terça-feira, 12 de junho de 2012

CASAMENTOS MARADOS. DO VEGETARIANO AO NUNES DE RANHADOS


A partida conta-se em dois parágrafos.

Cavalheiro maduro, com posição, procura menina prendada para fins matrimoniais – assunto sério – e mete anúncio no jornal. Resposta dada ao apartado número tantos, mais carta menos carta o pretendente aparece em Coimbra pronto a conhecer a noiva e pedi-la em casamento, que quem põe anúncio é porque tem pressa e quem responde deve estar na mesma onda. Só que a prometida noiva não é mais do que uma súcia de marmanjos que não perde a ocasião para gozar o pratinho.

Atraído o bom do homem a Coimbra, monta-se um cenário digno de um filme de Kusturica, que levaria o mais crédulo a desconfiar da marosca mas de onde o herói da fita já não consegue saltar fora, pois que fica tão mal dentro dela como saindo pela esquerda baixa no meio da surriada geral. Há que beber o cálice até ao fim! E, lá no fundo, existe sempre a esperança de que a noiva – tão bonita!!! – não seja um belo rapaz vestido de saias e engraxado com pó-de-arroz e batom, que a família e os putativos padrinhos não sejam a súcia de amigos que responderam ao anúncio e que a algazarra que vai na rua se justifique pelo júbilo de um povo que vê, enfim, chegar o cavaleiro que desposará e tornará feliz para todo o sempre a sua princesa tão querida…

No essencial, a partida foi sempre a mesma e aconteceu por três vezes na Coimbra académica do primeiro terço do século XX. Aliás, aconteceu por duas vezes e meia, já que um dos alvos da paródia escapou à vergonha por um triz. E a semelhança entre os casos – que andaram de boca em boca e assim foram sendo transmitidos às gerações seguintes – faz com que, à distância, se pense que foi um só e se confundam os seus actores. Mas António José Soares, que escreveu Saudades de Coimbra consultando os jornais da época, conta-nos cada uma das façanhas com algum detalhe. Vamos a elas.

O primeiro caso passou-se em Maio de 1916. O maduro era um respeitável comerciante de Lisboa, onde tinha um restaurante vegetariano. Procurava senhora de meios e para tal achou que nada melhor do que colocar o anúncio bem longe, num jornal do Porto. Mas a República Cometa, hoje desaparecida, estava atenta e teve argumentos suficientes para atrair o nosso “vegetariano” a Coimbra, metê-lo num carro de cavalos onde a noiva o aguardava e organizar um cortejo com outros trens que o seguiram desde o Coimbra-Hotel até aos Arcos do Jardim, onde ficava a república. O homem desconfiou e chegou a apear-se do carro para se pôr em fuga. Mas lá o convenceram a continuar... disseram-lhe que a imprensa estava controlada e que a sua reputação não corria perigo… a festa continuou e o casamento foi de arromba.

Na República esperavam já um suposto Conservador do Registo Civil, os padrinhos e os convidados e tudo se passou conforme os cânones, incluindo, à noite, uma sessão no Teatro Avenida, com a estudantada aplaudindo em delírio o casal de noivos que assistia do camarote principal. Para descanso da noiva – o estudante Manuel Beires da Silva – o casamento não chegou a consumar-se entre os lençóis. Não porque o “vegetariano” desdenhasse de comer o seu naco de carne – por alguma razão botara o anúncio – mas porque, trazida a verdade à luz do dia em plena noite, o “vegetariano” se pisgou para parte incerta e não mais foi visto na cidade.

Um ano depois, Maio de 1917, uma vez mais um sujeito de Lisboa se arriscou a passar pelo mesmo calvário em Coimbra. Chamava-se ele João Andrade e, pela certa, não teria tido conhecimento das bolandas em que o “vegetariano” se vira envolvido. Marcada a entrevista para conhecer a noiva numa república da Rua da Matemática, não teve qualquer pejo em comparecer. E só não foi levado em cortejo nupcial porque, entretanto, soube-se do falecimento do estudante que fizera de noiva do “vegetariano” e a paródia ficou por ali. Donde se prova que o azar de uns é a sorte de outros…

As notícias destes casos deverão ter feito mossa, já que durante mais de uma década não houve solteirão que se arriscasse a procurar noiva em Coimbra pelo jornal, o que não terá deixado de constituir um prejuízo para meninas que estivessem “encalhadas”, fosse por terem falta de graça, fosse por terem graça de mais.

Mas a Primavera sempre puxa pelo amor. E chegados a Abril de 1930, um novo pretendente apareceu, um tal senhor Nunes, natural de São Caetano, freguesia de Ranhados, que passou à história como o “Nunes de Ranhados”. O anúncio saiu, discretamente, num jornal de Viseu e nada apontava para que fosse interceptado pelos radares da Real República Ribatejana, sita na Rua do Militares, onde pontificava uma parelha que ficou célebre pelas piadas que forjou na Coimbra dos anos 30 – Castelão de Almeida, director de “O Ponney” e Henrique Mota, o “Pantaleão”, que montaram uma encenação que ficou para a história.

Chegado de comboio à Estação, o "Nunes de Ranhados" identificou-se da forma combinada nas cartas de preparação do encontro, desembarcando com uma carta na mão esquerda, ridiculamente a dar a dar. Vinha doido para conhecer a menina “Alice Amélia Torres” mas logo ficou a saber que havia um tal “primo Augusto”, terrível rival com quem teria de disputar os favores da menina Alice. Rumados à Alta para um almoço com a “família Torres”, que o mesmo é dizer com a malta da República e amigos (o célebre Fred, Dr. Fernandes Martins, também entrou na festa), seguiu-se um passeio turístico pela cidade, num carro aberto que levava o Nunes e a noiva, acompanhados, claro está, pelo pai e pelo tio da dita, não fosse a menina “ficar falada”. Apesar de haver centenas de comparsas correndo à frente e atrás do carro numa restolhada infernal, o bom do Nunes nunca desconfiou, aceitando por boa a explicação de que tais manifestações faziam parte da “Festa do Passarinho”, por mero acaso celebrada nesse mesmo dia.

