quarta-feira, 15 de agosto de 2012

VOU ENCHER A BILHA E TRÁGO-A

    À entrada do Parque Manuel Braga, um painel de azulejos tem pintada uma bem conhecida quadra de António Nobre. Qual o significado desta quadra? Será apenas uma evocação do “Basófias” ou será algo mais do que isso?

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    Trata-se de uma quadra que é de inclusão quase obrigatória na letra da desgarrada que dá pelo nome de “Vira de Coimbra”. Sendo este o único fado de Coimbra que se coaduna com a minha voz, cantei-a anos a fio em encontros de amigos… mas nunca me preocupei verdadeiramente com o seu sentido. Era claro que teria a ver com o “Basófias” e com a sua falta de água durante a estiagem. Mas por que razão haveria eu de ir encher uma bilha de água ao rio?

    Entretanto, passei os olhos pelo , onde aquela quadra aparece, e foi então que entendi o óbvio: quem vai encher a bilha não é o estudante que canta o fado mas sim uma tricana. Trata-se, afinal, de uma versão moderna das cantigas de amigo…

    Até ao século XIX e ainda nas primeiras décadas do século XX, a “Coimbra dos amores” não estava ligada à Alta. Estava ligada ao Mondego e à parte baixa da cidade.

    Do Choupal até à Lapa foi Coimbra os meus amores…, canta Zeca Afonso, um fado de Mário Faria da Fonseca, gravado por Edmundo Bettencourt nos finais da década de 1920. E acrescenta Ó Coimbra do Mondego e dos amores que eu lá tive.

    E quanto a Augusto Hilário, lenda-viva que estudou em Coimbra de 1886 a 1896, diz o fado que leva o seu nome que cantava alta noite no Choupal e que toda a tricana escutava.

    No nosso tempo não teremos dedicado grande atenção ao Mondego e aos seus arrabaldes, até porque quem estudava em Coimbra tinha já a possibilidade de se deslocar no fim-de-semana até outras paragens fora de portas. Alguns de nós não terão, sequer, estado na Lapa ou no Choupal… muito menos alta noite. Mas o mesmo se não passava antigamente.

    Os saudosos campos do Mondego, de que fala Camões, eram então procurados amiúde pela população académica para passar os seus tempos de lazer, não apenas aos domingos, dias santos e de tolerância de ponto, mas também nas tardes durante a semana (já que apenas havia aulas de manhã), até que a cabra tocasse “as tristres” e os obrigasse a recolher ao estudo. E por ali se divertiam os escolares, fruindo a paisagem e cortejando as moças da terra – as tricanas – a quem iam prometendo casamento para depois das formaturas.

    Das margens do Mondego, e da sua bonita ponte de pedra, assistia-se, assim, à passagem de dois ciclos anuais, distintos mas simultâneos: o ciclo dos amores entre o estudante e a tricana, amores que fortificam nas estações mais frias para terminar em pleno Verão, no final de cada ano lectivo, com a partida para férias; e o ciclo das águas do Mondego – o “Basófias” – cujas cheias ocorrem no Inverno, na época em que os amores florescem, despreocupados e viçosos, mas cujas águas secam com a chegada do Verão.

    A quadra que vimos acima é a 7.ª de um conjunto de 18 quadras soltas, que António Nobre agrupou no sob o título Para as Raparigas de Coimbra. Se colocarmos em sequência 3 dessas quadras (7.ª, 8.ª, 13.ª e, novamente, a 7.ª), a sobreposição daqueles dois ciclos torna-se evidente.

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?

    No Inverno não tens fadigas,
    E tens água para leões!
    Mondego, das raparigas,
    Estudantes e violões!

    Agora, são tudo amores
    À roda de mim, no cais,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    O Painel de azulejos à entrada do Parque Manuel Braga parecerá, para muitos, uma simples evocação do “Basófias” antes da regularização do Mondego.

    Mas não será só isso. O que o painel expressa é o desabafo triste de uma mulher que amou, que se sentiu abandonada ao ver partir, talvez para sempre, o seu amado, e que viu secar as suas lágrimas nas areias quentes de um Mondego indiferente à sua mágoa.

