quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

“PRAXE E TRADIÇÕES ACADÉMICAS”, DE ELÍSIO ESTANQUE. MAIS RIGOR SERIA BOM!

No início de Novembro alertaram-me para a saída do livro Praxe e Tradições Académicas de Elísio Estanque (EE) e para o facto de o mesmo conter transcrições do Penedo d@ Saudade. Senti, como é natural, um certo regozijo. Não é todos os dias que se é citado por um notório investigador da UC, em livro editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos!
Comprado o livro, encontrei, logo a abrir, uma sábia advertência: «A autorização para a reprodução total ou parcial dos conteúdos desta obra deve ser solicitada ao autor ou editor». Assim mesmo é que é! Pela minha parte, só tenho a agradecer. As 57 linhas do livro transcritas do Penedo d@ Saudade já não mais serão copiadas à vontade, ficando eu, até, dispensado de ter o trabalho de me preocupar com tais autorizações. Só lamento que EE não tenha seguido para si a regra que impõe aos outros, pois que, se o tivesse feito, tê-lo-ia eu próprio alertado para o facto de, à data em que diz ter acedido ao blogue, já estar on line uma outra edição do post TEIXEIRA,UM FUTRICA ESTUDANTE. Teria, assim, evitado transcrever um texto onde, meses antes, eu introduzira algumas emendas [A].
Obviamente, não seria este facto que me levaria a escrever o presente post. O que verdadeiramente me desgostou – e é esta a primeira razão pela qual o escrevo – foi perceber que aquele meu post sobre o Teixeira aparece numa sequência em que EE desenvolve uma teoria que acaba por se esboroar por falta de provas (já que é exemplificada através de figuras que não encaixam no perfil que lhes atribui), ao mesmo tempo que amesquinha antigos estudantes que tiveram um papel relevante na nossa academia e cuja memória não deveria ser deturpada e enxovalhada.
Mas que parágrafo é esse, para o qual já diversos estudiosos da academia de Coimbra têm vindo a chamar a atenção? Vide págs. 72 e 73:
«Igualmente digno de registo é a popularidade de alguns nomes ligados ao imaginário académico, embora não estudantes, que povoaram a cidade em épocas distintas, e o papel que desempenharam no universo das representações intelectuais e estudantis. Personagens como o Agostinho Antunes, o Pantaleão, o Pad Zé, o Castelão de Almeida, entre outros, fazem parte da história da academia de Coimbra, sendo de certo modo apropriados por essa espécie de "academia paralela" que animava os ambientes boémios e contestatários de Coimbra do passado (Duarte, 2000). Algumas dessas figuras, supõe-se que depois de convenientemente domesticadas, e uma vez garantido o seu lugar subalterno na comunidade, sendo alimentadas e até merecedoras de vestimenta própria (o traje académico), tornaram-se ícones de uma cultura onde a irreverência e o excesso eram condimentados com a atitude paternal em relação a esses (dóceis) animadores da algazarra estudantil. É o caso do Taxeira (cujo verdadeiro nome é Raul dos Reis Carvalheira), conforme aqui descrito por um observador que o recorda desde os anos cinquenta do século passado:» [negrito da minha responsabilidade; segue-se a transcrição do já referido post do Penedo d@ Saudade].
Ora, acontece que aqueles quatro “não estudantes” não só terminaram os seus cursos na UC e exerceram posteriormente as profissões a que os mesmos habilitavam, como são figuras que aparecem largamente referidas na bibliografia académica, sendo que, quanto aos três últimos, não é sequer possível fazer uma pesquisa séria sobre a história e as tradições da academia de Coimbra sem tropeçar, por diversas vezes, nos seus nomes [B]. Como exemplo, “Pantaleão” (Henrique Pereira da Mota) é a figura mais citada do “curso dos cocos”, curso que foi precursor do uso da cartola e que iniciou a venda da pasta, tradições que chegaram até aos nossos dias; Pad Zé (Alberto Costa) fez parte da comissão central do Centenário da Sebenta e é autor do best seller O livro do Doutor Assis, uma sátira à Coimbra universitária dos finais do séc. XIX; e Castelão de Almeida, para além de aparecer conjuntamente com “Pantaleão” em partidas célebres que fizeram correr tinta em vários jornais (e.g. o casamento do Nunes de Ranhados), fundou o seu próprio jornal humorístico, O Ponney, que ainda hoje tem uma edição on line em cujo cabeçalho consta o seu nome. Convenhamos que são factos suficientemente relevantes para passarem despercebidos a quem escreve sobre tradições académicas de Coimbra!...
A avaliar pela referência que o livro aponta – (Duarte, 2000) – o erro começou numa simples dissertação de licenciatura [C], que nem sequer está acessível para consulta. Mas o facto de o mesmo erro ter já contaminado outros trabalhos [D] de EE anteriores a este livro mostra bem o perigo da replicação de “fontes inquinadas”. Foi por isso que contactei o autor e o editor do livro através de mensagens escritas, sugerindo que tal erro fosse corrigido numa próxima edição [E]. Porém, quase um mês passado sobre o envio de tais mensagens, não recebi qualquer resposta, sendo esta a segunda razão que me levou a escrever este post. Errar é humano. Deixar que o erro se propague é que já não me parece admissível.
Quanto ao mais, centrando-me apenas nos interfaces do livro com o Penedo d@ Saudade e passando por cima de questões menores [F], só tenho a regozijar-me com a nota de rodapé 37, onde uma transcrição do post DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS – PARTE II aparece como ilustração do que se passava no século XIX. Como aquele texto é uma descrição do que se passou na minha latada, serei, por certo, o estudante de Coimbra mais antigo ainda por cá! Um caso sério de longevidade!
Zé Veloso

