quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS (Parte I)

Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
    Daqui a pouco, quando passar da meia-noite de quarta para quinta, começará no largo da Sé Nova a serenata que irá marcar o início da Festa das Latas, cujo ponto alto coincidirá com o corteja da Latada, na próxima terça-feira. Nos próximos dias o Queimódromo encher-se-á de malta para assistir aos concertos de um cartaz que, venha quem vier, será sempre um bom pretexto para manter a animação durante esta espécie de mini-Queima de Outono.
    Quem tenha passado por Coimbra nas décadas de 50/60 e não mais tenha tido contacto com a vida académica da cidade, deverá abrir uma boca de espanto perante a notícia que acabo de dar: – Festa das Latas em lugar de Latada? Serenata? Noites no Queimódromo? Cortejo único? Fará depois um encolher de ombros e dirá que «a tradição já não é o que era». Nada de mais errado! As praxes académicas de Coimbra sempre evoluíram ao longo dos séculos, o que me leva antes a dizer que «a tradição nunca foi o que foi»!
    Aliás, é esta capacidade de adaptação a novas realidades – Bolonha, aumento do número de Faculdades, presença maioritária das raparigas, novos contextos socioculturais… – que tem permitido às praxes manter-se vivas, já que são vivenciadas e não apenas representadas. Custa-me ver alterações gratuitas da tradição, sem causa que as justifique que não seja a ignorância. Mas quando as adaptações aos novos tempos são feitas de forma inteligente e no respeito pelo passado… só tenho de aplaudir.
    As Latadas – ou Festas das Latas, como agora são chamadas, retomando uma terminologia já antes utilizada por Trindade Coelho – são, porventura, dentro das diversas manifestações praxísticas de Coimbra, as que mais transformações sofreram, tanto na forma, como no significado/objectivo. Vamos a isso:
    Trindade Coelho (In Illo Tempore, 1902) conta que, no seu tempo (1880-1885), as coisas se passavam assim: … as aulas de Direito fechavam-se nesse dia, e à noite, como era da tradição, a rapaziada tinha de sair pelas ruas de Coimbra – naquela extraordinária inferneira chamada a Festa das Latas, em que cada um, incluindo os novatos (equivalente aos caloiros de hoje), que nesse dia ficam “emancipados” e já podem sair de noite sem protecção, arrasta atrás de si as latas que pôde ir juntando durante o ano, ou as que comprou na «feira das latas» aos garotos, que vendem uma banheira velha por um pataco e três cântaros de «folha» por um vintém!
    Essa é a tremenda noite de Coimbra, em que ninguém prega olho – troça aos estudantes das outras Faculdades, que ainda têm aulas no dia seguinte –, e que uma vez obrigou a fugir não sei que inglês «touriste», que berrava de mala na mão, a correr para o caminho-de-ferro, – Doidos! Doidos! Doidos varridos!
    A descrição de Trindade Coelho é consistente com outras da mesma época. As latadas do Séc XIX – só Trindade Coelho lhes chama «Festa das Latas» – estavam ligadas ao facto de nem todas as Faculdades terem o mesmo dia do ponto (último dia de aulas), o que levava os alunos já libertos das aulas a caçoar dos restantes, através de cortejos barulhentos que os não deixassem estudar ou dormir em paz. Para além disso, os caloiros que iam tendo o seu dia de ponto emancipavam-se nessa mesma noite.

    Mas a tradição das latadas poderá ter vindo mais de trás e ter alguma relação com as «Soiças» (cortejos trapalhões e barulhentos que foram proibidos em 1541, em face dos desacatos que provocavam). Esta relação é estabelecida tanto por Hipólito Raposo (Coimbra Doutora, 1910) como por Teófilo Braga (História da Universidade de Coimbra… Tomo I, 1982), sendo que este último atribui às latadas igualmente a denominação «Tocar das Latas».
    Com a Reforma de 1901 todos os cursos passaram a terminar as aulas ao mesmo tempo, deixando de haver razão para a troça. Mas as latadas continuaram, centradas agora na emancipação dos caloiros, ainda que com intermitências que, segundo Reis Torgal (Boémia da Saudade, Tomo II, 2003) se ficaram a dever a diversas convulsões políticas e académicas, à I Grande Guerra e à pneumónica. Sobre este período, há uns quantos depoimentos publicados em livro, deles se percebendo que, para além de variantes várias, nunca o essencial se alterou: caloiros a correr por Coimbra afora que nem loucos, debaixo de um barulho infernal, protegidos da praxe por tudo quanto fosse elemento metálico barulhento, atado por barbantes ou arames aos tornozelos, à cintura ou aos pulsos, em busca de uma emancipação que chegaria no final da corrida. Pelo caminho – fosse ele da Porta Férrea à Portagem ou de Santa Clara até à Porta Férrea – lá estavam os doutores de piquete, munidos de bengalas e mocas, tentando fazer soltar as latas, na expectativa de uma imediata rapadela daqueles que perdessem o seu «escudo protector». Como em todas as estórias com final feliz, há notícias de confraternizações e abraços entre uns e outros no final da refrega.
    As latadas foram a dada altura transferidas para 27 de Maio e integradas nos festejos da Queima das Fitas. Branquinho da Fonseca, formado em 1930, conta-nos (Porta de Minerva, 1947) que havia no seu tempo duas formas de um caloiro obter a alforria: ou submeter-se à latada ou seguir no cortejo, no carro de um quartanista. Não é de estranhar: somos um país onde sempre houve duas vias para tudo…
    Por artes que nunca ninguém me conseguiu explicar, mas que poderão ter a ver com a barbaridade do ritual e a sua progressiva desadequação à evolução da sociedade, as latadas emancipadoras dos caloiros desapareceram de cena por volta de 1935 e os caloiros passaram a emancipar-se de forma menos selvática, tal como eu o fiz em 1963: chegado o cortejo da Queima à Portagem, pedi a uma madrinha que me tirasse com jeitinho os adesivos da testa, onde as marcas de mercurocromo deixavam antever as supostas cicatrizes da recente amputação de um valente par de cornos.
    Terminada a época das latadas do final do ano lectivo, emancipadoras dos caloiros, iniciou-se, uma década mais tarde, a época das latadas do início do ano lectivo, ligadas à imposição de insígnias. Mas essa estória fica para o próximo «post».
    Zé Veloso

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CONJUNTOS ACADÉMICOS DA COIMBRA ANOS 60

Faz hoje duas semanas que faleceu o Zé Niza. A notícia atingiu-me, naquela manhã de sexta-feira, como uma pedrada que entra pela janela do carro. E enquanto o locutor resumia a sua vasta obra, o seu enorme talento de músico e compositor, a par de uma carreira multifacetada, da medicina à política, da gestão de programas de TV à produção discográfica, eu recordava a sua simplicidade e desprendimento, o contacto afável e a disponibilidade com que, na Coimbra dos anos 60, o Zé dava dicas aos músicos mais novos; ele, que era já um "senhor" na guitarra de jazz.

