segunda-feira, 25 de junho de 2012

QUEIMA DAS FITAS DE 2012. NOTAS À MARGEM DO CORTEJO

Como é que o cortejo da Queima de hoje é visto pelos estudantes de ontem? Para tirar as dúvidas, fui até Coimbra no primeiro domingo de Maio.
Quem for do meu tempo e tenha perdido o rasto a estas celebrações dirá que me enganei, que o cortejo não foi no domingo, mas sim na terça. Ou, então, dirá que “a Queima já não é o que era…” mas isso só mostra que a festa continua viva e autêntica pois que, se continuasse tudo na mesma – numa sociedade que muda todos os dias – por certo a Queima já estaria morta. Paradoxalmente, a tradição mantém-se viva porque a celebração se vai renovando.
Aliás, falando do passado, a Queima foi sendo construída ao longo de mais de meio século e apenas nas décadas de 50 e 60 do século XX se registou alguma acalmia no seu figurino. E é curioso notar que as maiores acelerações operadas na complexidade e magnitude dos festejos ocorreram nos períodos posteriores à implantação da República e à revolução do 25 de Abril, duas datas que marcam convulsões na sociedade que arrefeceram as praxe\\s académicas por cerca de uma década: de 1907 a 1915 apenas num ano há registo de festejos em que se queimassem fitas; e de 1969 a 1979 nenhuma Queima se realizou.
Voltando ao dia de terça-feira – uma “vaca sagrada” cujo abate em 2010 levantou alguns protestos – lembro que ele não era tradição muito antiga: o acto de queimar as fitas estreitas ou grelo começou por ter lugar no último dia do ano de cada curso, dia esse que não era o mesmo para todas as Faculdades (chamava-se “dia do ponto”, a que se seguiam as férias de ponto e, depois, os exames); só em 1919 passaram todos os cursos a queimar as fitas e a desfilar na mesma data; entre 1919 e 1947, queima e cortejo foram sempre a 27 de Maio, dia comemorativo do conflito “Olha o Boné!”; e só a partir de 1948 se fixaram na terça-feira. Entendo perfeitamente que o cortejo tenha agora sido mudado para domingo, dia em que mais facilmente as famílias se poderão deslocar a Coimbra para ver desfilar e abraçar aqueles que estão no centro da festa e, quantas vezes, também no centro dos seus projectos de vida e das suas preocupações orçamentais.
Fui para Coimbra algo mal disposto com o que vira em fotografias da Serenata Monumental. Aquela história de terem posto instrumentistas e cantores debaixo de uma barraquinha de lona branca no topo da escadaria da Sé Velha é de uma insensibilidade com a qual convivo mal. Assegurou-me, quem já tocou mesmo debaixo do portal da Sé, que ali não chove! Logo, existia uma solução natural para a chuva, como sempre existiu desde que a serenata tem lugar naquele largo. Era só recuar um pouco. Não daria tanto espectáculo, acredito. Mas daria menos barraca! Um dia descobrirão que aquele telheiro da treta ainda deixa entrar a chuva batida… e lá teremos uma marquise de alumínio no portal de entrada da catedral românica!
Tendo chegado manhã cedo e deixado o carro na zona da Penitenciária, tentei uma visita ao Botânico, onde há muito não entrava. Impossível! «Está fechado?» Ingenuidade minha, pensar que as flores se pudessem quedar pelos canteiros em dia de cortejo… Hoje, como no meu tempo, as flores são caras, o dinheiro é curto e o civismo é um bem escasso.
Mas esse revés deixou-me tempo livre para subir até ao Largo D. Diniz e ao largo da Sé Nova e observar por dentro a preparação da festa. Fiquei boquiaberto com a eficácia da organização, aliás, única forma de pôr em marcha, sem engarrafamentos, um cortejo com quase uma centena de carros, todos eles concentrados na zona da velha Alta desaparecida.
Ao longo dos arruamentos, os locais de estacionamento de cada carro estavam meticulosamente marcados no chão, com a indicação do seu número de ordem no cortejo. Pelas 11 da manhã, só metade dos carros ocuparia o seu lugar mas os restantes iam chegando, sem atropelos, e tudo se compunha!
E em frente da Sé Nova, no centro da praça que corresponde grosso modo ao Largo da Feira – onde as fitas eram queimadas há mais de um século – num palanque com um penico de dimensões generosas, para onde iam subindo os novos fitados, ordeiramente e em pequenos grupos, ei-los a queimar o grelo, a soltar as fitas e a erguer as pastas ao céu, num bonito gesto para a fotografia, à voz de um fotógrafo que marcava o ritmo da cerimónia, tal como acontece com os noivos nos casamentos de hoje: «Queimar o grelo! Soltar as fitas! Pastas ao alto! Não tapem as caras, por favor! Podem sair! Grupo seguinte!»