    Zé Veloso 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

QUEIMA DAS FITAS DE 2012. NOTAS À MARGEM DO CORTEJO

Como é que o cortejo da Queima de hoje é visto pelos estudantes de ontem? Para tirar as dúvidas, fui até Coimbra no primeiro domingo de Maio.
Quem for do meu tempo e tenha perdido o rasto a estas celebrações dirá que me enganei, que o cortejo não foi no domingo, mas sim na terça. Ou, então, dirá que “a Queima já não é o que era…” mas isso só mostra que a festa continua viva e autêntica pois que, se continuasse tudo na mesma – numa sociedade que muda todos os dias – por certo a Queima já estaria morta. Paradoxalmente, a tradição mantém-se viva porque a celebração se vai renovando.
Aliás, falando do passado, a Queima foi sendo construída ao longo de mais de meio século e apenas nas décadas de 50 e 60 do século XX se registou alguma acalmia no seu figurino. E é curioso notar que as maiores acelerações operadas na complexidade e magnitude dos festejos ocorreram nos períodos posteriores à implantação da República e à revolução do 25 de Abril, duas datas que marcam convulsões na sociedade que arrefeceram as praxe\\s académicas por cerca de uma década: de 1907 a 1915 apenas num ano há registo de festejos em que se queimassem fitas; e de 1969 a 1979 nenhuma Queima se realizou.
Voltando ao dia de terça-feira – uma “vaca sagrada” cujo abate em 2010 levantou alguns protestos – lembro que ele não era tradição muito antiga: o acto de queimar as fitas estreitas ou grelo começou por ter lugar no último dia do ano de cada curso, dia esse que não era o mesmo para todas as Faculdades (chamava-se “dia do ponto”, a que se seguiam as férias de ponto e, depois, os exames); só em 1919 passaram todos os cursos a queimar as fitas e a desfilar na mesma data; entre 1919 e 1947, queima e cortejo foram sempre a 27 de Maio, dia comemorativo do conflito “Olha o Boné!”; e só a partir de 1948 se fixaram na terça-feira. Entendo perfeitamente que o cortejo tenha agora sido mudado para domingo, dia em que mais facilmente as famílias se poderão deslocar a Coimbra para ver desfilar e abraçar aqueles que estão no centro da festa e, quantas vezes, também no centro dos seus projectos de vida e das suas preocupações orçamentais.
Fui para Coimbra algo mal disposto com o que vira em fotografias da Serenata Monumental. Aquela história de terem posto instrumentistas e cantores debaixo de uma barraquinha de lona branca no topo da escadaria da Sé Velha é de uma insensibilidade com a qual convivo mal. Assegurou-me, quem já tocou mesmo debaixo do portal da Sé, que ali não chove! Logo, existia uma solução natural para a chuva, como sempre existiu desde que a serenata tem lugar naquele largo. Era só recuar um pouco. Não daria tanto espectáculo, acredito. Mas daria menos barraca! Um dia descobrirão que aquele telheiro da treta ainda deixa entrar a chuva batida… e lá teremos uma marquise de alumínio no portal de entrada da catedral românica!
Tendo chegado manhã cedo e deixado o carro na zona da Penitenciária, tentei uma visita ao Botânico, onde há muito não entrava. Impossível! «Está fechado?» Ingenuidade minha, pensar que as flores se pudessem quedar pelos canteiros em dia de cortejo… Hoje, como no meu tempo, as flores são caras, o dinheiro é curto e o civismo é um bem escasso.
Mas esse revés deixou-me tempo livre para subir até ao Largo D. Diniz e ao largo da Sé Nova e observar por dentro a preparação da festa. Fiquei boquiaberto com a eficácia da organização, aliás, única forma de pôr em marcha, sem engarrafamentos, um cortejo com quase uma centena de carros, todos eles concentrados na zona da velha Alta desaparecida.
Ao longo dos arruamentos, os locais de estacionamento de cada carro estavam meticulosamente marcados no chão, com a indicação do seu número de ordem no cortejo. Pelas 11 da manhã, só metade dos carros ocuparia o seu lugar mas os restantes iam chegando, sem atropelos, e tudo se compunha!
E em frente da Sé Nova, no centro da praça que corresponde grosso modo ao Largo da Feira – onde as fitas eram queimadas há mais de um século – num palanque com um penico de dimensões generosas, para onde iam subindo os novos fitados, ordeiramente e em pequenos grupos, ei-los a queimar o grelo, a soltar as fitas e a erguer as pastas ao céu, num bonito gesto para a fotografia, à voz de um fotógrafo que marcava o ritmo da cerimónia, tal como acontece com os noivos nos casamentos de hoje: «Queimar o grelo! Soltar as fitas! Pastas ao alto! Não tapem as caras, por favor! Podem sair! Grupo seguinte!»
Tudo previsto, tudo muito profissional! E lembrar-me eu que quando o meu carro, saído do Quartel da GNR, chegou à Alta, a confusão reinante era tal que mal se conseguia romper até ao palanque, prantado num cruzamento sem significado algum; e que, antes que o carro se pisgasse – que o motorista já berrava de dentro da cabina que não tinha sido contratado para que lhe amolgassem a camioneta – lá houve um de nós que conseguiu chegar ao penico, levou consigo mais uns grelos emprestados e trouxe de volta o fogo com que queimámos o resto dos grelos e mais os dedos, sem ninguém que nos dissesse como é que aquilo se fazia e sem fotos que ficassem para a posteridade… Ah!, como eu invejo as facilidades de hoje!
E os carros? Aquilo sim! É projecto de engenheiro! Por fora são diferentes uns dos outros; mas por dentro a estrutura é sempre a mesma… e muito bem pensada. Na traseira abre-se uma porta que dá para uma ampla escadaria de madeira que vem quase até ao chão, facilitando, particularmente, o acesso das fitadas e permitindo carregar à vontade as caixas de cerveja, vodka, gin, espumante (ou champanhe?), refrigerantes e tudo o mais – mas tudo, mesmo – que o pagode gosta de beber, à mistura com sandes, bolos e demais iguarias de comer, ordeiramente arrumados debaixo de dois balcões largos, corridos a todo o comprimento do carro, balcões onde os novos fitados cumprem alegremente o papel de atenciosos “barman’s” de um bar ambulante que vai avançando por entre uma multidão sequiosa, enquanto eles próprios vão também molhando o bico e se vão divertindo quanto podem… e enquanto podem, ou melhor, enquanto aguentam.
Longe, muito longe, vão os tempos do vinho espumoso Messias, a 5$00 a garrafa, que agitada de boca em boca fazia saltar aquela zurrapa mais o gás pelo nariz! Longe vão os tempos onde os carros não tinham outro acesso que não fosse uma escada de pedreiro que se encostava pelo lado de fora e obrigava as fitadas a subir com a saia (des)travada e uma capa a servir-lhes de biombo!
E que dizer dos saltos para a piscina humana com que as cartoladas de Ciências do Desporto e Educação Física foram brindando a assistência, protegidas pela bênção de João Paulo II que, mesmo de costas, não deixou de lhes por a mão por baixo? Lá diz o ditado: Ao menino e ao borracho…
Aliás, a grande animação do cortejo, ao nível do solo, é hoje assegurada pelos cartolados, cujos cânticos, gritos e coreografias, envolvendo as cartolas e as bengalas coloridas, nada têm a ver com o ar grave (de pré-instalados na vida) que os cartolados do meu tempo faziam questão de ostentar. Talvez seja assim porque os cartolados de hoje, sabendo o que os (não) espera no final do ano, se alienam desse triste cenário, cantando a plenos pulmões – e, estou certo, cheios de convicção – que não querem deixar Coimbra nem a vida de estudante.
Rompendo uma tradição que vem de longe (desde quando?), este ano o primeiro carro não foi de Medicina, tendo sido dada a primazia a um carro de Direito, segunda Faculdade na hierarquia da praxe. Isto, como “cartão amarelo” aplicado ao curso de Medicina pelo atraso que, no ano passado, o carro n.º1 provocou ao arranque do cortejo. The show must go on!… e a Comissão da Queima tem mão pesada! Aliás, não apenas na parte disciplinar, já que fica com 25% dos patrocínios que cada carro consegue arranjar, mais à volta de 1.500 euros de inscrição por carro!!! Será que o ministro Gaspar andou em Coimbra?
Só não vejo saltar no ar aqueles livrinhos de papel baratucho, da cor de cada Faculdade – as plaquetes – que faziam a alegria da miudagem que corria de carro em carro – «Um livrinho, sotôr, um livrinho!» – onde, a par com as caricaturas e alguma quadra, apareciam os anunciantes, os tais do patrocínio. Hoje em dia, ou porque os cursos são grandes ou porque as outras despesas do fitado são enormes, deixou de haver Livro de Curso (admito que não seja a regra mas foi o que me foi dado ver). Assim sendo, as plaquetes subiram na hierarquia: deixaram de ser atiradas para a rua, sendo agora destinadas apenas a familiares e amigos, impressas num papel lustroso de boa gramagem, onde, para além das caricaturas e do bloco de anúncios, os colegas de carro aparecem em fotografias de grupo, em poses descontraídas e cinéfilas, fazendo o seu espectáculo. É o retrato da Queima de hoje: o espectáculo! Não me refiro apenas ao espectáculo em cartaz no Queimódromo. Refiro-me ao espectáculo do cartaz em que cada um é personagem. Tal como na vida de hoje! E por isso a Queima continua viva! A Queima, sem perder o essencial do seu simbolismo, adaptou-se aos tempos que passam, ao seu ritmo e aos seus valores, bons ou maus, goste-se ou não!

