quarta-feira, 14 de setembro de 2011

PALITO MÉTRICO. CÓDIGO DA PRAXE OU MANUAL DE ACOLHIMENTO?

    Julgo que muito poucos estudantes do meu tempo terão lido alguma vez o Palito Métrico ou lhe terão, sequer, posto a vista em cima, já que a última edição desta obra – Coimbra Editora – aconteceu no longínquo ano de 1942, ficando os estudantes das últimas décadas privados da leitura de uma colectânea que seria, pelos padrões de hoje, classificada como um best seller no seio da Coimbra académica.
    O Palito Métrico é frequentemente referido como percursor dos Códigos da Praxe dos séculos XX e XXI, uma vez que, através dos seus textos, ficavam os académicos de então a conhecer as praxes que vigoravam na Coimbra dos séculos XVIII e XIX. Mas a forma como o Palito Métrico está escrito – raramente os textos têm um carácter impositivo – assemelha-se mais a um Manual de Acolhimento, que coloca o novato ou caloiro no conhecimento do que o espera e o aconselha sobre a melhor forma de ultrapassar as dificuldades e ratoeiras da vida académica e da cidade. Muito a propósito, em vésperas da recepção aos novos caloiros!
    Mas o que é, então, o Palito Métrico? Sigamos, resumidamente, o que A. G. da Rocha Madahil nos conta no excelente prefácio da já referida Edição da Coimbra Editora.
    Em 1746 foi editado em Coimbra um folheto de 14 páginas intitulado Palito Métrico, o qual contava, em versos humorísticos, as desventuras de um novato (caloiro) que veio do país longínquo até Coimbra, para fazer matrícula e exame de entrada na Universidade. Para além de mil peripécias que lhe aconteceram pelo caminho – nas quais perdeu o macho, o farnel e o criado – mal chegou a Coimbra, o desgraçado caiu nas mãos dum grupo de veteranos que o fizeram passar tratos tais que o moço se viu obrigado a regressar à terra, chumbado e sem ter conseguido entrar para a Universidade. Mas como ao chegar a casa foi recebido em festa, não teve coragem de contar o sucedido e fez-se passar por doutor; até que, descoberto o embuste, o pai lhe passou um atesto de pancada em cima do lombo e o mandou guardar cabras.
    Este poema, já de si cheio de situações jocosas e burlescas, tinha uma particularidade que lhe ampliava a comicidade: utilizava palavras da linguagem corrente às quais era dada uma flexão latina, em frases construídas segundo a sintaxe do latim. Aí estava a "macarrónea" ou "literatura macarrónica", género literário novo em Portugal mas já praticado noutros países como Itália, França, Inglaterra e Alemanha.
    Abro aqui um parêntesis para opinar que os Decretus académicos – que ainda hoje se escrevem usando obrigatoriamente palavras latinas ou alatinadas, sendo inválidos se contiverem palavras portuguesas não isoladas – deverão ter tido a sua origem linguística na “macarrónea”. Claro está, para que sejam entendíveis por quem já nada sabe de latim, a sintaxe hoje utilizada é meio portuguesa meio latinória… “latim macarrónico”, dizíamos nós, e assim lhe chamava e chama ainda hoje o Código da Praxe!
    Logo após a publicação do poema Palito Métrico, apareceram mais uma série de outros poemas humorísticos escritos no mesmo estilo, poemas estes que passaram a ser publicados conjuntamente com aquele numa única colectânea que agregava também outros textos, em verso e em prosa, escritos em português. Desta obra-prima se publicaram pelo menos 11 edições ao longo de 200 anos, sob designações diversas, sendo a mais comum Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa, abreviadamente, Palito Métrico.
    Em lado algum da obra consegui uma explicação para o insólito nome de Palito Métrico. Mas contavam-me os meus pais que havia uma praxe antiga que consistia em medir, com um palito, uma rua, uma escadaria, etc.. Coincidência?
     Quanto à paternidade de tais poemas – o primeiro e vários outros  são atribuídos ao Padre João da Silva Rebelo, bacharel em Cânones – nem sempre foi fácil decifrá-la, já que foram normalmente escritos sob nomes supostos, por estudantes que assim arranjavam um complemento de mesada. E não admira que os poemas se vendessem bem, pois que a maioria deles consiste em avisos aos novatos sobre o que os espera em Coimbra: cuidados a ter para não darem nas vistas à chegada, não serem praxados pelos veteranos, não se perderem na má vida, não serem explorados pelas amas (governantas), etc. etc.... indo ao ponto de explicar coisas tão comezinhas como a forma de poupar dinheiro no barbeiro, comprando uma navalha de barba para uso próprio. Até porque, como se escreve a páginas 390 a propósito dos barbeiros, pelo que eles faltam às horas, que cada um tem por cómodas, merecem que deles façamos absoluta independência; e quem passar sem os ditos, para além da economia de 160 reis por mês que ao fim do ano são 1$920, livra-se ainda de lhe porem na cara a mesma mão com que talvez muito de fresco tenham coçado no fundo das costas.
    E é assim que estes textos acabam por nos dar uma panorâmica não apenas das praxes de então – as quais, diga-se em abono da verdade, eram bem mais duras do que as que tive de suportar enquanto caloiro – mas também da vida académica, dos costumes da época e da própria cidade de Coimbra. É só ler com atenção!
    Mas, infelizmente, a leitura da parte escrita em “macarrónea” não é fácil para quem desconheça a língua latina. Foi por isso que passei, inicialmente, ao largo de um poema denominado Calhabeidus LiberO Livro do Calhabé – que nos conta uma rocambolesca orgia de vinhaça, passada numa taberna onde o taberneiro, de seu nome Calhabé, era também o rei dos bêbados. Coisa de somenos, não fora ter sido alertado por Borges de Figueiredo que, na sua Coimbra Antiga e Moderna, edição Almedina de 1996 (edição original de 1886), escreveu: Encontra-se também próximo da Estrada da Beira um pequeno logar, o “Calhabé”, que foi formado pela agglomeração de pequenas casitas ao pé d'uma antiga taberna. Vem-lhe o nome d'um consciencioso sacerdote de Baccho, muito nomeado nos fins do século último, e do qual nos deixou memória um dos auctores da Macarronea, no Calhabeidus...
    O Calabeidos Liber apareceu pela primeira vez na edição de 1765. É, pois, de admitir que a taberna existisse por esta altura e que o nome do taberneiro se tenha, a pouco e pouco, estendido ao sítio, até porque o Palito Métrico acompanhou gerações e gerações de estudantes que recitavam de cor muitos dos seus versos, não deixando cair o Calhabé no esquecimento.
    Há livros sobre Coimbra antiga que mereciam ser reeditados. O Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa é um deles. Deixo à atenção das Editoras da cidade.
    Zé Veloso

EXTRACTOS do Palito Métrico e Correlativa Macarrónea Latino-Portuguesa:
1.º extracto: 2.ª e 2.ª estrofes do poema de 42 estrofes SISTEMA MÉTRICO MODERNO E EXPERIMENTAL
2.º extracto: 32.ª e 33.ª estrofes do poema de 38 estrofes QUEIXAS DE AMARO MENDES GAVETA. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DO “CANELÃO” AOS “PONTAPÉS DA PRAXE”

