A partida conta-se em dois parágrafos.
Cavalheiro maduro, com posição, procura menina prendada para fins
matrimoniais – assunto sério – e mete anúncio no jornal. Resposta dada ao
apartado número tantos, mais carta menos carta o pretendente aparece em Coimbra
pronto a conhecer a noiva e pedi-la em casamento, que quem põe anúncio é porque
tem pressa e quem responde deve estar na mesma onda. Só que a prometida noiva não
é mais do que uma súcia de marmanjos que não perde a ocasião para gozar o
pratinho.
Atraído o bom do homem a Coimbra, monta-se um cenário digno de um filme de Kusturica,
que levaria o mais crédulo a desconfiar da marosca mas de onde o herói da fita
já não consegue saltar fora, pois que fica tão mal dentro dela como saindo pela
esquerda baixa no meio da surriada geral. Há que beber o cálice até ao fim! E,
lá no fundo, existe sempre a esperança de que a noiva – tão bonita!!! – não seja
um belo rapaz vestido de saias e engraxado com pó-de-arroz e batom, que a
família e os putativos padrinhos não sejam a súcia de amigos que responderam ao
anúncio e que a algazarra que vai na rua se justifique pelo júbilo de um povo
que vê, enfim, chegar o cavaleiro que desposará e tornará feliz para todo o
sempre a sua princesa tão querida…
O primeiro caso passou-se em Maio de 1916. O maduro era um respeitável
comerciante de Lisboa, onde tinha um restaurante vegetariano. Procurava senhora
de meios e para tal achou que nada melhor do que colocar o anúncio bem longe, num
jornal do Porto. Mas a República Cometa, hoje desaparecida, estava atenta e teve
argumentos suficientes para atrair o nosso “vegetariano” a Coimbra, metê-lo num
carro de cavalos onde a noiva o aguardava e organizar um cortejo com outros
trens que o seguiram desde o Coimbra-Hotel até aos Arcos do Jardim, onde ficava
a república. O homem desconfiou e chegou a apear-se do carro para se pôr em
fuga. Mas lá o convenceram a continuar... disseram-lhe que a imprensa estava
controlada e que a sua reputação não corria perigo… a festa continuou e o
casamento foi de arromba.
Na República esperavam já um suposto Conservador do Registo Civil, os
padrinhos e os convidados e tudo se passou conforme os cânones, incluindo, à
noite, uma sessão no Teatro Avenida, com a estudantada aplaudindo em delírio o
casal de noivos que assistia do camarote principal. Para descanso da noiva – o estudante
Manuel Beires da Silva – o casamento não chegou a consumar-se entre os lençóis.
Não porque o “vegetariano” desdenhasse de comer o seu naco de carne – por
alguma razão botara o anúncio – mas porque, trazida a verdade à luz do dia em
plena noite, o “vegetariano” se pisgou para parte incerta e não mais foi visto
na cidade.
Um ano depois, Maio de 1917, uma vez mais um sujeito de Lisboa se arriscou
a passar pelo mesmo calvário em Coimbra. Chamava-se ele João Andrade e, pela
certa, não teria tido conhecimento das bolandas em que o “vegetariano” se vira
envolvido. Marcada a entrevista para conhecer a noiva numa república da Rua
da Matemática, não teve qualquer pejo em comparecer. E só não foi levado em
cortejo nupcial porque, entretanto, soube-se do falecimento do estudante que
fizera de noiva do “vegetariano” e a paródia ficou por ali. Donde se prova que
o azar de uns é a sorte de outros…
As notícias destes casos deverão ter feito mossa, já que durante mais de
uma década não houve solteirão que se arriscasse a procurar noiva em Coimbra
pelo jornal, o que não terá deixado de constituir um prejuízo para meninas que
estivessem “encalhadas”, fosse por terem falta de graça, fosse por terem graça
de mais.
Mas a Primavera sempre puxa pelo amor. E chegados a Abril de 1930, um novo
pretendente apareceu, um tal senhor Nunes, natural de São Caetano, freguesia de
Ranhados, concelho de Viseu, que passou à história como o “Nunes de Ranhados”. O anúncio saiu,
discretamente, num jornal de Viseu e nada apontava para que fosse interceptado
pelos radares da Real República Ribatejana, sita na Rua do Militares, onde pontificava
uma parelha que ficou célebre pelas piadas que forjou na Coimbra dos anos 30 – Castelão
de Almeida, director de “O Ponney” e Henrique Mota, o “Pantaleão”, que montaram
uma encenação que ficou para a história.
O cortejo viria a terminar no 1.º andar da Central, a cuja janela assomaram
os noivos, para que quem estava na rua pudesse assistir a um recatado beijo
nupcial. Na fotografia, em primeiro plano, o Nunes parece pouco à vontade com o
atrevimento da noiva – o estudante João Duarte. Atrás, da esquerda para a
direita, Igrejas de Bastos, Henrique Mota “Pantaleão”, Augusto Castelão de
Almeida e Luís Fagulha
Segundo António José Soares, não houve cerimónia nupcial mas fizeram-se
fotografias e decorreu depois uma lauta boda no restaurante da Pastelaria
Central.
