Já por aqui escrevi que Coimbra deve uma boa parte da importância que ganhou, desde tempos muito antigos, ao facto de se localizar num ponto de passagem obrigatória para quem, pelo litoral, precisasse de se deslocar entre o Norte e o Sul da Península.
Não admira, por isso, que Coimbra seja hoje a terra portuguesa que mais pontes tem sobre o rio que a banha. Se Lisboa tem duas e o Porto tem seis, em Coimbra conto nada menos do que 10, compreendidas entre a A1 e a Portela.
A quarta ponte a referir é uma ponte ferroviária que raramente observamos, pois que o normal é passar-lhe por cima, já de malas na mão; e se olhos há nessa altura… é para a Alta, que nos aparece, subitamente, no seu esplendor, mal o comboio entra sobre o rio. A ponte da Linha do Norte foi construída em 1864 e, embora tendo sido reforçada, ali continua a mostrar que “velhos são os trapos”.
É altura de falarmos não apenas na velha ponte de Santa Clara – ponte metálica, em forma de gaiola, com um passeio pedonal de cada lado e apoiada em pilares de pedra, que foi aberta ao trânsito em 8/5/1875 – mas também em todas as que a precederam naquele local e que foram pelo menos três.
A primeira de que há notícia seria uma ponte romana de pedra (ainda que haja igualmente referências a uma ponte de madeira; anterior a esta?).
Sobre as fundações da ponte romana, construiu D. Afonso Henriques em 1132 uma outra, conhecida como sendo a Ponte de D. Afonso Henriques, igualmente de pedra, cujas obras se continuaram por vários reinados. Ou porque a construção era fraca ou porque as correntes do Mondego arrastavam na sua fúria de inverno tudo o que da serra se desprendia, a ponte estava uma lástima quando D. Manuel visita Coimbra em 1506 e se decide pela sua reconstrução.
A Ponte de D. Manuel ou Ponte do O ficou concluída em 1513. Está retratada da gravura de Pier Maria Baldi, desenhada em Fevereiro de 1669. Tinha 24 arcos, que permitiam a passagem das barcas serranas com a vela panda. Na margem direita, a ponte terminava num arco/torre de secção quadrada, onde era cobrada portagem às mercadorias que entravam na cidade. Mais junto da margem esquerda, a ponte tinha agora um novo tramo, separado do primeiro por um “O”, que servia para que os carros se cruzassem, sendo também um local de descanso e de lazer. Era a ponte mais comprida e mais bonita do país e era local de passeio obrigatório dos estudantes que, tendo aulas apenas de manhã, eram assíduos frequentadores do Mondego pela tarte, até que a cabra os chamasse ao estudo. Era esta a ponte que deixava boquiabertos os caloiros que a Coimbra chegavam, como refere o Palito Métrico:
Quando a Coimbra chegares, não te espantes,
Se vires pela ponte passeando
A grande multidão dos Estudantes,
Por mais que para ti esteja olhando:
[…]
Se vires pela ponte passeando
A grande multidão dos Estudantes,
Por mais que para ti esteja olhando:
[…]
Quando foi dada por obsoleta, ainda a ponte estava rija e permitia bem que se lhe passasse por cima. O problema é que o Modego já mal lhe passava por baixo, no seu constante assoreamento, que vários conventos foi “enterrando” à medida que os séculos passavam.
Deixando para trás este local de atravessamento mais antigo, sigamos agora o aparecimento das restantes 5 pontes, por ordem cronológica.
No início dos anos 80 entrou em funcionamento a Ponte-açude que, conjugada com a construção da barragem da Aguieira e, mais tarde, do açude da Raiva, amansou um Mondego “basófias”. Também por ali o trânsito começou a escoar-se – não tanto como hoje – mas a obra era essencialmente hidráulica e, com ela, muito aproveitou a exploração agrícola do Baixo Mondego, menos sujeita às cheias que causaram a perdição de tantas culturas. Mas Coimbra aproveitou também! E de que maneira! Apesar de ficar escondida, lá para o fundo do rio, esta é a ponte que mais alterou a fisionomia de Coimbra nas últimas décadas, ao proporcionar o belíssimo lençol de água onde a cidade se projecta a cada instante. Como não há bela sem senão, perdeu-se o bucolismo das margens que as antigas fotografias documentam, as árvores mais antigas do Choupal ressentiram-se do menor caudal do rio a jusante do açude e as lampreias diminuíram a montante, problema que se espera fique resolvido com a construção da nova “escada de peixes”.
A Ponte dos Casais, na estrada das Figueiras (a montante da A1), é a sétima ponte. Julgo que foi construída pouco depois da Ponte-açude e é bem menos importante do que as restantes de que tenho vindo a falar.
Em 1982, inaugurou-se o troço de auto-estrada Condeixa-Mealhada (A1), construindo-se sobre os campos do Mondego aquele imenso viaduto que passa sobre os dois tramos do rio (Rio Novo e Rio Velho) e, ainda, sobre a Vala do Norte. O trânsito Norte-Sul foi, pela primeira vez em milhares de anos, decisivamente desviado para fora da cidade.
Ficou apenas a passar por dentro da cidade o trânsito da Estrada da Beira, o qual seria definitivamente desviado em 2004, com a entrada em circulação da Ponte Europa que, entretanto, viria a ser rebaptizada com o nome de Ponte Rainha Santa Isabel. E pela primeira vez o Mondego era atravessado por uma ponte sem pilar algum assente no leito do rio. Longe ficavam os tempos dos 24 arcos da ponte de D. Manuel… Tinha chegado a altura de voltar a andar a pé, sobre um Mondego que vira há muito desparecer a ponte do Almegue e outras pontes pedonais de madeira, ao estilo da que hoje existe na praia fluvial para cima da Portela.
A cereja sobre o bolo, a décima ponte deste inventário, surge quando, em 28/11/2006, os braços de Pedro e Inês se estendem um para o outro e dão as mãos a meio do rio, espelhando, nos vitrais de tons alegres, os reflexos coloridos do seu eterno amor.Uma nota final: Ponte de Santa Clara, Ponte Rainha Santa Isabel, Ponte Pedro e Inês – três pontes cujo imaginário nos remete para a margem que fica em frente. Não deixa de ser curioso, quando, do lado Norte, haveria dezenas de nomes igualmente ilustres que poderiam ter sido evocados. Coincidência? Tendência para olhar o outro lado? Querer ver mais longe? Ou, simplesmente, como diz a canção dos Jafumega, «a ponte é uma passagem para a outra margem»?
Zé Veloso


