    Começou a liga Zon Sagres e a Briosa estreou-se com uma vitória fora de casa! No meu tempo de Coimbra, um tal resultado ditaria de imediato a saída de um Decretus abolindo a praxe nesse dia. Era assim: em caso de vitória ou empate fora de casa, abolia-se a praxe e a arraia-miúda ficava à vontade; se houvesse derrota ou empate em casa, a praxe seria reforçada e só as protecções de sangue valeriam para livrar de uma rapadela os caloiros ou bichos que quisessem sair à rua depois do toque da cabra. E tudo isto era encarado com a maior das naturalidades, dada a simbiose que existia entre a Briosa – uma equipa de jogadores-estudantes – e a Academia de que esses jogadores-estudantes faziam parte.
    As coisas hoje são bem diferentes: a Briosa deixou, salvo raríssimas excepções, de integrar estudantes na sua equipa de futebol; a Academia, muito naturalmente, deixou de se rever na Briosa; e a própria cidade, ao contrário do que acontece com Braga ou Guimarães, não valoriza a indústria do futebol e quase nem se dá conta de que tem uma equipa na I liga do desporto mais popular em Portugal, o que é um activo não despiciendo.
    Mas há tradições que se mantêm na Briosa de hoje, cujas raízes se entranham em costumes e praxes académicas de há vários séculos. Uma delas tem a ver com a forma bizarra como os colegas de equipa dão as boas vindas aos jogadores estreantes: antes do início do jogo, junto à linha lateral, abrem alas os “doutores” – ou melhor, os jogadores antigos – e fazem avançar o “novato” por entre um túnel de pernas que lhe vão pontapeando amigavelmente o traseiro, enquanto ele corre para o campo, onde a seguir terá de mostrar o que vale.
    Foi assim no jogo desta semana na Marinha Grande, num ritual que se repete sempre que um novo jogador alinha, de início, na primeira equipa da Briosa. São os chamados “pontapés da praxe”, um costume que não tem paralelo em qualquer outro clube. Porque nós somos a Briosa! E a Briosa é diferente dos outros. Os outros dão um chuto no traseiro dos que querem mandar embora. Nós damos um chuto no dito daqueles com que contamos.
    No livro A Académica (AAC/OAF; Casa da Académica em Lisboa), alguém diz ter perguntado ao Ladeira e ao Isabelinha, jogadores da década de 30, de que data vinha este costume, tendo eles respondido que já existia ao chegarem à Briosa. Será então uma tradição datada do primeiro quartel do Séc. XX, altura em que o futebol rompia na Académica.
    Mas que razão existirá por detrás dela? Será que os pontapés são um simples gesto de irreverência estudantil? Ou constituirão, como aventa o antropólogo António Rodrigues Lopes, uma reminiscência do selvático canelão? Eu cá aposto nessa.
    O canelão foi uma praxe muito activa no Séc. XIX, mas que viria já, pelo menos, da primeira metade do Séc. XVII. A seu propósito diz a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira que consistia em obrigar os alunos do primeiro ano, no primeiro dia em que se dirigiam às aulas, a atravessar o túnel que é a célebre Porta Férrea, entre alas de camaradas mais velhos que os agrediam, o mais fortemente possível, com pontapés nas canelas, só escapando a lesões dolorosas e às vezes graves os que se fiavam à sua agilidade e rapidez, galgando aquelas dezenas de metros em pulos esgotantes.
    Desta praxe só se livravam os caloiros ou novatos que fizessem a travessia protegidos debaixo da pasta dum quintanista. Para além desses, poucos escapavam. Escapou o célebre Saraiva das Forças, por razões que facilmente se adivinham! Escapou o filho do poeta João de Deus, porque seu pai era um ídolo da Academia e esta entendeu homenageá-lo desta forma. Escapou António Nobre, em atenção à sua condição de poeta. Escapou Homem Cristo Filho, quando entrou na universidade com 15 anos apenas, porque era teso como um raio e passou a Porta Férrea com as mãos nos bolsos, segurando duas pistolas em riste bem visíveis por dentro da roupa, depois de ter anunciado que queimaria os miolos de quem se atrevesse a tocar-lhe.
    O simples facto de os livros registarem com admiração os nomes de alguns dos que conseguiram escapar a esta prova de fogo mostra bem a brutalidade e a selvajaria de uma praxe que o Reitor da Universidade apenas conseguiu abolir em 1898, enviando archeiros para a Porta Férrea.
    Mas entre "abolir" e "acabar com" ainda vai uma distância de alguns anos, pelo que o canelão se manteve activo, contrariando a proibição do Reitor, por uma década mais. Por coincidência, a década em que a bola de futebol dava os primeiros passos em Coimbra.
    E aí temos uma explicação para os nossos "pontapés da praxe". É só colocar, no lugar do caloiro, o jogador estreante e, no lugar dos estudantes que já cursavam a Universidade, os jogadores que já jogavam na equipa; a seguir, imaginar uma Porta Férrea virtual à entrada do campo e pensar que o recinto onde o novato irá jogar e provar a sua arte não é já o Páteo da Universidade, mas sim, um qualquer campo de futebol.
    Quem não tem cão, caça com gato! Proibiu-se o “canelão”… nasceram os “pontapés da praxe”!
    Zé Veloso
    Nota: Para além dos "pontapés da praxe", aparecem de quando em vez alguns calduços à mistura, o que não bate certo com a tradição.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