Estávamos em 1968/69. Os Álamos iam gravar dois singles de 45 rotações para a Sonoplay e precisavam de canções inéditas. Para um conjunto yé-yé à boa maneira da época, cantar em português cheirava a bafio, a pó-de-arroz, a nacional-cançonetismo… O Chico Fininho estava ainda para nascer e o grande êxito dos Sheiks era o Missing You. Por isso, os temas seriam cantados em inglês.  Mas tínhamos decidido que uma das faixas a gravar seria cantada simultaneamente em português e inglês, à maneira do Chove chuva do Sérgio Mendes & Brasil '66.
Ao lado, capa do single Sonoplay SP 20.002 - 1969, com "Peter and Paul" e "Flip Side"


A música era do Rui Ressurreição e estava já pronta, depois de uma tarde passada a partir pedra na sala de ensaios que ocupávamos na ala nordeste do edifício da Associação Académica. Faltava a letra e o Rui sugeriu que a pedíssemos ao Zé Niza ou à Isabel, sua mulher, cuja formação em Germânicas facilitaria a escrita bilingue. Lá mais para a noite, estávamos no Mandarim, o café onde sempre poisávamos, numa das mesas debaixo das escadas que ligavam ao andar de cima. Chega o Zé Niza, ouve o trautear da melodia – muito simples, como era timbre da época – pede-se um guardanapo ao Sô Talina e, enquanto se beberrica mais um fino, é esboçada a letra em português, que viria a ser parcialmente retrovertida pela Isabel e a receber o nome de Peter and Paul. Aqui ficam as duas primeiras quadras:

          I don't know the reason

          Tell me what to say
          While Peter is hungry
          Paul eats everyday


          Eu não sei porquê
          Não sabe ninguém
          Se Paulo tem casa
          Seu irmão não tem


Completamente ao lado do que eram os standards de um conjunto yé-yé, mas perfeitamente alinhada com as preocupações de quem viria a escrever na sua autobiografia: «Agradeço à vida o que me deu. Não tenho livro de reclamações a não ser para lutar pelos direitos dos pobres, dos humildes e para que haja mais justiça e solidariedade em Portugal.» Não há qualquer dúvida – Zé Niza era um produto da Coimbra solidária dos anos 60, da Coimbra onde germinou a canção de intervenção que viria a dar os seus frutos na década de 70.

O Zé Niza começou a acompanhar fado de Coimbra à viola, arte que trazia de Santarém. Mas cedo resolveu experimentar a guitarra eléctrica, tendo sido fundador da Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra, no rodar da década de 50 para a de 60, com António Portela (no acordeão) e outros. À data em que os conheci, por volta de 1964, o conjunto estava no auge. Tinha, então, para além do Zé Niza na guitarra eléctrica, o Rui Ressurreição (pianista, xilofonista e acordeonista de mão-cheia, admirador do Sivuca)o Joaquim Caixeiro na bateria, na viola-baixo o Daniel Proença de Carvalho (que me lembro de ver num Sarau da Queima a cantar música mexicana no Trio Los Dos, assim chamado por haver sempre um que faltava aos espectáculos) e, como vocalista, o Zé Cid, que cantava igualmente naquele trio. Era um quinteto com o instrumental e o repertório típico da transição da década de 50 para a de 60. Interpretavam música brasileira, italiana, francesa, americana… Eram exímios nos arranjos vocais e muito bons no jazz e na bossa-nova. Estávamos na época de O Pato e do Desafinado.
Foto tirada nos estúdios da RTP, numa fase em que António Portela ainda fazia parte do grupo e em que José Niza tinha interrompido os estudos, sendo Proença de Carvalho o guitarra. São eles, a partir da esquerda: António Portela, Joaquim Caixeiro, Rui Ressurreição, José Cid e Daniel Proença de Carvalho.

Mais tarde, os quatro instrumentistas da Ligeira do Orfeão formaram o Quarteto de Jazz do Orfeon. Mário Castrim, o verrinoso crítico televisivo do Diário de Lisboa, tentou deitá-los abaixo por não conceber um quarteto de jazz sem metais e com guitarra eléctrica, o que muito enfureceu o Zé Niza, que lhe remeteu de presente uma lista de consagrados quartetos de jazz com idêntica formação.

Quanto ao Zé Cid, o único que viria a enveredar pelo profissionalismo e que deixou Coimbra mais cedo para frequentar o INEF (Instituto Nacional de Educação Física), em Lisboa, fora já pianista, acordeonista e vocalista dos Babies, conjunto que viveu entre 1958 e 1960, e que poderá ter sido a primeira banda rock portuguesa. Os Babies contavam ainda com António Portela (acordeão e piano), António Igrejas Bastos (bateria, voz e contrabaixo), Rui Nazareth (guitarra eléctrica), aparecendo, também, Luiz Cabeleira na bateria.
Na foto, a partir da esquerda, António Portela, Luiz Cabeleira, José Cid, Igrejas Bastos e Rui Nazareth.



De 1960 a 1962 foi a era dos TigresCom Abílio Soares no contrabaixo e Zé Carlos Nascimento Costa na bateria, tinham como pianista Amândio Cruz, como acordeonista António Oliveira Santos e, na guitarra eléctrica, o Frias, que tocava o Guitar Boogie como ninguém mais em Coimbra. Curiosamente, o Frias, que conheci agarrado à guitarra eléctrica, viria depois a abraçar a guitarra de Coimbra, ficando mais conhecido por Frias Gonçalves.
Na foto, os Tigres no Café Nicola em 4/2/1961. A partir da esquerda: Abílio Soares, Aroso (técnico de som), António Oliveira Santos, Amândio Cruz, Frias e Nascimento Costa.




Mantendo o mesmo tipo de instrumental mas sem contrabaixo (que já nos Babies nem sempre era utilizado), surge, no início do ano lectivo de 1962/63, pela mão do pianista Nelson Martins, mais um grupo académico, Nelson Martins e seu Conjunto, o qual tem como acordeonista uma rapariga  Marinela , hoje Marinela St Aubyn  facto inédito em Coimbra, onde o meio académico-musical era essencialmente masculino. O conjunto contou com inúmeras actuações, dentro e fora de Coimbra, dado que, por essa altura, a procura começava a crescer. Do conjunto faziam ainda parte o Frias (ex-Tigres) na guitarra eléctrica e o Humberto Cordeiro como vocalista; na bateria sentava-se o Braga da Cruz, que deixou, mais tarde, o lugar ao Zé Pereira.
Nelson Martins e seu Conjunto nas Patelas. A partir da esquerda, no plano superior da foto, Braga da Cruz e Marinheiro (amigo do grupo); no plano inferior, Nelson Martins, Marinela e Frias.

