Como é que o
cortejo da Queima de hoje é visto pelos estudantes de ontem? Para tirar as
dúvidas, fui até Coimbra no primeiro domingo de Maio.
Quem for do meu
tempo e tenha perdido o rasto a estas celebrações dirá que me enganei, que o
cortejo não foi no domingo, mas sim na terça. Ou, então, dirá que “a Queima já
não é o que era…” mas isso só mostra que a festa continua viva e autêntica pois
que, se continuasse tudo na mesma – numa sociedade que muda todos os dias – por
certo a Queima já estaria morta. Paradoxalmente, a tradição mantém-se viva porque
a celebração se vai renovando.
Voltando ao dia
de terça-feira – uma “vaca sagrada” cujo abate em 2010 levantou alguns protestos
– lembro que ele não era tradição muito antiga: o acto de queimar as fitas
estreitas ou grelo começou por ter lugar no último dia do ano de cada curso,
dia esse que não era o mesmo para todas as Faculdades (chamava-se “dia do ponto”,
a que se seguiam as férias de ponto e, depois, os exames); só em 1919 passaram todos
os cursos a queimar as fitas e a desfilar na mesma data; entre 1919 e 1947, queima
e cortejo foram sempre a 27 de Maio, dia comemorativo do conflito “Olha o Boné!”;
e só a partir de 1948 se fixaram na terça-feira. Entendo perfeitamente que o
cortejo tenha agora sido mudado para domingo, dia em que mais facilmente as
famílias se poderão deslocar a Coimbra para ver desfilar e abraçar aqueles que estão
no centro da festa e, quantas vezes, também no centro dos seus projectos de
vida e das suas preocupações orçamentais.
Mas esse revés
deixou-me tempo livre para subir até ao Largo D. Diniz e ao largo da Sé Nova e
observar por dentro a preparação da festa. Fiquei boquiaberto com a eficácia da
organização, aliás, única forma de pôr em marcha, sem engarrafamentos, um
cortejo com quase uma centena de carros, todos eles concentrados na zona da
velha Alta desaparecida.
Ao longo dos
arruamentos, os locais de estacionamento de cada carro estavam meticulosamente
marcados no chão, com a indicação do seu número de ordem no cortejo. Pelas 11
da manhã, só metade dos carros ocuparia o seu lugar, mas os restantes iam
chegando, sem atropelos, e tudo se compunha!

Tudo previsto,
tudo muito profissional! E lembrar-me eu que quando o meu carro, saído do
Quartel da GNR, chegou à Alta, a confusão reinante era tal que mal se conseguia
romper até ao palanque, prantado num cruzamento sem significado algum; e que, antes
que o carro se pisgasse – que o motorista já berrava de dentro da cabina que
não tinha sido contratado para que lhe amolgassem a camioneta – lá houve um de
nós que conseguiu chegar ao penico, levou consigo mais uns grelos emprestados e
trouxe de volta o fogo com que queimámos o resto dos grelos e mais os dedos, sem
ninguém que nos dissesse como é que aquilo se fazia e sem fotos que ficassem
para a posteridade… Ah!, como eu invejo as facilidades de hoje!
Longe, muito
longe, vão os tempos do vinho espumoso Messias, a 5$00 a garrafa, que agitada
de boca em boca fazia saltar aquela zurrapa mais o gás pelo nariz! Longe vão os tempos onde os carros
não tinham outro acesso que não fosse uma escada de pedreiro que se encostava pelo
lado de fora e obrigava as fitadas a subir com a saia (des)travada e uma capa a
servir-lhes de biombo!
Aliás, a grande
animação do cortejo, ao nível do solo, é hoje assegurada pelos cartolados,
cujos cânticos, gritos e coreografias, envolvendo as cartolas e as bengalas coloridas,
nada têm a ver com o ar grave (de pré-instalados na vida) que os cartolados do
meu tempo faziam questão de ostentar. Talvez seja assim porque os cartolados de
hoje, sabendo o que os (não) espera no final do ano, se alienam desse triste
cenário, cantando a plenos pulmões – e, estou certo, cheios de convicção – que
não querem deixar Coimbra nem a vida de estudante.
