segunda-feira, 12 de julho de 2010

SAIAM DOIS FINOS PRÀ MESA DO CANTO!

    Numa época onde tudo tende a ser tão igual, é salutar que em Coimbra se peça um fino enquanto em Lisboa se pede uma imperial.
    Praia do Pego, algures entre a Comporta e Melides. São sete da tarde mas o sol ainda vai alto, reflectindo sobre a mareta saltitante da baixa-mar um brilho intenso, de fazer doer os olhos. Descanso o olhar na serra da Arrábida, cujo perfil se recorta a azul cinzento no horizonte mais a Norte, até encontrar o mar no Cabo Espichel. Uma ligeira bruma para Sul não deixa ver o cabo de Sines, que apenas se adivinha, mas compõe o quadro deste calmo e morno fim de tarde no litoral alentejano.
    Não apetece sair dali. Passo pelo bar da praia e abanco na esplanada, na tentativa de retardar o regresso. É tempo de beber uma cerveja. Lanço um olhar cúmplice para a minha mulher, fazemos uma aposta breve e atiro o pedido: – Dois finos, por favor! O rapaz hesita… vira-se para um outro em busca de apoio, conferencia-se rapidamente em português com sotaque brasileiro… e lá saem os dois finos… ainda que em copo de plástico. – Finíssimo!!!...
    Quando vim trabalhar para Lisboa, já lá vão 40 anos, a palavra “fino” não constava do glossário da capital do Império, onde o termo “imperial” fazia jus ao estatuto da cidade. “Fino” era uma característica de Coimbra e também do Porto; e pedir um fino em voz alta correspondia à exibição pública de uma “certidão de proveniência” nortenha. Com o passar dos tempos, o “fino” chegou a todo o país. Mas não há dúvida que ele continua agarrado a Coimbra, como esta semana bem pude provar com um breve inquérito no Facebook.
    Porque será? Até hoje só encontrei uma referência para a origem da palavra “fino”. Foi no livro de memórias Boémia Coimbrã (dos anos 40), de A. Nicolau da Costa.
    Mas para que não se vá com muita sede ao pote, ou melhor, ao fino, deixem-me dizer-vos que Nicolau da Costa, que foi responsável pelo jornal académico O Ponney – fundado em 1929 por outro boémio de nomeada, Castelão de Almeida – foi um dos grandes boémios da academia coimbrã de 40, boémios estes que se intitulavam a si próprios de "cow-boys" ou "cáboys", designação que deverá ter estado na origem da claque de futebol "Cow-boys", formada por Mário Cunha em 1936.
    Nicolau da Costa conta-nos que era amigo de copos de um refinado boémio, de seu nome Toninho Saraiva, "Toninho Copi" para os amigos, tipo sombra magrinha, bem penteadinha que vagueava por Coimbra naquela época.
    Pois bem, o Toninho Saraiva, tinha-se curado duma tuberculose galopante em poucas semanas e atribuía a sua cura milagrosa à cerveja, da qual era apreciador esmerado, coisa que médicos amigos me disseram ser tão provável como as galinhas terem dentes. Mas para o “Toninho Copi” isso era uma verdade absoluta. Sigamos agora em directo o texto de A. Nicolau da Costa:
    ...E talvez fosse por isso que religiosamente, diariamente, como quem se sacramenta, descia as escadas da "Domus", na Visconde da Luz, para se regalar, profilacticamente, com doses maciças daquele "medicamento". A essas formidáveis libações, chamava-lhe ele "Os banhos do Toni"... Entenda-se por "Toni" o único dente incisivo de que dispunha a sua devastada dentadura...
    Dessa convivência diária com a cerveja, resultou que o Toninho ficou perito. E ficas a partir de agora ciente de uma verdade incontroversa, caro leitor: Quando hoje te sentas a uma mesa e displicentemente, por hábito, pedes um "fino", estás, sem o saberes, a seguir as indicações técnicas do Toninho. Sim, senhor! A classificação de "fino" começou quando o Toninho exigia que lhe servissem em copo de vidro fino, como ele apreciava. Exigia-se de início: "Um copo de cerveja de vidro fino!". Depois pedia-se "Um copo fino". Hoje generaliza-se e pede-se "Um fino!".
    Como diria o Peça: – E esta, hem?!!
    Por isso, quando me serviram um “fino” numa delgada película transparente de forma tronco-cónica a que dão o nome de “copo de plástico”, o meu comentário não poderia ter sido outro: – Finíssimo!!!
    Zé Veloso

A imagem dos copos de cerveja foi descarregada do link:
http://www.google.pt/images?hl=pt-PT&num=10&as_epq=&as_oq=&as_eq=&lr=&cr=&as_ft=i&as_filetype=&as_qdr=all&as_occt=any&as_dt=i&as_sitesearch=&as_rights=&safe=images&q=copos+de+cerveja&um=1&ie=UTF-8&source=univ&ei=ZPg5TIrPHMKSjAfNoKjhAw&sa=X&oi=image_result_group&ct=title&resnum=4&ved=0CDUQsAQwAw