MEMÓRIAS DO LICEU D. JOÃO III

    Quando alguém me diz que andou no Liceu D. João III, logo percebo que, se não tiver a minha idade, por lá andará, com uma tolerância de mais ou menos 15 anos. Se me disser que andou no José Falcão então a coisa é mais dúbia, pois que tanto pode ter a idade dos meus filhos como a idade que teria hoje o meu Pai. E tudo isto por causa de uma estória cabeluda que passo a contar.
    O Colégio da Artes, fundado por D. João III em 1548 para preparar os alunos para a entrada na Universidade, foi extinto em 1836, dando lugar ao Liceu de Coimbra, que viria em 1871 a ocupar o Colégio de S. Bento, situado a Norte do Jardim Botânico, no ponto onde a Rua do Arco da Traição entronca com o Aqueduto de S. Sebastião. Em 1914 o liceu tomou o nome de José Falcão e, anos mais tarde, viu nascer no mesmo edifício um segundo liceu – o Júlio Henriques. Tendo o Colégio de S. Bento ficado acanhado para os dois, construiu-se de raiz um edifício na Av. Afonso Henriques, o qual deveria vir a albergar apenas o Liceu Júlio Henriques. Como, entretanto, foi decidido que Coimbra tivesse apenas um liceu, mandou-se ampliar o novo edifício, onde estava já a funcionar o Júlio Henriques, e meteram-se lá dentro os dois, agora fundidos num só,  com a denominação de Liceu D. João III. Esta mudança de patrono não terá sido pacífica – José Falcão, catedrático da Universidade de Coimbra e professor do Liceu de Coimbra, foi um ideólogo do republicanismo enquanto D. João III tem a mancha de ter trazido para Portugal a Inquisição – pelo que, chegados a 1974, o liceu retomou o nome de José Falcão. Quanto a Júlio Henriques, ilustre meste e cientísta de Botânica, o homem nem era político pelo que não contou para estas contas.
    Foi, assim, apeado D. João III, o que não deixa de ser uma injustiça para um rei a quem a cidade deve a transferência definitiva da Universidade de Lisboa para Coimbra. Dito por outras palavras, deve a importância que teve ao longo de cinco séculos, até que outras Universidades fossem criadas em Lisboa e no Porto.
    Andei no D. João III "8 - anos - 8", como se escreve nos anúncios das touradas. E o facto de 8 não terem sido 7, logo dá ideia de que aproveitei bem o tempo. Como diria Jorge Sampaio, há mais vida apara além do… liceu!
    Lembro-me de quase todos os professores que tive. E muitos foram excelentes. Não podendo evocá-los a todos, citarei apenas um, aliás, uma, que me aturou 7 anos a fio, tantos quantos Jacob servia Labão, pai de Raquel... isso mesmo, Raquel. Era uma santa! Raquel Braga de seu nome, que todas as semanas promovia peditórios nas aulas de Ciências Naturais e que conseguiu, enquanto por lá andei, construir duas casas para famílias pobres com as economias dos alunos. De pequenino se aprendia a ser solidário!
    O D. João III tinha várias singularidades. Desde logo era um Liceu Normal (onde os professores faziam os estágios). Como liceus destes só havia três no país, era, paradoxalmente, um liceu anormal... por ser Normal!
    Mas tinha mais. Sendo um liceu masculino, tinha ainda pelo início dos anos 50 uma meia dúzia de meninas que, para evitar confusões, passavam os intervalos num torreão ao nível do 3º piso, enquanto os recreios da rapaziada se quedavam pelos pisos térreos. É caso para dizer que o princípio Saias para cima! Calças para baixo! não contribuía aqui para aproximar os sexos, mas sim para os manter afastados. Curioso liceu este...
    O D. João III tinha um reitor abominável: o Pulga! Corria que tinha vindo da Guarda, onde, uma bela noite, teria sido deixado pendurado pela gola do casaco num cabide da sala dos professores. Bem feita! Se era assim para os professores, como não seria para os alunos? Volta meia volta, metia um cigarro na boca e saía a passar revista às tropas. A rota era desconhecida. A hora não era anunciada. Mas certo era que seria num qualquer intervalo, que avançaria pelos corredores cheios de gaiatos, que à sua frente logo um grito abafado correria a avisar – Reitor! Reitor!, que a malta aterrorizada se coseria às paredes, que algum incauto se mexeria e que as galhetas sairiam fortes, fazendo saltar os putos do lugar, enquanto o reitor seguiria impávido. Estranho liceu este, onde os alunos saltavam enquanto uma pulga andava...
    O D. João III tinha as vidraças mais caras do mundo. 60$00 (mais de 30 euros nos dias de hoje!) era quanto o Pulga cobrava aos alunos por um quadradinho de vidro da treta que se partisse. Isto só para o vidro, que para os pregos, o betume e o feitio lá saía mais um par de galhetas e, para a colocação, havia o bom do sô Pedro, carpinteiro de descomunal barriga, cujas calças lembravam um funil de boca tão larga que era preciso abrir a segunda folha das portas para poder entrar nas salas de aula.
    O D. João III tinha as suas hierarquias. Quem entrava no 1º ano era recebido pelos do 2º com uma saraivada de caldos no cachaço, enquanto se ouviam as palavras da praxe – Abaixa, bicho! – e os putos se esgueiravam para o recreio por entre um túnel de pernas e braços que me faz hoje lembrar as descrições do selvático canelão à Porta Férrea. Por aqui se vê que o exemplo vem de cima...
    Mas a hierarquia mais forte era a dos recreios. Os alunos dos dois primeiros anos coabitavam o recreio do 1º ciclo, para onde dava a carpintaria do sô Pedro. O recreio era um espaço fechado entre edifícios altos, um tanto exíguo, onde as brincadeiras eram o Agarra!, o Bone-catrapone-aí-vai-o-bone! e um jogo proibido dentro do liceu, em que uma bola, feita dum lenço ao qual se davam sucessivos nós, era atirada de baliza a baliza até que viessem as “forças do mal” – o Forte ou outro contínuo de serviço – e a empandeirassem para um canteiro alto, inacessível à garotada. Dizia-se que, a horas mortas, as “forças do mal” pediam a escada de madeira ao sô Pedro e subiam ao canteiro para ir buscar as bolas-de-lenço, donde os ditos seriam desembaraçados, estivessem eles limpos ou ranhosos, que o tempo era de penúria e na praça de Coimbra tudo se vendia.
    O grau hierárquico seguinte, o 2º ciclo, era já um luxo. O recreio era um conjunto de espaços amplos, arborizados, com um campo de futebol, um ringue de hóquei e vista directa para as Repúblicas da Boa-Bay-Ela e do Bamus-ó-Bira. Quando os doutores vinham à varanda do 1.º andar e espreitavam por cima do muro do liceu, sentíamo-nos o centro das atenções. E receávamos, até, que estivéssemos a ser espiados para nos raparem mais tarde ou mobilizarem quando fossemos caloiros, não percebendo nós que os maraus estavam era a topar a melhor forma de saltar o muro e roubar a sineta que chamava para as aulas. Afinal eram nossos amigos...
    Mas a grande mordomia estava reservada para o 3º ciclo, os 6º e 7º anos. Para esses, o recreio era a rua. Isso dava-nos uma importância nunca vista! Sentíamo-nos finalistas de qualquer coisa, um pé dentro e outro já fora. Quem vinha das aulas práticas trazia ainda vestida a bata branca, meio desabotoada, parecíamos alunos de Medicina... Fumava-se um cigarro, compravam-se pevides – uma barrica pequena ao Pianinho ou um sputnik ao Calmeirão – descia-se até à Cesaltina e ao Piolho. E os mais afortunados, ao ouvir em baixo o barulho duma Vespa vinda do lado de Celas em direcção à Sereia, acorriam às escadas, abriam uns olhos de espanto de quem vê a Deus e voltavam dizendo para os restantes: – Era o Ramin!
    Lá dentro dos muros, os que não podiam ainda ver a Deus de tão perto, enrolavam os calções da Ginástica ao nível da cintura – “calções à Ramin” – imitando aquele que não tinha medo de esfolar as pernas para melhor voar ao encontro da bola. Ele era o maior, o ídolo da garotada, aquele cujos "calções em V" melhor cortavam o vento, numa época em que um guarda-redes tinha de ser valente, louco e muito homem, não como os de hoje, que usam calças se está frio, que socam a bola se está molhada ou vem enraivecida e que até põem máscara no hóquei só com medo de partirem os dentes! Maricas!...
    E, no domingo, quando Ele mandasse afastar a barreira para, destemido e aventureiro, pegar o inimigo sem ajudas, como o Salvação Barreto fazia no Campo Pequeno, mostrando que maricas eram os do Sporting!, nós haveríamos de pensar que aquela defesa tinha sido feita para a malta do D. João III.
    Zé Veloso

