segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

DO ADEUS AO ESCUDO AO ADEUS AO EURO?


Pouco propenso a escrever neste final de ano, muito por culpa do desatino de uma crise que transformou dez milhões e meio de portugueses num bando de “troikados” a quem se vai retirando, pouco a pouco, a alegria e o futuro, lembrei-me de trazer até aqui, como crónica de passagem de ano, um texto escrito há precisamente 11 anos, numa época em que mantinha na mailing list da Briosa uma rubrica intitulada Penedo d@ Saudade, denominação que viria depois a adoptar para este blogue.
31 de Dezembro de 2001
Caros amigos,
De férias no centro do país, escrevo a crónica de hoje à mesa de um café de Aveiro, enquanto tomo uma bica e passo os olhos pela “Visão”. A capa da revista exibe um relógio-despertador, quase a disparar, com uma moeda de 1 euro no lugar do mostrador.
Os euros vêm aí! Daqui a 15 dias ninguém falará já de escudos. A malta irá trocá-los a correr, com a mesma velocidade com que substituiu as matrículas dos carros, inclusive aquelas que, pela idade do veículo, não eram obrigadas a seguir para o lixo. Mas a malta é assim. Gosta de virar depressa as páginas da integração europeia, como se tivesse medo de ficar à porta. Viva a CEE! Abaixo o Escudo!
Aliás, se virem bem, os escudos sempre foram mal-amados. Tal como os seus filhotes, os centavos. Escudos e centavos são palavras duras, sem musicalidade e, como tal, nunca entraram bem no nosso léxico do dia-a-dia. Ainda hoje, quando o escudo vai acabar, continuamos a dizer “vinte e cinco tostões”, “sete e quinhentos”, “dez mil reis”, “cem paus” e “cinco contos”. O escudo nunca conseguiu impor-se verdadeiramente ao “milrei”. Os centavos, mesmo às dezenas, nunca levaram de vencida os tostões. E os contos, talvez por serem contos de reis, sempre nos embalaram melhor que os milhares de escudos da República.
O escudo não me deixa saudades por aí além. Saudades tenho, isso sim, da moeda de 25 tostões, essa maravilha da técnica numismática que, paradoxalmente, conseguia tornar um preço de 7$50 mais redondo que um de 7$00 ou de 8$00!
A moeda mais pequena de que me lembro era a de 10 centavos, o tostão. O tal do vinho “em cima de melão”. A moeda, que era originalmente de cobre, teve de ser substituída por uma de outra liga – os “marcelinhos” – quando o valor do metal superava já o seu valor facial. Antes disso, havia já quem as fundisse para fazer pratos címbalos para baterias.
Com 1 tostão se compravam os chamados “rebuçados de tostão”, que vinham enrolados em jogadores de futebol que se trocavam ao “abafa”. Com 2 ou 3 tostões, já não me lembro ao certo, se comprava o alívio de tomar assento na sentina da Sereia, quando em prolongadas tardes de estudo ao ar livre nos dava a tremideira antecipada dos exames.
Com 4 tostões (um cruzado) se comprava, durante décadas a fio, um papo-seco; ou um bico, que queria dizer a mesma coisa. Com 5 (uma coroa) se mandava um postal e se fazia uma chamada local sem limite de tempo. Barato namoro...
Com 7 tostões se ia de eléctrico até à Baixa, sendo que para regressar à Alta eram precisos 8, o que era já muito dinheiro! Mas, felizmente, “aquele outeiro era mais fácil de descer que de subir” e, por via disso, os eléctricos para cima seguiam cheios; e a malta podia subir a Sá da Bandeira escondida no estribo, fazer de conta que entrava na Praça da República e poupar com isso 1 tostão, já que, da Praça da República para cima se viajava por 7 tostões apenas. Maravilha!...
Com 10 tostões se estampilhavam as cartas. E esse preço cristalizou-se de tal maneira que, ainda hoje, quando em casa pretendo selar um subscrito para o correio, tenho por hábito perguntar por onde andam os selos de 10 tostões (ou seja, os selos de cinquenta e tal escudos).
O papel selado, esse, custava 5 escudos (e nunca 5 mil reis, que com a República não se brinca!). E, a partir daí, resta lembrar que o Combinado N.º 1 ao balcão do “Mandarim” ou do “Casanova” andava pelos 9 escudos, no final dos anos 50, tendo subido ao longo da década de 60 até aos 12$50. A bica rondariam os 10 tostões e o fino talvez andasse pelos 15 ou 20. E quem preferisse comer na mesa, sempre poderia deixar uma “croa de gorja pò Sô Talina”.
Até aqui, todos os “Penedos” focaram sempre temas ligados à Académica, à cidade de Coimbra ou à sua Academia. O de hoje saiu ao lado. Mas, para que não fuja totalmente à regra, só preciso do vosso fio-de-beque. É que, por muito que puxasse pela memória, não me consigo recordar do preço das quotas de sócio da Briosa, nos idos anos de 50 e 60. Quem ajuda?
É hora de acabar a crónica. Peço para pagar a bica, ou melhor, o aluguer da mesa. Como estou num café fino, a conta reza assim: 1 café Esc. 120$00;  Euro 0,60.
120 escudos por 1 café? Bolas! Prefiro pagar em euros!
Um abraço e um bom ano a todos... com muitos euros.
Zé Veloso
…   …   …  
É estranho, não é? Que diferença entre o estado de espírito que existia no final de 2001 e aquele que hoje se respira! Em onze anos, apenas, passámos da euforia do euro – que tudo iria resolver – à descrença num euro que nos está a sufocar!
Deixando para trás o texto despreocupado de 2001 e voltando, preocupado, ao dia de hoje, aqui ficam os meus votos para que em 2013 o escudo continue morto e enterrado, por muitos e belos anos, mas se criem condições para que não esteja o euro a sufocar-nos a todos por muitos mais anos ainda.


Um abraço e um bom ano para os leitores do Penedo d@ Saudade.
Zé Veloso

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A SEBENTA – UMA INSTITUIÇÃO COM SETE VIDAS!...


    No meu tempo de Coimbra a Sebenta estava no auge. Rara era a cadeira que a não tinha, raros eram também os livros que consultávamos. E os sebenteiros tomavam assento na primeira fila das teóricas, munidos do último grito das novas tecnologias – um gravador de fita que ocupava todo o tampo da carteira!

    As sebentas no prelo iam saindo em fascículos à medida que as aulas avançavam, editadas a mais das vezes pela Almedina, onde se vendiam também as sebentas de anos anteriores já devidamente encadernadas. Quanto às sebentas em segunda ou terceira mão, o seu valor dependia da quantidade e suposta qualidade dos apontamentos à margem, podendo a ex-sebenta de um urso ser transaccionada por valor superior ao duma sebenta nova.

