quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PALITO MÉTRICO. CÓDIGO DA PRAXE OU MANUAL DE ACOLHIMENTO?

    Julgo que muito poucos estudantes do meu tempo terão lido alguma vez o Palito Métrico ou lhe terão, sequer, posto a vista em cima, já que a última edição desta obra – Coimbra Editora – aconteceu no longínquo ano de 1942, ficando os estudantes das últimas décadas privados da leitura de uma colectânea que seria, pelos padrões de hoje, classificada como um best seller no seio da Coimbra académica.
    O Palito Métrico é frequentemente referido como percursor dos Códigos da Praxe dos séculos XX e XXI, uma vez que, através dos seus textos, ficavam os académicos de então a conhecer as praxes que vigoravam na Coimbra dos séculos XVIII e XIX. Mas a forma como o Palito Métrico está escrito – raramente os textos têm um carácter impositivo – assemelha-se mais a um Manual de Acolhimento, que coloca o novato ou caloiro no conhecimento do que o espera e o aconselha sobre a melhor forma de ultrapassar as dificuldades e ratoeiras da vida académica e da cidade. Muito a propósito, em vésperas da recepção aos novos caloiros!
    Mas o que é, então, o Palito Métrico? Sigamos, resumidamente, o que A. G. da Rocha Madahil nos conta no excelente prefácio da já referida Edição da Coimbra Editora.
    Em 1746 foi editado em Coimbra um folheto de 14 páginas intitulado Palito Métrico, o qual contava, em versos humorísticos, as desventuras de um novato (caloiro) que veio do país longínquo até Coimbra, para fazer matrícula e exame de entrada na Universidade. Para além de mil peripécias que lhe aconteceram pelo caminho – nas quais perdeu o macho, o farnel e o criado – mal chegou a Coimbra, o desgraçado caiu nas mãos dum grupo de veteranos que o fizeram passar tratos tais que o moço se viu obrigado a regressar à terra, chumbado e sem ter conseguido entrar para a Universidade. Mas como ao chegar a casa foi recebido em festa, não teve coragem de contar o sucedido e fez-se passar por doutor; até que, descoberto o embuste, o pai lhe passou um atesto de pancada em cima do lombo e o mandou guardar cabras.
    Este poema, já de si cheio de situações jocosas e burlescas, tinha uma particularidade que lhe ampliava a comicidade: utilizava palavras da linguagem corrente às quais era dada uma flexão latina, em frases construídas segundo a sintaxe do latim. Aí estava a "macarrónea" ou "literatura macarrónica", género literário novo em Portugal mas já praticado noutros países como Itália, França, Inglaterra e Alemanha.
    Abro aqui um parêntesis para opinar que os Decretus académicos – que ainda hoje se escrevem usando obrigatoriamente palavras latinas ou alatinadas, sendo inválidos se contiverem palavras portuguesas não isoladas – deverão ter tido a sua origem linguística na “macarrónea”. Claro está, para que sejam entendíveis por quem já nada sabe de latim, a sintaxe hoje utilizada é meio portuguesa meio latinória… “latim macarrónico”, dizíamos nós, e assim lhe chamava e chama ainda hoje o Código da Praxe!
    Logo após a publicação do poema Palito Métrico, apareceram mais uma série de outros poemas humorísticos escritos no mesmo estilo, poemas estes que passaram a ser publicados conjuntamente com aquele numa única colectânea que agregava também outros textos, em verso e em prosa, escritos em português. Desta obra-prima se publicaram pelo menos 11 edições ao longo de 200 anos, sob designações diversas, sendo a mais comum Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, abreviadamente, Palito Métrico.
    Em lado algum da obra consegui uma explicação para o insólito nome de Palito Métrico. Mas contavam-me os meus pais que havia uma praxe antiga que consistia em medir, com um palito, uma rua, uma escadaria, etc.. Coincidência?
     Quanto à paternidade de tais poemas – o primeiro e vários outros  são atribuídos ao Padre João da Silva Rebelo, bacharel em Cânones – nem sempre foi fácil decifrá-la, já que foram normalmente escritos sob nomes supostos, por estudantes que assim arranjavam um complemento de mesada. E não admira que os poemas se vendessem bem, pois que a maioria deles consiste em avisos aos novatos sobre o que os espera em Coimbra: cuidados a ter para não darem nas vistas à chegada, não serem praxados pelos veteranos, não se perderem na má vida, não serem explorados pelas amas (governantas), etc. etc.... indo ao ponto de explicar coisas tão comezinhas como a forma de poupar dinheiro no barbeiro, comprando uma navalha de barba para uso próprio. Até porque, como se escreve a páginas 390 a propósito dos barbeiros, pelo que eles faltam às horas, que cada um tem por cómodas, merecem que deles façamos absoluta independência; e quem passar sem os ditos, para além da economia de 160 reis por mês que ao fim do ano são 1$920, livra-se ainda de lhe porem na cara a mesma mão com que talvez muito de fresco tenham coçado no fundo das costas.
    E é assim que estes textos acabam por nos dar uma panorâmica não apenas das praxes de então – as quais, diga-se em abono da verdade, eram bem mais duras do que as que tive de suportar enquanto caloiro – mas também da vida académica, dos costumes da época e da própria cidade de Coimbra. É só ler com atenção!
    Mas, infelizmente, a leitura da parte escrita em “macarrónea” não é fácil para quem desconheça a língua latina. Foi por isso que passei, inicialmente, ao largo de um poema denominado Calhabeidus LiberO Livro do Calhabé – que nos conta uma rocambolesca orgia de vinhaça, passada numa taberna onde o taberneiro, de seu nome Calhabé, era também o rei dos bêbados. Coisa de somenos, não fora ter sido alertado por Borges de Figueiredo que, na sua Coimbra Antiga e Moderna, edição Almedina de 1996 (edição original de 1886), escreveu: Encontra-se também próximo da Estrada da Beira um pequeno logar, o “Calhabé”, que foi formado pela agglomeração de pequenas casitas ao pé d'uma antiga taberna. Vem-lhe o nome d'um consciencioso sacerdote de Baccho, muito nomeado nos fins do século último, e do qual nos deixou memória um dos auctores da Macarronea, no Calhabeidus...
    O Calabeidos Liber apareceu pela primeira vez na edição de 1765. É, pois, de admitir que a taberna existisse por esta altura e que o nome do taberneiro se tenha, a pouco e pouco, estendido ao sítio, até porque o Palito Métrico acompanhou gerações e gerações de estudantes que recitavam de cor muitos dos seus versos, não deixando cair o Calhabé no esquecimento.
    Há livros sobre Coimbra antiga que mereciam ser reeditados. O Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa é um deles. Deixo à atenção das Editoras da cidade.
    Zé Veloso

EXTRACTOS do Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa:
1.º extracto: 2.ª e 2.ª estrofes do poema de 42 estrofes SISTEMA MÉTRICO MODERNO E EXPERIMENTAL
2.º extracto: 32.ª e 33.ª estrofes do poema de 38 estrofes QUEIXAS DE AMARO MENDES GAVETA.