terça-feira, 3 de maio de 2011

CAPA E BATINA. A FÉNIX RENASCE DAS CINZAS

     No rodar para o Séc. XX, no conturbado período que antecedeu o final da Monarquia, a capa e batina tinha entrado definitivamente em perda. O seu uso mantinha-se obrigatório dentro do perímetro da Universidade mas era um traje mal-amado por muitos estudantes, pese embora a substituição da “loba” por uma batina de inspiração menos eclesiástica. Em 15 de Outubro de 1898, O Conimbricense informava que a calça nem sempre é preta. A gravata, umas vezes encarnada outras branca, e, só por esquecimento, é que ela é preta… A capa é usada com frequência dobrada e deitada sobre um dos ombros, trazendo-a muitas vezes na mão. E aqueles que querem usar bengala fazem-no…
     O relaxar dos costumes era tal que, em 1 de Março de 1907, em pleno eclodir da greve académica que viria a alastrar a todo o país, um lente propôs, no Conselho de Decanos, que se tratasse de obter, no mais curto prazo possível, a abolição da capa e batina, visto ser esse trajo uma das causas das irregularidades dos estudantes, havendo tanto mais razão para a abolir, quanto já não é usada a rigor. E a República fez-lhe a vontade: a 24 de Outubro de 1910, decorridos apenas 19 dias sobre a sua implantação, tornou a capa e batina de uso facultativo… e por pouco não decretava a sua proibição.
     Os excessos e o clima de distensão que caracterizaram o advento da República poderiam ter acabado de vez com a capa e batina, a qual era vista como uma herança dum passado de ultramontanismo. Tanto mais que, numa primeira fase, todas as praxes foram postas em causa, tendo a própria cabra, que regulou a vida universitária durante séculos, ficado muda durante 9 anos. Escreveu António José Soares que, em 1913, continuam a aparecer alguns académicos ostentando trajos bizarros em que se mistura a tradicional capa e batina com gravatas, botas, coletes e até calças de cor.
     Mas a capa e batina, que provara ter força para resistir ao possante Marquês de Pombal, continuou a ser usada, agora em regime de voluntariado, por muitos estudantes. E, para grande espanto dos de Coimbra, há outros estabelecimentos de ensino, sedentos de uma tradição que não tinham, que resolvem adoptá-la. Voltemos a António José Soares e às Saudades de Coimbra, de cujo livro extraí estas três interessantes notas:
- Março de 1916: Sem prévia consulta à Academia de Coimbra (vide Nota 1 abaixo), os estudantes universitários do Porto resolveram, por maioria, usar capa e batina e uma fita na lapela, da cor da respectiva faculdade.
- Outubro de 1924: Por ter sido proibido, pelo Reitor de um Liceu de Lisboa, que uma aluna usasse capa e batina, os seus colegas decretaram uma greve em sinal de protesto.
- Novembro de 1924: O Governo decretou a permissão do uso de capa e batina aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, Liceus e Escolas Superiores.

     Voltando às irregularidades no uso do traje – o melhor talvez seja chamar-lhe abandalhamento – elas mantinham-se ainda em meados da década de trinta. Mas há um tempo de viragem, que é bem perceptível na Coimbra, Boémia da Saudade de Reis Torgal. Diz o autor que fotos que tenho do meu Pai, mostram-no, estudante dos anos vinte, usando polainitos castanhos claros, colete de cor e outras formas de vestir a capa e batina que no meu tempo, duas décadas depois, dariam razão às mais ríspidas sanções praxistas.
     Ou seja, passados os tempos do fervor republicano, decantados que foram os excessos, a Academia de Coimbra voltou às suas praxes e a capa e batina ressurgiu revigorada. Só que, agora, em autogestão estudantil:
- o tipo de colarinho ou o formato da batina deixaram de ser estabelecidos em edital aprovado pelo Reitor e afixado à Porta Férrea, para serem consignados no Código da Praxe, aprovado por decreto do Conselho de Veteranos, afixado à porta da A.A.C.;
- a fiscalização dos costumes deixou de estar a cargo da polícia académica – os archeiros da Universidade – e passou a ser da competência do Conselho de Veteranos;
- as sanções deixaram de ser a prisão académica ou o “riscar da Universidade” para serem umas colheradas nas unhas e outros mimos do mesmo género.
     E a provar que o traje evoluiu, não sendo mais confundível com as vestes clericais, tão do desagrado de Antero de Quental e de outros que se bateram contra o reitor Basílio, estão dois pequenos detalhes:
- os sucessivos Códigos da Praxe (1957; 1993; 2007) determinam que a batina não seja de modelo eclesiástico...
- no caso das raparigas, os Códigos impedem que a saia seja rodada,…
... não viesse daí outra vez a velha "loba"! Curioso!…

     Mas mais curioso é notar como a capa e batina voltou a “morrer” em 1969 – conjuntamente com a Queima, as latadas, as praxes académicas – para renascer das cinzas, uma vez mais, qual Fénix, em 79/80! Ainda que a história nunca se repita, os alcatruzes da nora voltam sempre. Experimentem colocar:
- no lugar da crise e das greves académicas de 1907… a crise e as greves académicas de 1969;
- no lugar do 5 de Outubro de 1910 e da implantação da República… o 25 de Abril de 1974 e a restauração da Democracia;
- no lugar dos excessos republicanos… os excessos do PREC…

     É bom que a capa e batina – que não é monárquica nem republicana, nem de direita nem de esquerda, nem revolucionária nem reaccionária – tenha voltado ao seu lugar, conjuntamente com outras tradições académicas. Tradições que já não são a mesma coisa, dir-me-ão… mas todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Importante é que as tradições se mantenham vivas e, para isso, é inevitável que se vão transformando. Mas há adulterações do traje académico que, se porventura toleráveis noutras paragens, muito me custa que sejam toleradas em Coimbra. Coimbra tem para com a capa e batina responsabilidades acrescidas, que decorrem do facto de, durante quatro séculos, tal traje ter sido um exclusivo da sua Academia.
     Da Queima das Fitas do ano passado chegaram-me notícias de excessos que caíram mal na cidade. E eu próprio assisti já a situações caricatas e totalmente proibidas pelo Código da Praxe. Contra tais excessos se levantou a petição pública que referi na primeira crónica desta série (Nota 3) que dediquei à capa e batina. Recentemente, o Conselho de Veteranos promoveu diversas reuniões de esclarecimento sobre a Praxe Académica Coimbrã, que vi noticiadas no Facebook. Faço votos para que a Queima das Fitas que esta semana começa seja uma afirmação de vigor e alegria mas também de respeito por tradições que têm vários séculos atrás de si.
     Zé Veloso
Nota 1: Esta frase (recriminatória? exclamatória?) diz muito sobre as responsabilidades que cabem (ou deveriam caber) à Academia de Coimbra.
Nota 2: A ilustração da Fénix é da autoria de Rita Madalena Cabrita (12ºL – 2010/2011) e foi realizada no contexto do projecto “Plano de Voo: Arte,Ciência e Movimento” da E.S. Maria Amália Vaz de Carvalho. Curiosamente, Domitíliade Carvalho, a primeira mulher a formar-se na Universidade de Coimbra, foi Reitora do Liceu D. Maria Pia, mais tarde Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, hoje Escola Secundária.
Nata 3: A CAPA E BATINA VOLTA À RIBALTA, AS ORIGENS DA CAPA E BATINA, CAPA E BATINA. DA "LOBA" ECLESIÁSTICA À BATINA LAICA, CAPA E BATINA. A FÉNIX RENASCE DAS CINZAS.
 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