[A] Na nota de rodapé 45, EE diz que obteve o texto do post “Teixeira, um futrica estudante” acedendo ao link http://penedosaudade.blogspot.pt/2015/03/teixeira-um-futrica-estudante.html, em 27/09/2015, o que não pode ser verdade, uma vez que o texto que apresenta foi obtido do link http://penedosaudade.blogspot.pt/2011/03/taxeira-um-futrica-estudante.html, correspondente ao post inicial. Este post foi cancelado em Março 2015 para dar lugar ao post revisto.
[B] Ainda que Agostinho Antunes seja menos conhecido do que os restantes, ele não deixa de ser referido por Carminé Nobre no seu Coimbra de Capa e Batina.
[C] Duarte, Madalena (2000), A taberna e a boémia coimbrã – Práticas de lazer dos estudantes de Coimbra. Coimbra: FEUC (diss. de licenciatura).
[D] Em Jovens, estudantes e ‘repúblicos’: Culturas estudantis e crise de associativismo em Coimbra, publicado na Revista Crítica de Ciências Sociais em Junho 2008, e em Juventude, boemia e movimentos sociais: culturas e lutas estudantis na universidade de Coimbra, publicado na Política & Sociedade em Abril 2010, EE refere «Algumas figuras populares de épocas distintas – como o Agostinho Antunes, o Pantaleão, o Pad Zé, o Castelão de Almeida, o Taxeira, entre outros – tornaram-se lendárias precisamente devido à sua proximidade com o meio estudantil, sendo de certo modo apropriados e erigidos em ícones dessa “academia paralela” que animava os ambientes boémios e contestatários de Coimbra (Duarte, 2000)».
[E] Em 15/11 pp enviei uma mensagem privada ao autor do livro, via Facebook, depois de me certificar de que EE era assíduo utilizador desta ferramenta. Idêntica mensagem foi enviada ao autor e ao editor em 18/11 pp, via Google Books, na página onde o livro se encontra à venda.
[F] Nenhum dos diversos blogues citados no livro (excepção feita ao Guitarra de Coimbra) constam da lista de BIBLIOGRAFIA apresentada nas págs. 227 a 231. Não crendo que se trate de defeito, admito que seja apenas uma questão de feitio.