Também por esta altura, 1962/63, apareceram os Beatniks, conjunto que não terá durado mais do que um ano. Nele tocaram o Rui Ferraz ao piano, o Abílio Soares (ex-Tigres) no contrabaixo, o Maia de Carvalho na bateria e, na viola, nada mais nada menos do que o Rui Pato , mais conhecido por ter acompanhado Zeca Afonso durante largos anos mas que não deixou de fazer, também ele, uma perninha nos conjuntos de baile.

Lembro-me ainda dos Alybaba e do Conjunto Braga da Cruz, que tinham como líder o Armando Braga da Cruz (ex-Nelson Martins) e a que pertenceram o Ivo, o Aragão, o Marinheiro e o Victor Ferreira.

Mas poucas referências tenho do conjunto onde tocava o Cabeleira e seu irmão mais novo (um putozito), conjunto que me parece ter tocado no baile de estreia dos Álamos no salão da FNAT, à Estação Nova.

E não gostaria que ficasse esquecido o papel precursor dos Conjuntos Ligeiros da Tuna (anos 50) do Orfeon Misto, os quais foram perdendo importância, acabando por desaparecer, à medida que iam surgindo os conjuntos académicos "independentes", cuja dinâmica não conseguiram acompanhar.


Fechando o ciclo dos conjuntos com a formação "clássica" – piano, acordeão, guitarra eléctrica, contrabaixo, bateria e vocalista – é hora de falar dos Scoubidous. Começaram muito novos, ainda no liceu, estávamos no início de 1961, e manter-se-iam por 6 anos. Na época do twist, rock e slow-rock, ritmos que eles interpretavam na maravilha, nos seus smokings reluzentes, cheios de estilo, tinham um repertório muito alegre e variado. O maior êxito que lhes recordo é o Sabeline. O grande maestro era o Tozé Albuquerque, o pianista. Tinham o Zé Tó à bateria, um tipo com ar malandreco que usava uns óculos escuros estreitinhos, que viriam décadas mais tarde a ser copiados pelo Pedro Abrunhosa (se é que ambos os não foram copiar ao baterista do Conjunto Académico do Porto, Toni Hernandes). No contrabaixo e acordeão eléctrico estava o meu colega de curso (em Coimbra e no Porto) António Santos Andrade, enquanto na guitarra eléctrica (de caixa semiacústica, à Elvis Presley) tocava o seu irmão Zé, que um belo dia foi proibido pelo clínico de fazer coros, abrindo-se ao Alberto Velho Nogueira – "Alberty Pente" – a oportunidade de entrar para o grupo e fazer depois uma perninha de saxofone. Deixei para o fim o vocalista (e, quando necessário, contrabaixista) Júlio Maia, também conhecido por "Júlio Scoubidou", brilhante a interpretar em qualquer língua. Talvez por ser aluno de Letras, tirava minuciosamente as letras das canções ao gira-discos, com uma trabalheira danada, sendo, porventura, o único vocalista daquela época que as não aldrabava. Era o início dos anos 60 e só muito mais tarde os discos começaram a trazer consigo as letras.
Na foto, ainda antes dos smokings reluzentes, numa indumentária muito jovial: a partir da esquerda, Tózé Albuquerque, José Santos Andrade, Júlio Maia, Zé Tó (José Augusto) Gouveia e António Santos Andrade.


Estávamos em 1962, às voltas ainda com Bill Haley & His Comets, Paul Anka, Marino Marini e Françoise Hardy, quando nos chegam de Inglaterra os ecos de Cliff Richard and the Shadows a tocar The Young Ones e, de França, o som dos Les Chats Sauvages com Est-ce que tu le sais e Twist à Saint-Tropez. Foi a revolução! O piano tinha ido às malvas! O contrabaixo, atirado para o lixo, dava definitivamente lugar à guitarra-baixo. Toda a força estava agora em três guitarras eléctricas sem caixa de ressonância  os "bacalhaus" –, ora "rockeiras" ora roçando uma maviosidade piegas, secundadas por uma bateria e um vocalista. Quase em simultâneo, chegavam-nos os Beatles, com o mesmo instrumental mas onde a função do vocalista era desempenhada pelos três guitarras, que berravam desalmadamente: yeah, yeah, yeah! Entrávamos, assim, no reino dos conjuntos yé-yé!

Coimbra não perde a oportunidade… e surgem Os Álamos, conjunto composto apenas por universitários, com prevalência das Engenharias, que viria a ser o conjunto de Coimbra mais disputado para tudo o que fosse baile por esse país fora, das passagens de ano aos Carnavais e à Queima, dos finalistas de liceu aos bailes das Faculdades, de Chaves a Faro, do Casino do Estoril ao Hotel Savoy na Madeira. Os Álamos formaram-se no primeiro trimestre de 1962/63, estrearam-se no início de 63 e duraram quase até ao final de 68/69. Com forte componente vocal nos seus arranjos musicais, eram especialmente dotados na música Beatle, mas tocavam tudo o que estivesse a dar (desde que não fosse nacional-cançonetismo), do slow para constituir família ao rock mais assanhado.
Foto tirada em 63/64 no varandim do Bar das Medicinas. A partir da esquerda, de pé: Zé Veloso e Chico Faria; abaixados: Luís Colaço, Nuno Figueiredo e Duarte Brás
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Apesar de serem um dos melhores conjuntos de baile nacionais, pedindo meças aos grupos profissionais com que alternavam, o primeiro disco saiu mauzinho. Sendo obrigados pela editora a incluir um tema em português, gravaram O Comboio, música oferecida pelo Zé Cid, que o conjunto nunca mais tocou mas que é a única que vai passando na rádio. Razão tinha a editora...
Capa do EP da Rapsódia EPF 5.305. A partir da esquerda, em cima: Chico Faria, Zé Pereira e Zé Veloso; em baixo: Duarte Brás e Luís Colaço

