Terminada que está a Queima das Fitas deste ano, chegou a altura de responder ao repto lançado no último post: – Quais são, afinal, as origens da Queima? Estarão tais origens no Centenário da Sebenta, como é afirmado nos sites oficiais da Academia de Coimbra? Eu penso que não.
Antes de mais, o Centenário da Sebenta ocorreu em 1899. Ora, António José Soares diz ter encontrado em 1900 referências à "antiga queima" e Alfredo de Pratt conta-nos, em 1899, como se queimavam as fitas e como eram as demais festividades, fazendo-o de forma que permite supor que já nessa época havia uma tradição.
Voltando ao Centenário da Sebenta, evento bombástico que decorreu de 28 a 30 de Abril de 1899, as celebrações meteram Zés-Pereiras e muita algazarra, os caloiros foram emancipados, houve sarau e cortejos monumentais envolvendo cerca de 30 carros que desceram da Porta Férrea até à Baixa e 30 barcos que desfilaram no "Basófias". As semelhanças com a Queima são evidentes, nomeadamente no que toca ao cortejo e à emancipação dos caloiros, mas são também ilusórias, porque as festividades não coincidem no essencial, como adiante se mostra.
Quanto ao queimar das fitas, ele fazia parte dos festejos levados a cabo pelos quartanistas no dia do ponto, o último dia de aulas, o qual acontecia, por via de regra, depois de 12 de Maio. Já o Centenário da Sebenta foi outra coisa: não se destinou a festejar o final do ano lectivo, não se queimaram as fitas, aconteceu antes do dia do ponto e foi organizado por uma comissão que integrava alunos de vários anos, enquanto a Queima sempre foi organizada pelos quartanistas (até ao interregno de 1969).
Esta questão das festas da Queima terem sido, décadas a fio, organizadas pelos quartanistas, ou seja, por aqueles que só daí a um ano viriam a deixar Coimbra, é de facto intrigante. Mas por que razão não eram as festas organizadas pelos alunos finalistas, como em todo o lado?
As fitas que se queimavam eram umas fitas estreitas de algodão, da cor de cada faculdade, que serviam para atar as pastas em que se guardavam as sebentas. Eram queimadas pelos quartanistas com grande cerimonial, no dia do ponto. Como esse dia não era o mesmo para todas as faculdades, cada curso queimava as fitas em separado. Mas note-se que os escritos dessa época apenas referem os quartanistas de Direito e de Medicina, os cursos de maior tradição na nossa Universidade, ainda que isso possa doer aos meus colegas engenheiros.

Estranho costume este que só durou até o chão ter sido calcetado, e que nem vejo como poderia manter-se nos dias de hoje. O pudor não me deixa imaginar as nossas quartanistas greladas de perna aberta em tais preparos; e grande teria de ser a cova, para conter o líquido orgânico de tanta gente, num cortejo onde a cerveja é de borla. Mas se o costume desapareceu, ficaram os seus vestígios: ainda há não muito tempo as fitas – fita estreita ou grelo – se queimavam num penico; e pelos anos 40 ainda havia o costume de levar um desses vasos no interior do carro da Queima e, ali mesmo, se tratar do rescaldo das cinzas.

E começa aqui a fechar-se o ciclo do significado e das origens da Queima: o último exame a sério era, na prática, o do final do 4º ano, aquele que dava direito à obtenção do grau de bacharel. Todo o esforço era feito até aí e, por isso mesmo, os correspondentes festejos, como se do fim do curso se tratasse – e para alguns assim era, já que o grau de bacharel permitia (como hoje volta a permitir) saídas profissionais.
Mas, mesmo para os que ficavam, as velhas pastas com fitinhas para amarrar as sebentas já não tinham préstimo daí para a frente. Havia, sim, que urinar-lhes em cima, escarnecer dessas “fitas operárias” que eram lixo e substituí-las. Ao bacharel, o que importava não era mais estudar – pois que o último ano seriam favas contadas – mas sim afirmar o seu grau de forma que bem se visse, dizer ao país que estava ali uma sumidade, com direito a um lugar ao sol. Para isso ele precisava de outras fitas, bem largas, que pudesse ostentar com um ar potencialmente próspero. Eram (são) as fitas largas.
