terça-feira, 2 de novembro de 2010

POR QUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA? (Parte III)

    Vimos nos posts anteriores (vide Nota no final) que, no seio da Academia de Coimbra nos idos de 1888, os polainas ou polainudos chamavam aos mais modestos e menos bem trajados, os briosos, Academia Briosa, ou Briosa simplesmente. Resta perceber como é que este epíteto de Briosa se colou à equipa de futebol da Académica, a qual só viria a ter o seu primeiro jogo oficial em 28 de Janeiro de 1912, quase três décadas passadas sobre os tumultos no Teatro da Trindade e a saída da Niveleida.
    Mas é aí que a porca torce o rabo. Ainda que muito tenha procurado, pouco encontrei que faça uma ligação segura entre aquelas datas e os anos 40 do Séc. passado, o que é, de facto, intrigante e sugere que o termo Briosa tenha estado meio-esquecido ou tenha sido muito pouco utilizado durante algumas décadas.
    Passando em revista entrevistas a antigos jogadores e recortes de jornais que aparecem transcritos em livros sobre a nossa Académica de antanho, a palavra Briosa nunca é referida – ou se o é não dei por ela – preferindo-se antes epítetos tais como os estudantes e o team académico. Os próprios livros de António José Soares, que retratam, mês a mês, a Coimbra Académica da primeira metade do Séc. XX, não referem uma única vez aquela palavra mágica!
    No entanto…
    … Octávio Abrunhosa, pai do músico Pedro Abrunhosa, que cursou Direito entre 1945 e 1951, conta no seu livro de memórias A Academia tinha o seu grupo de futebol, a chamada Associação Académica de Coimbra, a Briosa, como era vulgarmente conhecida…
    … e Eduardo Lourenço, que viveu perto do campo de Santa Cruz na década de 40, escreveu para o livro A Académica um texto inédito sobre a sua passagem por Coimbra, onde refere A Académica ou como diziam os castiços, a Briosa…, afirmação que leva a pensar que o termo Briosa, ainda que não sendo utilizado correntemente naquela época, era um termo com origens num passado mais longínquo, mais arreigado à raiz das coisas…, algo que os castiços se encarregavam de não deixar cair em desuso!
    É baseado nestes testemunhos – e ainda na singularidade de a palavra Briosa ter servido para designar uma parte da Academia meio século antes – que me atrevo a deixar aqui duas hipóteses de explicação, que manterei como boas até que factos novos as venham contradizer.
    A primeira é que, uma vez criada a AAC em 1887, o nome Briosa se lhe tenha de alguma forma colado, fosse porque os seus dirigentes estavam entre aqueles que se opuseram aos polainudos fosse porque a estudantada que aderiu à AAC incluía a arraia miúda, a denominada Academia Briosa.
    Para que esta hipótese fique fechada, falta ainda explicar como é que o nome de Briosa, depois de ter servido para designar uma boa parte da Academia e, eventualmente, a própria AAC, teria passado a aplicar-se apenas à sua equipa de Futebol! Mas se nos lembramos de que, durante décadas, aquela equipa foi a face mais visível e emblemática da Academia de Coimbra por todo esse país fora, a hipótese faz algum sentido.
    A segunda hipótese é mais engenhosa… e bem mais romântica!
    Se procurarmos quais os desportos praticados pelos académicos de Coimbra no primeiro quartel do Séc. XX, encontraremos o ténis, a esgrima, a equitação, a ginástica, o tiro, o remo, a natação, o ciclismo, a luta greco-romana, o atletismo, o basquetebol e... o futebol.
    E agora pergunto: – Qual destes desportos é o mais simples e o mais “básico”, qual deles se poderia jogar com menos meios, com menos iniciação técnica, com menos dinheiro, necessitando apenas de uma bola (a dividir por 22) e de um terreno plano, mesmo que fosse a Praça da República (à época Largo de D. Luís)? E qual daqueles desportos seria o mais apropriado para juntar uma equipa de comparsas que através da união fizessem a força e se afirmassem perante os demais?
    É claro que é o futebol! E se não foi a equipa de futebol da Académica a chamar para si própria o nome de Briosa, poderiam ter sido os colegas polainudos das modalidades mais elitistas ou, até, os adversários, a botar-lho.
    É curioso notar que, em qualquer das hipóteses, o epíteto de Briosa, inicialmente com um âmbito mais lato, foi como que capturado pela equipa de futebol da Académica. Se nos lembrarmos que o emblema que foi desenhado para a equipa de futebol é hoje o emblema de toda a Academia, poderemos dizer que as contas estão saldadas!
    Comecei esta série de posts chamando a atenção para a visibilidade crescente da denominação Briosa. É hoje claro que, sobretudo entre a malta nova, a Briosa se tornou mais popular do que a Académica. Basta olhar a blogosfera e o Facebook. É um fenómeno que me parece não acontecer por acaso: numa altura em que a equipa da Académica se torna cada vez menos académica – o jogador-estudante não passa já de uma miragem – a malta agarra-se a outros paradigmas, a outros ícones. E o jogador brioso surge como sucedâneo natural do jogador-estudante.
    E assim voltamos, de alguma forma, às nossas origens. Porque o brio sempre foi apanágio dos bons estudantes. É preciso é que a Académica – a Briosa – continue a ser briosa!
    Zé Veloso
PS – Chegou-me há alguns anos a informação de que teria sido Cândido de Oliveira quem lançou o nome Briosa, ao vir para Coimbra treinar a Académica em 1955/56. Tal não é compatível com os textos que acima transcrevi. Mas mestre Cândido poderia ter ajudado a reavivar um epíteto que já então existia.