A estrela do cartaz foi, até ser apanhado pela tropa, o Chico Faria, mais conhecido por "Chico dos Álamos" ou "Chico dos 1000-y-onários”, que, conforme dizia o Sô Chico, porteiro da Associação Académica, era «o que tocava microfone»; a forma como interpretava o I can’t stop loving you ainda hoje estará na memória de quantos iniciaram os seus namoros dançando  e declarando-se – ao som daquela música. No primeiro ano, o Chico deixava para um segundo vocalista, o Zé Gouveia, algumas das músicas em francês e italiano. Na bateria começou o Nuno Figueiredo, que abandonou o conjunto mais cedo por ter ido para o Técnico, entrando para o seu lugar o Zé Pereira (ex-Nelson Martins), que com o Chico fazia a dupla dos mais brincalhões, armando histórias e barracadas por onde o conjunto passava. Nos três "bacalhaus" que, quando necessário, gingavam em palco à maneira dos Shadows, alinharam, por via de regra: como guitarra-solo, o Luís Filipe Colaço (Phil), que viria a acompanhar Zeca Afonso em dois dos seus LP's e que ainda hoje se diverte a solar como o Hank Marvin; como guitarra-ritmo, o Duarte Brás, açoriano dos Corsários das Ilhas, que assumiu o lugar de vocalista quando o Chico foi apanhado pela tropa e que viria a formar o duo de música popular Duarte & Ciríaco; e eu próprio, Zé Veloso, que, por ter sido o último guitarra a chegar ao conjunto, fui obrigado a aprender o ofício de guitarra-baixo e ainda tinha que "fazer as séries" (o alinhamento do espectáculo, como se diria hoje). Mas bem me vinguei deles ao assumir o difícil cargo de tesoureiro, uma espécie de ministro das finanças a quem cabia cortar nos vales de caixa e demais mordomias, já que a compra dos instrumentos e aparelhagens nos obrigou a vários e penosos anos de austeridade, sem troika ou "paitrocínio" que nos resgatasse.

Naturalmente, os Álamos não foram os únicos a aderir à moda das três guitarras, tendo aparecido outros, dos quais destaco, por ordem de entrada em cena:

  • Os Lordes, onde o solista era o Nelo Brito, o viola-ritmo e segundo vocalista era o Luís Requixa (que tantas vezes me emprestou o seu casaco de cabedal para as minhas performances nos Álamos...), o baixista era o Zé Eduardo Costa,  e o baterista e vocalista principal era o Luis Monteiro. Foram o segundo conjunto de três guitarras a aparecer em Coimbra, quase um ano depois de terem surgido os Álamos. Composto por malta bastante nova, o conjunto estreou-se no Natal de 1963 e dissolveu-se em 1966;
    Foto dos Lordes no Escadote (Quinta das Lágrimas). A partir da esquerda, de pé: Luís Monteiro e Nelo Brito; sentados: Zé Eduardo Costa  e Luís Requixa
    .
  • Os Protões, grupo composto por malta do Bairro Marechal Carmona (hoje, Norton de Matos): Nóbrega Pontes na guitarra-solo, António Carlos Couceiro na guitarra-ritmo, Fernando Dias (Nando) no baixo,  Jorge Carvalho (Jó) como vocalista e, na bateria, Zézé (José Eugénio) Eliseu, neto do maestro José Eliseu, compositor da música da Balada de Coimbra; 
    Foto dos Protões. A partir da esquerda: de pé, Nóbrega Pontes, Zézé Eliseu e Jó; no primeiro plano, Nando e Couceiro.


  • Os Cocktails,  "conjunto-cometa" formado para concorrer ao Concurso Yé-Yé do Teatro Avenida em 66, concurso a que não concorreram os conjuntos já "consagrados" (Álamos, Lordes e Boys) e que os Cocktails acabariam por ganhar. Terminado o festival, não foram longe;



  • Os Pops, que juntaram malta dos Lordes, Protões e Cocktails, onde solava o Luís Romão, era viola-ritmo o Joca Colaço (que chegou a integrar os Álamos numa temporada de Verão na Madeira), era baixista o Nando, baterista o Luís Monteiro e organista (uma novidade!) o Kali (João Carlos Mota). Congregando a nata dos músicos yé-yé da geração mais jovem, tocavam de forma agressiva, bem ritmados, virados para um público-alvo teenager. Porém, tendo-se formado em 1967, o pouco tempo de vida (2 anos) não deu para deixar grande rasto fora de Coimbra;
    Na foto ao lado, a partir da esquerda, Fernando Dias (Nando), Luís Romão, Luís Monteiro, Joca Colaço (irmão do Luís Filipe Colaço dos Álamos) e Kali (João Carlos Mota)
    .
  • Os In loco, posteriores à desagregação dos Protões, compostos pelo Frederico Aguiar (guitarra-solo), pelo Jorge Gomes (guitarra de 12 cordas), pelo Tójó – António Jorge Simões – (guitarra-baixo), pelo Zézé Eliseu (bateria) e pelo Rui Mesquita (vocalista).
Porém, acima de todos estes últimos, estavam os Boys, formados em 1964, conjunto que, em determinada altura, se assumiu com challenger dos Álamos e com o qual mantínhamos uma saudável rivalidade. Os Boys – cujo nome não tinha qualquer conotação pejorativa, já que à data nem partidos políticos existiam – tinham como ponto forte uma boa parte do repertório dos Shadows, graças ao virtuosismo do guitarra-solo Carlos Correia, mais conhecido por Boris, que acompanhou mais tarde Zeca Afonso em dois LP's. De início, o vocalista era o Victor Ferreira; e também o meu cunhado António Dias Figueiredo tocava harmónica em algumas músicas. Lá estavam também o Xana Rebocho Vaz na guitarra-baixo, o Manecas (Luís Manuel Matos) na guitarra-ritmo e o Tonã Vieira Lima na bateria.
Na foto, a partir da esquerda: Carlos Correia, Tonã Vieira Lima, Alexandre Reboxo Vaz, Victor Ferreira e Luís Manuel Matos (Manecas)

Concorreram ao Concurso Yé-Yé do Teatro Monumental, em Lisboa, tendo ganho a 11.ª eliminatória em Nov/65. Um dos temas que mais gostava de os ouvir interpretar era o She's not there dos Zombies.

A malta dos Boys vivia na Cumeada, tal como eu. Ainda no liceu, sonhávamos com a possibilidade de vir a tocar em público. Numa bela noite, pelas fogueiras do S. João, ainda não havia Álamos nem Boys nem o mais que fosse, dei comigo a tocar meia dúzia de músicas com o Manecas, o Tonã e o Victor Ferreira num assim chamado "baile de sopeiras", no campo de basket dos Olivais, de onde só não fomos corridos porque, no meio da refrega corpo-a-corpo, a música era o que menos interessava a quem se espremia na pista (e as falhas de ritmo até deviam dar jeito). Tocámos então com os instrumentos do conjunto de serviço – Ilídio Martins – que era o melhor conjunto futrica de Coimbra. Foi a primeira vez que agarrei numa guitarra eléctrica e que o Tonã se sentou numa bateria, pois que, até então, eu só tocara na minha velha viola de cravelhas de madeira e ele só batera baquetas num caixote de tabuinhas.