Tudo previsto, tudo muito profissional! E lembrar-me eu que quando o meu carro, saído do Quartel da GNR, chegou à Alta, a confusão reinante era tal que mal se conseguia romper até ao palanque, prantado num cruzamento sem significado algum; e que, antes que o carro se pisgasse – que o motorista já berrava de dentro da cabina que não tinha sido contratado para que lhe amolgassem a camioneta – lá houve um de nós que conseguiu chegar ao penico, levou consigo mais uns grelos emprestados e trouxe de volta o fogo com que queimámos o resto dos grelos e mais os dedos, sem ninguém que nos dissesse como é que aquilo se fazia e sem fotos que ficassem para a posteridade… Ah!, como eu invejo as facilidades de hoje!
E os carros? Aquilo sim! É projecto de engenheiro! Por fora são diferentes uns dos outros; mas por dentro a estrutura é sempre a mesma… e muito bem pensada. Na traseira abre-se uma porta que dá para uma ampla escadaria de madeira que vem quase até ao chão, facilitando, particularmente, o acesso das fitadas e permitindo carregar à vontade as caixas de cerveja, vodka, gin, espumante (ou champanhe?), refrigerantes e tudo o mais – mas tudo, mesmo – que o pagode gosta de beber, à mistura com sandes, bolos e demais iguarias de comer, ordeiramente arrumados debaixo de dois balcões largos, corridos a todo o comprimento do carro, balcões onde os novos fitados cumprem alegremente o papel de atenciosos “barman’s” de um bar ambulante que vai avançando por entre uma multidão sequiosa, enquanto eles próprios vão também molhando o bico e se vão divertindo quanto podem… e enquanto podem, ou melhor, enquanto aguentam.
Longe, muito longe, vão os tempos do vinho espumoso Messias, a 5$00 a garrafa, que agitada de boca em boca fazia saltar aquela zurrapa mais o gás pelo nariz! Longe vão os tempos onde os carros não tinham outro acesso que não fosse uma escada de pedreiro que se encostava pelo lado de fora e obrigava as fitadas a subir com a saia (des)travada e uma capa a servir-lhes de biombo!
E que dizer dos saltos para a piscina humana com que as cartoladas de Ciências do Desporto e Educação Física foram brindando a assistência, protegidas pela bênção de João Paulo II que, mesmo de costas, não deixou de lhes por a mão por baixo? Lá diz o ditado: Ao menino e ao borracho…
Aliás, a grande animação do cortejo, ao nível do solo, é hoje assegurada pelos cartolados, cujos cânticos, gritos e coreografias, envolvendo as cartolas e as bengalas coloridas, nada têm a ver com o ar grave (de pré-instalados na vida) que os cartolados do meu tempo faziam questão de ostentar. Talvez seja assim porque os cartolados de hoje, sabendo o que os (não) espera no final do ano, se alienam desse triste cenário, cantando a plenos pulmões – e, estou certo, cheios de convicção – que não querem deixar Coimbra nem a vida de estudante.
Rompendo uma tradição que vem de longe (desde quando?), este ano o primeiro carro não foi de Medicina, tendo sido dada a primazia a um carro de Direito, segunda Faculdade na hierarquia da praxe. Isto, como “cartão amarelo” aplicado ao curso de Medicina pelo atraso que, no ano passado, o carro n.º1 provocou ao arranque do cortejo. The show must go on!… e a Comissão da Queima tem mão pesada! Aliás, não apenas na parte disciplinar, já que fica com 25% dos patrocínios que cada carro consegue arranjar, mais à volta de 1.500 euros de inscrição por carro!!! Será que o ministro Gaspar andou em Coimbra?
Só não vejo saltar no ar aqueles livrinhos de papel baratucho, da cor de cada Faculdade – as plaquetes – que faziam a alegria da miudagem que corria de carro em carro – «Um livrinho, sotôr, um livrinho!» – onde, a par com as caricaturas e alguma quadra, apareciam os anunciantes, os tais do patrocínio. Hoje em dia, ou porque os cursos são grandes ou porque as outras despesas do fitado são enormes, deixou de haver Livro de Curso (admito que não seja a regra mas foi o que me foi dado ver). Assim sendo, as plaquetes subiram na hierarquia: deixaram de ser atiradas para a rua, sendo agora destinadas apenas a familiares e amigos, impressas num papel lustroso de boa gramagem, onde, para além das caricaturas e do bloco de anúncios, os colegas de carro aparecem em fotografias de grupo, em poses descontraídas e cinéfilas, fazendo o seu espectáculo. É o retrato da Queima de hoje: o espectáculo! Não me refiro apenas ao espectáculo em cartaz no Queimódromo. Refiro-me ao espectáculo do cartaz em que cada um é personagem. Tal como na vida de hoje! E por isso a Queima continua viva! A Queima, sem perder o essencial do seu simbolismo, adaptou-se aos tempos que passam, ao seu ritmo e aos seus valores, bons ou maus, goste-se ou não!