CAPA E BATINA. DA “LOBA” ECLESIÁSTICA À BATINA LAICA

    Na crónica anterior vimos que a capa e batina começou por ser um traje austero, que nasceu para evitar excessos e soberbas, num ambiente universitário com fortes ligações ao clero e numa Idade Média onde era usual que cada profissão ou condição social se distinguisse das restantes através da forma de trajar.
    Nos Séc. XVII e XVIII, a tónica eclesiástica do traje foi-se acentuando, sendo de realçar a utilização da "loba", espécie de batina ou sotaina eclesiástica sem mangas, guarnecida na frente com duas filas de botões desde o pescoço até abaixo do joelho.
    Apesar de Coimbra ser na altura uma cidade longe da capital, vivendo de e para uma Universidade conservadora e fechada à modernidade, o traje não deixou de ser permeável ao mudar dos tempos e às modas que vinham de fora. Reis Torgal escreve que menos modestos eram os trajes do séc. XIX, sobretudo depois do liberalismo; e o interessante blogue Porto Académico refere uma alternativa à “loba”, mais chique e mais cara, a “abatina”.  
    Como exemplo da degradação dos antigos costumes, atente-se na forma displicente como a outrora respeitosa capa começa a ser traçada! António Rodrigues Lopes acha que o traçar da capa foi primeiramente adoptado da moda afidalgada do Séc. XVII e se inspirou, mais tarde, no jeito como a tricana cruzava o xaile...
    O Séc. XIX – precursor da instauração da República – foi um século de transformações sociais e muito fervor anticlerical, pelo que o rigor do traje e a sua afinidade eclesiástica – “loba”, cabeção, volta,… – foram alvo de grande contestação e geradores de enormes tensões entre os estudantes e vários reitores. Expoente máximo desse confronto foi o odiado reitor Basílio que, em 1859 e segundo Sousa Lamy, ordenou aos estudantes que usassem a batina aberta por detrás, abotoada pelas costas e cosida adiante com uma ordem de pequenos botões de cima abaixo e determinou que os archeiros metessem na prisão os estudantes que andassem com a batina aberta e indecente.
    Mas “o que tem de ser tem muita força” e, já perto do rodar para o Séc. XX, foi permitido de jure o que a prática já vinha consagrando; e o traje académico atingiu uma forma semelhante à que tem hoje. Lendo Ramalho Ortigão (1988), fortemente crítico desta evolução, o cabeção e a volta foram substituídos pelo colarinho postiço e pela gravata do futriquismo liró. A batina degenerou num casaco gebo e mestiço, de padre à paisana. A calça escorreu inartística e besta, pela perna abaixo, esbeiçando apolainada sobre a odiosa bota de elásticos.
    Outra evolução interessante tem a ver com o gorro. Tendo começado por ser um barrete redondo, foi desaparecendo das cabeças – ainda que não do traje – provocando o espanto dos forasteiros que visitavam Coimbra nos sécs. XVIII e XIX, já que andar de cabeça descoberta era singular e esquisito naquela época. Aliás, o facto de andarem em cabelo só abona a favor do bom gosto dos académicos de então, pois que a alternativa era usar um enorme gorro que aparece descrito como sendo um saco preto, que posto na cabeça caía pelas costas e cujo tamanho se imagina quando se sabe que o mesmo servia igualmente para carregar livros, frutas e outros misteres.
    Só que as modas vão e voltam. E o gorro, que no meu tempo tinha caído em desuso, a ponto de não me recordar de ter visto algum nos 12 anos que andei por Coimbra, voltou recentemente a ver-se e, segundo me dizem, mais ainda nas raparigas.
    Vistas que estão as questões de evolução estética da capa e batina, passemos em revista as questões ligadas ao seu uso.
    Durante muito tempo o uso da capa e batina foi obrigatório para o estudante, tal como, aliás, para o lente, ainda que este usasse uma batina comprida até aos pés. Entre 1718 e 1834, esta obrigatoriedade estendia-se a toda a cidade. De 1834 até à implantação da República, em 1910, a capa e batina era apenas obrigatória dentro do perímetro da Universidade.
    O Marquês de Pombal quis acabar com este trajo aquando da reforma que fez da Universidade, em 1772. Deveria ser demasiado jesuítico para o seu gosto. Mas, de acordo com escritos da época, representou-se-lhe, porém, que a Universidade e o País tinham simpatia por aquele uniforme tradicional; que, além disso, para os pobres tinha a vantagem de ser mais barato, que estabelecia melhor semelhança entre estudantes, que lhe poupava inúteis despesas e os livrava de vaidosas ostentações de luxos.
    Havia, no entanto, outras vantagens nesta obrigatoriedade. Os estudantes e professores, como aliás os serventuários da universidade ou dos escolares, usufruíam no passado regalias diversas, das quais se destaca estarem sujeitos a foro e cadeias próprias. Já a Carta de D. Diniz, que estabelecia à época os privilégios da Universidade, proibia às justiças de Coimbra o trazerem violentamente os estudantes a juízo secular, salvo serem compreendidos em homicídio, ferimento, furto, roubo de mulheres ou crime de moeda falsa. Facilmente se percebe que, havendo que distinguir claramente entre dois tipos de cidadãos – os estudantes e os futricas – a existência de um uniforme para os primeiros facilitava as coisas.
    E esta questão deixou raízes tão fundas na sociedade Coimbrã, que seria impensável, no meu tempo, que um futrica se vestisse de estudante, mesmo que fosse apenas para mascarada de Carnaval. Aliás, futrica que usasse capa e batina ficava automaticamente sujeito a ser rapado sem mais contemplações. E cantor lisboeta que o fizesse para cantar um fado na televisão, melhor fora que não aparecesse em Coimbra e ficaria sempre a recear que, mesmo em Lisboa, uma bela noite lhe aparecesse pela frente uma trupe que lhe desse a volta ao penteado...
    E não perca o último episódio desta saga... a transmitir pela Páscoa. ALELUIA!!!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

