quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DO “CANELÃO” AOS “PONTAPÉS DA PRAXE”

    Começou a liga Zon Sagres e a Briosa estreou-se com uma vitória fora de casa! No meu tempo de Coimbra, um tal resultado ditaria de imediato a saída de um Decretus abolindo a praxe nesse dia. Era assim: em caso de vitória ou empate fora de casa, abolia-se a praxe e a arraia-miúda ficava à vontade; se houvesse derrota ou empate em casa, a praxe seria reforçada e só as protecções de sangue valeriam para livrar de uma rapadela os caloiros ou bichos que quisessem sair à rua depois do toque da cabra. E tudo isto era encarado com a maior das naturalidades, dada a simbiose que existia entre a Briosa – uma equipa de jogadores-estudantes – e a Academia de que esses jogadores-estudantes faziam parte.
    As coisas hoje são bem diferentes: a Briosa deixou, salvo raríssimas excepções, de integrar estudantes na sua equipa de futebol; a Academia, muito naturalmente, deixou de se rever na Briosa; e a própria cidade, ao contrário do que acontece com Braga ou Guimarães, não valoriza a indústria do futebol e quase nem se dá conta de que tem uma equipa na I liga do desporto mais popular em Portugal, o que é um activo não despiciendo.
    Mas há tradições que se mantêm na Briosa de hoje, cujas raízes se entranham em costumes e praxes académicas de há vários séculos. Uma delas tem a ver com a forma bizarra como os colegas de equipa dão as boas vindas aos jogadores estreantes: antes do início do jogo, junto à linha lateral, abrem alas os “doutores” – ou melhor, os jogadores antigos – e fazem avançar o “novato” por entre um túnel de pernas que lhe vão pontapeando amigavelmente o traseiro, enquanto ele corre para o campo, onde a seguir terá de mostrar o que vale.
    Foi assim no jogo desta semana na Marinha Grande, num ritual que se repete sempre que um novo jogador alinha, de início, na primeira equipa da Briosa. São os chamados “pontapés da praxe”, um costume que não tem paralelo em qualquer outro clube. Porque nós somos a Briosa! E a Briosa é diferente dos outros. Os outros dão um chuto no traseiro dos que querem mandar embora. Nós damos um chuto no dito daqueles com que contamos.
    No livro A Académica (AAC/OAF; Casa da Académica em Lisboa), alguém diz ter perguntado ao Ladeira e ao Isabelinha, jogadores da década de 30, de que data vinha este costume, tendo eles respondido que já existia ao chegarem à Briosa. Será então uma tradição datada do primeiro quartel do Séc. XX, altura em que o futebol rompia na Académica.
    Mas que razão existirá por detrás dela? Será que os pontapés são um simples gesto de irreverência estudantil? Ou constituirão, como aventa o antropólogo António Rodrigues Lopes, uma reminiscência do selvático canelão? Eu cá aposto nessa.
    O canelão foi uma praxe muito activa no Séc. XIX, mas que viria já, pelo menos, da primeira metade do Séc. XVII. A seu propósito diz a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que consistia em obrigar os alunos do primeiro ano, no primeiro dia em que se dirigiam às aulas, a atravessar o túnel que é a célebre Porta Férrea, entre alas de camaradas mais velhos que os agrediam, o mais fortemente possível, com pontapés nas canelas, só escapando a lesões dolorosas e às vezes graves os que se fiavam à sua agilidade e rapidez, galgando aquelas dezenas de metros em pulos esgotantes.
    Desta praxe só se livravam os caloiros ou novatos que fizessem a travessia protegidos debaixo da pasta dum quintanista. Para além desses, poucos escapavam. Escapou o célebre Saraiva das Forças, por razões que facilmente se adivinham! Escapou o filho do poeta João de Deus, porque seu pai era um ídolo da Academia e esta entendeu homenageá-lo desta forma. Escapou António Nobre, em atenção à sua condição de poeta. Escapou Homem Cristo Filho, quando entrou na universidade com 15 anos apenas, porque era teso como um raio e passou a Porta Férrea com as mãos nos bolsos, segurando duas pistolas em riste bem visíveis por dentro da roupa, depois de ter anunciado que queimaria os miolos de quem se atrevesse a tocar-lhe.
    O simples facto de os livros registarem com admiração os nomes de alguns dos que conseguiram escapar a esta prova de fogo mostra bem a brutalidade e a selvajaria de uma praxe que o Reitor da Universidade apenas conseguiu abolir em 1898, enviando archeiros para a Porta Férrea.
    Mas entre "abolir" e "acabar com" ainda vai uma distância de alguns anos, pelo que o canelão se manteve activo, contrariando a proibição do Reitor, por uma década mais. Por coincidência, a década em que a bola de futebol dava os primeiros passos em Coimbra.
    E aí temos uma explicação para os nossos "pontapés da praxe". É só colocar, no lugar do caloiro, o jogador estreante e, no lugar dos estudantes que já cursavam a Universidade, os jogadores que já jogavam na equipa; a seguir, imaginar uma Porta Férrea virtual à entrada do campo e pensar que o recinto onde o novato irá jogar e provar a sua arte não é já o Páteo da Universidade, mas sim, um qualquer campo de futebol.
    Quem não tem cão, caça com gato! Proibiu-se o “canelão”… nasceram os “pontapés da praxe”!
    Zé Veloso
    Nota: Para além dos "pontapés da praxe", aparecem de quando em vez alguns calduços à mistura, o que não bate certo com a tradição.

