domingo, 24 de outubro de 2010

POR QUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA? (Parte II)

    Corria o ano da graça de 1885. A organização associativa da Academia, reunida em torno da Academia Dramática e do Clube Académico de Coimbra, encontra-se ainda em fase embrionária. As Assembleias Gerais têm lugar no Teatro Académico, situado no Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, edifício que viria a ser, em 1887, a primeira sede da Associação Académica de Coimbra (ver Nota 1 no final).
    A luta política, que haveria de culminar na implantação da República 25 anos mais tarde, marca já presença na Universidade. A facção mais aristocrata e conservadora da Academia distingue-se pelos hábitos requintados. Veste-se à futrica depois das aulas, fuma charuto, usa guarda-chuva, calça luvas e polainas. São os polainudos que, no dizer de Trindade Coelho, fazem da polaina um chique e acho que uma fidalguia. Isolam-se no Café Lusitano, em tertúlias intelectuais que entram pela noite adentro, enquanto os tesos vão mergulhar nas sebentas, que a mesada é fraca e um chumbo custa caro à família.
    Estávamos nisto quando morre em Lisboa D. Fernando, viúvo de D. Maria II. Enquanto a maioria da malta se prepara para gozar em Coimbra os três dias de feriado da ordem, três polainudos, lisboetas de gema, avançam para a capital dispostos a matar saudades e a representar a Academia de Coimbra nos funerais do Rei.
    António Cabral, figura de proa dos polainudos, conta que os colegas foram mandatados para tal em Assembleia Geral, mas Trindade Coelho acha que esta não foi mais que uma combinação através de papelinhos passados nas aulas entre um grupo de apaniguados. E que apaniguados! Fosse a questão passada com outros, talvez a bronca não surgisse. Mas aqueles três pertenciam à fina-flor dos polainudos, grupo que uma boa parte da Academia quase odiava.
    Mal o assunto é conhecido, logo um aviso aparece nas portas do Clube Académico, chamando a Academia, ofendida nos seus brios, a uma Assembleia Geral, com o fim de protestar contra os usurpadores. É a resposta dos revolucionários vermelhaços. Mas a Assembleia não chega a consumar-se. É boicotada pelo Cabral e seus apaniguados, que começam por esconder a chaves do Teatro Académico, fazem obstrução à constituição da mesa, avançam às tantas com o Saraiva das Forças, que a todos ameaça de partir os ossos, e acabam por cortar o gás, deixando o Teatro às escuras.
    Os revolucionários não se dão por vencidos e convocam uma reunião à porta fechada para um teatro na Rua da Trindade, onde se propõem estudar e discutir os meios de levantar o nível moral da academia. Então, sim! Libertos dos Cabrais, saem discursos inflamados contra aqueles que, tendo ido para Lisboa sem mandato para tal, haviam posto em cheque o brio da Academia. E a questão descamba para a falta de nível dos polainudos. Havia que levantar o nível da Academia.
    A partir de então, a questão do brio ofendido e a questão do nível ou da falta dele postaram-se no centro das inflamadas discussões académicas e da chacota entre os grupos antagónicos. Definitivamente, os dados estavam lançados. Dum lado, os polainudos. Do outro lado, os do brio ofendido, ou seja, os briosos.
    Os polainudos não gostaram do enxovalho na Trindade e, passado pouco tempo, distribuíam uma folha litografada que, vendida à Porta Férrea por um vintém, se esfumou como rastilho de pólvora. Era uma rábula à moda dos Lusíadas, A Niveleida, composta numa aula de Direito Eclesiástico pelo Cabral. Nove verrinosas mas bem-humoradas estrofes, em que a facção contrária é apelidada de briosa e os seus cabecilhas, os do nível, são zurzidos um a um sem dó nem piedade. E a palavra briosa lá aparece, escarrapachada nas estrofes I, III e V, sendo, porventura, a primeira vez que tal palavra foi escrita para designar uma parte da Academia.
    Transcrevo abaixo a terceira estrofe, esclarecendo que os R R se referem às reprovações. Por esta pequena amostra se vê o desprezo com que polainudos mimaram os briosos:
                    Estavas, ó briosa, em bom sossego,
                    Da sebenta colhendo o doce fruito,
                    Naquele estado tolo, bruto e cego,
                    Que os R R não deixam durar muito;
                    Nesta imunda princesa do Mondego
                    Que vai agora d’águas pouco enxuito,
                    Ensinado às sopeiras e serventes

                    O que tinhas aprendido co’os teus lentes.
    O estrondo que A Niveleida fez na Academia foi tremendo. Para além da distribuição do poema, as casas onde residiam os cabecilhas dos revoltosos eram assediadas durante a noite com gritos de onde está o nível?, onde está a bolha? e as suas paredes brancas apareciam, no dia seguinte, com desenhos dum nível de bolha de ar feitos a traço grosso de carvão. O achincalhamento teria deitado abaixo o moral a qualquer um. Mas a Briosa não é qualquer um. A Briosa foi desde sempre combativa, de antes quebrar que torcer.
    Para além de cenas de murro seco naquelas ruas empinadas da velha Coimbra, a resposta à letra apareceu dias depois, noutro poema à maneira dos Lusíadas intitulado A Bolha, onde os cabecilhas dos polainudos eram, agora eles, arrasados um a um.
    Mas a grande resposta apareceria dois anos mais tarde, ao alterarem-se os estatutos da Academia Dramática para dar lugar à Associação Académica de Coimbra, a qual passaria a agregar cada vez mais estudantes, enquanto os polainudos se isolariam no Instituto de Coimbra, o tal clube elitista conhecido por Clube dos Lentes, cujas instalações viriam a ser tomadas de assalto em 1920 (Tomada da Bastilha), para desafogo da sede provisória da AAC, que continuava à espera da prometida construção de um novo Teatro Académico. Estórias que a História tece...
    E a confirmar que a clivagem na Academia era não apenas socio-económica (como escreveu Norton de Matos nas suas memórias) mas também política, anote-se que António Cabral, um dos líderes dos polainudos, viria a ser ministro da Monarquia, enquanto que António Luís Gomes, o grande obreiro da criação da AAC e seu primeiro Presidente, viria a ser ministro do Governo Provisório da I República e Reitor da Universidade de Coimbra.
    Não resisto a abrir aqui um parêntesis para citar o que, a respeito destas questões do nível, conclui Norton de Matos: A minoria fidalga estava então convencida que tinha levado a maioria da Academia a submeter-se-lhe, quando era exactamente o contrário que se dava. O nível ia-se de facto estabelecendo, porque cada vez havia menos ricos, porque as classes médias principiavam a dar maiores mesadas aos filhos, porque estes adquiriam hábitos de vida mais cuidada e, sobretudo, porque na Briosa principiaram a aparecer em grande número inteligências verdadeiramente privilegiadas, rapazes a quem o tempo chegava para estudarem a fundo as matérias dos seus cursos e alargarem os seus conhecimentos com leituras aturadas e com discussões intermináveis nos cafés e nas Repúblicas.
    E é ainda Norton de Matos que refere que, ao sair da Universidade em 1888, já as coisas estavam mais calmas, mas ainda os polainas chamavam aos mais modestos e menos bem trajados, os briosos, Academia Briosa, ou Briosa simplesmente.
    Resta saber como é que o epíteto de Briosa se colou à equipa de futebol da Académica, a qual só viria a ter o seu primeiro jogo oficial em 28 de Janeiro de 1912, quase três décadas passadas sobre estes acontecimentos. Mas isso fica para o terceiro e último post sobre o porquê de a Briosa ser Briosa.
    Zé Veloso
    Nota 1: O Real Colégio de S. Paulo Apóstolo foi demolido por alturas de 1888 para dar lugar a um novo Teatro Académico. Mas a obra nunca saiu dos alicerces, tendo sido construído em seu lugar um edifício destinado à Faculdade de Letras, edifício que, aquando da destruição da velha Alta, foi também ele parcialmente demolido para dar lugar à actual Biblioteca Geral da Universidade.
    Nota 2: O tema PORQUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA é tratado em 3 crónicas sequenciais: Parte I, Parte II e Parte III.

domingo, 17 de outubro de 2010

POR QUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA? (Parte I)