4 comentários:

  1. Meu caro Zé Veloso
    Duas pequenas notas: dado que referes o “Ponney”,publicado, inicialmente, às 5ª.feiras, não se poderá omitir o nome do pai do nosso comum amigo Augusto Carmona da Mota-o médico Henrique Mota (Pantaleão), o outro fundador. Conforme o escrito pelo contemporâneo Carminé Nobre-Coimbra de Capa e Batina, I volume, 2ª.edição-ele figurava “com os pesadíssimos cargos de Tutor e Padrinho” daquele jornal. Com a redacção e administração na República Ribatejana “ A governação da casa estava confiada a um ministério presidido pelo Pantaleão, que acumulava com as funções de presidente da República”.
    Ali não dominava o “fino”, pois” no guardanapo colectivo era o amarelo do ovo com o roxo do vinho”.Outros tempos…
    Depois,segunda nota, os médicos podem garantir que a cerveja não curava a tuberculose.Porém, nesses tempos difíceis, anos 40, era corrente a juventude ser massacrada com os furúnculos.Ora no pescoço, ora no traseiro, era a manifestação das condições insalubres e alimentação menos vitaminada das classes menos abastadas.Então, na carência de medicação, obtinha-se, (com empenhos) a massa já fermentada de que se fabricava a cerveja- na fábrica, junto ao parque da cidade.Tomada, às colheres, fazia “explodir” a furunculose. Outros tempos..os do óleo fígado de bacalhau, genuíno.
    O “fino” a um escudo e cinquenta (?), com tremoços ou amendoim, na fábrica ou no Oliveira (ao lado da Direcção de Viação), na Av.Navarro, tinha, ainda, outras vantagens colaterais.

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  2. Esse Nicolau é, como eu, de São João da Madeira, sendo como que uma lenda por cá, pela sua boémia de Coimbra e espirito generoso quando assentou de volta cá na terra. Conta quem conheço que, como médico, pegava nos doentes e quase que os "atendia" no tasco, como que a reviver velhos tempos de Coimbra.
    Já li esse livro de que fala, gostava de conhecer mais livros assim. Se me pudesse indicar livros que retratem a "velha" Coimbra ficaria muito agradecido.

    João

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  3. Meu caro João,
    É muito interessante o que me diz sobre o Nicolau da Costa. Casa perfeitamente com o tom do seu livro. Era claramente um homem simples, com muito bom fundo no interior da sua estroinice de rapaz.
    Há muitos livros de memórias de antigos estudantes mas poucos se encontram à venda. Sugiro que consulte as editoras de Coimbra – Coimbra Editora, Almedina, Minerva… – para saber se têm algo de novo ou em stock. Com paciência, andando pelas feiras de livros velhos… eles vão aparecendo.
    A lista bibliográfica mais completa que conheço sobre estes assuntos encontra-se no livro “A Academia de Coimbra – 1537-1990” de Alberto Sousa Lamy, Editora Rei dos Livros, onde se encontra “tudo” o que saiu sobre a Academia de Coimbra até 1990.
    Se tiver oportunidade de procurar em Bibliotecas, mande-me um e-mail que eu indicar-lhe-ei alguns títulos mais referenciados.
    Boa sorte e boas leituras.
    Zé Veloso

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  4. Na página “Penedo d@ Saudade” no facebook, José Maria Marques colocou no passado dia 23 de Julho um comentário interessantíssimo que agradeço e que passo a reproduzir:

    J Veloso
    Confirmo a história do “Fino”.
    Toninho Saraiva era meu pai, falecido em 1992.
    Toninho iniciou as suas lides na Boémia Coimbrã aos 18 anos, por volta de 1945, fugindo do Caramulo onde fora internado por conselho de um especialista catalão com diagnóstico de tuberculose rara e fatal.
    "Antes que o avô o reencaminhasse para o sanatório, refugiou-se numa república Coimbrã e passou a integrar a trupe do Felisberto Pica e outros boémios que quando pediam uma rodada de cerveja nas suas incursões à Baixa, a excepção era sempre a frase “mas para o Toninho num copo muito fino”, mais tarde o “Fino”.
    Dizia-se então que o Toninho era faquir, pois não os bebia… engolia-os!
    Fino era exclusivo de Coimbra até aos anos 70, no Norte era Príncipe, no Sul Imperial, e só em meados dos anos 80 se “nacionalizou” quando apareceu uma campanha com o claim – Sagres, o Fino!.
    Continue a perpetuar as memórias de Coimbra!
    Obrigado
    José Mª Saraiva Marques

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