18 comentários:

  1. Boa noite, meu caro Zé
    Muito bem aproveitado, para tema.
    Mas"quem não tem cão, caça COMO gato"Isto é, sózinho
    O meu abraço

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  2. Caro Ricardo, sempre atento!
    Mas uma busca rápida na internet diz-me que as duas formas – “com gato vs como gato – existem, dando portanto origem a 2 provérbios diferentes, já que são frases com sentidos distintos.
    Quando chegar a Lisboa – onde tenho vários livros de provérbios – confirmarei.
    Um abraço, Zé Veloso

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  3. Meu caro
    Não precisas confirmar, estão ambas certas, segundo os especialistas.A intenção foi, apenas, dar sinal que, com muito gosto, te vi regressar, para continuares, com os teus "fans" que desejo se motivem a procurar mais literatura sobre os temas que vais lançando.
    Abraço

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  4. Estudantes de Coimbra-B.M.Costa e Silva-1903,pag.9
    Na data,o autor refere o canelão como ainda presente:
    "Novato,-alumno do primeiro anno da Universidade.Ainda está sujeito ás troças dos mais adiantados e ao canelão, pontapés nas canelas, ao transpôr a porta ferrea, principal entrada para o pateo que dá ingresso na Universidade, barbaridade que por vezes tem originado graves conflictos" .
    Embora anote"é possivel que hajam algumas inexactidões n'essas illucidações, devido a desde há muito havermos deixado Coimbra".
    Abraço

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  5. Só como lembrete: a foto mostra a entrada do Lourenço (ido do Ginásio de Alcobaça, passou-se para o Sporting e até foi "Magriço" não utilizado...)
    Também consigo identificar o Crispim (salvo melhores olhos...).
    Outros que avancem!
    Para acabar, um grande abraço ao zé por mais um tema muito interessante.

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  6. Caro Ricardo,
    A tua achega é muito bem-vinda. Esta questão da data de extinção do canelão tem que se lhe diga.
    Sousa Lamy explica de forma clara a primeira tentativa de abolição pelo Reitor em 1892, daí tendo resultado incidentes vários, que culminaram com uma greve geral dos estudantes, o que mostra como a praxe do canelão estava arreigada e seria difícil de acabar de um dia para o outro.
    O mesmo Sousa Lamy escreve, a seguir: "O canelão veio a ser abolido, em 1898, com archeiros mandados pelo reitor para a Porta Férrea. Para a abolição, de facto, do espectáculo do canelão, de que o professor Avelino César Augusto Maria Calisto era um apreciador, muito contribuiu a campanha do antipraxista José de Arruela (1902-1905).
    A frase, pareceu-me inicialmente contraditória nas datas, mas há que ter atenção à expressão “de facto”... e a frase volta a fazer sentido. Terá então havido uma abolição “de jure” em 1898 e uma abolição “de facto” algum tempo mais tarde. O próprio Sousa Lamy acaba por confirmar esta aplicação clandestina com exemplos de 1901 (Diamantino Calisto), 1908 (Homem Cristo Filho).
    Vou fazer uma pequena emenda no texto da crónica para deixar mais clara esta questão.