    Quando eu era miúdo ia para o estádio gritar A-cadé-mi-ca!!! A-cadé-mi-ca!!!...
    O epíteto de Briosa já então existia mas não era corrente chamar-se por ele. Esta moda de gritar Brioooooooooooooosa!!!... dum lado ao outro do campo, num estilo que se espalhou como rastilho de pólvora a claques de outros clubes, surgiu apenas nas últimas décadas do nosso historial academista de mais de um século.
    Mas porquê Briosa? E desde quando se colou tal nome à equipa de futebol da Académica, hoje Académica-OAF? Que fundo mistério é esse que não encontro decifrado em livro ou site algum, que nem sequer se questiona, antes se aceitando como se de um dogma se tratasse?
    Foi para responder a estas questões que escrevi este post e mais dois que se lhe seguirão, já que a estória é comprida e cabeluda, remontando a um conflito que dividiu a Academia de Coimbra em 1885, ainda o futebol não tinha chegado à nossa cidade!!!...
    Quem diria? Afinal, a Briosa nem sempre foi a equipa de futebol da Académica!!!... Quem terá sido, então?
    Abro aqui um parêntesis para agradecer ao grande amigo Luís Filipe Colaço (à esquerda na foto) – que comigo e mais cinco fundou Os Álamos e que acompanhou Zeca Afonso na gravação de Contos Velhos Rumos Novos e Traz Outro Amigo Também – a dica fabulosa que me deu: Zé, nas memórias do General Norton de Matos há qualquer coisa sobre a Briosa que te deve interessar…
    Uma vez encontrada uma pista, o resto veio a seguir. Mas nem tudo foram facilidades. E isto porque quem escreveu sobre a nossa antiga Academia o fez em livros de memórias, várias décadas depois dos acontecimentos terem ocorrido, falhando-lhe já precisão nos factos, nas datas e nas pessoas. E, mais do que isso: a história nunca é contada de forma desapaixonada; tem sempre as cores de quem a conta, porque cada um vê as coisas pintadas da cor da sua simpatia.
    Ora, sendo que no caso vertente tudo se passou em clima de enorme efervescência política – estávamos então a 25 anos da implantação da República – tive que “ouvir” as duas partes no conflito, ou seja, os monárquicos e os republicanos!
    Comecemos, então, por ouvir o General Norton de Matos, aquele que no final dos anos 40 disputou as eleições para a Presidência da República contra o candidato de Salazar. Norton de Matos, que frequentou a Universidade de Coimbra em 1884-88, dedica nas suas memórias algumas páginas a este período.
    Conta-nos ele que havia em Coimbra dois tipos distintos de estudantes: o grupo dos ricos, dos bem nascidos, dos que tinham nomes ilustres; e os outros, a maioria, filhos da classe média, alguns de condição modesta, com mesadas que raramente excediam os 15 mil reis. Norton de Matos dava-se com gente de ambos os grupos; por nascimento, estava ligado ao primeiro, mas, por educação e tendência política republicana e socializante, tinha muitos amigos no outro campo. Escreve Norton de Matos, com evidente mágoa, que o grupo aristocrata discriminava os restantes e se isolava na sua sobranceria snobe, de tal forma que os seus membros eram apelidados de polainas, o que, nos dias de hoje, equivalerá a “meninos betinhos”.
    Já António Cabral, um dos líderes dos polainas, ao escrever também as suas memórias, faz a clivagem entre os dois grupos em termos políticos, ao contrário de Norton de Matos, que centra a sua análise na clivagem socio-económica. Para António Cabral, o que havia era um pequeno grupo de republiqueiros, vermelhaços de ideias avançadas, ideólogos e sonhadores, que viam na república a salvação da terra amada, da pátria querida, que eles reputavam em vias de perdição.
    É com base nestas duas fontes e, ainda, no In Illo Tempore de Trindade Coelho – que dá aos polainas a designação mais rebuscada de polainudos – que a estória pode ser reconstituída.
    Fica para o próximo post      
   
    Zé Veloso
   
   Nota: O tema PORQUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA é tratado em 3 crónicas sequenciais: ParteI, ParteII e Parte III.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A FACE OCULTA DA LUA

    No post “A História de um Emblema” transcrevi excertos do escrito de Fernando Pimentel, onde ele nos descreve o quando e o porquê de ter desenhado o emblema da Académica. Nesse artigo ele diz também que o distintivo surgiu num ápice (…) animado pelo fervor académico que sempre entusiasmava a rapaziada do meu tempo (…) e com aquela inspiração que pelo menos uma vez na vida nos bate à porta e nos transforma em génios… mas nada adianta sobre a fonte de inspiração para tão belo trabalho.
    Acredito que tenha sido num ápice. Mas diz o ditado que quem encontra sem procurar é porque já muito procurou sem encontrar. O que andaria então há muito na sua cabeça para que, num ápice, saltasse assim para a prancheta? Donde lhe terá vindo a ideia? E como evoluiu até à versão final? Primeiro a torre e depois as letras ou vice-versa? E o formato em “losango”? De onde lhe veio ideia tão bizarra?
    E porque é que a torre do emblema original - vide cartão do Isabelinha - não tinha pau de bandeira, nem grades no topo, nem ponteiros no relógio, nem sinos, nem mais do que duas janelinhas, para desgosto dos designers de hoje que se engalfinham a esboçar-lhe variantes que não lhe acrescentam nobreza ou elegância alguma? – Ó Dr. Fernando Pimentel! Será que o senhor, que tão bem soube conceber o emblema, não sabia desenhar a torre como ela era? O senhor que, ainda por cima, passou pelas Belas Artes no Porto antes der vir cursar Medicina em Coimbra? Ou será que a torre era diferente àquela data? Ou será que era igual, o doutor sabia desenhá-la, mas por muito boas razões achou que assim ficava melhor?
    Foi a procura de respostas para estas questões que me levou a Coimbra num dia de de verão, fazia o emblema 75 anos de idade.
    Tendo já apurado que a torre, cuja construção custou 14:543$522 reis em 1733, não sofrera qualquer alteração no último século, e tendo na memória o que me fora em pequeno transmitido pelo meu Pai - que a mancha negra do emblema correspondia ao telhado dos Gerais - fui até ao Pátio da Universidade, na esperança de recrear o momento de inspiração do Fernando Pimentel. Ia certo de que a inspiração lhe viera ao contemplar o conjunto arquitectónico dos Gerais, em cuja escadaria não há estudante de Coimbra que não tenha posado para mais tarde recordar...   
    Eram 3 da tarde. Percorri debaixo dum sol implacável o espaço que vai da Porta Férrea ao centro do Pátio. Imaginei como felizes seriam os estudantes de 1927 por terem o pátio coberto de árvores frondosas. Olhei a torre e os Gerais, procurando ajustar o conjunto ao emblema. E aí… 
    ... o espanto foi tanto que cheguei a julgar que era o sol a pino quem me toldava a vista. É que a chave do enigma não estava ali!!! Se o estudante de Medicina se tivesse inspirado na vista de dentro do pátio, o emblema seria outro, com a torre do lado esquerdo!… Afinal, para Fernando Pimentel havia uma outra tomada de vista, do lado de fora do pátio, diferente da que fica normalmente na retina de quantos estudaram em Coimbra.   
    Mas mal tinham começado os meus espantos. Saída a Porta Férrea na procura do “outro lado da lua”, constatei, então, que podemos percorrer toda a Coimbra sem mais encontrar a vista sugerida pelo emblema: a tal pendente do telhado dos Gerais subindo inclinada, a partir da torre, para o seu lado esquerdo. Estranho relevo este duma cidade que só permite tal visão a partir de dois pontos. Um deles no alto da Conchada, demasiado longe e difuso para poder ter inspirado quem quer que fosse. O outro, localizado nos últimos andares de meia dúzia de casas nas Ruas do Loureiro e da Boavista, na encosta a norte da Sé Velha, onde tenho boas razões para pensar que terá vivido ou, pelo menos, estudado, o autor do emblema, daí tirando a inspiração para o seu feito.   
    Não é fácil a um “louco de Lisboa” incomodar meio mundo na procura do melhor ângulo para uma chapa, seja da gateira do telhado num quarto de estudante, seja do cimo dum muro de quintal, seja a partir do Palácio de Sub-Ripas, seja duma janela nas traseiras da casa onde uma placa assinala a passagem de Eça de Queiroz enquanto estudante. Mas, uma vez aí chegados, à vista dos contrafortes daquilo que foi a antiga alcáçova de emires e morada dos primeiros reis de Portugal, é então que nos damos conta da verdadeira forma dos telhados circundantes da torre, onde reside, afinal, a chave para todos os enigmas:
    • Os contornos do emblema terão sido inspirados pelo recorte do telhado poente (à direita na figura), o qual não é visível do interior do Pátio.
    • O emblema terá sido inicialmente imaginado em losango, já que a pendente dos telhados (> 45º) a tal obrigaria.
    • A forma final, quadrangular, poderá ter resultado da necessidade de dar mais estabilidade ao desenho e melhorar a estética geral do emblema.
    • A torre, que já dificilmente cabia no losango, teria fatalmente de ser alterada nas suas proporções ao passar para o quadrado. E a forma mais elegante de o fazer seria estilizá-la e redesenhar a superestrutura, eliminado pormenores como as grades, o pau da bandeira e os sinos, os quais não mais conseguiriam ser arrumados no espaço existente sem ferir o equilíbrio do conjunto.
    Nunca consegui confirmar se Fernando Pimentel viveu ou estudou numa das poucas casas (ou quartos) donde é possível desfrutar aquela vista. Mas depois de ter estado naquela janela… e de ter sentido a força da imagem da torre… tão perto, tão imponente, tão impressiva, juraria que foi dali que saltou a centelha que, no dizer de Fernando Pimentel, pelo menos uma vez na vida nos bate à porta e nos transforma em génios...
    Zé Veloso