Mas nem sempre o último é quem ri melhor. A Real República Ribatejana há
muito desapareceu, enquanto Ranhados continua no mapa.
Zé Veloso
Nota 1: Fotografia retirada do Volume II do livro "Saudades de Coimbra" de António José Soares, edição da ALMEDINA.
Nota 2. No primeiro comentário a este post transcrevo a versão do noivado do Nunes
de Ranhados que aparece no livro TESTEMUNHOS, escrito em 1997 pela então viúva
do “Pantaleão”, onde o papel da noiva é atribuído ao próprio Castelão de
Almeida.
Pela qualidade e finura do depoimento, não resisto a transcrever na íntegra o relato que o livro TESTEMUNHOS faz do Noivado do Nunes de Ranhados, conforme texto publicado no Facebook “Penedo d@ Saudade – TERTÚLIA”, pelo meu amigo Augusto Carmona da Mota, filho do “Pantaleão”.
ResponderEliminarNão sei bem como o caso começou.
Anúncio no jornal pedindo noiva?
O certo é que certo senhor Nunes da aldeia de Ranhados resolveu que era tempo de casar e nenhuma das cachopas casadoiras da terra o entusiasmaram a ponto de o levarem a dar o nó.
Como o soube o jornal "O Ponney", o certo é que começou um namoro inflamado com cartas incendiárias cada vez mais enamoradas até que chegou ao ponto de o Nunes conhecer a Noiva de que conhecia a fotografia, o que realmente era pouco.
Sempre por cartas combinou-se o primeiro encontro em casa da noiva.
No dia aprazado estava tudo a postos na Real República Ribatejana.
Havia o pai, o tio Augusto (Pantaleão), primos, irmãos, enfim uma família toda masculina excepto a gentil noiva lindamente vestida, pintada sem exagero, recatada, tímida, enfim o ideal de um não citadino.
O noivo chegou, viu e ficou convencido, a seguir a um almoço bem servido, com a noiva, o pai e o tio (não era conveniente irem sós) hei-los percorrendo a cidade, vendo monumentos, jardins - e o Nunes embevecido não tinha olhos se não para a engraçada menina, nem reparava na enorme quantidade de malta que os precedia e seguia.
A meio da tarde foram à Central lanchar e o célebre Petróneo , a princípio atónito de ver o café cheio de rapaziada não habitual cliente, não tardou a compreender e associar-se à solidária manifestação de simpatia estudantil.
É que a tímida noiva, etérea e angelical era... o Castelão de Almeida, célebre boémio e director de o jornal “O Ponney”.
De "TESTEMUNHOS" (1997)
de Mª José Figueiredo Carmona da Mota 1917-2006
em homenagem póstuma a seu marido Dr. Henrique Pereira da Mota ("PantaLeão") 1905-1980
Já conhecia a história que me foi contada pelo meu pai, mas não me canso de a ler e saborear a forma literária graciosa de quem a escreve: o Augusto Carmona da Mota e o Zé Veloso! Parabéns aos dois e obrigada por nos fazerem reviver as partidas da estudantada desses tempos, sempre marcadas por uma certa elegância e muita alegria, apesar de, forçosamente, haver alguma "vítima" pelo meio...
ResponderEliminarLi a mesma "história" creio que no livro Coimbra de capa e batina,mas a "noiva" era o Figueirinhas, Figueiral Figueiredo da Figueira da Foz....o Dr.José de Figueiredo,futuro director do teatro S.Carlos,ou estou equivicado....
EliminarPode haver confusão nos nomes, o que é natural. As fontes para este tipo de narrativas encontram-se, por via de regra, em livros de memórias de antigos estudantes, escritos já naquela fase da vida em que a memória confunde algumas situações longínquas. Mas o essencial está lá.
EliminarObrigado pelos comentários.
Zé Veloso
Pelos anos 80 do passado séc.XX, ao balcão da Farmácia S. José, em Coimbra - na altura situada aos Arcos do Jardim - acerca-se da nora do Prof. Lúcio de Almeida, que aguardava ser atendida, um indivíduo cumprimentando delicadamente e identificando-se dizendo:
ResponderEliminar- Minha Senhora, eu sou a "noiva"...
Fico curioso...
EliminarPensando um pouco... diz António José Soares que a "noiva" do "vegetariano" faleceu no ano seguinte. Logo, não seria essa.
Quanto à "noiva" do Nunes, já esclareci com o filho do Pantaleão não ter sido o papel desempenhado pelo Castelão de Almeida, mas sim pelo caloiro João Duarte...
A ser assim, será que era João Duarte que delicadamente se identificava na Farmácia S. José, pelos anos 80 do passado séc. XX?