Pena é que muitos estudantes não saibam usar a capa e batina! É uma tristeza! Chega a ser confrangedor observar a forma desajeitada como alguns tratam a parte mais distintiva e funcional do traje – a capa! Não sabendo usá-la, parece que têm medo dela! Há quem a ponha ao ombro, de forma muito estudada e estática, dobradinha a rigor como acontece com os manequins das montras. Há quem a coloque no braço, engomadinha como uma toalha, estilo criado de café a quem só falta uma bandeja na mão com um galão e uma torrada! Inventaram, até, uma moda que não entendo como não é proibida, que consiste em fazer da capa – enrolando-a sobre si própria com a ajuda de um colega e juntando as pontas com dois nós – uma espécie de chouriço que se coloca a tiracolo… há muito que não via coisa tão inestética! Ao invés, muitos optam por trazer a capa caída pelos ombros, em posição de cerimónia (sem qualquer enrolamento da parte superior), vulgarizando uma postura que deveria ser guardada para situações excepcionais. Que saudades do tempo em que qualquer um sabia traçar a capa com elegância, trazê-la no braço ou ao ombro sem presunção… e sem ter de ler o “manual de instruções”! O que hoje se vê era inevitável: ninguém pode sentir-se à vontade com aquilo que só usa nos dias de festa!
Mas há razões que a razão desconhece: ainda que não consiga descortinar nada escrito no Código da Praxe, fez-se tradição que o caloiro só possa traçar a capa na noite da serenata, em local nobre (Porta Férrea, Porta de Almedina, Sé Velha) e com a ajuda de um padrinho. Isto não radica em nenhuma tradição da Academia de Coimbra, sendo puro folclore, porventura importado de outra universidade! E tem efeitos perversos: é o mesmo que dizer a um caloiro que não use capa e batina e que apenas a compre nas vésperas da Queima, já que ter uma capa e não poder traça-la é como ir a Roma e não poder ver o Papa! Para uma Academia que gosta de apregoar que a praxe é boa para integrar os caloiros – e sabendo-se que a identidade do traje é, em qualquer sociedade, um dos segredos da integração – vou ali e já volto!
Faço-me à estrada a meio da tarde, já que me espera um jantar em Lisboa. Ainda só terão passado nos Arcos uma vintena de carros mas eu já conheço o resto do filme, pois que em 1999 me integrei no cortejo com a malta da minha República – Os Ly-SOS: primeiro passarão os carros da Universidade (59), depois os dos Institutos Politécnicos, Escolas Superiores e Universidades Privadas (25), num total de 84, menos do que em 2011 (será da crise?). Ao contrário do que acontecia há 13 anos, em que os carros não pertencentes à Universidade só entravam no cortejo a partir dos Arcos do Jardim, hoje todos eles saem da Alta mais alta. Imperou o bom-senso e Bolonha deu uma ajuda! Soube mais tarde que, afinal, apareceram mais uns quantos carros que, à revelia, se integraram no cortejo. Não tirei a limpo a notícia mas não me admiraria que fosse malta a “fugir ao fisco” da Comissão. Com uma “canga fiscal” elevada, os patrocinadores em crise e os “paitrocinadores” apertados, tudo é de esperar. Na Queima como no país…
E o cortejo fechará com o já costumeiro batalhão de carros e pessoal de limpeza da Câmara que, vindo algumas dezenas de metros atrás, atacará, com notável eficiência e eficácia, o tapete de vasilhame e demais desperdício que a gente educada deixou pelo chão. Em 1999 apreciei esse tão deplorável como fascinante espectáculo: de uma penada, escolhem o lixo, atiram-no para cima dos carros, varrem e lavam a rua ao som estridente de uma sinfonia parida de dentro de um vidrão gigante. Agora, o som da sinfonia já não será tão cristalino e lembrará mais um batuque de samba, pois que, entretanto, a embalagem de lata destronou a garrafa de vidro.
Uma Queima em permanente mudança!...
Adeus, cortejo de 2012! Para o ano há mais…
Zé Veloso
Notas fotográficas
A primeira fotografia (obtida numa postagem de Luís Pinto Coelho), é relativa à Queima de 1933. À esquerda da foto, sentado atrás, está o Professor Doutor Pinto Coelho, das Químicas.
A foto da Serenata Monumental foi obtida da net.
As restantes foram tiradas por mim no dia do cortejo.
A plaquete fotografada é do carro de Farmácia FARMASUTRA, cujo "balcão de bar" aparece numa das fotos do cortejo.
ZV

terça-feira, 12 de junho de 2012

CASAMENTOS MARADOS. DO VEGETARIANO AO NUNES DE RANHADOS


A partida conta-se em dois parágrafos.

Cavalheiro maduro, com posição, procura menina prendada para fins matrimoniais – assunto sério – e mete anúncio no jornal. Resposta dada ao apartado número tantos, mais carta menos carta o pretendente aparece em Coimbra pronto a conhecer a noiva e pedi-la em casamento, que quem põe anúncio é porque tem pressa e quem responde deve estar na mesma onda. Só que a prometida noiva não é mais do que uma súcia de marmanjos que não perde a ocasião para gozar o pratinho.

Atraído o bom do homem a Coimbra, monta-se um cenário digno de um filme de Kusturica, que levaria o mais crédulo a desconfiar da marosca mas de onde o herói da fita já não consegue saltar fora, pois que fica tão mal dentro dela como saindo pela esquerda baixa no meio da surriada geral. Há que beber o cálice até ao fim! E, lá no fundo, existe sempre a esperança de que a noiva – tão bonita!!! – não seja um belo rapaz vestido de saias e engraxado com pó-de-arroz e batom, que a família e os putativos padrinhos não sejam a súcia de amigos que responderam ao anúncio e que a algazarra que vai na rua se justifique pelo júbilo de um povo que vê, enfim, chegar o cavaleiro que desposará e tornará feliz para todo o sempre a sua princesa tão querida…

No essencial, a partida foi sempre a mesma e aconteceu por três vezes na Coimbra académica do primeiro terço do século XX. Aliás, aconteceu por duas vezes e meia, já que um dos alvos da paródia escapou à vergonha por um triz. E a semelhança entre os casos – que andaram de boca em boca e assim foram sendo transmitidos às gerações seguintes – faz com que, à distância, se pense que foi um só e se confundam os seus actores. Mas António José Soares, que escreveu Saudades de Coimbra consultando os jornais da época, conta-nos cada uma das façanhas com algum detalhe. Vamos a elas.

O primeiro caso passou-se em Maio de 1916. O maduro era um respeitável comerciante de Lisboa, onde tinha um restaurante vegetariano. Procurava senhora de meios e para tal achou que nada melhor do que colocar o anúncio bem longe, num jornal do Porto. Mas a República Cometa, hoje desaparecida, estava atenta e teve argumentos suficientes para atrair o nosso “vegetariano” a Coimbra, metê-lo num carro de cavalos onde a noiva o aguardava e organizar um cortejo com outros trens que o seguiram desde o Coimbra-Hotel até aos Arcos do Jardim, onde ficava a república. O homem desconfiou e chegou a apear-se do carro para se pôr em fuga. Mas lá o convenceram a continuar... disseram-lhe que a imprensa estava controlada e que a sua reputação não corria perigo… a festa continuou e o casamento foi de arromba.

Na República esperavam já um suposto Conservador do Registo Civil, os padrinhos e os convidados e tudo se passou conforme os cânones, incluindo, à noite, uma sessão no Teatro Avenida, com a estudantada aplaudindo em delírio o casal de noivos que assistia do camarote principal. Para descanso da noiva – o estudante Manuel Beires da Silva – o casamento não chegou a consumar-se entre os lençóis. Não porque o “vegetariano” desdenhasse de comer o seu naco de carne – por alguma razão botara o anúncio – mas porque, trazida a verdade à luz do dia em plena noite, o “vegetariano” se pisgou para parte incerta e não mais foi visto na cidade.

Um ano depois, Maio de 1917, uma vez mais um sujeito de Lisboa se arriscou a passar pelo mesmo calvário em Coimbra. Chamava-se ele João Andrade e, pela certa, não teria tido conhecimento das bolandas em que o “vegetariano” se vira envolvido. Marcada a entrevista para conhecer a noiva numa república da Rua da Matemática, não teve qualquer pejo em comparecer. E só não foi levado em cortejo nupcial porque, entretanto, soube-se do falecimento do estudante que fizera de noiva do “vegetariano” e a paródia ficou por ali. Donde se prova que o azar de uns é a sorte de outros…

As notícias destes casos deverão ter feito mossa, já que durante mais de uma década não houve solteirão que se arriscasse a procurar noiva em Coimbra pelo jornal, o que não terá deixado de constituir um prejuízo para meninas que estivessem “encalhadas”, fosse por terem falta de graça, fosse por terem graça de mais.

Mas a Primavera sempre puxa pelo amor. E chegados a Abril de 1930, um novo pretendente apareceu, um tal senhor Nunes, natural de São Caetano, freguesia de Ranhados, que passou à história como o “Nunes de Ranhados”. O anúncio saiu, discretamente, num jornal de Viseu e nada apontava para que fosse interceptado pelos radares da Real República Ribatejana, sita na Rua do Militares, onde pontificava uma parelha que ficou célebre pelas piadas que forjou na Coimbra dos anos 30 – Castelão de Almeida, director de “O Ponney” e Henrique Mota, o “Pantaleão”, que montaram uma encenação que ficou para a história.