domingo, 5 de setembro de 2010

A HISTÓRIA DE UM EMBLEMA

    Se perguntarmos a um taxista de Lisboa como é o emblema da Académica, ele nos dirá que é preto e branco e que tem a forma de um quadrado. Se a mesma pergunta for feita a um taxista de Coimbra, por certo acrescentará que o quadrado tem dentro as letras da Académica e a torre da Universidade. Se a questão for colocada a alguém “com estudos”, a resposta será idêntica à do taxista de Coimbra, com uma só diferença: dirá que tem a forma de um losango... refinamento de linguagem perfeitamente escusado, já que um quadrado não deixa de o ser por ter os lados a 45º com a horizontal, o que prova que, para bem entender as coisas simples, a instrução de pouco serve e, às vezes, até atrapalha.
    E é precisamente aí, na sua forma quadrada, rodada em relação ao que é o standard, que reside a grande força distintiva do nosso emblema, cuja identidade logo salta à vista a léguas de distância.
    Qualquer designer de hoje sabe que a qualidade de um logótipo ou de uma marca está na simplicidade da ideia, no reconhecimento fácil da mensagem, na sua imediata identificação. Isto sabem os designers de hoje. Mas como seria há oito décadas, na época em que o emblema de uma qualquer colectividade costumava albergar uma amálgama de motivos só reconhecíveis à lupa, não fosse ficar de fora alguma parcela do seu objecto social?
    Pois bem, há mais de 80 anos, mais propriamente na época futebolística de 1927-28, havia em Coimbra um estudante de medicina com jeito para o desenho, Fernando Ferreira Pimentel de seu nome, a quem o director desportivo da Briosa, Armando Sampaio, haveria de pedir para desenhar um emblema, o que o estudante fez por amor à camisola.
    A primeira remessa veio de Paris, não no bico de uma cegonha, como acontecia na altura com os meninos, mas por certo de comboio. Custaram 1$00 cada mas foram vendidos a 5$00, preço elevadíssimo para a época. Os honorários do designer… esses saldaram-se com a dádiva de um emblema. Outros tempos...
    Li algures que o Dr. Fernando Pimentel, entretanto formado, teria chegado a ser médico da Académica, facto que a excelente “bíblia” de João Santana e João Mesquita não confirma mas também não permite desmentir.
    Certo é que, em Junho de 1957, Fernando Pimentel publicou um artigo na revista Rua Larga, há muito extinta, onde conta como as coisas se passaram. E nesse artigo escreve, a dado passo:
    “Até ao ano de 1926, o emblema que representava a Associação Académica nas festas ou cometimentos desportivos era uma capa de estudante erguida num pau ou num mastro de bandeira. Recordo-me, contudo, de ter existido, por essa época, um emblema de forma rectangular, encimado pela legenda “Mens Sana” e tendo como desenho um conjunto de figuras geométricas pretas e brancas, sem sentido, que alguns estudantes usavam na lapela, mas cujo significado, em relação à Associação Académica, nenhuma afinidade representava.
    “Na época de 1926-27 (...), a ideia do emblema começou a despontar e, num célebre desafio com o Sporting em Lisboa, o grupo da Briosa apresentou-se com emblemas na camisola “bordados por delicadas mãos de senhora”, emblemas esses em que figuravam apenas as letras AAC(…).
    “Como, porém, o resultado da pugna nos foi desfavorável (só perdemos por 9 a 1) as culpas não caíram sobre o Armando Sampaio, o guarda-redes, mas sim sobre os estreantes emblemas, que, no regresso, amaldiçoados, foram arrancados e votados ao ostracismo.
    “Os tempos correram e, sem emblemas, repetiram-se os revezes e as glórias até que, em 1927-28,...”. Bem, a partir daqui foi o convite a Fernando Pimentel e a rápida feitura do emblema, o qual presumo que tenha sido utilizado ainda nessa época futebolística, embora não o possa confirmar. Mas certo é que o emblema desenhado para a equipa de futebol foi de seguida adoptado pela AAC no seu conjunto e assim se manteve, no essencial, até hoje.
    Fernando Pimentel faleceu com 89 anos a 24 de Agosto de 1994. Nunca o conheci pessoalmente mas hoje, depois de analisar em detalhe o seu (nosso) emblema, gostaria de lhe ter colocado umas quantas questões que me têm intrigado sobre a forma como a ideia surgiu na sua cabeça e como o desenho evoluiu até à versão final. É matéria que deixo para o próximo post, fica desde já prometido.
    Mas para que não fique por contar toda a história do emblema, refiro outras tentativas anteriores a 1927, nomeadamente, um escudo esquartejado onde se inseriam também as insígnias das várias Faculdades da Universidade, ou seja, um emblema “à antiga”, e uma outra tentativa, bem menos ortodoxa: a 31 de Janeiro de 1924, no particular Académica - Salgueiros (1-0) disputado na Ínsua dos Bentos, hoje Parque da Cidade, toda a equipa se apresentou com uma figurinha de tricana amorosamente colocada por cima do coração (vide o guarda-redes João Ferreira). Seria para acirrar o futrica, aquele que em tempos se terá chamado de “fitrica”, filho de tricana?
    Depois queixem-se que no Académica-União para apuramento do campeão de Coimbra de 1927-28 a pancadaria em campo fosse de tal ordem que o jogo tenha terminado 12 minutos antes do tempo com uns a malhar nos outros e a GNR a ajudar à missa…
    Zé Veloso

    Ver continuação em A FACE OCULTA DA LUA.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