Voltando aos Boys, de 66 para 67 o grupo apareceu transfigurado em Hi-Fi, a tocar de forma muito "profissional", com novo baterista – Tó Freitas – e a novidade de ter como vocalista uma rapariga – Ana Maria Delgado – coisa nunca vista no meio dos conjuntos yé-yé. Gravaram, então, um 45 rotações com 4 faixas – todas em inglês, como não podia deixar de ser – disco que teve a colaboração do Rui Ressurreição (órgão, piano e arranjos) e que ficou muito bom. Entretanto, saiu a Ana Maria, e o Luís Monteiro tomou o lugar do Tó Freitas, passando o Boris e o Luís Monteiro a assumir as principais despesas do naipe de vozes. Antes de se dissolverem, ainda gravaram um segundo EP.
Capa do primeiro EP, Parlaphone LMEP 1271 -1967 com "I call your name", "Back from the shore", "Three days of my lyfe" e "Words of a mad". A partir da esquerda, Boris (Carlos Correia), Ana Maria Delgado, Manecas (Luís Manuel Matos), Tó Freitas e Xana Reboxo Vaz.

E os conjuntos académicos dos anos 60 foram-se dissolvendo um após outro, à medida que os músicos iam acabando os seus cursos – ou eram chamados para a tropa – e a dança se transferia dos salões de baile, do Bar das Medicinas e dos ginásios de liceu para as boîtes e discotecas.

Os Álamos foram os mais tenazes, conseguindo viver 7 anos, tantos quantos eram necessários para terminar um curso de engenharia (6) com direito a mais 1 para os descontos. Nos últimos anos, o conjunto tinha elementos a estudar em Coimbra, Porto e Lisboa. Só dois se mantiveram desde a fundação até ao final (Luís Colaço e Zé Veloso). As baixas dos que saíam eram colmatadas com os melhores elementos dos grupos em extinção: entraram o Rui Ressurreição da Ligeira do Orfeão / Clube de Jazz, o Tózé Albuquerque dos Scoubidous, o Luizinho Monteiro, que tinha passado pelos Lordes, Pops e Hi-Fi, e o Boris dos Boys / Hi-Fi – um filho pródigo, pois se tinha iniciado nos Álamos em 63/64 – que veio cumprir o duplo papel de solista na guitarra e na voz. Foi nessa altura que gravaram dois singles, num total de quatro faixas.
Capa do single Sonoplay SN 20.191 -1969 com "It's a new day" e "Stop that game". A partir da esquerda, Luís Colaço, Rui Ressurreição, Zé Pereira, Boris (Carlos Correia), Zé Veloso e Tózé Albuquerque.


Com as novas entradas, o conjunto ganhou melhores músicos e passou a integrar também teclas (órgão em palco, órgão e piano em disco). Aumentou-se a complexidade dos arranjos. Subiram a qualidade musical e o cachê. Mas o grupo manteve-se sempre ligado à vida académica, sendo que, já no passado, tinha acompanhado em várias digressões o Coro Misto e o Orfeon Académico. E sempre terminava as actuações com I saw her standing there, tal como o Orfeon as terminava com o Amen, até ao dia em que tocámos pela última vez, talvez em Abril de 1969, num baile que não ficou na memória de ninguém. Era suposto que o conjunto terminasse em beleza na Queima das Fitas mas nesse ano não houve Queima e foi cada um à sua vida sem qualquer despedida, que os exames vinham a caminho e a profissão de músico não estava nos nossos horizontes.

No meio de tanta gente aqui citada, alguns deles músicos de primeira água, muito poucos foram os que se profissionalizaram. Que eu saiba, apenas António Portela, José Cid, Nelson Martins, Luís Romão e Luís Monteiro. É certo que, na altura, não era fácil viver da música. Mas, claramente, os objectivos pessoais não passavam por aí... e por alguma razão estes grupos se denominavam «conjuntos académicos».  

Que me perdoem os leitores, um texto que saiu mais extenso do que o habitual. Mas a morte inesperada do Zé Niza lembrou-me que outros companheiros se foram embora já. Alguns deles, porventura, sem uma palavra escrita que ficasse a recordar a sua passagem pela música que também e (tão bem) se fazia em Coimbra, pois que nem só o fado e a balada por lá se tocavam e cantavam. Foi a pensar em quantos me acompanharam e, em especial, na memória dos que nesta data já partiram, que a crónica de hoje foi escrita.

Um abraço para todos eles. E a saudade que nos deixam o Zé Niza, o Rui Ressurreição, o Manecas, o Luís Requixa, o Joca Colaço, o Nando e o Ciríaco.

Zé Veloso


NOTA: Esta crónica foi escrita inicialmente em 7 de Outubro de 2011, apenas com os dados que possuía de memória. Em Agosto de 2016, sem nada alterar ao espírito do escrito inicial, entendi dever completá-lo com dados entretanto recolhidos, quer sobre conjuntos que no texto anterior estavam em falta quer sobre nomes de músicos e outros detalhes que não tinham sido referidos ou que não estavam correctos.

Origem das fotografias:
José Niza - internet 
Orquestra Ligeira do Orfeon Académico de Coimbra, Babies, Protões, Pops e Boys - blogue IÉ-IÉ (guedelhudos.blogspot.com)
Tigres - Frias Gonçalves
Nelson Martins e seu Conjunto - Frias Gonçalves e Marinela St. Aubyn
Scoubidous - Júlio Maia
Lordes - José Eduardo Costa
Álamos - acervo dos Álamos

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PALITO MÉTRICO. CÓDIGO DA PRAXE OU MANUAL DE ACOLHIMENTO?