O cortejo viria a terminar no 1.º andar da Central, a cuja janela assomaram os noivos, para que quem estava na rua pudesse assistir a um recatado beijo nupcial. Na fotografia, em primeiro plano, o Nunes parece pouco à vontade com o atrevimento da noiva – o estudante João Duarte. Atrás, da esquerda para a direita, Igrejas de Bastos, Henrique Mota “Pantaleão”, Augusto Castelão de Almeida e Luís Fagulha

Segundo António José Soares, não houve cerimónia nupcial mas fizeram-se fotografias e decorreu depois uma lauta boda no restaurante da Pastelaria Central.

Mas nem sempre o último é quem ri melhor. A Real República Ribatejana há muito desapareceu, enquanto Ranhados continua no mapa.

Zé Veloso

Nota 1: Fotografia retirada do Volume II do livro "Saudades de Coimbra" de António José Soares, edição da ALMEDINA.
 
Nota 2. No primeiro comentário a este post transcrevo a versão do noivado do Nunes de Ranhados que aparece no livro TESTEMUNHOS, escrito em 1997 pela então viúva do “Pantaleão”, onde o papel da noiva é atribuído ao próprio Castelão de Almeida.

6 comentários:

  1. Pela qualidade e finura do depoimento, não resisto a transcrever na íntegra o relato que o livro TESTEMUNHOS faz do Noivado do Nunes de Ranhados, conforme texto publicado no Facebook “Penedo d@ Saudade – TERTÚLIA”, pelo meu amigo Augusto Carmona da Mota, filho do “Pantaleão”.

    Não sei bem como o caso começou.
    Anúncio no jornal pedindo noiva?
    O certo é que certo senhor Nunes da aldeia de Ranhados resolveu que era tempo de casar e nenhuma das cachopas casadoiras da terra o entusiasmaram a ponto de o levarem a dar o nó.
    Como o soube o jornal "O Ponney", o certo é que começou um namoro inflamado com cartas incendiárias cada vez mais enamoradas até que chegou ao ponto de o Nunes conhecer a Noiva de que conhecia a fotografia, o que realmente era pouco.
    Sempre por cartas combinou-se o primeiro encontro em casa da noiva.
    No dia aprazado estava tudo a postos na Real República Ribatejana.
    Havia o pai, o tio Augusto (Pantaleão), primos, irmãos, enfim uma família toda masculina excepto a gentil noiva lindamente vestida, pintada sem exagero, recatada, tímida, enfim o ideal de um não citadino.
    O noivo chegou, viu e ficou convencido, a seguir a um almoço bem servido, com a noiva, o pai e o tio (não era conveniente irem sós) hei-los percorrendo a cidade, vendo monumentos, jardins - e o Nunes embevecido não tinha olhos se não para a engraçada menina, nem reparava na enorme quantidade de malta que os precedia e seguia.
    A meio da tarde foram à Central lanchar e o célebre Petróneo , a princípio atónito de ver o café cheio de rapaziada não habitual cliente, não tardou a compreender e associar-se à solidária manifestação de simpatia estudantil.
    É que a tímida noiva, etérea e angelical era... o Castelão de Almeida, célebre boémio e director de o jornal “O Ponney”.

    De "TESTEMUNHOS" (1997)
    de Mª José Figueiredo Carmona da Mota 1917-2006
    em homenagem póstuma a seu marido Dr. Henrique Pereira da Mota ("PantaLeão") 1905-1980

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  2. Já conhecia a história que me foi contada pelo meu pai, mas não me canso de a ler e saborear a forma literária graciosa de quem a escreve: o Augusto Carmona da Mota e o Zé Veloso! Parabéns aos dois e obrigada por nos fazerem reviver as partidas da estudantada desses tempos, sempre marcadas por uma certa elegância e muita alegria, apesar de, forçosamente, haver alguma "vítima" pelo meio...

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    1. Li a mesma "história" creio que no livro Coimbra de capa e batina,mas a "noiva" era o Figueirinhas, Figueiral Figueiredo da Figueira da Foz....o Dr.José de Figueiredo,futuro director do teatro S.Carlos,ou estou equivicado....

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    2. Pode haver confusão nos nomes, o que é natural. As fontes para este tipo de narrativas encontram-se, por via de regra, em livros de memórias de antigos estudantes, escritos já naquela fase da vida em que a memória confunde algumas situações longínquas. Mas o essencial está lá.
      Obrigado pelos comentários.
      Zé Veloso

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  3. Pelos anos 80 do passado séc.XX, ao balcão da Farmácia S. José, em Coimbra - na altura situada aos Arcos do Jardim - acerca-se da nora do Prof. Lúcio de Almeida, que aguardava ser atendida, um indivíduo cumprimentando delicadamente e identificando-se dizendo:
    - Minha Senhora, eu sou a "noiva"...

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    1. Fico curioso...
      Pensando um pouco... diz António José Soares que a "noiva" do "vegetariano" faleceu no ano seguinte. Logo, não seria essa.
      Quanto à "noiva" do Nunes, já esclareci com o filho do Pantaleão não ter sido o papel desempenhado pelo Castelão de Almeida, mas sim pelo caloiro João Duarte...
      A ser assim, será que era João Duarte que delicadamente se identificava na Farmácia S. José, pelos anos 80 do passado séc. XX?

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