Pena é que muitos estudantes não saibam usar a capa e batina! É uma tristeza! Chega a ser confrangedor observar a forma desajeitada como alguns tratam a parte mais distintiva e funcional do traje – a capa! Não sabendo usá-la, parece que têm medo dela! Há quem a ponha ao ombro, de forma muito estudada e estática, dobradinha a rigor como acontece com os manequins das montras. Há quem a coloque no braço, engomadinha como uma toalha, estilo criado de café a quem só falta uma bandeja na mão com um galão e uma torrada! Inventaram, até, uma moda que não entendo como não é proibida, que consiste em fazer da capa – enrolando-a sobre si própria com a ajuda de um colega e juntando as pontas com dois nós – uma espécie de chouriço que se coloca a tiracolo… há muito que não via coisa tão inestética! Ao invés, muitos optam por trazer a capa caída pelos ombros, em posição de cerimónia (sem qualquer enrolamento da parte superior), vulgarizando uma postura que deveria ser guardada para situações excepcionais. Que saudades do tempo em que qualquer um sabia traçar a capa com elegância, trazê-la no braço ou ao ombro sem presunção… e sem ter de ler o “manual de instruções”! O que hoje se vê era inevitável: ninguém pode sentir-se à vontade com aquilo que só usa nos dias de festa!
Mas há razões que a razão desconhece: ainda que não consiga descortinar nada escrito no Código da Praxe, fez-se tradição que o caloiro só possa traçar a capa na noite da serenata, em local nobre (Porta Férrea, Porta de Almedina, Sé Velha) e com a ajuda de um padrinho. Isto não radica em nenhuma tradição da Academia de Coimbra, sendo puro folclore, porventura importado de outra universidade! E tem efeitos perversos: é o mesmo que dizer a um caloiro que não use capa e batina e que apenas a compre nas vésperas da Queima, já que ter uma capa e não poder traça-la é como ir a Roma e não poder ver o Papa! Para uma Academia que gosta de apregoar que a praxe é boa para integrar os caloiros – e sabendo-se que a identidade do traje é, em qualquer sociedade, um dos segredos da integração – vou ali e já volto!
Faço-me à estrada a meio da tarde, já que me espera um jantar em Lisboa. Ainda só terão passado nos Arcos uma vintena de carros mas eu já conheço o resto do filme, pois que em 1999 me integrei no cortejo com a malta da minha República – Os Ly-SOS: primeiro passarão os carros da Universidade (59), depois os dos Institutos Politécnicos, Escolas Superiores e Universidades Privadas (25), num total de 84, menos do que em 2011 (será da crise?). Ao contrário do que acontecia há 13 anos, em que os carros não pertencentes à Universidade só entravam no cortejo a partir dos Arcos do Jardim, hoje todos eles saem da Alta mais alta. Imperou o bom-senso e Bolonha deu uma ajuda! Soube mais tarde que, afinal, apareceram mais uns quantos carros que, à revelia, se integraram no cortejo. Não tirei a limpo a notícia mas não me admiraria que fosse malta a “fugir ao fisco” da Comissão. Com uma “canga fiscal” elevada, os patrocinadores em crise e os “paitrocinadores” apertados, tudo é de esperar. Na Queima como no país…
E o cortejo fechará com o já costumeiro batalhão de carros e pessoal de limpeza da Câmara que, vindo algumas dezenas de metros atrás, atacará, com notável eficiência e eficácia, o tapete de vasilhame e demais desperdício que a gente educada deixou pelo chão. Em 1999 apreciei esse tão deplorável como fascinante espectáculo: de uma penada, escolhem o lixo, atiram-no para cima dos carros, varrem e lavam a rua ao som estridente de uma sinfonia parida de dentro de um vidrão gigante. Agora, o som da sinfonia já não será tão cristalino e lembrará mais um batuque de samba, pois que, entretanto, a embalagem de lata destronou a garrafa de vidro.
Uma Queima em permanente mudança!...
Adeus, cortejo de 2012! Para o ano há mais…
Zé Veloso
Notas fotográficas
A primeira fotografia (obtida numa postagem de Luís Pinto Coelho), é relativa à Queima de 1933. À esquerda da foto, sentado atrás, está o Professor Doutor Pinto Coelho, das Químicas.
A foto da Serenata Monumental foi obtida da net.
As restantes foram tiradas por mim no dia do cortejo.
A plaquete fotografada é do carro de Farmácia FARMASUTRA, cujo "balcão de bar" aparece numa das fotos do cortejo.
ZV

