Na edição de 1792 do Palito Métrico aparece um curioso texto, no qual um Bacharel aconselha um rapazote, que se prepara para ir estudar para Coimbra, sobre a forma económica de aí viver. Falando na escolha da habitação, diz-lhe a páginas tantas: Para que em Coimbra habite economicamente, não procure casas; procure, sim, a casa de umas casas, quero dizer, alugue um quarto, o qual baste para recolher-se a estudar, a comer e a dormir.
Mas nem só nos quartos se habitava. Estudantes mais abastados alugavam casas onde viviam com seus criados, cavalos e alfaias, luxo que, evidentemente, não estava ao alcance de todas as bolsas. Aliás, o nosso Bacharel também advertia contra os perigos de alugar uma casa: Pelo que pertence à habitação, adopte V. M. o nosso adágio – Casa, em quanto caibas – nem V. M. lá para o futuro caia em gastar o seu dinheiro em obras de pedra e cal.
Voltando ao Palito Métrico, o Bacharel fazia figura de sábio mas não contava tudo. Por exemplo, esquecia-se de informar que os alojamentos eram escassos e que havia senhorios que preferiam deixar as casas devolutas, não só porque o tabelamento das rendas (que vigorou até à Reforma Pombalina) tornava o negócio pouco aliciante, mas também porque era difícil a convivência da população de Coimbra, sobretudo a da Baixa, com a sociedade académica, face aos abusos e à vida desregrada de muitos escolares.
Entretanto, desde há muito que os estudantes respondiam, quer à escassez de alojamento quer à magreza das mesadas, com formas diversas de partilha e entreajuda, as quais, segundo Artur Ribeiro (Perspectiva histórica da República de Coimbra, Rua Larga) remontarão aos tempos de D. Diniz. E é Artur Ribeiro que escreve a dado passo: Ribeiro Sanches, em 1763, traça-nos o seguinte quadro: “Cada dois ou três estudantes têm uma ama, um e, às vezes, três criados;(…)”. Este autor estará a referir-se a pequenas comunidades de escolares com certo poder económico porque, outras comunidades haveria em que o número de estudantes seria bem superior. Uma análise cuidada dos registos de matrículas dá-nos, para esta época, um número médio de cinco residentes, nos casos de habitação partilhada. Todavia, Ribeiro Sanches introduz um novo elemento, a figura da “ama” que estará muito próxima da serviçal ou “servente” das “Repúblicas” do Século XX.
Alternativamente, havia ainda um elevado número de ordens religiosas que dispunham de colégios que albergavam prioritariamente os alunos daquelas ordens, vulgarmente estudantes de Teologia, mas que albergavam também, e em número não despiciendo, outros alunos e até professores. Só que, chegados a 1834, Joaquim António de Aguiar – o «Mata Frades», aquele que ocupa hoje o centro do Largo da Portagem mas que ocupava à época o Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça – extingue as ordens religiosas, arrastando nesta extinção todos os colégios, conjuntamente com conventos, mosteiros, hospícios e demais edifícios que àquelas ordens pertenciam.
A pressão sobre o alojamento aumenta mais ainda e haverá grupos de estudantes que ficam, de um dia para o outro, sem o seu aboletamento garantido. Mas a necessidade aguça o engenho. E a malta, liberta de tutelas, parte decididamente para a autogestão, organizando-se e governando as suas casas à maneira de uma República, tal como em França, sob a égide dos princípios Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
Estávamos em meados do Séc. XIX e assim começavam as «Repúblicas» de Coimbra!
O problema é que em Portugal se vivia numa monarquia! Chamar a essas casas simplesmente «República» era demasiado desafiador. Mas «Real República», sendo uma forma dúplice, já agradava a todos: aos de fora da casa, que entenderiam que se a República era «real» então não ofendia a ordem monárquica; e aos de dentro da casa, para quem o «Real» só queria dizer que se tratava, realmente, de uma República, governada pelos próprios, sem ter de dar cavaco fosse a quem fosse.
