segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

DO ADEUS AO ESCUDO AO ADEUS AO EURO?


Pouco propenso a escrever neste final de ano, muito por culpa do desatino de uma crise que transformou dez milhões e meio de portugueses num bando de “troikados” a quem se vai retirando, pouco a pouco, a alegria e o futuro, lembrei-me de trazer até aqui, como crónica de passagem de ano, um texto escrito há precisamente 11 anos, numa época em que mantinha na mailing list da Briosa uma rubrica intitulada Penedo d@ Saudade, denominação que viria depois a adoptar para este blogue.
31 de Dezembro de 2001
Caros amigos,
De férias no centro do país, escrevo a crónica de hoje à mesa de um café de Aveiro, enquanto tomo uma bica e passo os olhos pela “Visão”. A capa da revista exibe um relógio-despertador, quase a disparar, com uma moeda de 1 euro no lugar do mostrador.
Os euros vêm aí! Daqui a 15 dias ninguém falará já de escudos. A malta irá trocá-los a correr, com a mesma velocidade com que substituiu as matrículas dos carros, inclusive aquelas que, pela idade do veículo, não eram obrigadas a seguir para o lixo. Mas a malta é assim. Gosta de virar depressa as páginas da integração europeia, como se tivesse medo de ficar à porta. Viva a CEE! Abaixo o Escudo!
Aliás, se virem bem, os escudos sempre foram mal-amados. Tal como os seus filhotes, os centavos. Escudos e centavos são palavras duras, sem musicalidade e, como tal, nunca entraram bem no nosso léxico do dia-a-dia. Ainda hoje, quando o escudo vai acabar, continuamos a dizer “vinte e cinco tostões”, “sete e quinhentos”, “dez mil reis”, “cem paus” e “cinco contos”. O escudo nunca conseguiu impor-se verdadeiramente ao “milrei”. Os centavos, mesmo às dezenas, nunca levaram de vencida os tostões. E os contos, talvez por serem contos de reis, sempre nos embalaram melhor que os milhares de escudos da República.
O escudo não me deixa saudades por aí além. Saudades tenho, isso sim, da moeda de 25 tostões, essa maravilha da técnica numismática que, paradoxalmente, conseguia tornar um preço de 7$50 mais redondo que um de 7$00 ou de 8$00!
A moeda mais pequena de que me lembro era a de 10 centavos, o tostão. O tal do vinho “em cima de melão”. A moeda, que era originalmente de cobre, teve de ser substituída por uma de outra liga – os “marcelinhos” – quando o valor do metal superava já o seu valor facial. Antes disso, havia já quem as fundisse para fazer pratos címbalos para baterias.
Com 1 tostão se compravam os chamados “rebuçados de tostão”, que vinham enrolados em jogadores de futebol que se trocavam ao “abafa”. Com 2 ou 3 tostões, já não me lembro ao certo, se comprava o alívio de tomar assento na sentina da Sereia, quando em prolongadas tardes de estudo ao ar livre nos dava a tremideira antecipada dos exames.
Com 4 tostões (um cruzado) se comprava, durante décadas a fio, um papo-seco; ou um bico, que queria dizer a mesma coisa. Com 5 (uma coroa) se mandava um postal e se fazia uma chamada local sem limite de tempo. Barato namoro...
Com 7 tostões se ia de eléctrico até à Baixa, sendo que para regressar à Alta eram precisos 8, o que era já muito dinheiro! Mas, felizmente, “aquele outeiro era mais fácil de descer que de subir” e, por via disso, os eléctricos para cima seguiam cheios; e a malta podia subir a Sá da Bandeira escondida no estribo, fazer de conta que entrava na Praça da República e poupar com isso 1 tostão, já que, da Praça da República para cima se viajava por 7 tostões apenas. Maravilha!...
Com 10 tostões se estampilhavam as cartas. E esse preço cristalizou-se de tal maneira que, ainda hoje, quando em casa pretendo selar um subscrito para o correio, tenho por hábito perguntar por onde andam os selos de 10 tostões (ou seja, os selos de cinquenta e tal escudos).
O papel selado, esse, custava 5 escudos (e nunca 5 mil reis, que com a República não se brinca!). E, a partir daí, resta lembrar que o Combinado N.º 1 ao balcão do “Mandarim” ou do “Casanova” andava pelos 9 escudos, no final dos anos 50, tendo subido ao longo da década de 60 até aos 12$50. A bica rondariam os 10 tostões e o fino talvez andasse pelos 15 ou 20. E quem preferisse comer na mesa, sempre poderia deixar uma “croa de gorja pò Sô Talina”.
Até aqui, todos os “Penedos” focaram sempre temas ligados à Académica, à cidade de Coimbra ou à sua Academia. O de hoje saiu ao lado. Mas, para que não fuja totalmente à regra, só preciso do vosso fio-de-beque. É que, por muito que puxasse pela memória, não me consigo recordar do preço das quotas de sócio da Briosa, nos idos anos de 50 e 60. Quem ajuda?
É hora de acabar a crónica. Peço para pagar a bica, ou melhor, o aluguer da mesa. Como estou num café fino, a conta reza assim: 1 café Esc. 120$00;  Euro 0,60.
120 escudos por 1 café? Bolas! Prefiro pagar em euros!
Um abraço e um bom ano a todos... com muitos euros.
Zé Veloso
…   …   …  
É estranho, não é? Que diferença entre o estado de espírito que existia no final de 2001 e aquele que hoje se respira! Em onze anos, apenas, passámos da euforia do euro – que tudo iria resolver – à descrença num euro que nos está a sufocar!
Deixando para trás o texto despreocupado de 2001 e voltando, preocupado, ao dia de hoje, aqui ficam os meus votos para que em 2013 o escudo continue morto e enterrado, por muitos e belos anos, mas se criem condições para que não esteja o euro a sufocar-nos a todos por muitos mais anos ainda.