Chegado de comboio à Estação, o "Nunes de Ranhados" identificou-se da forma combinada nas cartas de preparação do encontro, desembarcando com uma carta na mão esquerda, ridiculamente a dar a dar. Vinha doido para conhecer a menina “Alice Amélia Torres” mas logo ficou a saber que havia um tal “primo Augusto”, terrível rival com quem teria de disputar os favores da menina Alice. Rumados à Alta para um almoço com a “família Torres”, que o mesmo é dizer com a malta da República e amigos (o célebre Fred, Dr. Fernandes Martins, também entrou na festa), seguiu-se um passeio turístico pela cidade, num carro aberto que levava o Nunes e a noiva, acompanhados, claro está, pelo pai e pelo tio da dita, não fosse a menina “ficar falada”. Apesar de haver centenas de comparsas correndo à frente e atrás do carro numa restolhada infernal, o bom do Nunes nunca desconfiou, aceitando por boa a explicação de que tais manifestações faziam parte da “Festa do Passarinho”, por mero acaso celebrada nesse mesmo dia.

O cortejo viria a terminar no 1.º andar da Central, a cuja janela assomaram os noivos, para que quem estava na rua pudesse assistir a um recatado beijo nupcial. Na fotografia, em primeiro plano, o Nunes parece pouco à vontade com o atrevimento da noiva – o estudante João Duarte. Atrás, da esquerda para a direita, Igrejas de Bastos, Henrique Mota “Pantaleão”, Augusto Castelão de Almeida e Luís Fagulha

Segundo António José Soares, não houve cerimónia nupcial mas fizeram-se fotografias e decorreu depois uma lauta boda no restaurante da Pastelaria Central.

Mas nem sempre o último é quem ri melhor. A Real República Ribatejana há muito desapareceu, enquanto Ranhados continua no mapa.

Zé Veloso

Nota 1: Fotografia retirada do Volume II do livro "Saudades de Coimbra" de António José Soares, edição da ALMEDINA.
 
Nota 2. No primeiro comentário a este post transcrevo a versão do noivado do Nunes de Ranhados que aparece no livro TESTEMUNHOS, escrito em 1997 pela então viúva do “Pantaleão”, onde o papel da noiva é atribuído ao próprio Castelão de Almeida.

terça-feira, 22 de maio de 2012

FUI AO JAMOR VER A TAÇA...


          

          Fui no domingo ao Jamor, sim senhor!

          Mais para gozar a festa
          numa boa, sem ter pressa,
          que o final do campeonato,
          esse, sim, me deixou roto
          à beirinha da desgraça.
          Fui pr’apanhar na cabeça
          mas vim de lá com a taça!

          Comecei a festa cedo, sem ter medo!

          Sábado à noite, em Lisboa,
          onde o Museu de Arte Antiga
          se encheu de gente e de vida
          ao som do Alma de Coimbra
          que me deixou de alma cheia…
          Revi amigos da lida
          e o licor serviu de ceia!

          Estacionei na Cruz Quebrada, que maçada!

          Tinha almoço marcado
          c’os “Cromos” do facebook
          que esperavam do outro lado.
          À mesa foi uma alegria:
          Académica e União!
          Até Sporting havia…
          Era Coimbra, pois então!

          Já são horas de ir prò campo… deixa o banco!

          P’lo caminho que eu levava
          eram só verdes na estrada
          que gozavam sem maldade:
          - Mas porque vem de tão longe?
          Não quis ver pela televisão?
          - Mas eu, cá, vim de Lisboa…
          - Antes Briosa que Lampião!

          Vamos lá entrar prò estádio… tou lixado!

          Mas onde fica a tribuna?
          E os acessos pra peões?
          Vai de subir monte acima,
          a chocar com quem descia
          monte abaixo aos trambolhões.
          Deve haver lá uma entrada,
          penso eu c'os meus botões!

          Mas o que há é gente à nora… - E agora?

          Já estou na fila apertado;
          mas, se vou prò sítio certo
          ou vou dar a outro lado...
          ninguém sabe. Deus é grande!
          É um evento nacional!
          Cada qual se desenrasque…
          Viva, viva Portugal!

         Porra! Está quase na hora… e eu cá fora!

          E o jogo a começar
          e eu de bilhete na mão
          - Com licença, com licença…
          Viro as costas para o campo
          à procura do lugar.
          Há um bruá do caraças:
          é o Marinho a marcar!

          E aqui estou eu no Jamor… ai que dor!

          Vir cá e não ver o golo…
          - Ó amigo, não lamente!
          Foi você que nos deu sorte:
          ao virar costas ao campo
          pôs a Briosa na frente!
          Nunca mais virei as costas
          e o resultado foi rente...

          Do jogo nem vou falar… tá a andar!

          Deixo isso pra quem sabe;
          mas, da claque, eu asseguro
          - e ali, do sítio onde eu estava,
          posso bem aquilatar -
          que a BRIOSA era mais forte!
          E malta do topo sul
          abafou o topo norte!

          Seis minutos! Tá na hora… é agora!

          Para mal da lagartada
          - que estava por trás de mim
          e gritava, meio mosca,
          que queria ver o jogo -
          a malta não se sentava.
          Os cachecóis rodopiavam
          e o Sporting acordava.

          Sofridinho até ao fim… Ai de mim!

          E o Ricardo a segurar
          o que o Edinho esbanjara
          logo no reatamento.
          - Diz que quem não mata morre
          - Cale a boca seu jumento!
          O sor árbitro é que sabe
          e vai acabar o tempo!

          E assim que o árbitro apita… agora sim! É o fim!

          A malta nem acredita:
          abraços, pulos e gritos,
          quando inda há uma semana
          andávamos pela lama
          lá pela cauda dos aflitos!
          Mas agora a taça é nossa!
          Pró ano vai ser de gritos!

          BRIOOOOOOSA!!!!!!!    BRIOOOOOOSA!!!!!!!

          Descendo o vale do Jamor,
          de cachecol e palhinhas,
          vou gozando, cá nas minhas,
          sem pressa de acabar
          aquela tarde de glória!
          A malta ganhou a Taça!
          Voltámos a fazer História!

          Zé Veloso

sexta-feira, 30 de março de 2012

VISITA GUIADA À ARQUITECTURA DO FERRO – 1.º dia

    A arquitectura do ferro, uma arquitectura tipicamente funcional, feita por engenheiros que, a partir de finais do século XVIII, começaram a utilizar plenamente o ferro como elemento resistente das construções, chegou a Coimbra na segunda metade do século XIX.

    Coimbra não tem nenhuma obra com a assinatura de Gustave Eiffel, como acontece com o Porto e Viana do Castelo, mas não deixa de ter, ainda hoje, alguns interessantes exemplares daquela arquitectura, apesar de outros terem desaparecido há já alguns anos.

    Começamos aqui a visita, no início da rua Figueira da Foz, neste local ermo e desinteressante, onde uma tabuleta anuncia PARQUE PRIVATIVO e onde, durante o dia, estacionam carros, supostamente a gasolina ou gasoil. Curiosamente, de 1929 a 1973 era este o local onde, durante a noite, estacionavam os carros eléctricos. Já poucos indícios restam da denominada Recolha do Gaz, a não ser nos degradados edifícios da portaria, onde tanto a cor como a cancela de ferro como ainda um emblema dos Serviços Municipalizados nos remetem para a anterior utilização deste espaço.