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  7. Obrigado, Lélio, pela identificação do estreante da foto.
    Parece-me que identifico também o Gervásio e, talvez, o Araújo.
    Zé Veloso

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  8. Meu caro Zé Veloso
    Mais uma pequena achega, ao tema do “canelão”, relendo alguma bibliografia. Pretendo,apenas,corresponder ao teu prestável serviço de motivar o interesse pelos temas da vida dos”briosos” estudantes da nossa Universidade.
    Escreve o Professor Luis Cabral Moncada, nas suas Memórias 1888-1974, pags.55-58
    “ A Universidade abria a 16….(*)…A praxe, as troças aos caloiros, a Porta Férrea, as troupes, aterravam-me, sobretudo a Porta Férrea no dia seguinte, ainda antes de começarem as aulas, para assinar termos e fazer o juramento.Salvou-me do “canelão” ao transpor aquela porta, quase tão tétrica como a do inferno de Dante, o quintanista de Medicina, o celebérrimo Chico Pedro, a quem a minha avó me tinha recomendado no Setembro anterior, no Estoril. Era ele um estudante crónico que levara cerc a de 15 anos para se formar……"
    (*)1906
    Abraço

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  9. Acrescento, para ressalvar a data (17 Outubro de 1906)..."me fez passar ileso aquelas «forcas caudinas» da Porta Férrea, pousando sobre a minha cabeça, qual pomba do Espirito Santo, a sua pasta de fitas amarelas."
    Abraço

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  10. Boa tarde, meu caro Zé Veloso
    Permite-me mais uns complementos às notas anteriores:
    1-O Dr. Francisco Pedro (Dr.Xico Pedro) é retratado por Octaviano de Sá, seu conterrâneo (Coimbra) e contemporâneo na UC, no seu livro “Nos domínios de Minerva-pag.124-ed.1939.
    2-Na Gazeta de Coimbra,ano 1-nº. 41 de 18 de Novembro de 1911, com o titulo Receção aos Novatos-Exemplo a seguir e referindo o jornal Século , na reportagem da sessão, na F.Letras U.Lisboa :
    “O novo aluno sr.Santos Gil, em nome dos seus colegas, agradeceu a festiva receção que lhe foi feita, a qual contrasta profundamente com as selvagens e anacrónicas praxes, de tempos que não vão longe, com que as passadas gerações eram recebidas”.
    Para afirmar, depois:
    ”Uma lição para os que desejam manter as velhas e absurdas praxes coimbrãs do canelão, corte de cabelo dos novatos, etc……;Em Lisboa, recebem-nos com uma sessão solene….em Coimbra é ao ponta-pé, à porta férrea, e à noite, de caras cobertas com as capas, à tesourada e à mocada! Quantas vezes se tem tentado em Coimbra acabar com essas troças, sempre sem resultado!.”
    Pois,meu amigo, ainda nesta data, seria um facto? Parece…
    Abraço

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  11. Caro Ricardo,
    É óptimo que te ocupes a rever a tua formidável Biblioteca. Vais-me, assim, ajudando a fazer o "tunning" das crónicas e a confirmação das informações.
    Sobre o texto da Gazeta de Coimbra que apresentas, a forma como ele tanto permite concluir que em 1911 ainda se praticava o canelão, como poderá querer dizer simplesmente que ainda a prática tinha os seus adeptos... e não mais do que isso.
    A minha percepção é que, depois da implantação da República (5/Out/1910), as praxes terão caído a pique: abandalhou-se de vez a capa e batina, a cabra deixou de tocar... e o canelão deverá ter caído em desuso. Poderemos fazer alguma comparação com o pós 25/Abril/1974.
    No entanto… a nossa amiga comum Antonieta Amaral disse-me um dia – terei agora de confirmar com ela em que época tal se teria passado – que se recorda de ter ouvido que o canelão, uma vez entrado na clandestinidade, se transferiu esporadicamente para debaixo do Arco do Bispo (julgo ser este o nome do arco que ligava o Museu Machado de Castro à Sé Nova).
    Um abraço, Zé Veloso

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  12. Também acompanho a ideia que, com a implantação da república, as práticas praxisticas terão sido expurgadas da vida académica;o canelão, acompanhado das pastas cheias de livros (outros objetos, também..)na cabeça dos caloiros, com mais razão.
    Conheci o Arco do Bispo, antes de derrubado, pois morei-1936/41,na Rua de S.João que terminava no Largo, frente ao Museu.Miúdo, não posso recordar qualquer cena-nesse tempo a rua era o nosso infantário, até tarde-.Não vi, ainda, qualquer referência escrita.
    Abraço