    Poucas sebentas de Coimbra terei guardado comigo, pois cedo concluí que, enquanto futuro engenheiro, jamais voltaria a demonstrar o Teorema de Bolzano-Weierstrass ou a escrever aquelas Fórmulas de Poiseuille que ocupavam de ponta a ponta os dois quadros do anfiteatro das Físicas. Chegado ao Porto, a instituição Sebenta lá continuava imperturbável, escrita por sebenteiros ou pela mão dos próprios mestres. Mas era chique dizer que se estudava por reputados livros de Engenharia, o que só em parte era verdade. E pairava no ar a ideia de que a instituição teria os dias contados. Mas seria assim?

    A verdade é que, passados mais de 40 anos sobre a minha formatura, a Sebenta continua vivinha da costa, não apenas em Coimbra mas também noutras universidades (1), elaborada por alunos ou por professores ou pelos primeiros com revisão dos segundos, policopiada ou – sinal dos tempos – distribuída online! O suporte tem vindo a mudar, podendo até os textos aparecer travestidos de apresentações powerpoint. Mas o conteúdo continua a ser o mesmo – os apontamentos da aula!

    Diz o povo que «nem rei nem papa à morte escapa». Mas a sebenta dá mostras de não querer morrer, apesar da má reputação pedagógica que muitos lhe atribuem e de alguns a terem já sentenciado de morte.

    Os seus defensores apontam-lhe a virtude de ela constituir uma ferramenta fácil de utilizar pelos alunos, já que procura reproduzir fielmente o conteúdo das aulas. Os seus detractores vêm, nessa mesma virtude, o seu grande pecado – limitação do universo de consulta por parte dos alunos, cristalização da ideia de que existe uma só verdade, a que sai da boca do mestre.

    Escreve Manuel Alberto Carvalho Prata (2) que a sebenta remontará à criação das próprias universidades, tendo como antecedentes as postillas ou apostillas, apontamentos tirados nas aulas pelos alunos, numa época em que raros eram os livros disponíveis e cabia aos lentes fazer para os alunos a leitura de alguns que houvesse; que o uso das postillas foi encorajado até à reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), reforma que impôs aos lentes a escrita dos compêndios e proibiu o uso das postillas, «para não se consumir prejudicialmente em tão prolixas escrituras o tempo, que mais útil, e suavemente se deve empregar na explicação das lições» (3); e que tal imposição não foi cumprida, apesar de vários avisos régios, o que levou o Principal da Universidade a determinar em 1786 «que de agora e para sempre se desterre e proscreva desta Universidade o pernicioso costume de escrever nas aulas» (4), determinação essa que era acompanhada de severas sanções para os prevaricadores.

    Mas, chegados ao início do Século XIX e estando já inventado o processo litográfico de reprodução de textos, as postillas, que embora proibidas nunca tinham sido banidas, encontraram o seu processo natural de reprodução, dando lugar à Sebenta. E Trindade Coelho, que entrou para Direito em 1880, publica em 1902 o seu In Illo Tempore, onde evoca a Sebenta em termos que permitem supor que a mesma pudesse ter já entrado em declínio no início do século XX. Puro engano!… Durou, pelo menos, mais 110 anos! E sabe-se lá quando acabará!...

    Sigamos, então, Trindade Coelho, num texto que sempre me provoca o riso de cada vez que o leio: «No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha a ser isso da sebenta; mas, industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava “sebenteiro” ao que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo ou comentar os que vinham dos outros – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!
    Não havia nada de melhor! Além disso, algumas metiam também as suas piadas; outras davam caricaturas – e sebenteiro havia que amenizava por tal forma aquela estopada, que até dava versos para o fado no fim de semana, e convocava os discípulos, em anúncios, para trupes aos caloiros, ou outras pândegas!
    As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cair da noite, e eram duas por noite; mas, se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebenteiro era maçador, às tais oito páginas acresciam outras – e a esse suplemento, que era sempre amaldiçoado, chamava-se o “resto”!»

    E, mais à frente, «Está pois a ver-se que a Sebenta era uma instituição universitária; mas ainda assim, coisa curiosa, cheirava sempre a “contrabando”».

    Apesar de não se conhecer a data do seu nascimento, os estudantes de 1899 decidiram celebrar-lhe o “Centenário” com uma festa de arromba, que incluiu o maior cortejo académico até então ocorrido em Coimbra, razão pela qual tais festejos têm sido erradamente apontados como os precursores da Queima das Fitas.


    Desse tempo, está muito divulgada a figura da Maria Marrafa que, ao cair da 
noite, calcorreava a Alta, distribuindo os fascículos da sebenta casa a casa. Conta-se que não distribuía apenas a sebenta e que, de quando em vez, à mistura com a sebenta, ia deixando também as suas carícias. E até empréstimos em dinheiro para algum estudante em aperto.

    Outra figura típica de então era o litógrafo Manuel das Barbas. Só há alguns dias lhe consegui ver a cara, que aqui deixo igualmente registada. Como a foto parece indiciar, deveria transpirar cebo por todo o lado, dado que o sebo era o lubrificante utilizado no processo litográfico, sendo essa uma das razões aventadas para a origem do nome "sebenta" (5). O Fado da Sebenta, com letra de Afonso Lopes Vieira, fez-lhe a maldade de lhe escrever antecipadamente o epitáfio para a sepultura:



«Aqui jaz Manoel das Barbas;
Trabalhou muito, e bebeu…
Lithographava sebentas,
Mas foi feliz : - nunca as leu.»


    

Termino esta crónica com uma história muito bem contada por Camilo de Araújo Correia (6), história que não resisto a transcrever na íntegra, a qual envolve o sebenteiro Júlio Condorcet, de seu verdadeiro nome Júlio Pais Mamede, médico radiologista, que nas suas actividades de exímio prestidigitador se apresentava como Conde de Orcet, the King of Embarrilation.

    «Condorcet foi um aluno de medicina com tanto de estudioso como de pândego. Não sei se por necessidade, se para arranjar mais uns cobres para a estroinice, foi também sebenteiro. Noites e noites a passar à máquina os apontamentos colhidos nas aulas, ditados por um condiscípulo, seu colaborador na preparação das sebentas.
    Certa noite, a certa altura, saiu esta frase dos apontamentos:
    – …”diz a mitologia que foram uns corvos que tiraram aos deuses o poder de curar e o deram aos homens”…
    – Alto aí! – cortou o Condorcet
    – Que é?!
    – Como se chamam esses corvos?
    – Sei lá! Aqui não está nome nenhum…
    – Mas devia estar! Uns corvos dessa importância não podem deixar de ter nome, caramba!... Ora deixa cá ver… deixa cá ver… Que dizes a “Giribites”?
    – Põe lá o nome que quiseres mas olha que pode dar mau resultado! – cortou o companheiro, morto por andar para a frente com os apontamentos.
    Não deu mau resultado. O que deu foi um gozo medonho nos exames de “História da Medicina” desse ano.
    Na primeira referência de um examinando aos “corvos Giribites” o lente deu um salto na cadeira e perguntou fora de si:
    – Corvos quê?!!
    – Giribites… – respondeu, a medo, o aluno?
    – Giribites?!?!... Onde é que o senhor aprendeu isso?
    Como, nesse tempo, os lentes não podiam ouvir falar em “sebentas”, o rapaz foi-se defendendo com a mentirazinha do costume.
    – Foi num livro que me emprestaram… já bastante antigo…
    – Hum… bem… bem…
    Assim desarmado, o mestre continuou o exame sem mais incidentes. Incidentes houve, depois, com os alunos que não sabiam dizer o nome dos corvos!!!
    – … foram uns corvos da mitologia… Ia dizendo o aluno.
    – Como se chamavam esses corvos? Perguntava o mestre, atento à lengalenga.
    – …… – Emudeciam os ignorantes.
    – Giribites, senhor!... Giribites!... Vocês não estudam nada!... É tudo pela rama… tudo pela rama!...»