    Mas os eléctricos não ficavam ao relento, como hoje ficam aqui os automóveis. Cobriam-nos os telhados de duas naves que suponho que fossem de estrutura metálica, as quais terão substituído outras existentes no mesmo local ou, quem sabe, terão sido reconstruídas a partir delas. Em relação às mais antigas, construídas há quase 160 anos, sabe-se que eram metálicas e tenho para mim que terão sido um dos primeiros exemplares (se, não mesmo, o primeiro) da arquitectura do ferro em Coimbra. Contemos a sua história:

    Até 27 de Novembro de 1836, Coimbra não tinha iluminação pública e cada um que tratasse de se alumiar, se quisesse andar de noite na rua. A partir daquela data, Coimbra passou a ser alumiada a candeeiros de azeite, que consumiam o azeite de pior qualidade e, também, óleo de peixe. Até que apareceu um súbdito inglês – Hardy Hislop de seu nome – que, sendo já concessionário de uma instalação idêntica no Porto, se propôs construir em Coimbra uma Fábrica de Gás (ou gasómetro, como aparece referido em várias actas da Câmara) e uma rede de iluminação pública. A fábrica produziria o gás a partir do carvão, o qual, aquecido a 1000 ºC numa retorta fechada, se decomporia numa mistura combustível de monóxido de carbono e metano [1]. Vide a chaminé da fábrica e os pavilhões que a ladeavam – as tais naves do tempo da arquitectura do ferro – neste interessante postal de Coimbra, cujo ângulo de visão não é nada frequente.

    Depois de vários atrasos nas obras (ontem como hoje…) a iluminação foi inaugurada a 1 de Outubro de 1856, ficando a exploração sob a responsabilidade da, entretanto formada, Companhia Conimbricense de iluminação a gaz. Nada sabemos da qualidade que a iluminação teria nessa altura mas, 50 anos mais tarde, já com a rede completa, conta-nos António José Soares [2] que Coimbra tinha a melhor iluminação pública do país, chegando a recear-se que tanta luz pudesse afectar o romantismo das serenatas e, até, vir a acabar com elas...

    Como mergulhámos já no séc. XIX, sugiro que nos situemos agora em 1875, sigamos a pé até à Casa do Sal e nos dirijamos depois para o Mondego, onde encontraremos algumas barcas serranas na faina de descarregar o sal vindo da Figueira da Foz. Será uma dessas barcas que nos vai levar aos outros locais que, ainda hoje, iremos visitar.

        Entrados que estamos na barca, sigamos pelo rio para junto da mais antiga das pontes de ferro de Coimbra – a ponte ferroviária da linha do Norte sobre o Mondego – que foi construída em 1864. Esta ponte há-de durar, pelo menos, até ao século XXI, ainda que tenha de vir a ser reforçada quando aumentarem a velocidade da linha do Norte e lhe começarem a passar por cima os comboios do futuro – os Alfa pendulares…

    É em cima desta ponte que os viajantes costumam captar a primeira imagem de Coimbra ao chegar do Sul, já com o comboio muito perto da estação. Será recordando esta visão que Francisco de Ataíde Machado de Faria e Maia, vindo dos Açores em 1896 estudar para Coimbra, escreverá nas suas memórias [3]: Numa nêsga do rio Mondego, entre choupos e salgueiros no primeiro plano, abria-se límpida e fresca aguarela: – a água transparente, serpenteando em regatos nos meandros da areia fina; silhuetas fugitivas de lavadeiras, batendo roupa; um barco subindo à sirga, retesando-se os membros dos condutores no esforço da tracção violenta, e, ao fundo, num monte, a cidade, Coimbra, branca, lavada, banhada de sol matutino, subindo em socalcos para a Universidade que sobre ela levantava a sua Torre quadrada, numa atitude dominadora de Castelo feudal, sobre o burgo vassalo e submisso.
Momentos depois o comboio entrava na estação.

    Deixemos agora o romantismo do Choupal e subamos o rio até perto da zona [4] onde sempre ele foi atravessado, desde que há registos de pontes na cidade.

    8 de Maio de 1875! O alvoroço é grande. Pudera! Estamos no dia em que se procede à inauguração de mais uma ponte metálica, a qual veio substituir a Ponte do O, que, devido ao assoreamento do rio,  já mal permitia a passagem das barcas debaixo dos seus arcos. É a esta ponte que os vindouros hão-de chamar a velha Ponte de Santa Clara. Os carros passam na zona central entre as vigas reticuladas, como se circulassem dentro de uma gaiola, enquanto os peões se deslocam em corredores situados do lado de fora da estrutura principal. O seu custo total, ainda não calculado a esta data, será de 101:730$695, incluindo o custo de demolição da Ponte do O e a construção dos acessos do lado de santa Clara.

    A ponte ficou barata – por isso mesmo se recorreu à arquitectura do ferro – mas muitos a achavam feia e pouco digna para aquele local [5]: Contudo, o Mondego e Coimbra mereciam de certo mais e melhor do que se fez. Embora houvesse de dobrar-se a despesa, uma ponte de pedra elegante e de  estylo romano, como aquella que ha poucos annos se concluiu sobre o rio Cavado, perto de Braga, ou uma ponte de estylo gothico florido, como a de Rialto em Veneza, era o que mais conviria ao sitio afamado do Mondego em frente a Coimbra.
    Aproveitemos agora para sair da barca e matar a fome numa qualquer casa de pasto ali para os lados da praça velha, onde as regateiras já não mercadeiam desde que, há oito anos, passaram para a nova praça – o mercado D. Pedro V, que visitaremos no próximo dia.

    Terminado o repasto, voltemos ao largo da Portagem, subamos um pouco a Couraça da Estrela e viajemos no tempo até aos inícios do século XX, para assistirmos à construção do novo paredão que, roubando terreno ao rio, criará condições para a passagem do caminho-de-ferro e para a construção do Parque da Cidade. Fácil será perceber que irá sobrar um tramo da ponte, por sinal, o mais comprido [6]... Irá ele para a sucata? Será reaproveitado? Vamos encontrá-lo no fim da visita. Mas a parte que agora ficar de pé não durará mais que meio século. Será desmantelada em 1954 para dar lugar à nova Ponte de Santa Clara, que durará, pelo menos, até ao século XXI.

    Seguimos agora rio acima, afastando-nos cada vez mais dos limites da cidade, que há muito ficou para trás. O vento está de feição e em breve chegamos à Portela, junto à foz do Ceira. Acostamos a barca e acenamos às lavadeiras que aqui vêm lavar e corar a roupa, aproveitando o branco areal desta zona do rio. Alguma dessa roupa regressará a Coimbra numa barca serrana igual à nossa.

    Mas é hora de voltar ao século XXI, é hora de voltar a 2012!

    Entremos agora na segunda ponte metálica mais antiga de Coimbra – a ponte rodoviária da Portela, a qual podemos visitar a pé, pois que, ainda que abandonada à sua sorte, não aparenta ruína. Inaugurada em 13 de Julho de 1873, foi há poucos anos fechada ao trânsito. Nesse intervalo de tempo, assegurou a ligação entre Coimbra e o interior, através da estrada da Beira, uma estrada que, de acordo com o Guia de Portugal, ostentava em 1940 o n.º 9, o que atesta bem a sua antiguidade. Está hoje à espera que apodreça e caia de vez ao rio. Uma ponte centenária, que nem é feia, a merecer melhor sorte num Portugal que pouca liga aos mais velhos!...

    Olhando para montante do rio, vemos lá no alto a ponte ferroviária do ramal da Lousã – ponte das Carvalhosas – que tem a idade daquele ramal, o qual foi inaugurado a 16 de Dezembro de 1906. Está hoje de cara bem lavada, quase pronta a receber os comboios que se diz que hão-de voltar a passar… só não se sabe quando! Quase pronta, escrevi eu. É que as travessas e os carris já se foram embora e ninguém os substituiu! Não recomendo que vão lá acima ver (é perigoso!). A fotografia diz tudo.