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  13. Boa noite, meu caro
    1-Muito próximo da implantação da Republica, haveria, ainda, o canelão.Escreve-se, na nota a seguir:"recebem-se".
    2-Sob o Arco do Bispo, seriam "pontapés, caneladas, agressões, etc." se existiram...
    3-Mais uma nota, à medida que encontro.
    "Confronto!
    Na Escola do Exercito realizou-se uma aparatosa cerimónia para repção dos novos alunos.
    Em Lisboa faz-se isto…… em Coimbra recebem-se a pontapé à porta férrea!
    Há certamente uma grande diferença
    In Gazeta de Coimbra-02-11-1911"
    Abraço

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  14. Caro Ricardo,
    Do livro “Academia de Coimbra (1880-1926)” de Manuel Alberto Carvalho Prata, pág. 262, acabo de retirar mais duas citações que apontam para o que penso que tenha acontecido: depois de oficialmente proibido em 1898, o canelão terá levado cerca de uma década a extinguir-se de todo.
    De Serrão de Faria, 1902: “ainda havia por vezes à Porta Férrea o estúpido canelão”.
    De António Durães, 1908: “ já se não usava a canelada e a pastada nos caloiros, ao entrar a Porta Férrea, mas não se lhes perdoava a troça nos Gerais”.
    Abraço, Zé Veloso

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  15. Meu caro Zé Veloso
    A forma cativante como escreves justifica os teus já numerosos seguidores no “facebook” e merece o meu continuado interesse no teu blog. Espero, nas diversas intervenções , com que generosamente me acolhes, ter motivado, os apreciadores dos teus escritos, para o maior e melhor conhecimento da vida coimbrã. Talvez, alguns, já tenham começado a procurar alguma literatura sobre os temas, complementando os que, com tanto jeito literário, apresentas.
    Deixo mais um apontamento sobre a praxe, retirado da Gazeta de Coimbra-20 de Outubro de 1921 (*)
    “”Troupes Académicas”-Com a entrada do novo ano lectivo reviveram as troças aos caloiros e algumas são de tal forma agressivas e deprimentes, que vexam as pobres vitimas.Há partidas que não fazem mal nenhum e até têm graça;mas, daí ao agravo pessoal…e ao acto que deprime o carácter do indivíduo e fere o seu brio vai uma grande diferença.Foi o que aconteceu a um ou dois académicos a quem obrigaram a conduzir malas às costas!É rebaixar demais a classe académica, se os casos se passaram como aí se diz.
    Em França, os alunos que entram nas Universidades pela primeira vez são recebidos com música. Em Coimbra é ao pontapé e pela forma que mais os pode vexar! "

    Não será, já, o “canelão”….mas a agressão, digo eu.
    (*)1911-1930, na internete, digitalizado, consulta livre.
    O meu abraço

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  16. Meu caro Zé Veloso
    Espero não sobrecarregar o teu excelente resumo, sobre o tema.Mas na intenção de carrear alguma informação, já publicada, eventualmente não conhecida pelos teus já numerosos seguidores no FB, aí tens mais um testemunho (1912-1916) sobre o canelão” Por mero acaso nunca me fizeram uma troupe, nem apanhei, nem dei o meu canelão”
    Memórias de um estudante de direito- R.Salinas Calado-pag.257

    Abraço
    Ricardo Figueiredo

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  17. Meu caro Zé Veloso
    De quando a quando, reabro alguns livros, até já citados, para reler o que alguns briosos estudantes da nossa Universidade relatam nas suas memórias, por vezes um pouco romanceadas,sobre factos que nos importa conhecer. Sobre hábitos "praxisticos" B.M.Costa e Silva(*)-Estudantes de Coimbra-Episódios Burlescos-1903 descreve, algumas "tropelias morais e physicas", tais como: o grau, o salto mortal,o fusilamento,a degolação e a sangria.
    É certo que um critico refere "..são a reprodução authentica de factos ocorridos, de factos vividos, que a todos interessam e que muitos, como nós, acompanharam de perto,..";mas, logo outro:Também fomos estudantes, também conhecemos as tradições académicas, por isso julgamos serem fructo de más informações esses graus antigos.
    Os teus seguidores, mais interessados, poderão ler a obra em books.google.com ou, até, adquirir,em edição policopiada, Rs1367, em flipkart.com
    E o meu abraço
    (*)Natural da Figueira da Foz

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