto, passei os olhos pelo Só, onde aquela quadra
aparece, e foi então que entendi o óbvio: quem vai encher a bilha não é o
estudante que canta o fado mas sim uma tricana. Trata-se, afinal, de uma versão
moderna das cantigas de amigo…
Até ao século XIX e ainda nas primeiras décadas do século
XX, a “Coimbra dos amores” não estava ligada à Alta. Estava ligada ao Mondego e
à parte baixa da cidade. Veja-se, a este propósito, o que diz a canção de Coimbra.
«Ó Coimbra do Mondego e dos amores que eu lá tive...» canta
Zeca Afonso, um fado com música de Mário Faria da Fonseca e letra de António de Sousa, gravado por Edmundo Bettencourt em Dezembro de 1929. E acrescenta, na segunda quadra, «Do Choupal até à Lapa foi Coimbra os meus amores…»

No nosso tempo não teremos dedicado grande atenção ao
Mondego e aos seus arrabaldes, até porque quem estudava em Coimbra tinha já a
possibilidade de se deslocar no fim-de-semana até outras paragens fora de
portas. Alguns de nós não terão, sequer, estado na Lapa ou no Choupal… muito
menos alta noite. Mas o mesmo se não passava antigamente.
Os «saudosos campos do Mondego», de que fala Camões, eram, então, procurados amiúde pela população académica para passar os seus tempos de
lazer, não apenas aos domingos, dias santos e de tolerância de ponto, mas
também nas tardes durante a semana (já que apenas havia aulas de manhã), até
que a cabra tocasse “as tristres” e os obrigasse a recolher ao estudo. E por ali
se divertiam os escolares, fruindo a paisagem e cortejando as moças da terra – as
tricanas – a quem iam prometendo casamento para depois das formaturas.
Das margens do Mondego, e da sua bonita ponte de pedra, assistia-se,
assim, à passagem de dois ciclos anuais, distintos mas simultâneos: o ciclo dos amores entre o estudante e
a tricana, amores que floresciam, despreocupados e viçosos, durante as estações mais frias, para vir a terminar no final de cada ano lectivo, com a partida para férias; e o ciclo das águas do Mondego – o “Basófias”
– cujas cheias ocorriam no Inverno, mas cujas águas secavam com a chegada do Verão.
A quadra que vimos acima é a 7.ª de um conjunto de 18
quadras soltas, que António Nobre agrupou no Só sob o título Para as
Raparigas de Coimbra. Se colocarmos em sequência 3 dessas quadras (7.ª, 8.ª,
13.ª e, novamente, a 7.ª), a sobreposição daqueles dois ciclos torna-se
evidente.
Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
No Inverno não tens fadigas,
E tens água para leões!
Mondego, das raparigas,
Estudantes e violões!
E tens água para leões!
Mondego, das raparigas,
Estudantes e violões!
Agora, são tudo amores
À roda de mim, no cais,
E, mal se apanham doutores,
Partem e não voltam mais…
À roda de mim, no cais,
E, mal se apanham doutores,
Partem e não voltam mais…
Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
Vazia como a levei!
Mondego, qu' é da tua água,
Qu' é dos prantos que eu chorei?
O Painel de azulejos à entrada do Parque Manuel Braga
parecerá, para muitos, uma simples evocação do “Basófias” antes da
regularização do Mondego.
Mas não será só isso. O que o painel expressa é o desabafo
triste de uma mulher que amou, que se sentiu abandonada ao ver partir, talvez
para sempre, o seu amado, e que viu secar as suas lágrimas nas areias quentes de
um Mondego indiferente à sua mágoa.
Zé Veloso