Para os que continuassem em Coimbra, até à licenciatura, teriam um ano para as exibir. Para os que saíssem de Coimbra com o grau de bacharel, já poderiam afirmar lá na terra, como era costume dizer-se nos finais do Séc. XIX, que "tinham urinado à Porta Férrea".
Zé Veloso
Caro Zé Veloso
ResponderEliminarO teu blogue tem para mim o interesse de me despertar recordações. Não se trata de investigação histórica, salvo se for necessário corrigir ou precisar algum facto. Sim.motivar a crónica, o pitoresco/anedótico de alguns episódios, ocorridos no decurso da nossa estadia em Coimbra, é um objectivo muito interessante.Os nossos colegas, amigos,poderão aproveitar para nos contarem,também, as suas memórias.
A fotografia que apresentas-não a conhecia-lembra-me o dia (17-11-43) em que ardeu o edifício central,Governo Civil, no Largo da Feira dos Estudantes.Eu estava na “bicha” para o pão, na rua lateral, à direita, na “padaria do espanhol”. Este espanhol(galego) era familiar de outro que tinha a tasca, ao inicio da Rua dos Anjos, esquina com a Trindade que, quando a Alta foi demolida abriu outra, mais moderna, com restaurante ,na rua da Sofia, antes da garagem dos Oliveiras.Eu tinha sete anos, feitos, e competia-me estar na “bicha”, manhã/madrugada, muito cedo, a guardar vez, com a “senha” na mão.Ali ouvi as palavras mais brejeiras que, até então , desconhecia, e assisti a algumas zaragatas, “à unha e aos cabelos”.O José Henrique Dias, na Outra Face do Espelho,natural da Alta, contemporâneo, também o refere. O nosso colega, amigo, Zé Rebelo, acompanhando a empregada doméstica,estava no outro lado da rua, largo de S.João, na bicha da padaria do Matoscabo, vizinha da mercearia do Ventura,depois em Montarroio, conforme, recentemente, relembrando o facto, descobrimos..
O edifício, Colégio de S.João Evangelista (a estátua do santo vê-se, na foto, no cimo do edifício e, hoje, no Largo onde têm lugar as fogueiras de S.João, no Bairro de Celas), também conhecido pelo Colégio dos Loios começou a arder sobre a madrugada-ao tempo, causas desconhecidas-e dada a sua vetustade e recheio de arquivos, foi um ar que lhe deu. As telhas estoiravam, o calor ajudou a aquecer a noite fria e não houve, nesse dia, mais bicha, com a proteção policial a proteger a recolha dos arquivos remanescentes.
À esquerda, na área da carroça, situava-se o tal tanque/fontenário.Á direita, o edifício da Junta de Freguesia/Escola Primária Feminina.Na esquina, Rua do Rego d’ Água, no Natal, a “pinta a pêra”fritava os belhoses.A porta central, a vermelho, entrada para a 1ª.esquadra da PSP, janelas da sala de ensaio da banda e subindo a ladeira, as grades das prisões.Na ladeira,subindo para o Largo do Castelo, à direita, a taberna do Lebre e à esquerda a Papelaria Grilo.
Obrigado, Zé Veloso.
É para mim um prazer aqui beber a sabedoria dos antigos estudantes de Coimbra. Faço votos para que continuem a dar a conhecer às gerações mais novas todo esse inestimável conhecimento de experiência feito sobre a cidade, a Academia e a Universidade.
ResponderEliminarSaudações Académicas!
Pois fartei-me de aprender com este texto.
ResponderEliminarNunca fui muito dada a estas coisas das tradições académicas...um exemplo - sempre me fez muita confusão, ver aqui (por Lisboa) os estudantes a passarem calor com o traje académico e a pedirem nos semáforos para irem viajar e beber uns copos.
Por isso, gosto de aprender sobre estas tradições, diferentes das que vi nos meus tempos de estudante universitário.
Estes factos são sempre bem vindos àqueles que passaram por Coimbra nos tempos de antanho, em que o espírito académico era muito vivo e toda a Academia fazia um todo.
ResponderEliminarObrigado Zé Luís
Meu caro Zé Veloso
ResponderEliminarEncontrei, por acaso, um filme que cobre uma Queima das Fitas de 1930, no sitio que segue:
http://www.youtube.com/watch?v=Gz08BcEHpEY&feature=related
Interessante.Talvez motives os teus apreciadores a ver...
O meu abraço