Gonçalo Reis Torgal (Coimbra Boémia da Saudade) conta-nos que a denominação das primeiras Repúblicas estava ligada à origem dos seus repúblicos (Repúblicas Ribatejana, Transmontana, Minhota, de Tomar…) ou ao local da sua instalação (Repúblicas da Estrela, dos Grilos, da Matemática, das Cozinhas, dos Palácio Confusos…), só mais tarde aparecendo os nomes humorísticos que chegaram até aos dias de hoje. Mas ainda no meu tempo muitas das Repúblicas (ou Solares) agrupavam gente de proveniência comum: os 1000-y-Onários vinham de Moçambique enquanto o Kimbo dos Sobas tinha gente de Angola; o Rapó-Taxo era malta de Cantanhede, enquanto a Bamus-ó-Bira e a Boa-Bay-Ela vinham do Minho; os Corsários da Ilhas vinham dos Açores, sendo o Farol da Ilhas de malta da Madeira.
Também eu vivi numa Real República «de Coimbra», durante 3 anos. Só que essa Real República se situava – e se situa ainda – no Porto: a Real República do Ly-S.O.S., fundada por universitários de Coimbra que iam ao Porto terminar os seus cursos de Engenharia e Farmácia, República que brilhou a grande altura no contexto das Repúblicas do Porto e que é hoje o único espécime naquela cidade.
A Real República do Ly-S.O.S. festeja este sábado e domingo o seu LII Centenário! 52 anos é obra! Lá estarão em convívio inter-geracional os actuais repúblicos e os «velhinhos», os fundadores e as gerações intermédias. Porque uma República é património de todos os que nela viveram, ainda que as decisões caibam apenas aos que nela hoje vivem.
Não podendo este ano estar no Porto com a família Lysa, daqui me junto em uníssimo num sonoro F-R-A!, gritando convosco: – É malta Ly!!!... S.O.S.!!!
Zé Veloso
PS - A Real República dos Ly-S.O.S. foi inaugurada com pompa e circunstância em 18 de Novembro de 1959. A foto abaixo foi tirada nesse dia, com os fundadores (falta um) e as duas madrinhas na varanda do primeiro prédio que acolheu a República. Alguns dos nomes têm uma especial relação com Coimbra: Jorge Anjinho, que foi presidente da AAC-OAF; Júlia Condorcet, filha do radiologista Dr. Pais Mamede (Condorcet, the King os Embarrilation), famoso ilusionista amador; Augusto Carmona da Motta, filho do célebre Pantaleão, companheiro inseparável do boémio Castelão de Almeida.

Boa tarde!
ResponderEliminarComo antigo "inquilino" desta República, saberá dizer-me se os estudantes que, "na sua altura", a habitavam eram praxistas?
E hoje? Continuam a sê-lo?
Se as respostas forem as que eu penso que são, qual é a sua opinião sobre isso?
Ainda outras questões:
Li num jornal, possivelmente o Primeiro de Janeiro ou o Jornal de Noticias de um qualquer dia de Maio de 1969 - numa noticia sobre o cortejo da Queima das Fitas - que esta República participava no cortejo com um carro próprio. Era comum isto acontecer? Os estudantes, caso praxistas, optavam por ir em que carro? No da República ou no do Ano/Curso? Que outras Repúblicas o faziam? Que outras Repúblicas existiam no Porto?
Caro Luís,
ResponderEliminarTenho muito gosto em responder-lhe às várias questões que me coloca. Mas deixe-me primeiro fazer-lhe uma pergunta, para poder enquadrar adequadamente a minha resposta:
- o que quer exactamente dizer com as qualificações de "estudante praxista" e "estudante não praxista"?
Zé Veloso
Praxista, que praxa.
ResponderEliminarNão praxista, que não praxa.
Parece-me isso.
Obrigado! Ficarei ansiosamente à espera de ler essas respostas.
ResponderEliminarQuanto à sua questão:
Para mim "estudante praxista" é aquele que é praxado e aquele que praxa.
É aquele que, enquanto estudante do Ensino Superior, vive o dia-a-dia abraçando os usos, costumes e tradições que, globalmente, se denominam Praxe.
É o estudante que veste Capa e Batina, que usa a pasta da Praxe e nela põe fitas quando o tempo de as usar chegar, que traça a capa quando numa Serenata, que respeita uma hierarquia... É o estudante que usa e interpreta o mesmo que eu quando diz e ouve palavras como "latada", "grelo", "semi-puto", "trupe" ou "rasganço", entre muitas outras...