    Sabe-se que, neste caso, a marosca foi descoberta e os “corvos Giribites” não voaram por muito tempo. Mas quantos outros “corvos Giribites” não terão passado já a verdades científicas irrecusáveis?

    Zé Veloso

(1) Uma rápida sondagem junto de alunos das universidades de Coimbra, Porto e Lisboa permitiu-me perceber que a Sebenta ainda se mantém bastante activa, dependendo dos cursos e das Faculdades.
(2) Manuel Alberto Carvalho Prata, “Academia de Coimbra – (1880-1926) – Contributo para a sua História”, Imprensa da UC, 2002
(3) “Estatutos da Universidade de Coimbra”, 1772
(4) Teófilo Braga, “História da Universidade de Coimbra”, Tomo III, 1898
(5) Outras razões aventadas têm a ver com a fraca qualidade do papel, gorduroso, e com a sujidade de gordura acumulada nas páginas, depois de muito manuseadas.
(6) Camilo de Araújo Correia, “Coimbra Minha”, Almedina, 1989


Fotografias:
Sebenta manuscrita de Direito Civil: Obtida das separatas do Diário de Coimbra relativas aos "100 anos da Queima das Fitas", com textos de Artur Ribeiro.
 
Maria Marrafa: obtida da internet.
Manuel das Barbas: Obtida de uma versão digital do livro "Typos de Coimbra" de Mário Monteiro, Livraria Editora Guimarães, 1908.

Fado da Sebenta: Fotografia (do autor) de um original do folheto com a música e letra do Fado e do Hino da Sebenta.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

CAMPO DO BOLÃO, QUEM TE PÔS O NOME?

    Há dias atrás, enquanto percorria o Facebook, dei com este postal antigo. Observado com cuidado, percebe-se que a vista não é do Campo do Bolão. Mas poderia muito bem ser, já que contém alguns traços que lhe são (eram) característicos: o extenso campo pronto a ser lavrado, a junta de bois que puxa a charrua, o homem que mantém o bico do arado bem fundo na terra, o miúdo a quem os bois seguem  não sei se por rotina se por respeito à enorme vara que leva ao ombro  e, lá longe, o recorte de Coimbra no horizonte. A vista corresponde a uma zona na margem esquerda do Mondego, a montante da Ponte de Santa Clara. Como disse, não é do Campo do Bolão mas poderia muito bem ser.


    Para quem não tenha passado por Coimbra ou se tenha já esquecido da sua geografia, o Campo do Bolão é uma planície absolutamente plana, com algumas centenas de hectares, entalada entre o chamado Rio Velho – leito natural do antigo Mondego – a Linha do Norte e a estrada que da Adémia vai até à Cidreira e à Geria. É um campo extremamente fértil, já que só depois das obras de regularização do Bazófias deixou de ser anualmente invadido pelas suas águas, às quais se juntavam igualmente as da Vala do Norte, vindas dos lados do Caramulo.

    A memória que dele tenho data dos anos 50, andava eu no liceu. Na época das aulas, morava em Coimbra com as minhas irmãs e o meu irmão. Ao final da tarde de sábado, regressávamos a Ançã para passar o domingo, fosse na carrinha Peugeot 203 de 3 bancos conduzida pelo meu Pai, fosse na camioneta da carreira José Maria dos Santos & Cª Lda. E o Campo do Bolão ficava, invariavelmente, no nosso caminho.

    Em época de cheias, quando a água do Rio Velho invadia o campo, “ia-se à volta”, pela Adémia, que era, aliás, o trajecto regular da carreira. Nessas semanas, o campo transformava-se num lago e Ançã ficava mais longe de Coimbra.

    Passadas as chuvas, abria aos automóveis a estrada entre a Estação Velha e a Cidreira, onde uma velha ponte de madeira, que não permitia o cruzamento de dois carros, desembocava numa apertada curva. Nesse pequeno troço, olhávamos para o campo de soslaio, já que a estreiteza do traçado não permitiam despregar os olhos dos muros que ladeavam a estrada ou de algum carro que viesse em sentido contrário, como se fôssemos nós a conduzir o automóvel. Mas, no troço entre a ponte da Cidreira e a Estação Velha, a vista do campo estendia-se até aos choupos que ladeavam a recta da Adémia e era o tempo de observar a intensa faina agrícola que ali se desenvolvia.

    No campo havia centenas de pequenas leiras individuais, tomadas de renda para sustento de economias familiares, que se distinguiam umas das outras pelo avanço dos trabalhos agrícolas, que conferiam matizes diferentes às cores do terreno. E, enquanto avançávamos lentamente naquelas estreitas estradas, era possível contar o número de juntas de bois – idênticas às do postal – que se espalhavam pelo campo, leira a leira, na corrida contra o tempo que antecede as sementeiras. E com frequência esse número ultrapassava a centena, o que parece hoje inacreditável.

    Mas de quem era, então, esse imenso campo que contava com centenas de rendeiros? Nessa altura seria já de mais de um dono, mas no passado não fora assim.

    Contava o meu Pai que o campo fora em tempos de um só senhor, o qual, não tendo herdeiros, o deixou por herança a um afilhado. Como é sabido, as prendas que era uso dar pela Páscoa aos afilhados de baptismo chamavam-se "folar", sendo que, na região entre Ançã e Coimbra, o folar é um bolo que lembra o bolo de Ançã e tem um ou mais ovos cozidos em cima. Ao pé destes folares tradicionais, que não são mais do que um simples bolo, bem pode dizer-se que a prenda que o dono daquele campo todo deu ao afilhado era … um "bolão"!

    E meu Pai rematava a história dizendo que aí residia a origem de tão singular nome – Campo do Bolão.

    Como aos 12 anos não desconfiamos daquilo que nos contam, nunca perguntei ao meu Pai se a história era verdadeira ou se era lenda.