ALTA DE COIMBRA. DA ANTIGUIDADE AOS DIAS DE HOJE

    Perguntei no Facebook se na Coimbra de hoje ainda se diz "vou à Alta" ou "moro na Alta". Queria saber se o conceito de Alta ainda existe e se é sensivelmente o mesmo para todos. E a conclusão foi que, ao contrário do que acontece com a Baixa, cujos contornos e carácter se mantêm razoavelmente uniformes, o conceito de Alta é difuso, remete para as várias épocas da cidade e perdeu claramente identidade nos últimos 50 anos.
    E é pena, ainda que inevitável! É pena porque “baixa” todas as cidades e vilas vão tendo: ele é a baixa do Porto, a baixa de Lisboa, a baixa de Águeda… e até a Caixa, que não é terra nenhuma, também tem as suas baixas. Mas Coimbra distinguia-se das demais terras porque, tendo embora a sua Baixa, tinha também uma Alta, cuja importância histórica e cuja identidade se impunha. Em mais nenhuma cidade se dizia "vou até à Alta", frase que ainda era vulgar ouvir nos anos 50 e 60. Cidades há onde se diz "vou ao Castelo" ou "vou à Sé"... Mas Alta, mesmo, só havia em Coimbra! (e nos hospitais, bem entendido).
    Mas o que é (ou foi) então a Alta de Coimbra e de onde lhe vem tanta importância?
    Se por Alta entendermos a "colina sagrada", poderemos dizer que a sua importância foi desde logo reconhecida pelos primeiros povos que aí se estabeleceram, muito provavelmente os Celtas, os quais terão tirado partido das potencialidades defensivas que o local oferecia. Supõe-se que tenha existido um castro algures na zona que vai dos Gerais ao Edifício das Matemáticas. Outros povos se lhes seguiram e todos terão beneficiado da localização daquele sítio, cuja defesa era facilitada pelas escarpas abruptas do lado do rio e pelo vale profundo que vai da Praça da República à Praça 8 de Maio, ficando apenas a descoberto o acesso pelos Arcos do Jardim, onde, na década de 40, existiam ainda os restos da muralha do castelo de Coimbra, defendendo a entrada na cidadela por esse lado.
    Mas Coimbra (AEminio, Conimbriga, Colimbria…) foi crescendo colina abaixo e a sua parte alta foi-se despovoando a favor da baixa e do arrabalde, tal como em muitas outras terras onde a malta se cansou de subir escadinhas e ruelas e os castelos foram ficando sozinhos lá no alto, à espera de virem um dia a ser visitados pelos turistas de hoje.
    E assim estaria a nossa “colina sagrada”, não fora em 1537 D. João III, que ansiava por ter em Portugal uma universidade que pudesse ombrear em fama com as de Bolonha, Salamanca e Oxford, decidir recambiar de novo e definitivamente para Coimbra o Estudo Geral. Para sua instalação disponibilizou o próprio Paço da Alcáçova - antiga morada de emires e de D. Afonso Henriques que à data era residência da família real quando esta se deslocava a Coimbra - o qual passou a denominar-se Paço das Escolas, também conhecido por Gerais.
    Foi aquela decisão que transformou radicalmente a vida de Coimbra e o destino do seu bairro alto – a Alta – que à época se encontrava bastante degradado. Citando António Rodrigues Lopes, como resultado daquele evento e da criação paralela de colégios das ordens religiosas, a população subiu em flecha, ao acrescentar-se-lhe mais 3000 escolares e o conjunto numeroso do corpo docente e respectivas hierarquias civis e religiosas. Segundo o mesmo autor, a população de Coimbra passou de 5.220 moradores em 1527 para cerca de 10.000 no decénio 1570/80, ou seja, duplicou em 50 anos.
    Mas não se pense que toda esta tropa se espalhou anarquicamente pela cidade: ao invés, escolares e professores ficaram acantonados dentro dos limites da antiga muralha, com ordens expressas para não viverem fora da cidade velha, a antiga Medina árabe, Al-medina, cuja entrada principal ainda hoje guarda o nome de Porta de Almedina.
    De faço, a Universidade daquele tempo era um regime de internato à escala da cidade, o qual determinou muitas das tradições académicas que chegaram aos nossos dias e das quais deixo aqui alguns exemplos:
   - um “uniforme” que distinguia os estudantes dos demais – traje académico – a que mais tarde se haveria de chamar capa e batina;
   - um ritmo diário determinado por um sino que marcava as horas de recolher ao estudo, de tomar as refeições e de avançar para as aulas – a cabra e não só;
   - um foro judicial próprio e uma polícia académica a quem cabia zelar pelo cumprimento dos costumes: vestimenta, horários de recolher, escapadelas nocturnas para o bairro baixo – a Baixa. Quando a polícia académica acabou, nos finais do séc. XIX, começaram os alunos mais velhos a controlar os mais novos, dando outra lógica às troupes que já então apareciam…
    Estas duas cidades complementares – a Alta e a Baixa – sendo que, aos olhos dos estudantes, a primeira era para o estudo e a segunda para a estúrdia, mantiveram-se imiscíveis até muito tarde. Na Baixa estavam os comerciantes e os serviços, e aí se concentravam, igualmente, a maioria das igrejas e conventos. A Baixa era dominada pela população não estudante de Coimbra, os futricas, e por lá se quedavam a maioria das tricanas. A Alta era dominada pelos estudantes; e as tricanas e futricas que lá residiam aparecem-nos referidas como sendo tricanas da Alta e futricas da Alta, distinção que pressupõem um certo grau de aculturação em relação aos seus congéneres da Baixa.
    Os antigos limites da Alta mantiveram-se pelo menos até meados do séc. XIX. Segundo Sant’Anna Dionísio, apenas os estudantes e os lentes, submetidos a votos monásticos, dos colégios dos crúzios e dos diferentes recolhimentos de escolares na rua da Sofia podiam residir fora dos limites demarcados pela Couraça de Lisboa, pela Couraça do Apóstolos (“couraça” que tanto é nome de rua como é pano de muralha) e pela Porta de Almedina. Curioso que não se refiram limites para a retaguarda; mas tal não era necessário, pois que Monte Arroio, Santa Cruz e Cumeada eram quintas nessa altura.
    Na década de 40 do séc. XX, a Alta foi alvo do maior crime urbanístico jamais perpetrado em Portugal, quando uma parte de si mesma foi implacavelmente demolida para dar lugar a novos edifícios, para que todo o ensino universitário ficasse concentrado nas imediações dos Gerais, na Cidade Universitária. Uma comunidade inteira de estudantes e futricas, berço e relicário das mais fundas tradições da Alta, foi desalojada de uma só vez, a golpes de picareta e camartelo. A Alta tremeu, vacilou… mas não caiu. O peso da tradição falou mais alto e a Alta, em lugar de sucumbir, alargou os seus limites.
    Nas décadas de 50 e 60 o conceito de Alta alargava-se a toda a zona delimitada pelas colinas que se estendem da Conchada ao Jardim Botânico – passando por Montes Claros, Celas e Olivais – e, ainda, à área que vai até à Ladeira do Seminário. Grosso modo, pode dizer-se que a Alta era, à época em que andei por Coimbra, limitada a Norte e Nascente pelo perímetro conjugado das linhas dos eléctricos 4 e 3, englobando uma extensa área em cujo epicentro se situavam a Praça da República e a sede da Associação Académica de Coimbra, mantendo, para Sul, os antigos limites das Couraças e da Porta de Almedina.
    Os limites da Alta de então foram plasmados no Código da praxe de 1957 e determinavam procedimentos e limitações que faziam sentido num contexto que eu bem conheci. É que nessa época, tal como séculos atrás, em toda aquela extensa área não se encontrava uma loja de modas, uma ourivesaria, um stand de automóveis, um consultório médico ou de advogado. Tal como séculos atrás, naquela área (naquela "Alta”), estavam as casas de estudantes e os cafés e mercearias de bairro, enquanto o grande comércio, os serviços e as casas menos recomendáveis se quedavam pela Baixa.
    Entretanto, passaram-se 50 anos. Coimbra alargou-se ainda mais. As Faculdades deixaram de estar concentradas entre o Botânico e a Sé Velha, encontrando-se hoje os Pólos II e III situados em zonas que o Código da Praxe de 1957 classificava como Baixa... por não pertencerem à Alta.
    Não admira, pois, que o conceito de Alta se tenha vindo a diluir, tal como referi no início. Era inevitável. A Alta, que resistiu à mutilação de que foi alvo nos anos 40 para que todas as Faculdades se concentrassem num único local da cidade, viria, ironicamente, a não resistir à criação das “novas Altas”, os novos Pólos Universitários, nascidos a partir das décadas de 70 e 80, por vias da explosão do ensino superior.
    Mas é bom que a memória destas coisas não se esqueça, para que Coimbra não fique igual a tantas cidades que se sentem felizes com a sua Baixa porque nunca souberam o que era ter uma Alta.
    Zé Veloso

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SAIAM DOIS FINOS PRÀ MESA DO CANTO!

    Numa época onde tudo tende a ser tão igual, é salutar que em Coimbra se peça um fino enquanto em Lisboa se pede uma imperial.
    Praia do Pego, algures entre a Comporta e Melides. São sete da tarde mas o sol ainda vai alto, reflectindo um brilho intenso, de fazer doer os olhos, sobre a mareta saltitante da baixa-mar. Descanso o olhar na serra da Arrábida, cujo perfil se recorta a azul cinzento no horizonte mais a norte, até encontrar o mar no Cabo Espichel. Uma ligeira bruma para sul não deixa ver o cabo de Sines, que apenas se adivinha, mas compõe o quadro deste calmo e morno fim de tarde no litoral alentejano.
    Não apetece sair dali. Passo pelo bar da praia e abanco na esplanada, na tentativa de retardar o regresso. É tempo de beber uma cerveja. Lanço um olhar cúmplice para a minha mulher, fazemos uma aposta breve e atiro o pedido: – Dois finos, por favor! O rapaz hesita… vira-se para um outro em busca de apoio, conferencia-se rapidamente em português com sotaque brasileiro… e lá saem os dois finos… ainda que em copo de plástico. – Finíssimo!!!...
    Quando vim trabalhar para Lisboa, já lá vão 40 anos, a palavra “fino” não constava do léxico da capital do Império, onde o termo “imperial” fazia jus ao estatuto da cidade. “Fino” era uma característica de Coimbra e também do Porto; e pedir um fino em voz alta correspondia à exibição pública de uma “certidão de proveniência” nortenha. Com o passar dos tempos, o “fino” chegou a todo o país. Mas não há dúvida de que ele continua agarrado a Coimbra, como esta semana bem pude provar com um breve inquérito no Facebook.
    Porque será? Até hoje só encontrei uma referência para a origem da palavra “fino”. Foi no livro de memórias Boémia Coimbrã (dos anos 40), de A. Nicolau da Costa.
    Mas para que não se vá com muita sede ao pote, ou melhor, ao fino, deixem-me dizer-vos que Nicolau da Costa, que foi responsável pelo jornal académico O Ponney – fundado em 1929 por outro boémio de nomeada, Castelão de Almeida – foi um dos grandes boémios da academia coimbrã de 40, boémios estes que se intitulavam a si próprios de "cow-boys" ou "cáboys", designação que deverá ter estado na origem da claque de futebol "Cow-boys", formada por Mário Cunha em 1936.
    Nicolau da Costa conta-nos que era amigo de copos de um refinado boémio, de seu nome Toninho Saraiva, "Toninho Copi" para os amigos, tipo sombra magrinha, bem penteadinha que vagueava por Coimbra naquela época.
    Pois bem, o Toninho Saraiva, tinha-se curado duma tuberculose galopante em poucas semanas e atribuía a sua cura milagrosa à cerveja, da qual era apreciador esmerado, coisa que médicos amigos me disseram ser tão provável como as galinhas terem dentes. Mas para o “Toninho Copi” isso era uma verdade absoluta. Sigamos agora em directo o texto de A. Nicolau da Costa:
    ...E talvez fosse por isso que religiosamente, diariamente, como quem se sacramenta, descia as escadas da "Domus", na Visconde da Luz, para se regalar, profilacticamente, com doses maciças daquele "medicamento". A essas formidáveis libações, chamava-lhe ele "Os banhos do Toni"... Entenda-se por "Toni" o único dente incisivo de que dispunha a sua devastada dentadura...
    Dessa convivência diária com a cerveja, resultou que o Toninho ficou perito. E ficas a partir de agora ciente de uma verdade incontroversa, caro leitor: Quando hoje te sentas a uma mesa e displicentemente, por hábito, pedes um "fino", estás, sem o saberes, a seguir as indicações técnicas do Toninho. Sim, senhor! A classificação de "fino" começou quando o Toninho exigia que lhe servissem em copo de vidro fino, como ele apreciava. Exigia-se de início: "Um copo de cerveja de vidro fino!". Depois pedia-se "Um copo fino". Hoje generaliza-se e pede-se "Um fino!".
    Como diria o Peça: – E esta, hem?!!
    Por isso, quando me serviram um “fino” numa delgada película transparente de forma tronco-cónica a que dão o nome de “copo de plástico”, o meu comentário não poderia ter sido outro: – Finíssimo!!!
    Zé Veloso

