Parte I: As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros
Daqui a pouco, quando passar da meia-noite de quarta para quinta, começará no largo da Sé Nova a serenata que irá marcar o início da Festa das Latas, cujo ponto alto coincidirá com o corteja da Latada, na próxima terça-feira. Nos próximos dias o Queimódromo encher-se-á de malta para assistir aos concertos de um cartaz que, venha quem vier, será sempre um bom pretexto para manter a animação durante esta espécie de mini-Queima de Outono.
Quem tenha passado por Coimbra nas décadas de 50/60 e não mais tenha tido contacto com a vida académica da cidade, deverá abrir uma boca de espanto perante a notícia que acabo de dar: – Festa das Latas em lugar de Latada? Serenata? Noites no Queimódromo? Cortejo único? Fará depois um encolher de ombros e dirá que «a tradição já não é o que era». Nada de mais errado! As praxes académicas de Coimbra sempre evoluíram ao longo dos séculos, o que me leva antes a dizer que «a tradição nunca foi o que foi»!
Aliás, é esta capacidade de adaptação a novas realidades – Bolonha, aumento do número de Faculdades, presença maioritária das raparigas, novos contextos socioculturais… – que tem permitido às praxes manter-se vivas, já que são vivenciadas e não apenas representadas. Custa-me ver alterações gratuitas da tradição, sem causa que as justifique que não seja a ignorância. Mas quando as adaptações aos novos tempos são feitas de forma inteligente e no respeito pelo passado… só tenho de aplaudir.
As Latadas – ou Festas das Latas, como agora são chamadas, retomando uma terminologia já antes utilizada por Trindade Coelho – são, porventura, dentro das diversas manifestações praxísticas de Coimbra, as que mais transformações sofreram, tanto na forma, como no significado/objectivo. Vamos a isso:
Trindade Coelho (In Illo Tempore, 1902) conta que, no seu tempo (1880-1885), as coisas se passavam assim: … as aulas de Direito fechavam-se nesse dia, e à noite, como era da tradição, a rapaziada tinha de sair pelas ruas de Coimbra – naquela extraordinária inferneira chamada a Festa das Latas, em que cada um, incluindo os novatos (equivalente aos caloiros de hoje), que nesse dia ficam “emancipados” e já podem sair de noite sem protecção, arrasta atrás de si as latas que pôde ir juntando durante o ano, ou as que comprou na «feira das latas» aos garotos, que vendem uma banheira velha por um pataco e três cântaros de «folha» por um vintém!
Essa é a tremenda noite de Coimbra, em que ninguém prega olho – troça aos estudantes das outras Faculdades, que ainda têm aulas no dia seguinte –, e que uma vez obrigou a fugir não sei que inglês «touriste», que berrava de mala na mão, a correr para o caminho-de-ferro, – Doidos! Doidos! Doidos varridos!
A descrição de Trindade Coelho é consistente com outras da mesma época. As latadas do Séc XIX – só Trindade Coelho lhes chama «Festa das Latas» – estavam ligadas ao facto de nem todas as Faculdades terem o mesmo dia do ponto (último dia de aulas), o que levava os alunos já libertos das aulas a caçoar dos restantes, através de cortejos barulhentos que os não deixassem estudar ou dormir em paz. Para além disso, os caloiros que iam tendo o seu dia de ponto emancipavam-se nessa mesma noite.
Mas a tradição das latadas poderá ter vindo mais de trás e ter alguma relação com as «Soiças» (cortejos trapalhões e barulhentos que foram proibidos em 1541, em face dos desacatos que provocavam). Esta relação é estabelecida tanto por Hipólito Raposo (Coimbra Doutora, 1910) como por Teófilo Braga (História da Universidade de Coimbra… Tomo I, 1982), sendo que este último atribui às latadas igualmente a denominação «Tocar das Latas».
Mas a tradição das latadas poderá ter vindo mais de trás e ter alguma relação com as «Soiças» (cortejos trapalhões e barulhentos que foram proibidos em 1541, em face dos desacatos que provocavam). Esta relação é estabelecida tanto por Hipólito Raposo (Coimbra Doutora, 1910) como por Teófilo Braga (História da Universidade de Coimbra… Tomo I, 1982), sendo que este último atribui às latadas igualmente a denominação «Tocar das Latas».
Com a Reforma de 1901 todos os cursos passaram a terminar as aulas ao mesmo tempo, deixando de haver razão para a troça. Mas as latadas continuaram, centradas agora na emancipação dos caloiros, ainda que com intermitências que, segundo Reis Torgal (Boémia da Saudade, Tomo II, 2003) se ficaram a dever a diversas convulsões políticas e académicas, à I Grande Guerra e à pneumónica. Sobre este período, há uns quantos depoimentos publicados em livro, deles se percebendo que, para além de variantes várias, nunca o essencial se alterou: caloiros a correr por Coimbra afora que nem loucos, debaixo de um barulho infernal, protegidos da praxe por tudo quanto fosse elemento metálico barulhento, atado por barbantes ou arames aos tornozelos, à cintura ou aos pulsos, em busca de uma emancipação que chegaria no final da corrida. Pelo caminho – fosse ele da Porta Férrea à Portagem ou de Santa Clara até à Porta Férrea – lá estavam os doutores de piquete, munidos de bengalas e mocas, tentando fazer soltar as latas, na expectativa de uma imediata rapadela daqueles que perdessem o seu «escudo protector». Como em todas as estórias com final feliz, há notícias de confraternizações e abraços entre uns e outros no final da refrega.
As latadas foram a dada altura transferidas para 27 de Maio e integradas nos festejos da Queima das Fitas. Branquinho da Fonseca, formado em 1930, conta-nos (Porta de Minerva, 1947) que havia no seu tempo duas formas de um caloiro obter a alforria: ou submeter-se à latada ou seguir no cortejo, no carro de um quartanista. Não é de estranhar: somos um país onde sempre houve duas vias para tudo…
Por artes que nunca ninguém me conseguiu explicar, mas que poderão ter a ver com a barbaridade do ritual e a sua progressiva desadequação à evolução da sociedade, as latadas emancipadoras dos caloiros desapareceram de cena por volta de 1935 e os caloiros passaram a emancipar-se de forma menos selvática, tal como eu o fiz em 1963: chegado o cortejo da Queima à Portagem, pedi a uma madrinha que me tirasse com jeitinho os adesivos da testa, onde as marcas de mercurocromo deixavam antever as supostas cicatrizes da recente amputação de um valente par de cornos.
Terminada a época das latadas do final do ano lectivo, emancipadoras dos caloiros, iniciou-se, uma década mais tarde, a época das latadas do início do ano lectivo, ligadas à imposição de insígnias. Mas essa estória fica para o próximo «post».
Zé Veloso





