    Hoje, já mais velhinho, tentei procurar na “net” alguma dica que me reconfortasse acerca da veracidade da história. Nada encontrei. Mas, curiosamente, apareceu-me um documento do Arquivo da Universidade de Coimbra, onde se inventariam os bens do antigo Colégio de S. Bernardo, também conhecido por Colégio do Espírito Santo, o qual, tendo sido fundado em 1550, foi dotado com as rendas do Mosteiro de S. Paulo de Frades (que anexou). E, por essa via, aparecem várias referências a um campo (campos ou herdades) do Bolão, nomeadamente a «12 jeiras no campo do Bolão, em Vila Franca, termo de Montemor-o-Velho» (será, por certo, Vila Franca, lugar da freguesia de Arazede, concelho de Montemor-o-Velho), e a uma «Carta de venda que fez Pedro de Bolão a Fernão Pires chantre de Lisboa e fundador do mosteiro de S. Paulo de hua herdade no Bolão na Era de 1258». O que mostra que a palavra “Bolão” já no século XIII servia para nomear um campo agrícola, sendo também utilizada como sobrenome.

    Terá o campo do Bolão de Montemor-o-Velho alguma coisa a ver com o de Coimbra, apesar de se tratar de terrenos distantes um do outro? Teria a herdade no Bolão (Montemor-o-Velho) esse nome por ter pertencido a Pedro de Bolão ou tratar-se-ia exactamente do contrário? Teria o Campo do Bolão (Coimbra) pertencido a alguém de apelido Bolão? Será que a palavra “bolão” significava, em tempos idos, algo que era aplicável tanto ao campo de Coimbra como ao de Montemor-o-Velho? Será que nada disto é válido e existe algures uma teoria consistente?

    Ou será que eu sou um racionalista inveterado e só estou a arranjar argumentos para pôr em dúvida uma curiosa e bonita história que, um belo dia, um pai contou aos seus filhos, enquanto circulavam de automóvel entre Coimbra e Ançã?

    Zé Veloso

P. S.

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…»
A Briosa deixou de treinar no Campo de Santa Cruz, para treinar no Campo do Bolão.
E o campo, que era rico na produção de milho, passou também a produzir golos!
No dia em que a Briosa volta comparecer, 41 anos depois, numa competição europeia, faço votos para que volte da República Checa trazendo na bagagem um bolão (uma vitória) ou, pelo menos, um bolinho (um empate)!
ZV

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

URINÓIS DE COIMBRA


    A crónica de hoje tem a ver com um assunto sensível. Trata-se de uma matéria politicamente incorrecta, cuja abordagem nesta altura poderá ser, quiçá, pouco patriótica. Estamos em plena visita de avaliação dos da troika – que tudo irão vasculhar nas próximas semanas – e receio bem que, quando chegar a altura de lerem esta crónica, não levem a sério um país onde todos deveríamos estar cabisbaixos e agradecidos em vez de andar por aí a escrever sobre temas fracturantes, cujo odor lhes possa fazer chegar a mostarda ao nariz.

    Mas há obrigações que não se podem adiar. E é já tempo de não deixar cair no esquecimento essas relíquias que ainda havia na Coimbra do meu tempo – os urinóis de ferro – espécie de biombos curvilíneos em cujo labirinto, em forma de caracol, se entrava aflito e se saía aliviado, e onde ninguém tinha de bater à porta pois que logo de fora se percebia se era a altura própria para entrar, já que a sábia arquitectura dos ditos biombos deixava à vista a canela dos utentes, por cujos movimentos ou quietude se avaliava o tempo sobrante para o despacho.
    Aqui deixo hoje exarada, até que o Google me apague o blogue, a minha singela e grata homenagem a esses desaparecidos espécimes de mobiliário urbano, que bem falta nos fazem em época de crise, já que, em relação aos de hoje, tinham a vantagem de ser grátis, poupando-se o consumo duma bica ou duma água sem gás, pois que é feio entrar e sair num estabelecimento sem fazer despesa. Claro está que estas considerações se não aplicam às senhoras, as quais poderiam sempre continuar a ir aos cafés e restaurantes e assim haveria alguém para pagar o IVA a 23% na restauração, o que deixaria a troika e o governo mais tranquilos e contribuiria para a redução do défice.

    A provar que os urinóis são um assunto é sério, que eu não vim para aqui fazer baderna e que não me movem sentimentos antipatrióticos, veja-se o que aparece escrito no livro SANTA CRUZ: UM CAFÉ COM HISTÓRIA (1). Aí se conta: Nos anos de 1940 existia um urinol junto ao Café. O cheiro por vezes tornava-se desagradável no seu interior, de tal forma que o empregado Coutinho exerceu com veemência a influência que detinha na Câmara Municipal, e conseguiu que o mesmo fosse retirado do local. Havia, no entanto, de cumprir uma cláusula por parte do Café – o reconhecimento de que todo o cidadão de Coimbra podia utilizar as suas casas de banho. E assim se fez. E tudo foi exarado em acta camarária. A partir daí, os detractores do café, principalmente os estudantes, começaram a designá-lo por “urinol público” ou “café de merda”.

    Pena tenho eu de, no meu tempo de Coimbra, não ter sido informado de tais obrigações que o Café de Santa Cruz contraiu para com a cidade, de papel passado e tudo. Ter-me ia poupado o custo de algumas bicas ou uma subida em passo apertado para tomar um banho junto à praça. É que, nas traseiras do Mercado D. Pedro V, de frente para os antigos correios, à esquerda de quem saía da praça e logo a seguir a um quiosque de jornais, estava um dos tais urinóis de ferro. Mas a corrosão atingira já as canalizações da água de aspersão, de tal forma que quem entrava para as verter se arriscava a sair de lá salpicado da cabeça aos pés. Era um urinol para os dias quentes! O meu irmão contou-me que, no seu interior, alguém bem-disposto escrevera a seguinte quadra:

            Isto não é um urinol
            É uma coisa indecente
            Vem a gente mijar nele
            E é ele quem mija na gente


    Pobre urinol da praça... não te deram concerto, tiraram-te lá do canto e, agora, os que por lá passam fazem o mesmo que faziam dantes mas vê-se-lhes o corpo todo e ainda têm de o fazer ao relento!

    Mas o mais afamado, aquele que, estou certo, resolveu as aflições de meia Coimbra, a meia Coimbra que usava calças, situava-se ao cimo da Sá da Bandeira. Prantado junto à Praça da República, estava bem enquadrado na paisagem, adornado pela casota dos cisnes e meio disfarçado pelo quiosque dos jornais (só ainda não entendi esta atracção entre os urinóis e os jornais. Adiante…).
    Um grande favor lhe fiquei a dever: um belo dia em que por ali rondava uma trupe, era eu ainda bicho ou caloiro, logrei fintá-la entrando no “labirinto”, onde, contendo a respiração, fui controlando os movimentos do inimigo através do rendilhado dos painéis de ferro meio apodrecidos, escudado no facto de a condição de futrica ou de estudante não ser facilmente avaliável pela barriga da perna. O que mostra que nem sempre a corrosão é uma desvantagem...

    Nascidos em França, julga-se que no século XIX, não sei em que data chegaram a Coimbra, onde, praticamente, não deixaram registo de imagem, talvez por pudor dos retratistas. Mas existiam ainda na década de 60, sendo que pelos anos 70 terão ido para a sucata, como normalmente acontece num país de sucateiros.