A imagem dos copos de cerveja foi descarregada do link:
http://www.google.pt/images?hl=pt-PT&num=10&as_epq=&as_oq=&as_eq=&lr=&cr=&as_ft=i&as_filetype=&as_qdr=all&as_occt=any&as_dt=i&as_sitesearch=&as_rights=&safe=images&q=copos+de+cerveja&um=1&ie=UTF-8&source=univ&ei=ZPg5TIrPHMKSjAfNoKjhAw&sa=X&oi=image_result_group&ct=title&resnum=4&ved=0CDUQsAQwAw

sábado, 26 de junho de 2010

FOGUEIRAS DE S. JOÃO

    Celebrou-se na noite passada o S. João no Porto, com o povo na rua, alho-porro, erva-cidreira, martelinhos, algazarra, eu sei lá que mais. De Coimbra chegam-me os ecos do costume: meia dúzia de “fogueiras”, que não chegam para ser notícia de jornal. E, no entanto…
    Até meados do século passado, o S. João tinha em Coimbra uma grande tradição. Mais lógico me pareceria que se festejasse o Santo António, santo que fez os seus estudos no Convento de Santa Cruz, antes de partir para Lisboa e de ter chegado a Pádua, e que se diz que terá passado algum tempo no Mosteiro dos Olivais.

    Mas não! As preferências iam para o S. João, esse santo casamenteiro a quem as raparigas confiavam a escolha de um bom marido, perito em "desencalhar" as que se sentissem desesperadas, como se deduz desta deliciosa e bem antiga quadra:

                    Ó meu rico S. João,
                    Casai-me, que bem sabeis:
                    O casar é aos catorze
                    Eu já tenho dezasseis...
    S. João é um santo folião, eu diria mesmo, um santo “desencaminhador”, cujas festividades misturam ritos ligados à figura de S. João Baptista com ritos pagãos herdados das celebrações do solstício de Verão.

    Recordo-me bem do pátio da casa onde nasci, em Ançã, onde na noite de S. João se saltava por cima duma fogueira – enorme para as minhas pernas de garoto – e se dançava de roda, encadeando os braços, ao som das quadras matreiras do santo:
                    Fogueiras do S. João
                    N
o que elas vieram dar
                   
Roubaram-me o meu amor
                   
Na maior força de amar.
    Mas nas fogueiras do S. João no interior da cidade de Coimbra, há muito que não havia fogueira alguma com lenha e fogo vivo. Pelos anos 40 a 60 do século passado, as fogueiras eram essencialmente arraiais onde se dançava ao ar livre, com danças marcadas por um "mandador". Quando o "mandador" folgava para molhar o bico ou tratar de outras precisões, era a altura da malta "dançar agarrado", modalidade menos espectacular para os mirones mas muito do agrado de quem estava ali para tentar a sua sorte. Célebres eram as fogueiras do Bairro de Celas, onde o "povo Salatina" foi realojado depois da destruição da Velha Alta. O arraial ocupava todo o largo redondo no meio do bairro, onde pontificava a imagem de S. João Evangelista, de cuja coroa saíam - como raios de Sol - os festões enfeitados que partiam em direcção ao casario circundante. Recordam-me alguns amigos que o largo era inclinado, o que não facilitava que a mole humana fizesse a roda mas sempre desculpava alguns desequilíbrios mais afoitos aquando da "dança agarrada".

    Indo mais atrás, à segunda metade do Séc. XIX, fossem elas na Alta, na Baixa ou no Calhabé, as fogueiras são-nos descritas como um conjunto de postes colocados em redor de um outro, ao centro e mais alto, ornamentados com buxos de verdura e festões, donde pendiam balões venezianos, sendo o conjunto iluminado por bicos de gás ou candeeiros de petróleo. Ali se "prantavam" os tocadores – viola, violão, guitarra, harmónio, ferrinhos, castanholas… – e um "mandador" a quem cabia marcar a coreografia das danças enquanto, no dizer de Trindade Coelho, andava a cachopada numa roda-viva nos braços dos estudantes, e os estudantes numa roda-viva nos braços da cachopada.
    As fogueiras eram a festa das tricanas. Elas é que organizavam, punham e dispunham. Elas eram as rainhas da festa e, lá mais pelos calores adentro, eram também a causa das zaragatas em que fatalmente as fogueiras haveriam de terminar, por mor das arremetidas dos estudantes, dos risinhos folgados das tricanas e da ciumeira dos futricas.
    As letras das músicas que se cantavam e dançavam chegaram até nós em livros da época e, mais recentemente, foram compiladas numa edição da C.M.C. (ver Nota 1). Mas é interessante que algumas delas aparecem também em fados de Coimbra que ainda hoje se cantam. À primeira vista parecem quadras soltas, sem qualquer sequência. Mas, se repararmos melhor, notaremos que elas retratam as tensões existentes no triângulo amoroso "estudantes – tricanas – futricas". E, com um pouco de fantasia, poderemos até imaginá-las como fazendo parte de uma desgarrada onde as três partes se iam mutuamente provocando.
    Por exemplo, a conhecida quadra:
                    O amor do estudante
                    Não dura mais que uma hora
                    Toca o sino, vai prà aula
                    Vêm as férias, vai-se embora...
... é claramente uma provocação ou um aviso de um futrica para uma tricana. Perante o desafio, responde a tricana, com soberba:
                    O meu amor é estudante
                   
Estudante de Latim
                   
Se ele se chegar a formar
                   
Ninguém tenha dó de mim...
... ainda que não deixe de confessar quanto o amor do estudante a traz cativa e a faz sofrer:
                    Amor como o de estudante
                    N
ão há outro não há não
                    L
eva toda a nossa vida
                    R
ouba o nosso coração.
    E quando o estudante se procura justificar perante a cidade:
                    Ó cidade de Coimbra
                    A
rrasada sejas tu
                    C
om beijinhos e abraços
                    N
ão te quero mal nenhum...
... logo um futrica, despeitado, contra-ataca e deita uma acha mais para a fogueira:
                    As tricanas todo o ano
                    V
ão plantar os seus amores
                    L
á no jardim do engano:
                    N
o coração dos doutores.
   A batalha aquece. O verniz está quase a estalar. Mas o estudante não desarma e vira-se para a tricana com voz insinuante:
                    Eu vim a Coimbra ao estudo
                    C
om tenções de me formar
                    A
penas vi os teus olhos
                    N
unca mais pude estudar...
... e quando a tricana se solta, ardente e graciosa:
                    Ó amor dá-me os teus braços
                    Q
ue eu dou-te o meu coração
                    A
ndo louca por abraços
                    F
ogueiras de S. João...
... a desordem está armada. Sai murro seco entre os homens, enquanto o mulherio acode pelos de fora e se delicia com o espectáculo.