    Julgo que muito poucos estudantes do meu tempo terão lido alguma vez o Palito Métrico ou lhe terão, sequer, posto a vista em cima, já que a última edição desta obra – Coimbra Editora – aconteceu no longínquo ano de 1942, ficando os estudantes das últimas décadas privados da leitura de uma colectânea que seria, pelos padrões de hoje, classificada como um best seller no seio da Coimbra académica.
    O Palito Métrico é frequentemente referido como percursor dos Códigos da Praxe dos séculos XX e XXI, uma vez que, através dos seus textos, ficavam os académicos de então a conhecer as praxes que vigoravam na Coimbra dos séculos XVIII e XIX. Mas a forma como o Palito Métrico está escrito – raramente os textos têm um carácter impositivo – assemelha-se mais a um Manual de Acolhimento, que coloca o novato ou caloiro no conhecimento do que o espera e o aconselha sobre a melhor forma de ultrapassar as dificuldades e ratoeiras da vida académica e da cidade. Muito a propósito, em vésperas da recepção aos novos caloiros!
    Mas o que é, então, o Palito Métrico? Sigamos, resumidamente, o que A. G. da Rocha Madahil nos conta no excelente prefácio da já referida Edição da Coimbra Editora.
    Em 1746 foi editado em Coimbra um folheto de 14 páginas intitulado Palito Métrico, o qual contava, em versos humorísticos, as desventuras de um novato (caloiro) que veio do país longínquo até Coimbra, para fazer matrícula e exame de entrada na Universidade. Para além de mil peripécias que lhe aconteceram pelo caminho – nas quais perdeu o macho, o farnel e o criado – mal chegou a Coimbra, o desgraçado caiu nas mãos dum grupo de veteranos que o fizeram passar tratos tais que o moço se viu obrigado a regressar à terra, chumbado e sem ter conseguido entrar para a Universidade. Mas como ao chegar a casa foi recebido em festa, não teve coragem de contar o sucedido e fez-se passar por doutor; até que, descoberto o embuste, o pai lhe passou um atesto de pancada em cima do lombo e o mandou guardar cabras.
    Este poema, já de si cheio de situações jocosas e burlescas, tinha uma particularidade que lhe ampliava a comicidade: utilizava palavras da linguagem corrente às quais era dada uma flexão latina, em frases construídas segundo a sintaxe do latim. Aí estava a "macarrónea" ou "literatura macarrónica", género literário novo em Portugal mas já praticado noutros países como Itália, França, Inglaterra e Alemanha.
    Abro aqui um parêntesis para opinar que os Decretus académicos – que ainda hoje se escrevem usando obrigatoriamente palavras latinas ou alatinadas, sendo inválidos se contiverem palavras portuguesas não isoladas – deverão ter tido a sua origem linguística na “macarrónea”. Claro está, para que sejam entendíveis por quem já nada sabe de latim, a sintaxe hoje utilizada é meio portuguesa meio latinória… “latim macarrónico”, dizíamos nós, e assim lhe chamava e chama ainda hoje o Código da Praxe!
    Logo após a publicação do poema Palito Métrico, apareceram mais uma série de outros poemas humorísticos escritos no mesmo estilo, poemas estes que passaram a ser publicados conjuntamente com aquele numa única colectânea que agregava também outros textos, em verso e em prosa, escritos em português. Desta obra-prima se publicaram pelo menos 11 edições ao longo de 200 anos, sob designações diversas, sendo a mais comum Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, abreviadamente, Palito Métrico.
    Em lado algum da obra consegui uma explicação para o insólito nome de Palito Métrico. Mas contavam-me os meus pais que havia uma praxe antiga que consistia em medir, com um palito, uma rua, uma escadaria, etc.. Coincidência?
     Quanto à paternidade de tais poemas – o primeiro e vários outros  são atribuídos ao Padre João da Silva Rebelo, bacharel em Cânones – nem sempre foi fácil decifrá-la, já que foram normalmente escritos sob nomes supostos, por estudantes que assim arranjavam um complemento de mesada. E não admira que os poemas se vendessem bem, pois que a maioria deles consiste em avisos aos novatos sobre o que os espera em Coimbra: cuidados a ter para não darem nas vistas à chegada, não serem praxados pelos veteranos, não se perderem na má vida, não serem explorados pelas amas (governantas), etc. etc.... indo ao ponto de explicar coisas tão comezinhas como a forma de poupar dinheiro no barbeiro, comprando uma navalha de barba para uso próprio. Até porque, como se escreve a páginas 390 a propósito dos barbeiros, pelo que eles faltam às horas, que cada um tem por cómodas, merecem que deles façamos absoluta independência; e quem passar sem os ditos, para além da economia de 160 reis por mês que ao fim do ano são 1$920, livra-se ainda de lhe porem na cara a mesma mão com que talvez muito de fresco tenham coçado no fundo das costas.
    E é assim que estes textos acabam por nos dar uma panorâmica não apenas das praxes de então – as quais, diga-se em abono da verdade, eram bem mais duras do que as que tive de suportar enquanto caloiro – mas também da vida académica, dos costumes da época e da própria cidade de Coimbra. É só ler com atenção!
    Mas, infelizmente, a leitura da parte escrita em “macarrónea” não é fácil para quem desconheça a língua latina. Foi por isso que passei, inicialmente, ao largo de um poema denominado Calhabeidus LiberO Livro do Calhabé – que nos conta uma rocambolesca orgia de vinhaça, passada numa taberna onde o taberneiro, de seu nome Calhabé, era também o rei dos bêbados. Coisa de somenos, não fora ter sido alertado por Borges de Figueiredo que, na sua Coimbra Antiga e Moderna, edição Almedina de 1996 (edição original de 1886), escreveu: Encontra-se também próximo da Estrada da Beira um pequeno logar, o “Calhabé”, que foi formado pela agglomeração de pequenas casitas ao pé d'uma antiga taberna. Vem-lhe o nome d'um consciencioso sacerdote de Baccho, muito nomeado nos fins do século último, e do qual nos deixou memória um dos auctores da Macarronea, no Calhabeidus...
    O Calabeidos Liber apareceu pela primeira vez na edição de 1765. É, pois, de admitir que a taberna existisse por esta altura e que o nome do taberneiro se tenha, a pouco e pouco, estendido ao sítio, até porque o Palito Métrico acompanhou gerações e gerações de estudantes que recitavam de cor muitos dos seus versos, não deixando cair o Calhabé no esquecimento.
    Há livros sobre Coimbra antiga que mereciam ser reeditados. O Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa é um deles. Deixo à atenção das Editoras da cidade.
    Zé Veloso

EXTRACTOS do Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa:
1.º extracto: 2.ª e 2.ª estrofes do poema de 42 estrofes SISTEMA MÉTRICO MODERNO E EXPERIMENTAL
2.º extracto: 32.ª e 33.ª estrofes do poema de 38 estrofes QUEIXAS DE AMARO MENDES GAVETA. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DO “CANELÃO” AOS “PONTAPÉS DA PRAXE”