    Ao invés, em cidades europeias de países que presam o seu património, é possível ver, ainda hoje, em jardins e outros espaços públicos, devidamente conservados, alguns exemplares de ferro fundido que são verdadeiras obras de arte. Assim se pode comparar o ontem e o hoje. Assim se mostra aos mais novos que o conforto e a higiene de que hoje gozamos não nasceram de geração espontânea.

    Procurei, com afinco, uma fotografia dos urinóis de Coimbra, em pose institucional, que pudesse ilustrar esta crónica. Gostaria de os ver retratados na flor da idade, enquanto jovens bem-parecidos e não com o ar decrépito que lhes conheci. Mas nada. Apenas encontrei no livro COIMBRA. IMAGENS DO PASSADO (2) , uma foto de 1953, tirada a partir da Estação Nova, onde apenas é visível a cúpula de um deles, envergonhadamente escondido atrás de um parque de camionetas de carreia, onde hoje está um quiosque de jornais (tinha que ser!...)

    Estive quase para não a colocar aqui. Um urinol só faz sentido… em sentido… e de corpo inteiro!

    Zé Veloso

    PS: Já depois de terminada e publicada a crónica, soube que em Lisboa ainda há urinóis de ferro a funcionar, nomeadamente no Castelo de S. Jorge.

(1) SANTA CRUZ: UM CAFÉ COM HISTÓRIA, António Inácio Correia Nogueira, Câmara Municipal de Coimbra, 2007, pág. 106.
(2) COIMBRA. IMAGENS DO PASSADO. 1940-1960, Mário Nunes, Livraria Minerva1990, pág121.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

VOU ENCHER A BILHA E TRÁGO-A

    À entrada do Parque Manuel Braga, um painel de azulejos tem pintada uma bem conhecida quadra de António Nobre. Qual o significado desta quadra? Será apenas uma evocação do “Basófias” ou será algo mais do que isso?

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    Trata-se de uma quadra que é de inclusão quase obrigatória na letra da desgarrada que dá pelo nome de “Vira de Coimbra”. Sendo este o único fado de Coimbra que se coaduna com a minha voz, cantei-a anos a fio em encontros de amigos… mas nunca me preocupei verdadeiramente com o seu sentido. Era claro que teria a ver com o “Basófias” e com a sua falta de água durante a estiagem. Mas por que razão haveria eu de ir encher uma bilha de água ao rio?

    Entretanto, passei os olhos pelo , onde aquela quadra aparece, e foi então que entendi o óbvio: quem vai encher a bilha não é o estudante que canta o fado mas sim uma tricana. Trata-se, afinal, de uma versão moderna das cantigas de amigo…

    Até ao século XIX e ainda nas primeiras décadas do século XX, a “Coimbra dos amores” não estava ligada à Alta. Estava ligada ao Mondego e à parte baixa da cidade.

    Do Choupal até à Lapa foi Coimbra os meus amores…, canta Zeca Afonso, um fado de Mário Faria da Fonseca, gravado por Edmundo Bettencourt nos finais da década de 1920. E acrescenta Ó Coimbra do Mondego e dos amores que eu lá tive.

    E quanto a Augusto Hilário, lenda-viva que estudou em Coimbra de 1886 a 1896, diz o fado que leva o seu nome que cantava alta noite no Choupal e que toda a tricana escutava.

    No nosso tempo não teremos dedicado grande atenção ao Mondego e aos seus arrabaldes, até porque quem estudava em Coimbra tinha já a possibilidade de se deslocar no fim-de-semana até outras paragens fora de portas. Alguns de nós não terão, sequer, estado na Lapa ou no Choupal… muito menos alta noite. Mas o mesmo se não passava antigamente.

    Os saudosos campos do Mondego, de que fala Camões, eram então procurados amiúde pela população académica para passar os seus tempos de lazer, não apenas aos domingos, dias santos e de tolerância de ponto, mas também nas tardes durante a semana (já que apenas havia aulas de manhã), até que a cabra tocasse “as tristres” e os obrigasse a recolher ao estudo. E por ali se divertiam os escolares, fruindo a paisagem e cortejando as moças da terra – as tricanas – a quem iam prometendo casamento para depois das formaturas.

    Das margens do Mondego, e da sua bonita ponte de pedra, assistia-se, assim, à passagem de dois ciclos anuais, distintos mas simultâneos: o ciclo dos amores entre o estudante e a tricana, amores que fortificam nas estações mais frias para terminar em pleno Verão, no final de cada ano lectivo, com a partida para férias; e o ciclo das águas do Mondego – o “Basófias” – cujas cheias ocorrem no Inverno, na época em que os amores florescem, despreocupados e viçosos, mas cujas águas secam com a chegada do Verão.

    A quadra que vimos acima é a 7.ª de um conjunto de 18 quadras soltas, que António Nobre agrupou no sob o título Para as Raparigas de Coimbra. Se colocarmos em sequência 3 dessas quadras (7.ª, 8.ª, 13.ª e, novamente, a 7.ª), a sobreposição daqueles dois ciclos torna-se evidente.

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?

    No Inverno não tens fadigas,
    E tens água para leões!
    Mondego, das raparigas,
    Estudantes e violões!

    Agora, são tudo amores
    À roda de mim, no cais,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    Vou encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu' é da tua água,
    Qu' é dos prantos que eu chorei?


    O Painel de azulejos à entrada do Parque Manuel Braga parecerá, para muitos, uma simples evocação do “Basófias” antes da regularização do Mondego.

    Mas não será só isso. O que o painel expressa é o desabafo triste de uma mulher que amou, que se sentiu abandonada ao ver partir, talvez para sempre, o seu amado, e que viu secar as suas lágrimas nas areias quentes de um Mondego indiferente à sua mágoa.