Um abraço e um bom ano para os leitores do Penedo d@ Saudade.
Zé Veloso

4 comentários:

  1. Boa crónica, como sempre, Zé Veloso!
    Só te faltou referir aquela expressão com que às vezes um cavalheiro pretendia "acordar" uma dama absorta: "Um escudo pelos seus pensamentos!"
    Feliz Ano Novo!
    Um abraço,
    Marinela

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  2. Boa tarde,
    Eu comecei este ano a estudar em Coimbra e pelo amor que já tenho a esta cidade visito frequentemente este blog, para enriquecer o meu conhecimento sobre a mesma.
    Terminada a minha primeira Queima das Fitas e tendo vivido esta em plenitude durante a Garraiada surgiu-me uma dúvida: o porquê de a Garraiada fazer parte da tradição académica, onde estão as origens desta tradição. Assim deixo aqui a sugestão de escrever um dos seus maravilhosos textos explicando isto, se lhe despertar interesse obviamente.
    Obrigada desde já e muitos parabéns por este excelente trabalho!

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    Respostas
    1. Cara Júlia Sousa, obrigado pelo seu comentário.
      O tema que propõe é interessante e é natural que o venha a tratar logo que volte a reanimar o blogue, o que há-de acontecer quando voltar a arranjar tempo para escrever. Mas não deixo de lhe adiantar já uma primeira resposta, muito de corrida.
      A tradição de lidar touros está arreigada há muitos séculos na cultura do nosso país. Era normal que se lidassem touros aquando de festejos diversos.
      Na queima antiga - refiro-me ao rodar do século XIX para o século XX - era costume lidar-se no largo da feira um carneiro, um caloiro ou um bicho que estivesse por ali à mão. Veja-se a este propósito o que escrevi no post "As verdadeiras origens da Queima".
      Mais adiante, começaram a fazer-se garraiadas (touradas seria perigoso) por alturas das festas da Queima, quer na Praça de Touros de Coimbra (que ardeu) quer na da Mealhada quer, mais tarde, na da Figueira da Foz.
      E ir até à Figueira da Foz - fosse para ver a garraiada fosse para passar o dia estendido ao sol na praia - passou a ser um ponto obrigatório de qualquer Queima. No meu tempo chamava-se, à Figueira da Foz, Coimbra-C.
      Por hoje é tudo.
      Um abraço,
      Zé Veloso

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    2. na resposta acima, esqueci-me apenas de referir que quando se "lidava um carneiro, um caloiro ou um bicho", estes espécimes eram metidos dentro de um anel constituído pelas fitas estreitas atadas umas às outras e seguradas pelos quartanistas. Só depois de lidados os "animais" se queimavam as fitas...
      Zé Veloso

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