    Começou a liga Zon Sagres e a Briosa estreou-se com uma vitória fora de casa! No meu tempo de Coimbra, um tal resultado ditaria de imediato a saída de um Decretus abolindo a praxe nesse dia. Era assim: em caso de vitória ou empate fora de casa, abolia-se a praxe e a arraia-miúda ficava à vontade; se houvesse derrota ou empate em casa, a praxe seria reforçada e só as protecções de sangue valeriam para livrar de uma rapadela os caloiros ou bichos que quisessem sair à rua depois do toque da cabra. E tudo isto era encarado com a maior das naturalidades, dada a simbiose que existia entre a Briosa – uma equipa de jogadores-estudantes – e a Academia de que esses jogadores-estudantes faziam parte.
    As coisas hoje são bem diferentes: a Briosa deixou, salvo raríssimas excepções, de integrar estudantes na sua equipa de futebol; a Academia, muito naturalmente, deixou de se rever na Briosa; e a própria cidade, ao contrário do que acontece com Braga ou Guimarães, não valoriza a indústria do futebol e quase nem se dá conta de que tem uma equipa na I liga do desporto mais popular em Portugal, o que é um activo não despiciendo.
    Mas há tradições que se mantêm na Briosa de hoje, cujas raízes se entranham em costumes e praxes académicas de há vários séculos. Uma delas tem a ver com a forma bizarra como os colegas de equipa dão as boas vindas aos jogadores estreantes: antes do início do jogo, junto à linha lateral, abrem alas os “doutores” – ou melhor, os jogadores antigos – e fazem avançar o “novato” por entre um túnel de pernas que lhe vão pontapeando amigavelmente o traseiro, enquanto ele corre para o campo, onde a seguir terá de mostrar o que vale.
    Foi assim no jogo desta semana na Marinha Grande, num ritual que se repete sempre que um novo jogador alinha, de início, na primeira equipa da Briosa. São os chamados “pontapés da praxe”, um costume que não tem paralelo em qualquer outro clube. Porque nós somos a Briosa! E a Briosa é diferente dos outros. Os outros dão um chuto no traseiro dos que querem mandar embora. Nós damos um chuto no dito daqueles com que contamos.
    No livro A Académica (AAC/OAF; Casa da Académica em Lisboa), alguém diz ter perguntado ao Ladeira e ao Isabelinha, jogadores da década de 30, de que data vinha este costume, tendo eles respondido que já existia ao chegarem à Briosa. Será então uma tradição datada do primeiro quartel do Séc. XX, altura em que o futebol rompia na Académica.
    Mas que razão existirá por detrás dela? Será que os pontapés são um simples gesto de irreverência estudantil? Ou constituirão, como aventa o antropólogo António Rodrigues Lopes, uma reminiscência do selvático canelão? Eu cá aposto nessa.
    O canelão foi uma praxe muito activa no Séc. XIX, mas que viria já, pelo menos, da primeira metade do Séc. XVII. A seu propósito diz a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que consistia em obrigar os alunos do primeiro ano, no primeiro dia em que se dirigiam às aulas, a atravessar o túnel que é a célebre Porta Férrea, entre alas de camaradas mais velhos que os agrediam, o mais fortemente possível, com pontapés nas canelas, só escapando a lesões dolorosas e às vezes graves os que se fiavam à sua agilidade e rapidez, galgando aquelas dezenas de metros em pulos esgotantes.
    Desta praxe só se livravam os caloiros ou novatos que fizessem a travessia protegidos debaixo da pasta dum quintanista. Para além desses, poucos escapavam. Escapou o célebre Saraiva das Forças, por razões que facilmente se adivinham! Escapou o filho do poeta João de Deus, porque seu pai era um ídolo da Academia e esta entendeu homenageá-lo desta forma. Escapou António Nobre, em atenção à sua condição de poeta. Escapou Homem Cristo Filho, quando entrou na universidade com 15 anos apenas, porque era teso como um raio e passou a Porta Férrea com as mãos nos bolsos, segurando duas pistolas em riste bem visíveis por dentro da roupa, depois de ter anunciado que queimaria os miolos de quem se atrevesse a tocar-lhe.
    O simples facto de os livros registarem com admiração os nomes de alguns dos que conseguiram escapar a esta prova de fogo mostra bem a brutalidade e a selvajaria de uma praxe que o Reitor da Universidade apenas conseguiu abolir em 1898, enviando archeiros para a Porta Férrea.
    Mas entre "abolir" e "acabar com" ainda vai uma distância de alguns anos, pelo que o canelão se manteve activo, contrariando a proibição do Reitor, por uma década mais. Por coincidência, a década em que a bola de futebol dava os primeiros passos em Coimbra.
    E aí temos uma explicação para os nossos "pontapés da praxe". É só colocar, no lugar do caloiro, o jogador estreante e, no lugar dos estudantes que já cursavam a Universidade, os jogadores que já jogavam na equipa; a seguir, imaginar uma Porta Férrea virtual à entrada do campo e pensar que o recinto onde o novato irá jogar e provar a sua arte não é já o Páteo da Universidade, mas sim, um qualquer campo de futebol.
    Quem não tem cão, caça com gato! Proibiu-se o “canelão”… nasceram os “pontapés da praxe”!
    Zé Veloso
    Nota: Para além dos "pontapés da praxe", aparecem de quando em vez alguns calduços à mistura, o que não bate certo com a tradição.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