    Zé Veloso 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

QUEIMA DAS FITAS DE 2012. NOTAS À MARGEM DO CORTEJO

Como é que o cortejo da Queima de hoje é visto pelos estudantes de ontem? Para tirar as dúvidas, fui até Coimbra no primeiro domingo de Maio.
Quem for do meu tempo e tenha perdido o rasto a estas celebrações dirá que me enganei, que o cortejo não foi no domingo, mas sim na terça. Ou, então, dirá que “a Queima já não é o que era…” mas isso só mostra que a festa continua viva e autêntica pois que, se continuasse tudo na mesma – numa sociedade que muda todos os dias – por certo a Queima já estaria morta. Paradoxalmente, a tradição mantém-se viva porque a celebração se vai renovando.
Aliás, falando do passado, a Queima foi sendo construída ao longo de mais de meio século e apenas nas décadas de 50 e 60 do século XX se registou alguma acalmia no seu figurino. E é curioso notar que as maiores acelerações operadas na complexidade e magnitude dos festejos ocorreram nos períodos posteriores à implantação da República e à revolução do 25 de Abril, duas datas que marcam convulsões na sociedade que arrefeceram as praxe\\s académicas por cerca de uma década: de 1907 a 1915 apenas num ano há registo de festejos em que se queimassem fitas; e de 1969 a 1979 nenhuma Queima se realizou.
Voltando ao dia de terça-feira – uma “vaca sagrada” cujo abate em 2010 levantou alguns protestos – lembro que ele não era tradição muito antiga: o acto de queimar as fitas estreitas ou grelo começou por ter lugar no último dia do ano de cada curso, dia esse que não era o mesmo para todas as Faculdades (chamava-se “dia do ponto”, a que se seguiam as férias de ponto e, depois, os exames); só em 1919 passaram todos os cursos a queimar as fitas e a desfilar na mesma data; entre 1919 e 1947, queima e cortejo foram sempre a 27 de Maio, dia comemorativo do conflito “Olha o Boné!”; e só a partir de 1948 se fixaram na terça-feira. Entendo perfeitamente que o cortejo tenha agora sido mudado para domingo, dia em que mais facilmente as famílias se poderão deslocar a Coimbra para ver desfilar e abraçar aqueles que estão no centro da festa e, quantas vezes, também no centro dos seus projectos de vida e das suas preocupações orçamentais.
Fui para Coimbra algo mal disposto com o que vira em fotografias da Serenata Monumental. Aquela história de terem posto instrumentistas e cantores debaixo de uma barraquinha de lona branca no topo da escadaria da Sé Velha é de uma insensibilidade com a qual convivo mal. Assegurou-me, quem já tocou mesmo debaixo do portal da Sé, que ali não chove! Logo, existia uma solução natural para a chuva, como sempre existiu desde que a serenata tem lugar naquele largo. Era só recuar um pouco. Não daria tanto espectáculo, acredito. Mas daria menos barraca! Um dia descobrirão que aquele telheiro da treta ainda deixa entrar a chuva batida… e lá teremos uma marquise de alumínio no portal de entrada da catedral românica!
Tendo chegado manhã cedo e deixado o carro na zona da Penitenciária, tentei uma visita ao Botânico, onde há muito não entrava. Impossível! «Está fechado?» Ingenuidade minha, pensar que as flores se pudessem quedar pelos canteiros em dia de cortejo… Hoje, como no meu tempo, as flores são caras, o dinheiro é curto e o civismo é um bem escasso.
Mas esse revés deixou-me tempo livre para subir até ao Largo D. Diniz e ao largo da Sé Nova e observar por dentro a preparação da festa. Fiquei boquiaberto com a eficácia da organização, aliás, única forma de pôr em marcha, sem engarrafamentos, um cortejo com quase uma centena de carros, todos eles concentrados na zona da velha Alta desaparecida.
Ao longo dos arruamentos, os locais de estacionamento de cada carro estavam meticulosamente marcados no chão, com a indicação do seu número de ordem no cortejo. Pelas 11 da manhã, só metade dos carros ocuparia o seu lugar mas os restantes iam chegando, sem atropelos, e tudo se compunha!
E em frente da Sé Nova, no centro da praça que corresponde grosso modo ao Largo da Feira – onde as fitas eram queimadas há mais de um século – num palanque com um penico de dimensões generosas, para onde iam subindo os novos fitados, ordeiramente e em pequenos grupos, ei-los a queimar o grelo, a soltar as fitas e a erguer as pastas ao céu, num bonito gesto para a fotografia, à voz de um fotógrafo que marcava o ritmo da cerimónia, tal como acontece com os noivos nos casamentos de hoje: «Queimar o grelo! Soltar as fitas! Pastas ao alto! Não tapem as caras, por favor! Podem sair! Grupo seguinte!»
Tudo previsto, tudo muito profissional! E lembrar-me eu que quando o meu carro, saído do Quartel da GNR, chegou à Alta, a confusão reinante era tal que mal se conseguia romper até ao palanque, prantado num cruzamento sem significado algum; e que, antes que o carro se pisgasse – que o motorista já berrava de dentro da cabina que não tinha sido contratado para que lhe amolgassem a camioneta – lá houve um de nós que conseguiu chegar ao penico, levou consigo mais uns grelos emprestados e trouxe de volta o fogo com que queimámos o resto dos grelos e mais os dedos, sem ninguém que nos dissesse como é que aquilo se fazia e sem fotos que ficassem para a posteridade… Ah!, como eu invejo as facilidades de hoje!
E os carros? Aquilo sim! É projecto de engenheiro! Por fora são diferentes uns dos outros; mas por dentro a estrutura é sempre a mesma… e muito bem pensada. Na traseira abre-se uma porta que dá para uma ampla escadaria de madeira que vem quase até ao chão, facilitando, particularmente, o acesso das fitadas e permitindo carregar à vontade as caixas de cerveja, vodka, gin, espumante (ou champanhe?), refrigerantes e tudo o mais – mas tudo, mesmo – que o pagode gosta de beber, à mistura com sandes, bolos e demais iguarias de comer, ordeiramente arrumados debaixo de dois balcões largos, corridos a todo o comprimento do carro, balcões onde os novos fitados cumprem alegremente o papel de atenciosos “barman’s” de um bar ambulante que vai avançando por entre uma multidão sequiosa, enquanto eles próprios vão também molhando o bico e se vão divertindo quanto podem… e enquanto podem, ou melhor, enquanto aguentam.
Longe, muito longe, vão os tempos do vinho espumoso Messias, a 5$00 a garrafa, que agitada de boca em boca fazia saltar aquela zurrapa mais o gás pelo nariz! Longe vão os tempos onde os carros não tinham outro acesso que não fosse uma escada de pedreiro que se encostava pelo lado de fora e obrigava as fitadas a subir com a saia (des)travada e uma capa a servir-lhes de biombo!
E que dizer dos saltos para a piscina humana com que as cartoladas de Ciências do Desporto e Educação Física foram brindando a assistência, protegidas pela bênção de João Paulo II que, mesmo de costas, não deixou de lhes por a mão por baixo? Lá diz o ditado: Ao menino e ao borracho…
Aliás, a grande animação do cortejo, ao nível do solo, é hoje assegurada pelos cartolados, cujos cânticos, gritos e coreografias, envolvendo as cartolas e as bengalas coloridas, nada têm a ver com o ar grave (de pré-instalados na vida) que os cartolados do meu tempo faziam questão de ostentar. Talvez seja assim porque os cartolados de hoje, sabendo o que os (não) espera no final do ano, se alienam desse triste cenário, cantando a plenos pulmões – e, estou certo, cheios de convicção – que não querem deixar Coimbra nem a vida de estudante.
Rompendo uma tradição que vem de longe (desde quando?), este ano o primeiro carro não foi de Medicina, tendo sido dada a primazia a um carro de Direito, segunda Faculdade na hierarquia da praxe. Isto, como “cartão amarelo” aplicado ao curso de Medicina pelo atraso que, no ano passado, o carro n.º1 provocou ao arranque do cortejo. The show must go on!… e a Comissão da Queima tem mão pesada! Aliás, não apenas na parte disciplinar, já que fica com 25% dos patrocínios que cada carro consegue arranjar, mais à volta de 1.500 euros de inscrição por carro!!! Será que o ministro Gaspar andou em Coimbra?
Só não vejo saltar no ar aqueles livrinhos de papel baratucho, da cor de cada Faculdade – as plaquetes – que faziam a alegria da miudagem que corria de carro em carro – «Um livrinho, sotôr, um livrinho!» – onde, a par com as caricaturas e alguma quadra, apareciam os anunciantes, os tais do patrocínio. Hoje em dia, ou porque os cursos são grandes ou porque as outras despesas do fitado são enormes, deixou de haver Livro de Curso (admito que não seja a regra mas foi o que me foi dado ver). Assim sendo, as plaquetes subiram na hierarquia: deixaram de ser atiradas para a rua, sendo agora destinadas apenas a familiares e amigos, impressas num papel lustroso de boa gramagem, onde, para além das caricaturas e do bloco de anúncios, os colegas de carro aparecem em fotografias de grupo, em poses descontraídas e cinéfilas, fazendo o seu espectáculo. É o retrato da Queima de hoje: o espectáculo! Não me refiro apenas ao espectáculo em cartaz no Queimódromo. Refiro-me ao espectáculo do cartaz em que cada um é personagem. Tal como na vida de hoje! E por isso a Queima continua viva! A Queima, sem perder o essencial do seu simbolismo, adaptou-se aos tempos que passam, ao seu ritmo e aos seus valores, bons ou maus, goste-se ou não!