    Mas não vamos acabar a visita de hoje sem dar um salto ali ao lado, à estrada da Conraria, para ver um bom exemplo de reutilização, que me traz à memória o que dizia Lavoisier: na natureza nada se perde nem nada se cria… tudo se transforma. Aquela ponte metálica sobre o Ceira, pintadinha dum verde ecológico, com um gradeamento delicado que tão bem vai com o bucólico do rio… aquela ponte é, nem mais nem menos, o que sobrou da velha ponte de Santa Clara.



    Caros amigos, o dia foi muito longo e ainda temos mais arquitectura do ferro para visitar em Coimbra. Ficará o resto da visita para um segundo dia, em data a anunciar. Obrigado pela vossa atenção.

    Zé Veloso

Agradeço ao António Figueiredo, à Catarina Padez Duarte, ao João Baeta, ao Jorge Oliveira, ao Pedro Rodrigues Costa e ao Ricardo Figueiredo a disponibilização de elementos vários que permitiram compor este "post".

[1]  "Percursos Químicos - À procura da antiga Fábrica do Gás", http://percursosquimicos.blogspot.pt/2010/06/pq-cc-procura-da-antiga-fabrica-do-gas.html
[2]  "Saudades de Coimbra", Vol I, António José Soares, Edição Almedina, 1985
[3]  “A minha velha pasta: tempos de Coimbra e gente do meu tempo, 1896-1901”. Ponta Delgada: Tip. do "Diário dos Açores", 1937.
[4]  Todas a pontes vinham desembocar na portagem e todas foram construídas sobre os alicerces das anteriores. Apenas a actual ponte de Santa Clara (local assinalado no Google) foi construída ligeiramente a montante das anteriores.
[5]  "Escriptos Diversos", Augusto Filipe Simões, Imprensa da Universidade, 1888
[6]  Os tramos da ponte metálica eram desiguais por as fundações dos seus pilares terem aproveitado as fundações dos pilares da ponte de pedra anterior.  


sexta-feira, 9 de março de 2012

10 PONTES TEM COIMBRA!

    Já por aqui escrevi que Coimbra deve uma boa parte da importância que ganhou, desde tempos muito antigos, ao facto de se localizar num ponto de passagem obrigatória para quem, pelo litoral, precisasse de se deslocar entre o Norte e o Sul da Península.

    Não admira, por isso, que Coimbra seja hoje a terra portuguesa que mais pontes tem sobre o rio que a banha. Se Lisboa tem duas e o Porto tem seis, em Coimbra conto nada menos do que 10, compreendidas entre a A1 e a Portela.

    Começando precisamente na Portela, logo aí existem três, separadas por poucos metros, o que, visto de longe, sugere uma complexa e intensa rede de tráfego! Puro engano. Só uma das três pontes funciona: a que hoje liga Coimbra à Estrada da Beira. Das outras duas… a ponte da linha da Lousã  –  Ponte das Carvalhosas   –   que tantos comboios carregou de um lado ao outro do rio desde 16/12/1906, está parada há vários anos, pacientemente à espera que lhe voltem a pôr em cima as travessas e os carris que em má hora foram levantados; e a velha ponte da Estrada da Beira, inaugurada em 13/07/1873, para ali ficou abandonada e a criar ferrugem, sem préstimo algum que não fosse o de ver passar os comboios na ponte ao lado… se os houvesse!

    A quarta ponte a referir é uma ponte ferroviária que raramente observamos, pois que o normal é passar-lhe por cima, já de malas na mão; e se olhos há nessa altura… é para a Alta, que nos aparece, subitamente, no seu esplendor, mal o comboio entra sobre o rio. A ponte da Linha do Norte foi construída em 1864 e, embora tendo sido reforçada, ali continua a mostrar que “velhos são os trapos”.

    Chegamos agora à Ponte de Santa Clara, a quinta deste itinerário, projecto de Edgar Cardoso, a qual foi aberta ao trânsito em 30/10/1954. Olhando a fotografia que mostra a ponte prestes a ser inaugurada e, à sua direita,  a velha ponte (também ela de Santa Clara), facilmente se percebe que estamos perante duas realidades completamente diferentes. A  construção desta nova ponte alteou e alterou profundamente a fisionomia do Largo da Portagem e avenidas confinantes. A nova Ponte de Santa Clara, muito mais larga que a anterior, respondia assim ao crescente aumento do tráfego rodoviário Norte-Sul, tráfego que, à época, atravessava a cidade, escoando-se pelas avenidas Emídio Navarro e  Fernão de Magalhães.

    É altura de falarmos não apenas na velha ponte de Santa Clara – ponte metálica, em forma de gaiola, com um passeio pedonal de cada lado e apoiada em pilares de pedra, que foi aberta ao trânsito em 8/5/1875 – mas também em todas as que a precederam naquele local e que foram pelo menos três.

    A primeira de que há notícia seria uma ponte romana de pedra (ainda que haja igualmente referências a uma ponte de madeira; anterior a esta?).

    Sobre as fundações da ponte romana, construiu D. Afonso Henriques em 1132 uma outra, conhecida como sendo a Ponte de D. Afonso Henriques, igualmente de pedra, cujas obras se continuaram por vários reinados. Ou porque a construção era fraca ou porque as correntes do Mondego arrastavam na sua fúria de inverno tudo o que da serra se desprendia, a ponte estava uma lástima quando D. Manuel visita Coimbra em 1506 e se decide pela sua reconstrução.

    A Ponte de D. Manuel ou Ponte do O ficou concluída em 1513. Está retratada da gravura de Pier Maria Baldi, desenhada em Fevereiro de 1669. Tinha 24 arcos, que permitiam a passagem das barcas serranas com a vela panda. Na margem direita, a ponte terminava num arco/torre de secção quadrada, onde era cobrada portagem às mercadorias que entravam na cidade. Mais junto da margem esquerda, a ponte tinha agora um novo tramo, separado do primeiro por um “O”, que servia para que os carros se cruzassem, sendo também um local de descanso e de lazer. Era a ponte mais comprida e mais bonita do país e era local de passeio obrigatório dos estudantes que, tendo aulas apenas de manhã, eram assíduos frequentadores do Mondego pela tarte, até que a cabra os chamasse ao estudo. Era esta a ponte que deixava boquiabertos os caloiros que a Coimbra chegavam, como refere o Palito Métrico:

                    Quando a Coimbra chegares, não te espantes,
                    Se vires pela ponte passeando
                    A grande multidão dos Estudantes,
                    Por mais que para ti esteja olhando:
                    […]

    Quando foi dada por obsoleta, ainda a ponte estava rija e permitia bem que se lhe passasse por cima. O problema é que o Modego já mal lhe passava por baixo, no seu constante assoreamento, que vários conventos foi “enterrando” à medida que os séculos passavam.

    Deixando para trás este local de atravessamento mais antigo, sigamos agora o aparecimento das restantes 5 pontes, por ordem cronológica.

    No início dos anos 80 entrou em funcionamento a Ponte-açude que, conjugada com a construção da barragem da Aguieira e, mais tarde, do açude da Raiva, amansou um Mondego “basófias”. Também por ali o trânsito começou a escoar-se – não tanto como hoje – mas a obra era essencialmente hidráulica e, com ela, muito aproveitou a exploração agrícola do Baixo Mondego, menos sujeita às cheias que causaram a perdição de tantas culturas. Mas Coimbra aproveitou também! E de que maneira! Apesar de ficar escondida, lá para o fundo do rio, esta é a ponte que mais alterou a fisionomia de Coimbra nas últimas décadas, ao proporcionar o belíssimo lençol de água onde a cidade se projecta a cada instante. Como não há bela sem senão, perdeu-se o bucolismo das margens que as antigas fotografias documentam, as árvores mais antigas do Choupal ressentiram-se do menor caudal do rio a jusante do açude e as lampreias diminuíram a montante, problema que se espera fique resolvido com a construção da nova “escada de peixes”.