AS ORIGENS DA CAPA E BATINA

    Quando em 1537 a Universidade foi definitivamente reinstalada em Coimbra por D. João III, já a capa era utilizada pelos estudantes, aos quais os Estatutos Manuelinos ordenavam, num parágrafo dedicado à honestidade dos vestidos, que os escolares andem honestamente vestidos e calçados , isto é, não tragam pelotes, nem capuzes, nem barretes, nem gibões vermelhos nem amarelos nem verde-gaio, nem cintos lavrados de ouro.
     Na época, a capa fazia parte da indumentária corrente; e uma espécie de túnica preta era característica da indumentária dos eclesiásticos, muitos dos quais frequentavam a Universidade. Eis o embrião da capa e batina, tal como aparece retratada na gravura de Georgius Braunius.
    Como é visível, o traje era muito diferente do de hoje. Mas como as modas sempre existiram e as vestimentas sempre foram evoluindo ao seu sabor, também a capa e batina se foi adaptando ao corte dominante de cada época, embora mantendo sempre um ar austero, de inspiração eclesiástica, adequado ao estatuto social do estudante de então.
    Vogando um pouco ao sabor da tradição, a capa e batina nunca aparece perfeitamente definida, quer no que toca ao seu corte quer no que respeita à forma de ser usada. Contrariamente ao que acontece nos códigos da praxe dos Sécs. XX e XXI, os regulamentos de antanho dedicam-se muito mais a dizer o que não pode ser usado do que aquilo que o deve ser; e fazem-no sempre no sentido de evitar os excessos, a pompa e o gasto de despesas pelos estudantes que cursavam a Universidade.
    É assim que a Ordenança para os Estudantes da Universidade de Coimbra, de D. João III, determina que os académicos não possam trazer barras nem debruns de pano em vestido algum; vestido algum de pano frisado; barretes doutra feição senão redondos; capas algumas de capelo; golpes nem entretalhos nas calças; lavor branco, nem de cor alguma em camisas, nem lenços.
    Estas e outras restrições da mesma índole eram impostas no séc. XVI, altura em que se diz que Luís de Camões terá cursado em Coimbra. Conta-nos Alberto Sousa Lamy que Arnaldo Gama, no romance histórico A Caldeira de Pêro Botelho, referindo-se à indumentária de Luís de Camões, escreveu que ele vinha agora gravemente vestido de académico, com seu barrete redondo, o colar chão e sem nenhum daqueles feitios de rendas, bicos, trancinhas e outras guarnições, das que naquele tempo se usavam, e a aljubeta de pano liso e comprido tinha mais de três dedos abaixo dos joelhos.
    É interessante notar que a capa e batina que chegou aos nossos dias também é, de alguma forma, um traje austero. E que os "legisladores" dos Sécs. XX e XXI – os Conselhos de Veteranos – procuraram igualmente conter os luxos, arrebiques e exoterismos típicos da sua época. Veja-se que os Códigos da Praxe de 1957, 1993 e 2007 obrigam, entre muitas outras limitações, a que a camisa e a gravata sejam lisas, o colete seja não de abas ou cerimónia, e não se usem luvas nem pulseiras. E, no que às raparigas diz respeito, aqueles códigos não deixam também de limitar as suas vaidades: nos de 1957 e 1993 o fato saia-casaco deverá ser de modelo simples e sem gola de pele; no de 2007 as limitações são razoavelmente mais severas.
    Quanto à cor dos trajes, sempre há notícia de que tenha sido uma cor escura. Os denominados Estatutos Velhos – que vigoraram da ocupação espanhola à reforma pombalina e que continham uma lista infindável de limitações tendentes a evitar luxos e espaventos – prescreviam que os estudantes não trarão em nenhum vestido de sotaina, calças ou pelote, as cores aqui declaradas: amarelo, vermelho, encarnado, verde, laranjado, sob pena de perderem os ditos vestidos, a metade para a Capela e a outra para o meirinho, ou guarda das Escolas, qual o primeiro a acusar.
    Esta interessante paleta de cores era proscrita apenas para o que ficava à vista, já que, quanto à roupa de baixo, que os estudantes poderiam trazer para sua saúde, existia maior condescendência, desde que as cores ficasse bem cobertas. É curioso notar que os Código da Praxe de 1957, 1993 e 2007 acolhem estes mesmos princípios ao estabelecer, simplesmente, que a roupa interior e bolsos não estão sujeitos a revista.
    Voltando às cores proibidas pelos Estatutos Velhos, nunca apurei ao certo qual a diferença entre o vermelho e o encarnado mas fica clara a intenção de não utilizar cores garridas, incompatíveis com a austeridade pretendida para o traje e, como já me foi referido, de “tinturaria” mais cara. Fica igualmente claro que cores que encontramos hoje no hábito de algumas ordens religiosas, como o castanho escuro e o pardo, não estavam excluídas. Só não percebo a não proibição do azul… paciência!
    A cor que ganhou foi o preto… a capa e batina que chegou aos nossos dias é preta… e ainda bem, já que assim se chegou a um paradoxo interessante: É que o preto, aquela cor fúnebre e austera, símbolo da morte, do luto e da tristeza, tornou-se, paradoxalmente, por via da capa e batina, a cor da juventude, da alegria e da esperança!
    Não perca os próximos episódios (ver Nota)!