Pena é que muitos estudantes não saibam usar a capa e batina! É uma tristeza! Chega a ser confrangedor observar a forma desajeitada como alguns tratam a parte mais distintiva e funcional do traje – a capa! Não sabendo usá-la, parece que têm medo dela! Há quem a ponha ao ombro, de forma muito estudada e estática, dobradinha a rigor como acontece com os manequins das montras. Há quem a coloque no braço, engomadinha como uma toalha, estilo criado de café a quem só falta uma bandeja na mão com um galão e uma torrada! Inventaram, até, uma moda que não entendo como não é proibida, que consiste em fazer da capa – enrolando-a sobre si própria com a ajuda de um colega e juntando as pontas com dois nós – uma espécie de chouriço que se coloca a tiracolo… há muito que não via coisa tão inestética! Ao invés, muitos optam por trazer a capa caída pelos ombros, em posição de cerimónia (sem qualquer enrolamento da parte superior), vulgarizando uma postura que deveria ser guardada para situações excepcionais. Que saudades do tempo em que qualquer um sabia traçar a capa com elegância, trazê-la no braço ou ao ombro sem presunção… e sem ter de ler o “manual de instruções”! O que hoje se vê era inevitável: ninguém pode sentir-se à vontade com aquilo que só usa nos dias de festa!
Mas há razões que a razão desconhece: ainda que não consiga descortinar nada escrito no Código da Praxe, fez-se tradição que o caloiro só possa traçar a capa na noite da serenata, em local nobre (Porta Férrea, Porta de Almedina, Sé Velha) e com a ajuda de um padrinho. Isto não radica em nenhuma tradição da Academia de Coimbra, sendo puro folclore, porventura importado de outra universidade! E tem efeitos perversos: é o mesmo que dizer a um caloiro que não use capa e batina e que apenas a compre nas vésperas da Queima, já que ter uma capa e não poder traça-la é como ir a Roma e não poder ver o Papa! Para uma Academia que gosta de apregoar que a praxe é boa para integrar os caloiros – e sabendo-se que a identidade do traje é, em qualquer sociedade, um dos segredos da integração – vou ali e já volto!
Faço-me à estrada a meio da tarde, já que me espera um jantar em Lisboa. Ainda só terão passado nos Arcos uma vintena de carros mas eu já conheço o resto do filme, pois que em 1999 me integrei no cortejo com a malta da minha República – Os Ly-SOS: primeiro passarão os carros da Universidade (59), depois os dos Institutos Politécnicos, Escolas Superiores e Universidades Privadas (25), num total de 84, menos do que em 2011 (será da crise?). Ao contrário do que acontecia há 13 anos, em que os carros não pertencentes à Universidade só entravam no cortejo a partir dos Arcos do Jardim, hoje todos eles saem da Alta mais alta. Imperou o bom-senso e Bolonha deu uma ajuda! Soube mais tarde que, afinal, apareceram mais uns quantos carros que, à revelia, se integraram no cortejo. Não tirei a limpo a notícia mas não me admiraria que fosse malta a “fugir ao fisco” da Comissão. Com uma “canga fiscal” elevada, os patrocinadores em crise e os “paitrocinadores” apertados, tudo é de esperar. Na Queima como no país…
E o cortejo fechará com o já costumeiro batalhão de carros e pessoal de limpeza da Câmara que, vindo algumas dezenas de metros atrás, atacará, com notável eficiência e eficácia, o tapete de vasilhame e demais desperdício que a gente educada deixou pelo chão. Em 1999 apreciei esse tão deplorável como fascinante espectáculo: de uma penada, escolhem o lixo, atiram-no para cima dos carros, varrem e lavam a rua ao som estridente de uma sinfonia parida de dentro de um vidrão gigante. Agora, o som da sinfonia já não será tão cristalino e lembrará mais um batuque de samba, pois que, entretanto, a embalagem de lata destronou a garrafa de vidro.
Uma Queima em permanente mudança!...
Adeus, cortejo de 2012! Para o ano há mais…
Zé Veloso
Notas fotográficas
A primeira fotografia (obtida numa postagem de Luís Pinto Coelho), é relativa à Queima de 1933. À esquerda da foto, sentado atrás, está o Professor Doutor Pinto Coelho, das Químicas.
A foto da Serenata Monumental foi obtida da net.
As restantes foram tiradas por mim no dia do cortejo.
A plaquete fotografada é do carro de Farmácia FARMASUTRA, cujo "balcão de bar" aparece numa das fotos do cortejo.
ZV

terça-feira, 12 de junho de 2012

CASAMENTOS MARADOS. DO VEGETARIANO AO NUNES DE RANHADOS


A partida conta-se em dois parágrafos.

Cavalheiro maduro, com posição, procura menina prendada para fins matrimoniais – assunto sério – e mete anúncio no jornal. Resposta dada ao apartado número tantos, mais carta menos carta o pretendente aparece em Coimbra pronto a conhecer a noiva e pedi-la em casamento, que quem põe anúncio é porque tem pressa e quem responde deve estar na mesma onda. Só que a prometida noiva não é mais do que uma súcia de marmanjos que não perde a ocasião para gozar o pratinho.