MEMÓRIAS DO LICEU D. JOÃO III

    Quando alguém me diz que andou no Liceu D. João III, logo percebo que, se não tiver a minha idade, por lá andará, com uma tolerância de mais ou menos 15 anos. Se me disser que andou no José Falcão então a coisa é mais dúbia, pois que tanto pode ter a idade dos meus filhos como a idade que teria hoje o meu Pai. E tudo isto por causa de uma estória cabeluda que passo a contar.
    O Colégio da Artes, fundado por D. João III em 1548 para preparar os alunos para a entrada na Universidade, foi extinto em 1836, dando lugar ao Liceu de Coimbra, que viria em 1871 a ocupar o Colégio de S. Bento, situado a Norte do Jardim Botânico, no ponto onde a Rua do Arco da Traição entronca com o Aqueduto de S. Sebastião. Em 1914 o liceu tomou o nome de José Falcão e, anos mais tarde, viu nascer no mesmo edifício um segundo liceu – o Júlio Henriques. Tendo o Colégio de S. Bento ficado acanhado para os dois, construiu-se de raiz um edifício na Av. Afonso Henriques, o qual deveria vir a albergar apenas o Liceu Júlio Henriques. Como, entretanto, foi decidido que Coimbra tivesse apenas um liceu, mandou-se ampliar o novo edifício, onde estava já a funcionar o Júlio Henriques, e meteram-se lá dentro os dois, agora fundidos num só,  com a denominação de Liceu D. João III. Esta mudança de patrono não terá sido pacífica – José Falcão, catedrático da Universidade de Coimbra e professor do Liceu de Coimbra, foi um ideólogo do republicanismo enquanto D. João III tem a mancha de ter trazido para Portugal a Inquisição – pelo que, chegados a 1974, o liceu retomou o nome de José Falcão. Quanto a Júlio Henriques, ilustre meste e cientísta de Botânica, o homem nem era político pelo que não contou para estas contas.
    Foi, assim, apeado D. João III, o que não deixa de ser uma injustiça para um rei a quem a cidade deve a transferência definitiva da Universidade de Lisboa para Coimbra. Dito por outras palavras, deve a importância que teve ao longo de cinco séculos, até que outras Universidades fossem criadas em Lisboa e no Porto.
    Andei no D. João III "8 - anos - 8", como se escreve nos anúncios das touradas. E o facto de 8 não terem sido 7, logo dá ideia de que aproveitei bem o tempo. Como diria Jorge Sampaio, há mais vida apara além do… liceu!
    Lembro-me de quase todos os professores que tive. E muitos foram excelentes. Não podendo evocá-los a todos, citarei apenas um, aliás, uma, que me aturou 7 anos a fio, tantos quantos Jacob servia Labão, pai de Raquel... isso mesmo, Raquel. Era uma santa! Raquel Braga de seu nome, que todas as semanas promovia peditórios nas aulas de Ciências Naturais e que conseguiu, enquanto por lá andei, construir duas casas para famílias pobres com as economias dos alunos. De pequenino se aprendia a ser solidário!
    O D. João III tinha várias singularidades. Desde logo era um Liceu Normal (onde os professores faziam os estágios). Como liceus destes só havia três no país, era, paradoxalmente, um liceu anormal... por ser Normal!
    Mas tinha mais. Sendo um liceu masculino, tinha ainda pelo início dos anos 50 uma meia dúzia de meninas que, para evitar confusões, passavam os intervalos num torreão ao nível do 3º piso, enquanto os recreios da rapaziada se quedavam pelos pisos térreos. É caso para dizer que o princípio Saias para cima! Calças para baixo! não contribuía aqui para aproximar os sexos, mas sim para os manter afastados. Curioso liceu este...
    O D. João III tinha um reitor abominável: o Pulga! Corria que tinha vindo da Guarda, onde, uma bela noite, teria sido deixado pendurado pela gola do casaco num cabide da sala dos professores. Bem feita! Se era assim para os professores, como não seria para os alunos? Volta meia volta, metia um cigarro na boca e saía a passar revista às tropas. A rota era desconhecida. A hora não era anunciada. Mas certo era que seria num qualquer intervalo, que avançaria pelos corredores cheios de gaiatos, que à sua frente logo um grito abafado correria a avisar – Reitor! Reitor!, que a malta aterrorizada se coseria às paredes, que algum incauto se mexeria e que as galhetas sairiam fortes, fazendo saltar os putos do lugar, enquanto o reitor seguiria impávido. Estranho liceu este, onde os alunos saltavam enquanto uma pulga andava...
    O D. João III tinha as vidraças mais caras do mundo. 60$00 (mais de 30 euros nos dias de hoje!) era quanto o Pulga cobrava aos alunos por um quadradinho de vidro da treta que se partisse. Isto só para o vidro, que para os pregos, o betume e o feitio lá saía mais um par de galhetas e, para a colocação, havia o bom do sô Pedro, carpinteiro de descomunal barriga, cujas calças lembravam um funil de boca tão larga que era preciso abrir a segunda folha das portas para poder entrar nas salas de aula.
    O D. João III tinha as suas hierarquias. Quem entrava no 1º ano era recebido pelos do 2º com uma saraivada de caldos no cachaço, enquanto se ouviam as palavras da praxe – Abaixa, bicho! – e os putos se esgueiravam para o recreio por entre um túnel de pernas e braços que me faz hoje lembrar as descrições do selvático canelão à Porta Férrea. Por aqui se vê que o exemplo vem de cima...
    Mas a hierarquia mais forte era a dos recreios. Os alunos dos dois primeiros anos coabitavam o recreio do 1º ciclo, para onde dava a carpintaria do sô Pedro. O recreio era um espaço fechado entre edifícios altos, um tanto exíguo, onde as brincadeiras eram o Agarra!, o Bone-catrapone-aí-vai-o-bone! e um jogo proibido dentro do liceu, em que uma bola, feita dum lenço ao qual se davam sucessivos nós, era atirada de baliza a baliza até que viessem as “forças do mal” – o Forte ou outro contínuo de serviço – e a empandeirassem para um canteiro alto, inacessível à garotada. Dizia-se que, a horas mortas, as “forças do mal” pediam a escada de madeira ao sô Pedro e subiam ao canteiro para ir buscar as bolas-de-lenço, donde os ditos seriam desembaraçados, estivessem eles limpos ou ranhosos, que o tempo era de penúria e na praça de Coimbra tudo se vendia.
    O grau hierárquico seguinte, o 2º ciclo, era já um luxo. O recreio era um conjunto de espaços amplos, arborizados, com um campo de futebol, um ringue de hóquei e vista directa para as Repúblicas da Boa-Bay-Ela e do Bamus-ó-Bira. Quando os doutores vinham à varanda do 1.º andar e espreitavam por cima do muro do liceu, sentíamo-nos o centro das atenções. E receávamos, até, que estivéssemos a ser espiados para nos raparem mais tarde ou mobilizarem quando fossemos caloiros, não percebendo nós que os maraus estavam era a topar a melhor forma de saltar o muro e roubar a sineta que chamava para as aulas. Afinal eram nossos amigos...
    Mas a grande mordomia estava reservada para o 3º ciclo, os 6º e 7º anos. Para esses, o recreio era a rua. Isso dava-nos uma importância nunca vista! Sentíamo-nos finalistas de qualquer coisa, um pé dentro e outro já fora. Quem vinha das aulas práticas trazia ainda vestida a bata branca, meio desabotoada, parecíamos alunos de Medicina... Fumava-se um cigarro, compravam-se pevides – uma barrica pequena ao Pianinho ou um sputnik ao Calmeirão – descia-se até à Cesaltina e ao Piolho. E os mais afortunados, ao ouvir em baixo o barulho duma Vespa vinda do lado de Celas em direcção à Sereia, acorriam às escadas, abriam uns olhos de espanto de quem vê a Deus e voltavam dizendo para os restantes: – Era o Ramin!
    Lá dentro dos muros, os que não podiam ainda ver a Deus de tão perto, enrolavam os calções da Ginástica ao nível da cintura – “calções à Ramin” – imitando aquele que não tinha medo de esfolar as pernas para melhor voar ao encontro da bola. Ele era o maior, o ídolo da garotada, aquele cujos "calções em V" melhor cortavam o vento, numa época em que um guarda-redes tinha de ser valente, louco e muito homem, não como os de hoje, que usam calças se está frio, que socam a bola se está molhada ou vem enraivecida e que até põem máscara no hóquei só com medo de partirem os dentes! Maricas!...
    E, no domingo, quando Ele mandasse afastar a barreira para, destemido e aventureiro, pegar o inimigo sem ajudas, como o Salvação Barreto fazia no Campo Pequeno, mostrando que maricas eram os do Sporting!, nós haveríamos de pensar que aquela defesa tinha sido feita para a malta do D. João III.
    Zé Veloso