    A Ponte dos Casais, na estrada das Figueiras (a montante da A1), é a sétima ponte. Julgo que foi construída pouco depois da Ponte-açude e é bem menos importante do que as restantes de que tenho vindo a falar.

    Em 1982, inaugurou-se o troço de auto-estrada Condeixa-Mealhada (A1), construindo-se sobre os campos do Mondego aquele imenso viaduto que passa sobre os dois tramos do rio (Rio Novo e Rio Velho) e, ainda, sobre a Vala do Norte. O trânsito Norte-Sul foi, pela primeira vez em milhares de anos, decisivamente desviado para fora da cidade.

    Ficou apenas a passar por dentro da cidade o trânsito da Estrada da Beira, o qual seria definitivamente desviado em 2004, com a entrada em circulação da Ponte Europa que, entretanto, viria a ser rebaptizada com o nome de Ponte Rainha Santa Isabel. E pela primeira vez o Mondego era atravessado por uma ponte sem pilar algum assente no leito do rio. Longe ficavam os tempos dos 24 arcos da ponte de D. Manuel…

    Tinha chegado a altura de voltar a andar a pé, sobre um Mondego que vira há muito desparecer a ponte do Almegue e outras pontes pedonais de madeira, ao estilo da que hoje existe na praia fluvial para cima da Portela.

    A cereja sobre o bolo, a décima ponte deste inventário, surge quando, em 28/11/2006, os braços de Pedro e Inês se estendem um para o outro e dão as mãos a meio do rio, espelhando, nos vitrais de tons alegres, os reflexos coloridos do seu eterno amor.

    Uma nota final: Ponte de Santa Clara, Ponte Rainha Santa Isabel, Ponte Pedro e Inês – três pontes cujo imaginário nos remete para a margem que fica em frente. Não deixa de ser curioso, quando, do lado Norte, haveria dezenas de nomes igualmente ilustres que poderiam ter sido evocados. Coincidência? Tendência para olhar o outro lado? Querer ver mais longe? Ou, simplesmente, como diz a canção dos Jafumega, «a ponte é uma passagem para a outra margem»?

    Zé Veloso

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ANDAR À LEBRE

    No meu tempo de Coimbra, quando se dizia que uma República «andava à lebre» era porque o fim da caixa e do crédito na mercearia tinham chegado mais cedo do que o fim do mês, não restando aos repúblicos outra alternativa que não fosse distribuírem-se por outras Repúblicas, onde comeriam até que a caixa se recompusesse com as mesadas do mês seguinte.
    Se várias Repúblicas andavam à lebre ao mesmo tempo, o problema passava para as cozinheiras, que teriam de fazer mais comida com o mesmo conduto, que onde comem oito também comem nove ou dez, desde que não se fuja muito das arrozadas. Todos passavam a comer um pouco pior para que todos pudessem continuar a comer. A solidariedade sempre foi uma qualidade do nosso povo e também não era negada entre os estudantes.
    O que eu não entendia, na altura, era porque se chamava «andar à lebre», quando lebre era coisa que nem vê-la; e o coelho, se o havia, andava bem escondido por debaixo do arroz ou das batatas. Mas o termo era já corrente nos tempos de Antão de Vasconcelos, estudante brasileiro que cursou Direito entre 1860 e 1865 e que escreveu mais tarde as célebres Memórias do Mata-Carochas.
    Segundo o Mata-Carochas, quando o estudante por estroina, jogador ou vagabundo perde as mesadas, que vai rebatendo, ou a família lhas suspende por castigo ou por pobreza, vê-se ele na contingência de empenhar ou vender tudo o que tem, a própria cama, e assim fica «à pauperibus», como ali se diz. Então, explora as repúblicas amigas, almoçando aqui, ceando acolá, dormindo com alguns amigos ou algures embrulhado na capa, até que melhorem os tempos e sopre a bonança. Este estado é ali denominado – «andar à lebre».
    E Amílcar Ferreira de Castro, em A Gíria dos Estudantes de Coimbra, adianta uma explicação plausível para a expressão «andar à lebre»: acção semelhante à do caçador que para caçar a lebre tem de percorrer muitos lugares. Temos, assim, que, em tempos que já não são os meus, se chamava «caçador» ao estudante que andava à lebre.
    Voltando ao Mata-Carochas, num capítulo do livro dedicado à Associação Filantrópico-Académica (lembram-se dela?), podemos ler:
    Quando chegava ao conhecimento da Associação que algum companheiro «andava à lebre», mandava-lhe pequena quantia e logo abria uma subscrição, sem nunca declinar o nome do «caçador». Era assim:
    Um pegava no gorro, abeirava-se dos grupos ao cavaco e dizia:
    «Oh, coisas; deitai aqui o que quiserdes.» Toda a gente dava, isto é, largava dentro do gorro o que queria ou podia.
    Feita a colecta, embrulhava-se a quantia em um papel; espreitava-se o tipo e logo que era encontrado o portador, descia o gorro pela cara abaixo, mascarando-se, e entregava-lhe o embrulho sem balbuciar palavra; se o sujeito tinha ponto certo, depositava-se no lugar para lhe ser entregue e, logo que saía o portador, entrava outro a vigiar a pontualidade da entrega, de forma a não haver burla ou ladroeira do depositário.
    O «caçador» não sabia quem lho dava e os académicos não sabiam para quem davam, mas sabiam a que fim se destinava.
    Sábado de manhã, ao passar os olhos pelo Expresso, chamou-me a atenção uma notícia: «Estudantes de Aveiro e Algarve lançam campanhas de recolha de alimentos para colegas em dificuldades». A notícia conta que naquelas Universidades foram montados locais de recolha onde os estudantes colocam bens alimentares essenciais que são depois distribuídos aos alunos que se encontram em dificuldade. E esclarece que, na Universidade de Aveiro, para preservar a identidade dos estudantes, a distribuição será assegurada pelo gabinete pedagógico da UA, a única entidade que conhece quem pediu ajuda. Tal como no tempo de Antão de Vasconcelos, o dar sem saber para quem, embora conhecendo o fim, e o respeito pela identidade de quem é ajudado.
    Sábado à tarde fui ao supermercado. Estava a decorrer a recolha do Banco Alimentar contra a Fome. Abeirou-se de mim um jovem que me disse, simplesmente – O que quiser dar. O jovem não vinha de capa e batina mas o gesto era igual ao que vem referido nas Memórias do Mata-Carochas. Só que em vez de me estender um gorro de pano preto me entregou um saco de plástico branco.
    Zé Veloso

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

... E ASSIM NASCERAM AS REAIS REPÚBLICAS!