Pena é que muitos estudantes não saibam usar a capa e batina! É uma tristeza! Chega a ser confrangedor observar a forma desajeitada como alguns tratam a parte mais distintiva e funcional do traje – a capa! Não sabendo usá-la, parece que têm medo dela! Há quem a ponha ao ombro, de forma muito estudada e estática, dobradinha a rigor como acontece com os manequins das montras. Há quem a coloque no braço, engomadinha como uma toalha, estilo criado de café a quem só falta uma bandeja na mão com um galão e uma torrada! Inventaram, até, uma moda que não entendo como não é proibida, que consiste em fazer da capa – enrolando-a sobre si própria com a ajuda de um colega e juntando as pontas com dois nós – uma espécie de chouriço que se coloca a tiracolo… há muito que não via coisa tão inestética! Ao invés, muitos optam por trazer a capa caída pelos ombros, em posição de cerimónia (sem qualquer enrolamento da parte superior), vulgarizando uma postura que deveria ser guardada para situações excepcionais. Que saudades do tempo em que qualquer um sabia traçar a capa com elegância, trazê-la no braço ou ao ombro sem presunção… e sem ter de ler o “manual de instruções”! O que hoje se vê era inevitável: ninguém pode sentir-se à vontade com aquilo que só usa nos dias de festa!
Mas há razões que
a razão desconhece: ainda que não consiga descortinar nada escrito no Código da
Praxe, fez-se tradição que o caloiro só possa traçar a capa na noite da
serenata, em local nobre (Porta Férrea, Porta de Almedina, Sé Velha) e com a
ajuda de um padrinho. Isto não radica em nenhuma tradição da Academia de
Coimbra, sendo puro folclore, porventura importado de outra universidade! E tem
efeitos perversos: é o mesmo que dizer a um caloiro que não use capa e batina e
que apenas a compre nas vésperas da Queima, já que ter uma capa e não poder
traça-la é como ir a Roma e não poder ver o Papa! Para uma Academia que gosta
de apregoar que a praxe é boa para integrar os caloiros – e sabendo-se que a
identidade do traje é, em qualquer sociedade, um dos segredos da integração – vou
ali e já volto!
Faço-me à estrada
a meio da tarde, já que me espera um jantar em Lisboa. Ainda só terão passado
nos Arcos uma vintena de carros mas eu já conheço o resto do filme, pois que em
1999 me integrei no cortejo com a malta da minha República – Os Ly-SOS: primeiro
passarão os carros da Universidade (59), depois os dos Institutos Politécnicos,
Escolas Superiores e Universidades Privadas (25), num total de 84, menos do que
em 2011 (será da crise?). Ao contrário do que acontecia há 13 anos, em que os
carros não pertencentes à Universidade só entravam no cortejo a partir dos
Arcos do Jardim, hoje todos eles saem da Alta mais alta. Imperou o bom-senso e
Bolonha deu uma ajuda! Soube mais tarde que, afinal, apareceram mais uns
quantos carros que, à revelia, se integraram no cortejo. Não tirei a limpo a
notícia mas não me admiraria que fosse malta a “fugir ao fisco” da Comissão.
Com uma “canga fiscal” elevada, os patrocinadores em crise e os
“paitrocinadores” apertados, tudo é de esperar. Na Queima como no país…
E o cortejo
fechará com o já costumeiro batalhão de carros e pessoal de limpeza da Câmara
que, vindo algumas dezenas de metros atrás, atacará, com notável eficiência e eficácia,
o tapete de vasilhame e demais desperdício que a gente educada deixou pelo chão.
Em 1999 apreciei esse tão deplorável como fascinante espectáculo: de uma
penada, escolhem o lixo, atiram-no para cima dos carros, varrem e lavam a rua
ao som estridente de uma sinfonia parida de dentro de um vidrão gigante. Agora,
o som da sinfonia já não será tão cristalino e lembrará mais um batuque de
samba, pois que, entretanto, a embalagem de lata destronou a garrafa de vidro.
Uma Queima em
permanente mudança!...
Adeus, cortejo de
2012! Para o ano há mais…
Zé Veloso
Notas fotográficas
A primeira fotografia (obtida numa postagem de Luís Pinto Coelho), é relativa à Queima de 1933. À esquerda da foto, sentado atrás, está o Professor Doutor Pinto Coelho, das Químicas.
A foto da Serenata Monumental foi obtida da net.
As restantes foram tiradas por mim no dia do cortejo.
A plaquete fotografada é do carro de Farmácia FARMASUTRA, cujo "balcão de bar" aparece numa das fotos do cortejo.
ZV
Notas fotográficas
A primeira fotografia (obtida numa postagem de Luís Pinto Coelho), é relativa à Queima de 1933. À esquerda da foto, sentado atrás, está o Professor Doutor Pinto Coelho, das Químicas.
A foto da Serenata Monumental foi obtida da net.
As restantes foram tiradas por mim no dia do cortejo.
A plaquete fotografada é do carro de Farmácia FARMASUTRA, cujo "balcão de bar" aparece numa das fotos do cortejo.
ZV