sexta-feira, 25 de março de 2011

A CAPA E BATINA VOLTA À RIBALTA

    No rescaldo do Prós e Contras que antecedeu a manifestação da Geração à Rasca, Pacheco Pereira referiu-se aos representantes da AAC naquele fórum como sendo uns tipos vestidos de gafanhoto ou de padres do séc. XVIII. Não gostei da deselegância, já que ninguém precisa de achincalhar as convicções dos outros para defender as suas próprias convicções. E, no entanto…
    A capa e batina, também a mim, apesar do meu passado de estudante de Coimbra, me pareceu algo anacrónica e deslocada naquela plateia do Séc. XXI. E se isto se passou comigo, imagine-se o que não se passará com o comum dos mortais, que vê os estudantes de jeans no seu dia-a-dia, e não entende muito bem por que razão insistem em vestir o “traje académico” – e esta simples denominação diz quase tudo – na Queima das Fitas e mais umas quantas ocasiões. Pensarão que não passa de uma praxe social, tal como vestir um fraque para ir a um casamento ou envergar uma toga para brindar com a Confraria do Vinho do Porto. E, no entanto…
    Tempos houve – até à instauração da República – em que a capa e batina era obrigatória para entrar no Pátio da Universidade, chegando, mesmo – de 1718 e 1834 – a ser condição necessária para um estudante circular na cidade, quer na Alta quer na Baixa. Nessa época ela era um verdadeiro uniforme escolar – o “traje académico”, afinal – acabando por ser abominada como qualquer outro uniforme, até cair em desuso com a implantação da República, para renascer das cinzas na década de 20 – tal como viria a renascer nos anos 80, depois do interregno pós crise académica de 69 e pós 25 de Abril. E, no entanto…
    Ao invés dos dois extremos acima – o “traje-académico-para-as-ocasiões-especiais” e o “traje-académico-por-obrigação” – houve uma época ímpar – dos anos 30 aos anos 60 do século passado – em que a capa e batina era vestida, ao mesmo tempo, com gosto, naturalidade e… necessidade. Gosto de quem se sentia bem a traçar a capa; naturalidade de quem não tinha de ver-se ao espelho pois que, vestindo-a no dia-a-dia, já conhecia a albarda de ginjeira; necessidade de quem tinha na capa e batina o seu melhor e único fato.
    Mas que traje é esse que, à primeira vista, parece de uma incomodidade absoluta mas que tinha, de facto, uma notável capacidade de adaptação a todas as circunstâncias, em todo o lado ficando bem, fosse na sala de aulas ou no banco do jardim, numa celebração académica, num casamento ou numa cerimónia fúnebre?
    Veja-se, a título de exemplo, o que acontecia na Queima do meu tempo: logo quinta- feira à noite, em plena Serenata Monumental, a capa traçada nos defendia do frio cortante das vielas convergentes na Sé Velha. Na noite de sábado, eram os colarinhos à bife e o laço espichado que nos permitiam entrar no baile de gala, capa pelos ombros, disfarçando a batina ainda amarrotada dos apertos da coxia do Teatro Avenida, onde, na noite de sexta, tivera lugar o Sarau. E era com esta mesma indumentária que corríamos à garraiada de domingo. E a mesma capa que servia de manta na praia e servia depois para atiçar o touro, logo na segunda-feira, escorrida pelos ombros, conferia um ar grave e paternal aos quintanistas que vendiam as pastinhas, acompanhados das meninas do Dr. Elísio de Moura. Finalmente, depois de bem pisada nos relvados do Parque da Cidade, servindo de enxerga aos corpos já cansados no final de cada dia, era ainda aquela capa, mil vezes ao ar atirada, o ex-libris do cortejo de terça-feira, enquanto as batinas se travestiam de fraques nos corpos dos cartolados, antecipando-lhes um futuro de prosperidade.
    Tenho vindo a observar, com alguma curiosidade, o renascer da capa e batina, a qual foi considerada nos anos 70 uma espécie em vias de extinção, mesmo em Coimbra, onde a Câmara chegou a promover descontos nos transportes públicos para promoção do seu uso, medida discutível numa época em que os sinais exteriores de riqueza eram tão cobiçados. E o que noto é que, pese embora o ar folclórico e menos genuíno deste “trajar” ou “andar trajado”, os estudantes que o fazem – e não apenas os de Coimbra – evidenciam no gesto um assinalável orgulho.
    Lembro-me de ter visto na televisão,  há já 10 anos, o desfile dos estudantes do Instituto Superior Técnico, de luto pela morte de um seu colega assassinado. Os alunos que seguiam na frente, representando a respectiva Associação, faziam questão de vestir capa e batina. O mesmo tenho visto regularmente em manifestações de alunos de outras Faculdades de Lisboa e demais terras, já sem falar nas Queimas da Fitas, nas Bênçãos das Pastas ou nas tunas universitárias que se multiplicam a cada dia.
    Não há dúvida. A capa e batina extravasou definitivamente Coimbra, não se ficando por pequenos núcleos académicos tradicionais, como Évora ou Santarém, invadiu Lisboa e Porto e consolidou-se como traje académico, ou seja, a vestimenta que o estudante universitário da generalidade das universidades portuguesas usa quando pretende afirmar-se, formalmente, na sua qualidade de estudante.
    Como é evidente, falta ao universitário de hoje alguma cultura sobre as regras ligadas à utilização de um tal traje e, por isso mesmo, os estudantes do IST desfilaram com as abas das batinas abertas, num cortejo de luto!... Talvez aconteça, até, que as batinas que hoje se fazem em Lisboa não tenham casa nem botão na lapela, que as permita fechar em situação de luto; os alfaiates poderão ter pensado que tal casa serviria apenas para pôr um emblema e, sendo assim, uma só casa seria totalmente incapaz de suportar os autênticos “monstruários” de ourivesaria em que se transformaram algumas bandas de batinas que hoje se vêem um pouco por todo o país e sei lá, até, se por Coimbra também! Espero bem que não… e, no entanto…
    Circulou na internet uma Petição Por uma Capa e Batina Negra, a mostrar o desconforto de alguns, em Coimbra, pelas “imparidades” entre o rigor que se exige a quem veste capa e batina e o menor cuidado (ou desrespeito, melhor falando) dos que, simplesmente, “trajam” e se esquecem, quiçá por desconhecimento, do mais a que a capa e batina obriga, nomeadamente quando usada em Coimbra, onde reside a sua origem.
    Mas qual é, então, a origem desse traje ao qual tão bem assenta o adágio popular Quem tem capa sempre escapa? Como o tema dá pano para mangas – fora as bandas e as labitas... – vou ter de me estender por mais algumas crónicas, à maneira das novelas. Não percam os próximos episódios!...
    Zé Veloso
PS: Continua em AS ORIGENS DA CAPA E BATINA, CAPA E BATINA. DA “LOBA” ECLESIÁSTICA À BATINALAICA e CAPA E BATINA. A FÉNIX RENASCE DAS CINZAS 

Nota: A fotografia acima é pessoal e não deverá ser reproduzida.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ZECA AFONSO, UMA BANDEIRA DE COIMBRA

    Passam hoje 24 anos sobre a morte de Zeca Afonso.
    24 anos! Como é possível?! Estou a vê-lo entrar no palco para o seu último concerto e arrancar, já sem o fulgor de outros tempos,
        Do Choupal até à lapa
        Foi Coimbra os meus amores
        A sombra da minha capa
        Deu no chão, abriu em flores
para, pouco depois, ter a coragem de cantar, voz embargada pela comoção, a premonitória “Balada do Outono”:
  