Não falei em "estudante não praxista", mas entendo essa "qualificação" como alguém que não quer viver estes anos segundo esses usos, costumes e tradições. Não por ser contra, mas simplesmente porque lhe "passa ao lado".
A alguém que se auto-domine "anti" é porque será claramente contra a Praxe no seu todo.
(Parte 1/2)
ResponderEliminarCaro Luís,
Percebi perfeitamente os seus conceitos. Como não existe correspondência absoluta entre os seus e os do meu tempo, utilizarei os meus e você fará depois as devidas transposições. A resposta é longa, mas tive necessidade de enquadrar as respostas no sentir de uma época sobre a qual já passou quase meio século.
1. Sobre se os “repúblicos” (na República não existiam “inquilinos”) de então eram praxistas.
A minha “escola”, tal como a de todos os Lysos dos anos 60, é a escola de Coimbra, onde, naquele tempo (liceu anos 50, universidade até 65/66) a praxe era natural, endémica, embebida na história da cidade. O direito na “praxe” (ou nas “praxes”) era consuetudinário. Apesar de existir já o Código da Praxe de 1957, o comum dos estudantes desconhecia-o em absoluto, ainda que conhecesse de sobra as regras que teria de seguir no seu dia-a-dia ao longo do curso. “Praxe” era, pois, o conjunto de usos e costumes pelos quais a sociedade académica (incluindo-se neste grupo os estudantes e professores universitários e os estudantes do liceu) se regulava. Em regra, a praxe não se questionavam e era para todos, gostassem ou não.
Ao fundar uma República no Porto, na qual era condição de admissão ter-se já passado por Coimbra, aquele espírito foi transposto para o Porto, onde a tradição praxística era bem menor e, ao contrário de Coimbra, não estava arreigada na vida da cidade. Daí que a República tivesse praxes próprias, que praticava intra-muros. Dou como exemplo o rasganço que, não existindo no Porto, era mantido pela República, mas à porta da casa e não à porta da Faculdade. Nunca a República quis entrar em choque com as (poucas) praxes existentes no Porto, normalmente decalcadas das de Coimbra, mas também não abdicou das suas próprias praxes.
Naquele tempo, em Coimbra, o termo “praxar” aplicava-se à actividade de mobilizar, troçar, chatear os caloiros. Era típico do início do ano, até às latadas. Depois disso esmorecia. O termo “praxista” era utilizado para designar aqueles que se empenhavam no “desempenho” da praxe para além do que era normal, exibindo até um certo fundamentalismo em termos de trupes, sanções de unhas, mobilizações de caloiros, etc.. Ou seja, “praxista” era aquele que, em lugar de usufruir com naturalidade as tradições académicas da praxe, colocava um particular denodo no seu exercício, com especial incidência nos aspectos sancionatórios. Um “praxista ferrenho” era um tipo que vivia essencialmente para o exercício da praxe, e das praxadelas, correspondendo a uma pequena minoria.
Na República dos Ly-S.O.S. quem chegava de novo era apelidado de “caloiro”, mesmo que viesse para o último ano da Faculdade. Como tal, era “praxado” intra-muros, por via de regra através de picardias verbais, a ver se o tipo era “peludo” e se perdia o pêlo. Quem não afinasse com a brincadeira ou respondesse com classe… rapidamente se via livre de tais troças. Em tudo o mais era um repúblico como os outros. O lugar de secretário da República – lugar trabalhoso por ter de responder às cartas que chegavam de repúblicos antigos, fazer actas, etc. – costumava ser confiado a um “calorio”. No dia do Centenário os caloiros serviam à mesa fardados a rigor.
Finalmente, à data em que andei na FEUP (66/67 a 68/69), tendo ainda uma cadeira na Faculdade de Ciências, nunca me recordo de ter visto nessas Faculdades qualquer caloiro a ser praxado. Acho que o conceito não existia. Tal como não existia o hábito de ir às aulas de capa e batina, o que era perfeitamente vulgar na Coimbra do meu tempo, inclusivamente no liceu.