terça-feira, 12 de junho de 2012

CASAMENTOS MARADOS. DO VEGETARIANO AO NUNES DE RANHADOS


A partida conta-se em dois parágrafos.

Cavalheiro maduro, com posição, procura menina prendada para fins matrimoniais – assunto sério – e mete anúncio no jornal. Resposta dada ao apartado número tantos, mais carta menos carta o pretendente aparece em Coimbra pronto a conhecer a noiva e pedi-la em casamento, que quem põe anúncio é porque tem pressa e quem responde deve estar na mesma onda. Só que a prometida noiva não é mais do que uma súcia de marmanjos que não perde a ocasião para gozar o pratinho.

Atraído o bom do homem a Coimbra, monta-se um cenário digno de um filme de Kusturica, que levaria o mais crédulo a desconfiar da marosca mas de onde o herói da fita já não consegue saltar fora, pois que fica tão mal dentro dela como saindo pela esquerda baixa no meio da surriada geral. Há que beber o cálice até ao fim! E, lá no fundo, existe sempre a esperança de que a noiva – tão bonita!!! – não seja um belo rapaz vestido de saias e engraxado com pó-de-arroz e batom, que a família e os putativos padrinhos não sejam a súcia de amigos que responderam ao anúncio e que a algazarra que vai na rua se justifique pelo júbilo de um povo que vê, enfim, chegar o cavaleiro que desposará e tornará feliz para todo o sempre a sua princesa tão querida…

No essencial, a partida foi sempre a mesma e aconteceu por três vezes na Coimbra académica do primeiro terço do século XX. Aliás, aconteceu por duas vezes e meia, já que um dos alvos da paródia escapou à vergonha por um triz. E a semelhança entre os casos – que andaram de boca em boca e assim foram sendo transmitidos às gerações seguintes – faz com que, à distância, se pense que foi um só e se confundam os seus actores. Mas António José Soares, que escreveu Saudades de Coimbra consultando os jornais da época, conta-nos cada uma das façanhas com algum detalhe. Vamos a elas.

O primeiro caso passou-se em Maio de 1916. O maduro era um respeitável comerciante de Lisboa, onde tinha um restaurante vegetariano. Procurava senhora de meios e para tal achou que nada melhor do que colocar o anúncio bem longe, num jornal do Porto. Mas a República Cometa, hoje desaparecida, estava atenta e teve argumentos suficientes para atrair o nosso “vegetariano” a Coimbra, metê-lo num carro de cavalos onde a noiva o aguardava e organizar um cortejo com outros trens que o seguiram desde o Coimbra-Hotel até aos Arcos do Jardim, onde ficava a república. O homem desconfiou e chegou a apear-se do carro para se pôr em fuga. Mas lá o convenceram a continuar... disseram-lhe que a imprensa estava controlada e que a sua reputação não corria perigo… a festa continuou e o casamento foi de arromba.