        Águas das fontes calai
        Ó ribeiras chorai
        Que eu não volto a cantar
.
    Zeca era, foi, o maior. Todos os outros procuraram imitá-lo, segui-lo, mas de cada vez que o tentavam agarrar ele já não estava no mesmo sítio. A sua incrível intuição musical – Zeca Afonso sabia da música apenas os rudimentos – e o seu apurado sentido poético logo o atiravam mais para a frente.
    Quando a moda era a canção de Coimbra acompanhada à guitarra e à viola, ele surgiu acompanhado apenas pela viola do Rui Pato; quando os demais imitaram as suas baladas acompanhadas à viola, ele surgiu com Maio, maduro Maio, acompanhado pela mini-orquestra e coros dos arranjos do Zé Mário Branco, no mesmo disco em que arriscou lançar uma canção sem acompanhamento algum: Grândola, Vila Morena.
    A saída do LP Cantigas do Maio, cuja novidade não se esgotou ainda, 40 anos depois (!), foi algo que eu costumo comparar ao aparecimento do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Cada um no seu estilo musical, mas o estrondo foi o mesmo: os consagrados rompiam em absoluto com o que até aí tinham feito, mostrando aos mais novos que “velhos são os trapos”.
    Não conheci pessoalmente o Zeca. Ele era da geração de 50, enquanto eu pertenci à de 60. Mas fui colega de músicos que o acompanharam: Rui Pato, “Bóris”, Phil Colaço, 15 anos mais novos do que ele, o que dá bem a ideia da sua juventude de espírito.
    Zeca Afonso não era de modas. Mas ele acabava por fazer a moda, com o seu estilo anti-vedeta. Como não era capaz de decorar as letras – nos tempos em que cantava fado de Coimbra era a malta que lhe fazia de ponto – começou a cantar com a letra escarrapachada num tripé à sua frente… e a moda pegou. O que até aí era parolo passou a ser chique!
    Sobre o Zeca Afonso muito foi dito e escrito. Mas tem ficado esquecida a sua ligação à Briosa. Zeca Afonso jogou um ou dois anos na equipa B dos juniores da Académica, nos finais da década de 40, a extremo-direito e a interior-esquerdo. Como ele próprio confessou numa entrevista que deu a José A. Salvador poucos anos antes de morrer, foi sempre extremamente irregular: sem saber népia metia assim um golo… mas no desafio seguinte jogava pouco. Não aguentava mais que vinte minutos de jogo.
Pergunta o jornalista: - E se a Académica ia jogar fora, também ias? – É claro. – E se havia porrada no campo? – Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. E, quando o entrevistador lhe pergunta: – Mas o que te marcou em Coimbra? - responde o mesmo que eu e muitos outros teríamos respondido: – Essa atmosfera romântica e irreverente ao mesmo tempo.
    Depois de Abril, Zeca Afonso passou ainda mais a património nacional e foi bandeira de muitas causas. O seu espírito desprendido, ingénuo, anarquista, revolucionário, “o rosto da utopia” como lhe chamou José Salvador, levou a que se entregasse sem nada pedir em troca às mais diversas causas, tornando-se o patrono dos mais fracos.
    Não admira, por isso, que muitos se apropriassem da sua imagem; e muitos são aqueles que hoje reclamam Zeca Afonso para o seu lado. Mas é bom não esquecer que Zeca foi, antes de mais, um produto de Coimbra e da sua Academia! E é para essa Coimbra e para essa Academia que eu o reclamo.
    Zeca Afonso é vinho da mesma cepa que produziu as gerações solidárias de estudantes da Coimbra dos anos 50 e 60, aquelas gerações que - como escreveu Amadeu Homem num comentário que li no Facebook – partilhavam quase tudo, menos as namoradas.
    O Zeca nunca esqueceu Coimbra e a sua Academia. E nunca as renegou, mesmo que se tenha referido posteriormente aos seus tempos de estúrdia coimbrã com algum distanciamento crítico. Por isso, ao dar no Coliseu de Lisboa o seu último espectáculo, o concerto em que revisitou toda a sua vida artística, fez questão de abri-lo com uma guitarrada de Coimbra, tocada por antigos estudantes de Coimbra, capas negras pelos ombros, numa época (1983) em que nem todos tinham coragem de assumir esse passado que, à altura, era frequentemente tido por reaccionário.
    Zé Veloso

domingo, 6 de fevereiro de 2011

BENTES OU VENTES?

    Dizia-se, no meu tempo, que era em Coimbra que melhor se falava o Português. Não admira que assim fosse e julgo que ainda assim será. Coimbra é uma terra de cultura. Para além disso, é uma terra de passagem, não longe do centro demográfico de Portugal continental. Logo, o português que nela se fala deve ser o mais representativo do país. Em Coimbra não se usa a pronúncia do Norte, nem a de Bijeu, não se diz mensa como em Lisboa, não se diz compádriii como no Alentejo, nem se fala cantando, como acontece em muitas outras terras. A pronúncia de Coimbra não é pronúncia, é o padrão. É como a água pura, cristalina, incolor, insípida e inodora, com densidade 1 a 4 graus centígrados e fervendo a 100 quando à pressão normal.
    Mas se a pureza da língua era um facto nas gentes de Coimbra, não é menos verdade que as populações rurais dos arredores costumavam trocar os vv pelos bb, tal como é característico do Norte. Mas também aí havia excepções. Recordo que na quinta onde nasci e vivi a meninice havia um criado da lavoura, de nome César, que fazia gala em falar bem, gabando-se de nunca trocar os vv pelos bb, não fosse ele de Ançã, ali tão perto de Coimbra, e adepto da Académica.
    Foi com ele que aprendi a admirar o Ventes, numa altura em que pouco ligava ao futebol, já que os relatos do hóquei em patins eram muito mais emocionantes e as finais tinham um saborzinho a Aljubarrota – embora, no caso do hóquei, a táctica do quadrado tenha vindo de Castela!...
    Mas voltemos ao Ventes. Aos domingos jogava-se o futebol e às segundas lá vinha o César, doido pela Académica, clube dos estudantes bem-falantes a que ele pertencia por direito próprio – por nunca trocar os vv pelos bb – lá vinha o César gabar os golos e as jogadas do Ventes
    Não foi apenas ao César que o Ventes enfeitiçou. Enfeitiçou a muitos mais. A sua magia ficou nos olhos de quantos o viram jogar, ou de quantos, como o César, não o tendo nunca visto, apenas o puderam imaginar.
    Como diria o poeta, melhor é experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não puder experimentá-lo. E já que entrámos pelo campo da poesia, deixo-vos com a Balada do Bentes, de Manuel Alegre (Nota). Quem nunca o viu jogar… que o julgue agora.
                Nem tudo era só bota de elástico
                havia alguém capaz de alguns repentes
                a fuga para a frente e o fantástico
                a festa e a alegria: havia o Bentes.
                Ele fintava ele driblava ele ganhava
                os jogos que ninguém nos consentia.
                Era a Académica e a aventura era a palavra
                que de súbito golo se fazia
                quando corria pela esquerda e nos levava
                nas jogadas da sua fantasia.
                No tempo devagar ele era a pressa
                trazia o imprevisto e o inesperado
                um golo de pé esquerdo ou de cabeça
                que virava o domingo e o resultado.
                Ele avançava sem pedir licença
                contra a rotina o tédio a vida anémica
                era a ousadia e a diferença
                ele era outra maneira – era a Académica.
                Fosse o Porto o Sporting o Benfica
                ele era o que rompia.
                De seus dribles nasciam as serpentes
                como o poema o seu jogo não se explica
                ele era a fantasia
                ele era o Bentes.
    António Bentes – o “rato atómico”, como carinhosamente era conhecido pelos adeptos da Briosa – faleceu com 75 anos a 6 de Fevereiro de 2003. É sua a frase O meu primeiro clube é, como toda a gente sabe, a Académica. O segundo, as reservas da Académica. E o terceiro, os juniores da Académica.
    Zé Veloso

Nota: Poema escrito para o livro ACADÉMICA, da AAC (OAF) e da Casa da Académica em Lisboa, editado em 1995.
Foto acima: Equipa da Académia de 1955-56.