Nota: O tema PORQUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA é tratado em 3 crónicas sequenciais: Parte I, Parte II e Parte III.

5 comentários:

  1. Saúdo a excelente iniciativa de divulgar a memória de Coimbra, a velha e a nova, a eterna, com gostaríamos que ela fosse.

    Porque não dedicar alguns textos à sua canção, ao bela Fado de Coimbra, bem precisado da sua defesa e da sua geral difusão, no conhecimento e no gosto do País.

    Dificilmente se gostará dquilo que mal se conhece.

    Uma especial saudação de um confrade do Técnico, com especial gosto por Coimbra.

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  2. Caro António Viriato,
    Obrigado pelo seu comentário.
    Coimbra e a sua vida académica “têm tanto que contar” que me lembram a Nau Catrineta…
    Pouco a pouco lá hei-de ir tocando as suas várias facetas, incluindo o fado de Coimbra, embora sobre este tema me considere um mero curioso, face a especialistas (pessoas, sites especializados) que já me têm passado por perto.
    Mas talvez não tenha reparado que o Penedo já abordou o fado de Coimbra num post de Junho pp: “Fogueiras de S. João”.

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  3. Bem, parece-me que li em tempos que foi um dos último monarcas que usou o epíteto Briosa para designar a Academia.Outro dia ao ler uma crónica de Gonçalo Reis Torgal vi isso mesmo confirmado.

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  4. Caro anónimo,
    Muito obrigado pelo seu comentário.

    A investigação é um processo contínuo, onde cada novo dado tem de ser confrontado com os anteriores e, a partir daí, as teses já formuladas serão confirmadas, infirmadas ou alteradas. É o que faço constantemente… os temas estão sempre em aberto.

    Por isso lhe peço que me diga em que crónica de Reis Torgal leu essa informação, bem como o nome do monarca que refere.

    Um abraço,
    Zé Veloso

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  5. http://www.uc.pt/antigos-estudantes/perfil/Perfil_testemunhos/reis_torgal

    Infelizmente ainda não encontrei nos meus livros a fonte que explica a origem da aplicação da palavra (BRIOSA) à Academia.

    Saudações académicas de um leitor atento

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