Na República esperavam já um suposto Conservador do Registo Civil, os padrinhos e os convidados e tudo se passou conforme os cânones, incluindo, à noite, uma sessão no Teatro Avenida, com a estudantada aplaudindo em delírio o casal de noivos que assistia do camarote principal. Para descanso da noiva – o estudante Manuel Beires da Silva – o casamento não chegou a consumar-se entre os lençóis. Não porque o “vegetariano” desdenhasse de comer o seu naco de carne – por alguma razão botara o anúncio – mas porque, trazida a verdade à luz do dia em plena noite, o “vegetariano” se pisgou para parte incerta e não mais foi visto na cidade.

Um ano depois, Maio de 1917, uma vez mais um sujeito de Lisboa se arriscou a passar pelo mesmo calvário em Coimbra. Chamava-se ele João Andrade e, pela certa, não teria tido conhecimento das bolandas em que o “vegetariano” se vira envolvido. Marcada a entrevista para conhecer a noiva numa república da Rua da Matemática, não teve qualquer pejo em comparecer. E só não foi levado em cortejo nupcial porque, entretanto, soube-se do falecimento do estudante que fizera de noiva do “vegetariano” e a paródia ficou por ali. Donde se prova que o azar de uns é a sorte de outros…

As notícias destes casos deverão ter feito mossa, já que durante mais de uma década não houve solteirão que se arriscasse a procurar noiva em Coimbra pelo jornal, o que não terá deixado de constituir um prejuízo para meninas que estivessem “encalhadas”, fosse por terem falta de graça, fosse por terem graça de mais.

Mas a Primavera sempre puxa pelo amor. E chegados a Abril de 1930, um novo pretendente apareceu, um tal senhor Nunes, natural de São Caetano, freguesia de Ranhados, que passou à história como o “Nunes de Ranhados”. O anúncio saiu, discretamente, num jornal de Viseu e nada apontava para que fosse interceptado pelos radares da Real República Ribatejana, sita na Rua do Militares, onde pontificava uma parelha que ficou célebre pelas piadas que forjou na Coimbra dos anos 30 – Castelão de Almeida, director de “O Ponney” e Henrique Mota, o “Pantaleão”, que montaram uma encenação que ficou para a história.

Chegado de comboio à Estação, o "Nunes de Ranhados" identificou-se da forma combinada nas cartas de preparação do encontro, desembarcando com uma carta na mão esquerda, ridiculamente a dar a dar. Vinha doido para conhecer a menina “Alice Amélia Torres” mas logo ficou a saber que havia um tal “primo Augusto”, terrível rival com quem teria de disputar os favores da menina Alice. Rumados à Alta para um almoço com a “família Torres”, que o mesmo é dizer com a malta da República e amigos (o célebre Fred, Dr. Fernandes Martins, também entrou na festa), seguiu-se um passeio turístico pela cidade, num carro aberto que levava o Nunes e a noiva, acompanhados, claro está, pelo pai e pelo tio da dita, não fosse a menina “ficar falada”. Apesar de haver centenas de comparsas correndo à frente e atrás do carro numa restolhada infernal, o bom do Nunes nunca desconfiou, aceitando por boa a explicação de que tais manifestações faziam parte da “Festa do Passarinho”, por mero acaso celebrada nesse mesmo dia.

O cortejo viria a terminar no 1.º andar da Central, a cuja janela assomaram os noivos, para que quem estava na rua pudesse assistir a um recatado beijo nupcial. Na fotografia, em primeiro plano, o Nunes parece pouco à vontade com o atrevimento da noiva – o estudante João Duarte. Atrás, da esquerda para a direita, Igrejas de Bastos, Henrique Mota “Pantaleão”, Augusto Castelão de Almeida e Luís Fagulha

Segundo António José Soares, não houve cerimónia nupcial mas fizeram-se fotografias e decorreu depois uma lauta boda no restaurante da Pastelaria Central.

Mas nem sempre o último é quem ri melhor. A Real República Ribatejana há muito desapareceu, enquanto Ranhados continua no mapa.

Zé Veloso

Nota 1: Fotografia retirada do Volume II do livro "Saudades de Coimbra" de António José Soares, edição da ALMEDINA.
 
Nota 2. No primeiro comentário a este post transcrevo a versão do noivado do Nunes de Ranhados que aparece no livro TESTEMUNHOS, escrito em 1997 pela então viúva do “Pantaleão”, onde o papel da noiva é atribuído ao próprio Castelão de Almeida.