E hoje, como é? A actual República tem também as suas praxes para os “caloiros”, mormente um baptismo no dia do Centenário. Naturalmente, terá também as suas praxes (usos, costumes, códigos de conduta,…) que balizam o viver dos Repúblicos enquanto tal: mais não lhe sei responder mas poderá sabê-lo directamente da boca dos actuais repúblicos, Rua António Granjo, 86, Porto.
(continua)
(Continuação, Parte 2/2)
ResponderEliminar2. Queima das Fitas
A República foi no cortejo em carro próprio nos anos de 61, 67 e 69. No carro da República sempre foram todos os repúblicos, independentemente do seu grau académico. Eu fui no carro de 67 como grelado e no de 69 com o cartolado. Em 68, ano em pus fitas largas, fui no cortejo a pé, já que nem a República nem o meu curso fizeram carro.
Não acompanho as actuais praxes no Porto mas suspeito que as coisas hoje estejam mais estruturadas. Naquele tempo, a existência de um carro do LySOS era coisa pacífica; não me recordo se as outras Repúblicas faziam o mesmo, mas admito que o não fizessem. Em Coimbra a maioria dos fitados ia num carro mas o ir-se ou não num carro era uma opção pessoal, havendo quem preferisse ir apeado. No Porto, pelo que me lembro, eram mais os apeados dos que aqueles que iam num carro.
3. Outras Repúblicas no Porto
Existiam nos anos 60 umas seis ou sete Repúblicas oficializadas no Porto, não existindo entre elas nenhum organismo coordenador de cúpula, tipo Conselho de Repúblicas. Para além dos Ly-S.O.S. recordo quatro nomes: Já-Nu-É, Deixa-Ká-Ver (DKV), da Regeneração e 24 de Março.
Se quiser saber mais sobre a R.R. Ly-S.O.S. há um livro muito bom (470 páginas amplamente ilustradas com depoimentos de repúblicos de todas as épocas): «A Real República dos LYSOS no seu V Milenário». Na Rua António Granjo ainda deve haver exemplares.
Um abraço,
Zé Veloso
Revendo a foto, recordo a grande maioria dos presentes, caloiros comigo, em Coimbra. Na amizade que perdura entre os vivos, o meu abraço e na saudade dos já idos, a sentida lembrança. A todos, repúblicos de gerações sucessoras e actuais residentes, os votos de um alegre e são convívio, neste aniversário e votos na continuidade dos ideais académicos dos fundadores.
ResponderEliminarMeu caro Veloso, mais um boa contribuição, esta, para um dia de comemoração.
Muitíssimo obrigado por respostas tão completas!
ResponderEliminarNa semana passada, em passeio, passei pela porta desta República só para matar a curiosidade, mas na altura decidi, possivelmente mal, não bater à porta nem pedir qualquer tipo de informação aos inquilinos actuais. Está visto que um dia destes passo por lá outra vez!
A propósito das "repúblicas" e origem do termo.
ResponderEliminarAo longo dos últimos cinco anos, participei na elaboração de um estudo sobre o fenómeno das tunas em Portugal. Naturalmente, e como as conversas são como as cerejas, vamos atrás de uma informação e deparam-se-nos as coisas mais insuspeitas.
Foi assim que ao procurar informações sobre o traje académico espanhol - o autêntico, não aquilo que as tunas espanholas usam - topei com estudo sobre a vida dos estudantes em meados do séc. XVI em Salamanca.
Lá se referiam as modalidades de alojamento. Se os estudantes alugavam um quarto, chamavam-se "camaristas" (de "cámara" - quarto em espanhol). Se alugassem toda a casa, chamavam-lhe "compañías" ou "repúblicas". Neste caso, contratavam os serviços de lavandaria e cozinha a amas e lavadeiras.
Não deixa de ser curioso. Aliás, há termos na gíria de Coimbra que foram decalcados de Salamanca - o que não é estranho, dado o prestígio desta universidade ao longo de todo o Antigo Regime.
Está ainda por fazer um estudo profundo e comparativo entre a praxe destas duas universidades - há-de haver, naturalmente, influências mútuas.
Forte abraço,
Eduardo
Caro Eduardo,
ResponderEliminarEssa informação das Repúblicas de Salamanca é muito interessante. Obrigado.
Um abraço,
Zé Veloso