    E vai-se depois até à Fonte do Castanheiro, hoje completamente ao abandono, no arrabalde da Arregaça. Era lá que todas as fogueiras se juntavam no final da folia. E ninguém mais se deitava antes que o sol raiasse, fazendo jus à expressão “noite de S. João”. Nas Memórias do Mata Carochas, conta-se que, ali chegados, todos faziam libações e abluções e os rapazes arrancavam canas bravas, davam-nas às raparigas e voltava-se no mesmo entusiasmo, em procissão da Cana Verde.
    Dizia a tradição que, naquela noite, as águas da Fonte do Castanheiro eram abençoadas, tal como os orvalhos e ervas várias, possuindo virtudes e poderes mágicos. Mas havia que aproveitar bem a noite... já que as virtudes daquela água só duravam até ao raiar do Sol. E que virtudes, Deus meu! Escreve Octaviano Sá que aquela era a água milagrosa, que traz noivo às raparigas!
                    Lembras-te ainda, Maria
                    D
a noite de S. João?
                    T
u contavas as estrelas
                    E
u as areias do chão.
    Zé Veloso
PS1: Esta crónica foi publicada inicialmente em 26 Jun 2010, tendo sido revista e acrescentada em 26 Jun 2011.
PS2: No primeiro Comentário a este post registei alguma informação adicional sobre as quadras utilizadas.
Nota 1: Fogueiras de S. João, o que elas vieram dar..., um estudo etnomusicológico das fogueiras de Coimbra, de Avelino Rodrigues Correia.

domingo, 13 de junho de 2010

O CARROSSEL - MAIS UMA CORRIDA! MAIS UMA VIAGEM!

    Andava eu no D. João III e vivia na Cumeada, na "casa verde", que ainda hoje lá está, igualzinha, e que nem sequer mudou de cor. À noite pouco havia que fazer e, diga-se em abono da verdade, as trupes que por ali vadiavam não nos permitiam ir muito além do Madeira, café de bilhares onde se deixavam umas coroas a jogar à pool, enquanto o João Villaret e o Dr. Raul Machado nos ensinavam a bem dizer e escrever a língua portuguesa, numa televisão – ainda a preto e branco – que não era suposto fazer parte do recheio de uma casa de família.
    Mas depois da Queima as coisas mudavam. Iam-se as trupes, vinha o picadeiro na Afonso Henriques, num vaivém constante entre Marrocos – que, no dizer da malta, "era para ali" – e o outro extremo da avenida. E vinha o Espírito Santo, arraial herdeiro de tradições centenárias que todos os anos assentava praça junto à Igreja de Santo António dos Olivais.
    O arraial não tinha muita coisa. Visto à distância de umas décadas, era até pequeno. Mas respirava vida e agitação, e sentia-se o seu pulsar mal os ecos dos altifalantes nos chegavam aos ouvidos, ainda íamos nós no campo do Olivais.
    Logo à entrada estava o carrossel, que mais parecia uma enorme saia ondulante de cigana rodando sempre, sempre, sem parar, ora subindo ora descendo, até entontecer de vez. Girafas, cavalos, zebras e burros, disciplinadamente lado a lado, alinhados por alturas, levavam as fantasias da rapaziada serra acima serra abaixo, enquanto os mais afoitos erguiam um punho de raiva no alto do monte mais alto para socar uma bola de futebol que rapidamente subia ao céu. E quando soava um apito de árbitro, como no final dos jogos, havia sempre mais 3 voltas de graça para gáudio da populaça, enquanto o gerente puxava do microfone e berrava para os clientes na bicha da entrada: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    E a malta lá ia encher a barriga para outro lado, mas não havia muito mais para onde ir: barracas de tiro de miras vesgas (Ó cavalheiro, vai um tirinho?), tômbolas que davam tachos de alumínio, furgonetas que vendiam bolacha americana e malaqueco, farturas e manjar branco. Feirantes de banha-da-cobra, um fotógrafo "à-la-minuta" com cenários de buraco para enfiar a cabeça, uma banca com garrafas de Porto para ver quem enfia a argola no gargalo e, para remate da noite, uns carrinhos de choque tão manhosos, que a maior festa era ver os moços de estoque a desembaraçar as molhadas de carros que se engalfinhavam na pista, como uma matilha de cães cheirando o cio de uma cadela vadia.
    Ah, havia mais! Esqueci duas fiadas de tendas onde se vendiam bugigangas de toda a sorte, desde que fossem de madeira, barro ou lata, pois que à época o brinquedo de plástico ensaiava os primeiros passos e, quando muito, dizia-se que era "de baquelite". Mas fosse o que fosse que vendessem, sempre havia uma fila interminável de Zés-povinhos, também eles alinhados por alturas, como na tropa, disparando manguitos em formatura, qual exército malcriado apresentando armas a um general de costas.
    Mas o Espírito Santo também se modernizou. Veio um poço da morte que roncava como um trovão. Cá fora, os filhos do artista exibiam a masculinidade em tronco nu e as motas destilavam a arrogância dos seus escapes abertos. Lá dentro, o verdadeiro artista nacional, um pai de família calvo e de bigodes farfalhudos, desafiava a gravidade rodopiando com a filha aos ombros, sem mãos e de olhos vendados, dentes cerrados sobre um galhardete da Académica e uma bandeirinha verde-rubra.
    Mas veio mais. Veio um carrossel novo que se "prantou" ao pé do outro, fazendo-lhe negaças. Era rápido, tinha luzes no tecto e a pista fazia um oito de meter medo. Passava-se por baixo numa descida de vertigem que nem tempo deixava para fixar a fugaz imagem de uns socquettes brancos, mal adivinhados no tropel que corria pelo andar de cima. Mais ainda! Tinha várias bolas de futebol, o que dava para libertar muito mais adrenalina, coisa importante em época de exames.
    É claro que a malta se mudou de clube e o velho carrossel ali ficou, para avós e netas e mais para criadinhas de servir ainda amedrontadas com tanta zonzaria. E enquanto a malta corria já a 7 no carrossel em oito, o gerente do carrossel despromovido desesperava para um microfone envolto num lenço de tabaqueira: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    O arraial do Espírito Santo, que eu e muitos outros conhecemos, acabou já. Nem o carrossel novo o salvou. Foi perdendo velocidade ao longo dos anos até cair no fundo da sua atracção mais arrojada, o poço da morte. Pelas notícias que me chegam, o que hoje existe em seu nome já não é a mesma coisa.
    É a vida! As coisas nascem, crescem e morrem, tal como as pessoas. Mas continuam vivendo na nossa memória. Vamos lá, malta: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    Zé Veloso

Lá onde era o Espírito Santo... hoje passa o progresso.


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quinta-feira, 3 de junho de 2010