Na edição de 1792 do Palito Métrico (1) aparece um curioso texto, no qual um Bacharel aconselha um rapazote, que se prepara para ir estudar para Coimbra, sobre a forma económica de aí viver. Falando na escolha da habitação, diz-lhe a páginas tantas: «Para que em Coimbra habite economicamente, não procure casas; procure, sim, a casa de umas casas, quero dizer, alugue um quarto, o qual baste para recolher-se a estudar, a comer e a dormir.»
Mas nem só nos quartos se habitava. Estudantes mais abastados alugavam casas onde viviam com seus criados, cavalos e alfaias, luxo que, evidentemente, não estava ao alcance de todas as bolsas. Aliás, o nosso Bacharel também advertia contra os perigos de alugar uma casa: «Pelo que pertence à habitação, adopte V. M. o nosso adágio – Casa, em quanto caibas – nem V. M. lá para o futuro caia em gastar o seu dinheiro em obras de pedra e cal.»
Voltando ao Palito Métrico, o Bacharel fazia figura de sábio, mas não contava tudo. Por exemplo, esquecia-se de informar que os alojamentos sempre tinham sido escassos e que havia senhorios que preferiam deixar as casas devolutas, não só porque o tabelamento das rendas (que vigorou até à Reforma Pombalina) tornava o negócio pouco aliciante, mas também porque era difícil a convivência da população de Coimbra, sobretudo a da Baixa, com a sociedade académica, face aos abusos e à vida desregrada de muitos escolares. Mas é interessante notar que o Palito Métrico – uma colectânea de textos  que plasmava as tradições e o modo de viver da sociedade escolar na segunda metade do séc. XVIII – não fazia, ao longo das suas quatro centenas e meia de páginas, uma única referência à existência de Repúblicas! É que, naquele tempo, as Repúblicas não existiriam ainda.
Contudo, admite-se que, desde há muito, os escolares viessem respondendo à escassez de alojamento com formas diversas de partilha, entreajuda e vida comunitária, aproveitando as casas que tanto D. Dinis como D. João III mandaram construir, as deste último rei com vocação para albergar oito a dez estudantes, como bem explica Artur Ribeiro (2), autor que, no entanto, não nos apresenta testemunhos concretos sobre a forma de viver nesses tempos mais remotos. Mas já em tempos mais recentes, é o mesmo Artur Ribeiro que escreve, a dado passo (2)«Ribeiro Sanches, em 1763, traça-nos o seguinte quadro: “Cada dois ou três estudantes têm uma ama, um e, às vezes, três criados;(…)”. Este autor estará a referir-se a pequenas comunidades de escolares com certo poder económico porque, outras comunidades haveria em que o número de estudantes seria bem superior. Uma análise cuidada dos registos de matrículas dá-nos, para esta época, um número médio de cinco residentes, nos casos de habitação partilhada. Todavia, Ribeiro Sanches introduz um novo elemento, a figura da “ama” que estará muito próxima da serviçal ou “servente” das “Repúblicas” do Século XX.»
Muitos estudantes se albergavam ainda na vintena de colégios das ordens religiosas que, depois da transferência da Universidade para Coimbra com D. João III (1537), foram sendo construídos na Rua da Sofia e na Alta. Porém, chegados a 1834, Joaquim António de Aguiar – o "Mata Frades", aquele que ocupa hoje o centro do Largo da Portagem mas que ocupava à época o Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça – avançou com o decreto de extinção das ordens religiosas, confiscando todos os colégios, conventos, mosteiros, hospícios e demais edifícios que àquelas ordens pertenciam.

E foi este, segundo diversos estudiosos, o clique que fez nascer as Repúblicas! 
Com o fim dos colégios, a pressão sobre o alojamento aumentou mais ainda e grupos de estudantes terão ficado, de um dia para o outro, sem o seu aboletamento garantido. Mas a necessidade aguça o engenho. E a malta, liberta de tutelas, parte decididamente para a autogestão, organizando-se por conta própria e governando as suas casas à maneira de uma República – quem manda é o povo, que elege os seus chefes! – que os ventos de mudança vinham de França, sob a égide dos princípios Liberdade, Igualdade, Fraternidade!
Estávamos em meados do séc. XIX. Nasciam as Repúblicas, mas Portugal era ainda uma monarquia! Chamar a essas casas simplesmente "República" seria demasiado desafiador. Mas "Real República", sendo uma forma dúplice, já agradaria a todos: aos de fora da casa, que entenderiam que, se a República era "Real", não ofendia a ordem monárquica; e aos de dentro, para quem o "Real" quereria dizer que se tratava, realmente, de uma República, fundada e governada pelos próprios, sem ter de dar cavaco fosse a quem fosse.

E esta questão de "não ter de dar cavaco" – a autonomia das Repúblicas – é algo que está na sua essência, no seu ADN, que me parece nem sempre ter sido devidamente valorizado em análises que tenho lido sobre a história das Repúblicas. Porque uma República não é um lar de estudantes! Não foi fundada pelo reitor, nem pelo bispo nem pelo rei. E é por isso que não comungo da opinião de que tenha sido D. João III quem instituiu as primeiras Repúblicas (para mim, um contra-senso; as Repúblicas são fundadas pelos próprios repúblicos)! Nem percebo que as raízes das repúblicas possam estar em D. Dinis (uma República é muito mais do que um aboletamento partilhado)!

Como qualquer ser vivo, as Repúblicas nascem, vivem e morrem. Mas perduram no tempo para além do tempo universitário dos seus fundadores e continuadores mais próximos. Sem os esquecer, ganham vida própria. 
Gonçalo Reis Torgal (3) conta-nos que a denominação das primeiras Repúblicas estava ligada à origem dos seus repúblicos (Repúblicas Ribatejana, Transmontana, Minhota, de Tomar…) ou ao local da sua instalação (Repúblicas da Estrela, dos Grilos, da Matemática, das Cozinhas, dos Palácio Confusos…), só mais tarde aparecendo os nomes humorísticos que chegaram até aos dias de hoje. Mas, ainda no meu tempo, muitas das Repúblicas (ou Solares) agrupavam gente de proveniência comum: os 1000-y-Onários e o Kimbo dos Sobas tinham estudantes de Moçambique e Angola; no Rapó-Taxo a malta era de Cantanhede, enquanto na Bamus-ó-Bira e na Boa-Bay-Ela vinha do Minho; os Corsários da Ilhas vinham dos Açores, sendo o Farol da Ilhas de malta da Madeira.
Também eu vivi numa Real República "de Coimbra", durante 3 anos. Só que essa Real República se situava – e se situa ainda – no Porto: a Real República do Ly-S.O.S., fundada por universitários de Coimbra que iam ao Porto terminar os seus cursos de Engenharia e Farmácia, República que brilhou a grande altura no contexto das Repúblicas do Porto e que é hoje o único espécime naquela cidade.
A Real República do Ly-S.O.S. festeja este sábado e domingo o seu LII Centenário! 52 anos é obra! Lá estarão em convívio inter-geracional os actuais repúblicos e os «velhinhos», os fundadores e as gerações intermédias. Porque uma República é património de todos os que nela viveram, ainda que as decisões caibam apenas aos que nela hoje vivem. E não é apenas uma casa onde se vive em comunidade. É uma instituição viva, que em muitos casos sobrevive à mudança da própria casa (os Ly-S.O.S. vão na quarta). Porque uma República não tem apenas corpo. Tem alma!
Não podendo este ano estar no Porto com a família Lysa, daqui me junto em uníssimo num sonoro F-R-A!, gritando convosco: –  É malta Ly!!!...   S.O.S.!!!
Zé Veloso
PS - A Real República dos Ly-S.O.S. foi inaugurada com pompa e circunstância em 18 de Novembro de 1959. A foto abaixo foi tirada nesse dia, com os fundadores (falta um) e as duas madrinhas na varanda do primeiro prédio que acolheu a República. Alguns dos nomes têm uma especial relação com Coimbra: Jorge Anjinho, que foi presidente da AAC-OAF; Júlia Condorcet, filha do radiologista Dr. Pais Mamede (Condorcet, the King os Embarrilation), famoso ilusionista amador; Augusto Carmona da Motta, filho do célebre Pantaleão, companheiro inseparável do boémio Castelão de Almeida.


Nota: Este post, publicado inicialmente em 18/11/2011, foi revisto em 09/09/2017.


(1) «Sistema das Precisões» in Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, Nona Edição (de harmonia com a quarta, de 1792), Coimbra Editora, 1942.
(2) RIBEIRO, Artur. «Perspectiva histórica da República de Coimbra» in Rua Larga, UC, http://www.uc.pt/rualarga/anteriores/19/16.

(3) TORGAL, Gonçalo Reis. Coimbra, Boémia da Saudade, vol II, Edição do autor, 2003.