Coimbra p'ra ser Coimbra
Três coisas há-de contar:
Guitarras, tricanas lindas,
Capas negras a adejar.
Três coisas há-de contar:
Guitarras, tricanas lindas,
Capas negras a adejar.
Esta quadra antiga, a que o ritmo vivo do Vira de Coimbra empresta uma alegria, uma juventude - e também uma nostalgia - difíceis de igualar, continua a ser uma das mais cantadas em qualquer Serenata de Coimbra, dentro ou fora das portas da cidade.
Ela simboliza a tripeça em que sempre se apoiou a mística do estudante de Coimbra: o estudo (capas negras), a borga e a vida airada (guitarras), e os amores fugazes e ardentes da juventude (tricanas lindas). E com a particularidade de que, sendo o estudo representado pelas capas negras a adejar, aquilo que seria um fardo se transforma em bandeira ondulante da fantasia!
Mas será que aqueles ícones ainda hoje se mantêm? Como é fácil de ver, não totalmente.
E não é por culpa das capas negras, as quais, tendo embora deixado de ser um traje do dia-a-dia do estudante, continuam a aparecer por altura das festas académicas. Nem por causa das guitarras, as quais, ao que penso, são hoje mais populares em Coimbra do que o eram no meu tempo. Nem tão-pouco porque as tricanas tenham deixado de ser lindas. Mas simplesmente porque as tricanas já nem são lindas nem feias. Extinguiram-se, pura e simplesmente.
Mas quem eram, afinal, as tricanas? Tricana era o nome pelo qual era conhecida, até ao início do Séc. XX, a mulher do povo na região de Coimbra, mas também em Aveiro, Ílhavo, Ovar, e até na região de Águeda. Só que a tricana de Coimbra ficou mais célebre, por causa da sua estreita ligação com a estudantada que pululava na cidade e para a qual se sentia irresistivelmente atraída.
A primeira referência deste relacionamento encontra-se, ao que se pensa, numa peça de teatro - Eufrósina - escrita em meados do Séc. XVI, pouco depois da instalação definitiva da Universidade em Coimbra. Nesta peça, cujo autor não encarava bem os estudantes (seria ele futrica?), diz-se que estes "andavam em alcateia da cidade para o rio, gabadores e palreiros, namoriscando as moças com parolas latinas, chusma de ociosos cujo trato amoroso era todo de comer feito, como se nunca saíssem do mal cozinhado". E como se tal não bastasse, uma tricana sabida, de seu nome Vitória, lá diz a páginas tantas que os "estudantes bons mancebos são. Se não fossem tão devassos!… O pior que é: muito palreiros e gabadores do feito e por fazer... "
Como é fácil de perceber, os estudantes de hoje, como os do meu tempo, não diferirão muito dos seus antepassados no que toca à sofreguidão do trato amoroso e à publicidade que fazem dos troféus de noitada, sejam eles reais ou virtuais. Adiante…

Digamos que também se cultivaram e requintaram, no contacto com tantos letrados bem-falantes que lançavam graças em latim, exercício fácil para quem tinha obrigatoriamente de usar a língua latina portas adentro dos Gerais, passada que fosse a, por isso mesmo, designada Via Latina.
Abro aqui um parêntesis para lembrar que, se hoje nos queixamos de que os alunos chegam à Universidade sem saber português, em tempos idos o mesmo se dizia do latim, sendo a entrada na Universidade precedida de um exame nesta língua morta que, à época, ainda estaria meia viva.
E a tricana que chega ao Séc. XX já pouco tem a ver com a lavradeira e lavadeira dos séculos anteriores. Ela é já fruto de cruzamentos de sangue com as sucessivas levas de estudantes que invadiram o burgo nos séculos precedentes, sendo até algumas conhecidas e tratadas por apelidos fidalgos das mais nobres casas do reino. E têm já tiques da aristocracia, como bem o demonstra o facto de uma célebre tricana, Rosa Espanhola, se ter recolhido a um convento de Braga em 1900, por vias de uma desilusão de amor com um não menos célebre estudante de Direito.
As tricanas de Coimbra alimentaram durante séculos a fantasia e os impulsos amorosos dos estudantes que a cidade acolhia. Mas o amor do estudante pela tricana tinha a morte anunciada, com a entrada da mulher na Universidade. Era uma questão de tempo. E no meu tempo já não havia lugar para elas. O amor do estudante tinha-se transferido definitivamente das tricanas para as colegas.