RECORDAÇÕES DO PENEDO

    Coimbra, 19 de Julho de 1955 – Os cruzados à vista do Santo Sepulcro não deviam sentir emoção maior do que um magote de garotos da aldeia, que vieram fazer exame, ao descobrirem há pouco do Penedo da Saudade o relvado do campo de futebol, no Estádio Municipal. Só faltou ajoelharem-se dentro do eléctrico.
    Para se entender o texto acima, retirado do Diário VII de Miguel Torga, é preciso estar familiarizado quer com a geografia da cidade de Coimbra quer com o sistema de ensino que imperava àquela data. Nos anos 50, a entrada para o 1º ano dos liceus (hoje 5ª classe) era antecedida de um exame de admissão, que trazia a Coimbra miudagem das aldeias que, nalguns casos, era a primeira vez que andavam de eléctrico, subindo da baixa no 3 e passando no Penedo da Saudade a caminho do Liceu D. João III (hoje Liceu José falcão).
    Foi este mesmo trajecto que resolvi fazer um dia destes, numa romagem a Coimbra. Apontei da Praça da República até aos Arcos do Jardim e segui, a partir daí, o trajecto do antigo 3, Cumeada acima. Ao chegar ao Penedo, parei o carro na meia laranja onde o 3 se quedava uns minutos à espera de se cruzar com o outro 3 que haveria de vir dos Olivais, ao seu encontro. Terá sido algumas dezenas de metros à frente daquele local que os garotos quase ajoelhavam no eléctrico à vista do campo da bola.
    Foi também dali, e não longe da data inscrita no Diário do Torga, que vi o meu primeiro jogo da Académica, encarrapitado no muro que ladeia a rua, o que seria impossível nos dias de hoje, quer pela vegetação que entretanto cresceu quer porque a cobertura das bancadas cortou as vistas aos borlistas.
    Visto de cima, o relvado do Calhabé parecia uma mesa de matraquilhos onde o movimento de uma bola invisível era adivinhado pela movimentação dos jogadores. O entusiasmo dos golos fazia chegar até nós um bruá tremendo, cujo atraso era bem a prova de que o som caminha ao pé-coxinho enquanto a imagem viaja de avião.
    Jogava a Académica contra o Benfica e este haveria de ganhar por uma batelada de 7-3, que me ficou marcada a ferros na memória até aos dias de hoje. Sei agora que foi na época de 1954-55, graças à obra enciclopédica ACADÉMICA – HISTÓRIA DO FUTEBOL (olá João Santana! Obrigado João Mesquita, estejas tu onde estiveres…), época em que o guarda-redes da Briosa era o Ramin, herói dos jogos contra o Sporting mas que me fez chorar de raiva contra o Benfica.
    Mas o tempo passa. O Calhabé já não é mais fora de portas, como o era em 55, e como mais ainda o era no Séc. XVIII, quando ali havia uma taberna famosa ligada à boémia coimbrã, onde um taberneiro chamado Calhabé, cujo nome se estendeu depois ao sítio, vendia o peixe frito e o vinho que animavam as fogueiras de S. João no arrabalde de S. José, juntando estudantes, futricas e tricanas numa noite que só acabava com o raiar do dia.
    Também o tempo do Penedo já se transformou. Dizem que se chama “da Saudade” porque uma lenda conta que D. Pedro ali ia chorar a morte da sua Inês. Seria então um sítio ermo, um local de paz e de silêncio…
    A vista ainda hoje é bonita mas todo o vale é agora de betão. Perdeu-se o bucolismo da paisagem. E é só quando me volto para Sul e estendo os olhos na direcção da Ponte Rainha Santa Isabel, que revivo o cheiro daquele ambiente calmo, onde o olhar se demorava e os namorados se esqueciam do tempo.
    O Penedo da Saudade continua a ser um ícone da cidade e uma recordação de quantos nela estudaram. A prová-lo está a profusão de placas de antigos cursos que ali continuam a fazer as suas romagens, placas essas que, aliás, me parecem de gosto duvidoso, emprestando ao local um certo ar de “cemitério de recordações”.
    Já as antigas lápides, com versos líricos de antanho, me parecem bem enquadradas. Um grupo no Facebook, animado por gente nova, chama a atenção para a necessidade do seu restauro, para que os poemas se possam ler. É sinal de que o Penedo da Saudade continua vivo. E a intervenção, se bem pensada e bem executada, poderá ser positiva. Mas fico dividido. Pessoalmente, gosto mais que as marcas do passado aparentem a idade dos acontecimentos que evocam. Saber envelhecer é uma virtude.
    Zé Veloso

segunda-feira, 17 de maio de 2010

AS (VERDADEIRAS) ORIGENS DA QUEIMA

    Terminada que está a Queima das Fitas deste ano, chegou a altura de responder ao repto lançado no último post: – Quais são, afinal, as origens da Queima? Estarão tais origens no Centenário da Sebenta, como é afirmado nos sites oficiais da Academia de Coimbra? Eu penso que não.
    Antes de mais, o Centenário da Sebenta ocorreu em 1899. Ora, António José Soares diz ter encontrado em 1900 referências à "antiga queima" e Alfredo de Pratt conta-nos, em 1899, como se queimavam as fitas e como eram as demais festividades, fazendo-o de forma que permite supor que já nessa época havia uma tradição.
    Voltando ao Centenário da Sebenta, evento bombástico que decorreu de 28 a 30 de Abril de 1899, as celebrações meteram Zés-Pereiras e muita algazarra, os caloiros foram emancipados, houve sarau e cortejos monumentais envolvendo cerca de 30 carros que desceram da Porta Férrea até à Baixa e 30 barcos que desfilaram no "Basófias". As semelhanças com a Queima são evidentes, nomeadamente no que toca ao cortejo e à emancipação dos caloiros, mas são também ilusórias, porque as festividades não coincidem no essencial, como adiante se mostra.
    Quanto ao queimar das fitas, ele fazia parte dos festejos levados a cabo pelos quartanistas no dia do ponto, o último dia de aulas, o qual acontecia, por via de regra, depois de 12 de Maio. Já o Centenário da Sebenta foi outra coisa: não se destinou a festejar o final do ano lectivo, não se queimaram as fitas, aconteceu antes do dia do ponto e foi organizado por uma comissão que integrava alunos de vários anos, enquanto a Queima sempre foi organizada pelos quartanistas (até ao interregno de 1969).
    Esta questão das festas da Queima terem sido, décadas a fio, organizadas pelos quartanistas, ou seja, por aqueles que só daí a um ano viriam a deixar Coimbra, é de facto intrigante. Mas por que razão não eram as festas organizadas pelos alunos finalistas, como em todo o lado?
    Calma, que para o entenderem tenho primeiro de explicar os quês e os porquês do que se queimava.
    As fitas que se queimavam eram umas fitas estreitas de algodão, da cor de cada faculdade, que serviam para atar as pastas em que se guardavam as sebentas. Eram queimadas pelos quartanistas com grande cerimonial, no dia do ponto. Como esse dia não era o mesmo para todas as faculdades, cada curso queimava as fitas em separado. Mas note-se que os escritos dessa época apenas referem os quartanistas de Direito e de Medicina, os cursos de maior tradição na nossa Universidade, ainda que isso possa doer aos meus colegas engenheiros.
    Uma vez queimadas as fitas no Largo da Feira, frente à Sé Nova, como hoje ainda o são, havia que dar um destino às cinzas. Os quartanistas de Medicina de 1903 não se deram a esse trabalho, pois ataram as fitas a um balão e fizeram-nas subir no ar enquanto ardiam. Outros as lançaram ao vento do alto da torre da Universidade. Mas o destino mais antigo consistia em trazê-las em procissão dentro de uma lata até à Porta Férrea e aí as enterrar numa cova aberta por um caloiro no chão térreo, posto o que todo o curso lhes urinava em cima a um só tempo.
    Estranho costume este que só durou até o chão ter sido calcetado, e que nem vejo como poderia manter-se nos dias de hoje. O pudor não me deixa imaginar as nossas quartanistas greladas de perna aberta em tais preparos; e grande teria de ser a cova, para conter o líquido orgânico de tanta gente, num cortejo onde a cerveja é de borla. Mas se o costume desapareceu, ficaram os seus vestígios: ainda há não muito tempo as fitas – fita estreita ou grelo – se queimavam num penico; e pelos anos 40 ainda havia o costume de levar um desses vasos no interior do carro da Queima e, ali mesmo, se tratar do rescaldo das cinzas.
    É altura de falarmos nas chamadas "pastas de luxo", pastas de acabamentos de veludo e monogramas de prata, que de tão estreitas para nada serviam, mas que tinham umas fitas largas, imponentes e lustrosas como as fitas largas de hoje. Eram oferecidas aos quartanistas pelos padrinhos ou pelas noivas e, naturalmente, não serviam para transportar nada, muito menos sebentas. Mas também não era preciso, porque diz a tradição que depois do 4º ano nunca se chumbava.
    E começa aqui a fechar-se o ciclo do significado e das origens da Queima: o último exame a sério era, na prática, o do final do 4º ano, aquele que dava direito à obtenção do grau de bacharel. Todo o esforço era feito até aí e, por isso mesmo, os correspondentes festejos, como se do fim do curso se tratasse – e para alguns assim era, já que o grau de bacharel permitia (como hoje volta a permitir) saídas profissionais.
    Mas, mesmo para os que ficavam, as velhas pastas com fitinhas para amarrar as sebentas já não tinham préstimo daí para a frente. Havia, sim, que urinar-lhes em cima, escarnecer dessas “fitas operárias” que eram lixo e substituí-las. Ao bacharel, o que importava não era mais estudar – pois que o último ano seriam favas contadas – mas sim afirmar o seu grau de forma que bem se visse, dizer ao país que estava ali uma sumidade, com direito a um lugar ao sol. Para isso ele precisava de outras fitas, bem largas, que pudesse ostentar com um ar potencialmente próspero. Eram (são) as fitas largas.
    Para os que continuassem em Coimbra, até à licenciatura, teriam um ano para as exibir. Para os que saíssem de Coimbra com o grau de bacharel, já poderiam afirmar lá na terra, como era costume dizer-se nos finais do Séc. XIX, que "tinham urinado à Porta Férrea".
    Zé Veloso

Foto a preto e branco : No largo da Feira, tendo por pano de fundo o edifício do Governo Civil, as fitas sobem ao céu levadas por um balão.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O SEGREDO DA QUEIMA DAS FITAS

    Às zero horas da próxima sexta-feira, ouvidas que forem as doze badaladas na torre da Universidade, arrancará a serenata monumental! Vem aí a Queima! Vai ser um regabofe!
    Os caloiros emancipar-se-ão; os semi-putos passarão a putos; os putos a quartanistas (ou candieiros); os grelados queimarão o grelo e soltarão as fitas; os antigos fitados porão cartola; os que já não põem nada terão à espera o posto de veteranos e passarão a guardiões do templo. Há cargos para todos, promoções em barda, toda a gente festeja! É este o segredo da Queima.
    Não admira que um jogo destes, em que todos ganham e as medalhas não se esgotam, tenha ressurgido com tanta força depois de uma década de interregno (1969/80) e se tenha espalhado, como rastilho de pólvora, a outras universidades.
    É claro que a dimensão dos festejos de hoje é outra. E nem assim poderia deixar de ser, numa Universidade que cresceu em exponencial, numa sociedade de maior abastança e numa época em que o lazer se profissionalizou.
    Hoje a Queima tem registo comercial, IVA, contratos milionários, e até um recinto próprio para as "noites do Parque" – o Queimódromo. Transformou-se numa máquina de produzir e comercializar inventos, oleada de ano para ano. Longe vai o tempo em que o parco lucro era oferecido a instituições de beneficência e os prejuízos se cobriam com um baile extra a realizar no Mi-carême do ano seguinte.
    Mas se tudo se tem vindo a transformar em comércio e multi-média, porque haveria a Queima de ser diferente? Nos anos 50 e 60 o cartaz da Queima, bem como o selo (que se colava no interior da pasta da praxe) eram distintivos importantes. Sinal dos tempos é eu ter penado dias na internet à procura do dito “cartaz da queima”, enquanto o motor de busca me devolvia sistematicamente, de link para link, o cartaz dos espectáculos no Queimódromo. Aqui ficam os dois para comparação: o do show buzines e o das actividades tradicionais (utilizando a terminologia da Organização), referindo-se ambos ao período de 7 a 14 de Maio.
    Só que, tal como nas grandes cidades, hoje temos não apenas a Queima propriamente dita mas também aquilo que me apetece apelidar de Grande Queima, período que chega quase aos dois meses e que abarca uma série de inventos desportivos, lúdicos, culturais, radicais e tudo o mais de que a malta se lembre para fazer esquecer que os exames estão à porta e que a vida são dois dias e que o pouco que de cá se leva é o muito que por cá se goza.
    Ah, grande Queima! Que saudades!!!...
    … apesar de no meu tempo ser tudo muito mais modesto: serenata na noite de quinta para sexta, sarau na sexta, baile de gala no sábado, garraiada no domingo, venda da pasta e verbena na segunda, queima do grelo e cortejo na terça, chá dançante na quarta... e ala que se faz tarde e os exames estão à porta!
    Naquele tempo nunca questionei o porquê destes festejos. Não era preciso. Eles estavam-me na massa do sangue e o que é endémico não se questiona. Mas hoje, ou porque a cidade deixou de ser eminentemente estudantil ou porque as praxes académicas soam um tanto a falso quando replicadas fora do seu contexto natural, muita gente procura o porquê e a origem destas tradições. E as respostas aparecem, seja em livros, seja em sites, seja até num simples blogue…
    Acontece, porém, que o autor deste blogue não tem sobre as origens da Queima uma opinião coincidente com a estória que é contada nos sites oficiais da academia, estória que constava já dos textos introdutórios ao Código da Praxe de 1993 e que, de tanto repetida, tenderá a converter-se da verdade oficial.
    Aí se diz que as origens da Queima estão no Centenário da Sebenta, opinião com a qual eu não concordo de todo.
    Mas isso fica para depois dos festejos, altura em que vos contarei sobre as origens da Queima uma outra estória, que me parece estar bem mais de acordo com História.
    Zé Veloso

quinta-feira, 22 de abril de 2010

ESTUDANTES CONTRA FUTRICAS. UMA ESTÓRIA DE ÍNDIOS E COWBOYS?

    Os comentários de Ricardo Figueiredo aqui no blogue têm-nos trazido vivências da velha Alta desaparecida e referências aos seus antigos habitantes autóctones, os Salatinas, os quais ele nos conta que mantinham com os estudantes uma boa relação. Foi para mim uma surpresa a existência de Salatinas, Chibatas e outros mais, já que na bibliografia dominante – escrita por antigos estudantes – não se fazem distinções entre os futricas, sendo todos eles apresentados por igual como inimigos figadais dos estudantes.
    Mas é curioso, e confirma os comentários de Ricardo Figueiredo, que as grandes zaragatas entre estudantes e futricas são quase sempre descritas na Baixa, não acontecendo o mesmo na Alta, salvo as escaramuças que sempre havia no rescaldo das fogueiras, quando os calores da dança incendiavam ciúmes e o verniz estalava entre uns e outros.
    Mas o relacionamento conflituoso entre estudantes e futricas é uma estória cabeluda... como as guerras entre índios e cowboys. Uma estória em que uns (os índios, ou melhor, os futricas) habitavam um território que outros (os cowboys, ou melhor, os estudantes) viriam um dia a ocupar. Afinal, uma estória que, na origem, é semelhante a tantas outras de que a História está cheia, uma espécie de conflito étnico, a provar quão difícil é a co-existência pacífica entre ocupantes e ocupados, entre dominadores e dominados, tanto nos tempos idos como nos dias de hoje.
    Voltando aos índios e cowboys, as estórias aos quadrinhos do meu tempo de garoto sempre me mostraram um intrépido branco – Bufallo Bill, Davy Crockett…– que invariavelmente se batia contra um bando de pérfidos peles vermelhas, liderados por um qualquer Boi Sentado. Posta desta maneira, a estória era sempre fácil de entender: dum lado os bons, do outro lado os maus.
    Lembro-me que um dia, eram os meus miúdos pequenos, chamaram-me a correr ao televisor:
    – Pai! Não estamos a entender nada desta fita. Quem são os bons?
    – Depende do ponto de vista, meus filhos, as coisas nem sempre são assim tão simples. Tenho de vos contar a história do princípio...
    Pois é. Estavam os habitantes de Coimbra postos em sossego, qual D. Inês no remanso dos seus doces fruitos, quando D. Diniz lhes resolveu mandar de presente uma horda desordeira que já em Lisboa se tinha distinguido por brigar com os habitantes do burgo. E, não contente com isso, toma os estudantes debaixo da régia protecção, manda que nenhum morador de Coimbra lhes faça agravo, determina que não possam ser julgados pelo foro comum nem ficar presos na cadeia onde os demais habitantes são encarcerados, ordena que uma comissão paritária avalie da justeza das rendas a cobrar pelo aluguer de aposentos... e mais uma catrefa de regalias que me dispenso de enumerar. Ao invés, não consta que tenha dado, aos então habitantes da cidade, direitos simétricos que os defendessem dos eventuais abusos dos estudantes.
    Se a tudo isto juntarmos os desmandos próprios da juventude em bando fora de casa, os calotes por pagar em épocas de mesada curta ou de noitada longa, a boa vida de alguns que se podiam dar ao luxo de chumbar numa cadeira para ter um ano a mais de pândega e a jactância de quem se prepara para vir a ser a inteligência do reino, teremos o quadro quase pintado.
    E digo quase, porque faltam ainda duas pinceladas. Antes de mais, o desprezo com que o estudante, alcandorado na Alta da cidade, tratava o povo que habitava a Baixa, chamando-lhe futrica, palavra que fede a metros de distância e que se admite que derive de fitricafilho de tricana – que o mesmo seria dizer filho da mãe…
    E, por último... cherchez la femme! Contam os livros que as tricanas, para além de se permitirem certos favores aos estudantes, sempre torciam pelos de fora aquando dos arraiais de pancadaria com os da casa!
    Torceriam? Provavelmente sim, já que é histórica e compreensível a atracção da mulher de Coimbra pela estudantagem jovem, irreverente, bem-falante e galanteadora, passaporte-quimera para uma vida melhor. Mas haverá que dar algum desconto, porque as crónicas da época foram escritas por uma das partes interessadas na contenda.
    O conflito durou séculos. Continuava vivo no séc. XIX, altura em que, como muito bem retrata Eça de Queiroz no “Conde de Abranhos”, futricas e estudantes eram duas classes imiscíveis.
    Mas chegou um belo dia o séc. XX e, com ele, o futebol. E o conflito encontrou um outro tabuleiro onde dissipar as suas tensões. A pancadaria mudou-se então das tabernas e ruelas da baixa para o peão da Arregaça e a bancada do Santa Cruz, alimentando uma rivalidade Académica - União que durou até aos anos 70. E a ciumeira deixou de ser exclusiva da sorte aos amores para passar a abarcar também a sorte ao jogo.
    Depois dum quadro destes, custa-me explicar de que lado estariam os bons e os maus neste conflito, como aliás em muitos outros que grassam por esse mundo fora. Dependerá sempre do ponto de vista. Como diria o outro: – É a vida...
    Zé Veloso