Atraído o bom do homem a Coimbra, monta-se um cenário digno de um filme de Kusturica, que levaria o mais crédulo a desconfiar da marosca mas de onde o herói da fita já não consegue saltar fora, pois que fica tão mal dentro dela como saindo pela esquerda baixa no meio da surriada geral. Há que beber o cálice até ao fim! E, lá no fundo, existe sempre a esperança de que a noiva – tão bonita!!! – não seja um belo rapaz vestido de saias e engraxado com pó-de-arroz e batom, que a família e os putativos padrinhos não sejam a súcia de amigos que responderam ao anúncio e que a algazarra que vai na rua se justifique pelo júbilo de um povo que vê, enfim, chegar o cavaleiro que desposará e tornará feliz para todo o sempre a sua princesa tão querida…

No essencial, a partida foi sempre a mesma e aconteceu por três vezes na Coimbra académica do primeiro terço do século XX. Aliás, aconteceu por duas vezes e meia, já que um dos alvos da paródia escapou à vergonha por um triz. E a semelhança entre os casos – que andaram de boca em boca e assim foram sendo transmitidos às gerações seguintes – faz com que, à distância, se pense que foi um só e se confundam os seus actores. Mas António José Soares, que escreveu Saudades de Coimbra consultando os jornais da época, conta-nos cada uma das façanhas com algum detalhe. Vamos a elas.

O primeiro caso passou-se em Maio de 1916. O maduro era um respeitável comerciante de Lisboa, onde tinha um restaurante vegetariano. Procurava senhora de meios e para tal achou que nada melhor do que colocar o anúncio bem longe, num jornal do Porto. Mas a República Cometa, hoje desaparecida, estava atenta e teve argumentos suficientes para atrair o nosso “vegetariano” a Coimbra, metê-lo num carro de cavalos onde a noiva o aguardava e organizar um cortejo com outros trens que o seguiram desde o Coimbra-Hotel até aos Arcos do Jardim, onde ficava a república. O homem desconfiou e chegou a apear-se do carro para se pôr em fuga. Mas lá o convenceram a continuar... disseram-lhe que a imprensa estava controlada e que a sua reputação não corria perigo… a festa continuou e o casamento foi de arromba.

Na República esperavam já um suposto Conservador do Registo Civil, os padrinhos e os convidados e tudo se passou conforme os cânones, incluindo, à noite, uma sessão no Teatro Avenida, com a estudantada aplaudindo em delírio o casal de noivos que assistia do camarote principal. Para descanso da noiva – o estudante Manuel Beires da Silva – o casamento não chegou a consumar-se entre os lençóis. Não porque o “vegetariano” desdenhasse de comer o seu naco de carne – por alguma razão botara o anúncio – mas porque, trazida a verdade à luz do dia em plena noite, o “vegetariano” se pisgou para parte incerta e não mais foi visto na cidade.

Um ano depois, Maio de 1917, uma vez mais um sujeito de Lisboa se arriscou a passar pelo mesmo calvário em Coimbra. Chamava-se ele João Andrade e, pela certa, não teria tido conhecimento das bolandas em que o “vegetariano” se vira envolvido. Marcada a entrevista para conhecer a noiva numa república da Rua da Matemática, não teve qualquer pejo em comparecer. E só não foi levado em cortejo nupcial porque, entretanto, soube-se do falecimento do estudante que fizera de noiva do “vegetariano” e a paródia ficou por ali. Donde se prova que o azar de uns é a sorte de outros…

As notícias destes casos deverão ter feito mossa, já que durante mais de uma década não houve solteirão que se arriscasse a procurar noiva em Coimbra pelo jornal, o que não terá deixado de constituir um prejuízo para meninas que estivessem “encalhadas”, fosse por terem falta de graça, fosse por terem graça de mais.

Mas a Primavera sempre puxa pelo amor. E chegados a Abril de 1930, um novo pretendente apareceu, um tal senhor Nunes, natural de São Caetano, freguesia de Ranhados, que passou à história como o “Nunes de Ranhados”. O anúncio saiu, discretamente, num jornal de Viseu e nada apontava para que fosse interceptado pelos radares da Real República Ribatejana, sita na Rua do Militares, onde pontificava uma parelha que ficou célebre pelas piadas que forjou na Coimbra dos anos 30 – Castelão de Almeida, director de “O Ponney” e Henrique Mota, o “Pantaleão”, que montaram uma encenação que ficou para a história.

Chegado de comboio à Estação, o "Nunes de Ranhados" identificou-se da forma combinada nas cartas de preparação do encontro, desembarcando com uma carta na mão esquerda, ridiculamente a dar a dar. Vinha doido para conhecer a menina “Alice Amélia Torres” mas logo ficou a saber que havia um tal “primo Augusto”, terrível rival com quem teria de disputar os favores da menina Alice. Rumados à Alta para um almoço com a “família Torres”, que o mesmo é dizer com a malta da República e amigos (o célebre Fred, Dr. Fernandes Martins, também entrou na festa), seguiu-se um passeio turístico pela cidade, num carro aberto que levava o Nunes e a noiva, acompanhados, claro está, pelo pai e pelo tio da dita, não fosse a menina “ficar falada”. Apesar de haver centenas de comparsas correndo à frente e atrás do carro numa restolhada infernal, o bom do Nunes nunca desconfiou, aceitando por boa a explicação de que tais manifestações faziam parte da “Festa do Passarinho”, por mero acaso celebrada nesse mesmo dia.

O cortejo viria a terminar no 1.º andar da Central, a cuja janela assomaram os noivos, para que quem estava na rua pudesse assistir a um recatado beijo nupcial. Na fotografia, em primeiro plano, o Nunes parece pouco à vontade com o atrevimento da noiva – o estudante João Duarte. Atrás, da esquerda para a direita, Igrejas de Bastos, Henrique Mota “Pantaleão”, Augusto Castelão de Almeida e Luís Fagulha

Segundo António José Soares, não houve cerimónia nupcial mas fizeram-se fotografias e decorreu depois uma lauta boda no restaurante da Pastelaria Central.

Mas nem sempre o último é quem ri melhor. A Real República Ribatejana há muito desapareceu, enquanto Ranhados continua no mapa.

Zé Veloso

Nota 1: Fotografia retirada do Volume II do livro "Saudades de Coimbra" de António José Soares, edição da ALMEDINA.
 
Nota 2. No primeiro comentário a este post transcrevo a versão do noivado do Nunes de Ranhados que aparece no livro TESTEMUNHOS, escrito em 1997 pela então viúva do “Pantaleão”, onde o papel da noiva é atribuído ao próprio Castelão de Almeida.

terça-feira, 22 de maio de 2012

FUI AO JAMOR VER A TAÇA...


          Fui no domingo ao Jamor, sim senhor!

          Mais para gozar a festa
          numa boa, sem ter pressa,
          que o final do campeonato,
          esse, sim, me deixou roto
          à beirinha da desgraça.
          Fui pr’apanhar na cabeça
          mas vim de lá com a taça!

          Comecei a festa cedo, sem ter medo!

          Sábado à noite, em Lisboa,
          onde o Museu de Arte Antiga
          se encheu de gente e de vida
          ao som do Alma de Coimbra
          que me deixou de alma cheia…
          Revi amigos da lida
          e o licor serviu de ceia!

          Estacionei na Cruz Quebrada, que maçada!

          Tinha almoço marcado
          c’os “Cromos” do facebook
          que esperavam do outro lado.
          À mesa foi uma alegria:
          Académica e União!
          Até Sporting havia…
          Era Coimbra, pois então!

          Já são horas de ir pró campo… deixa o banco!

          P’lo caminho que eu levava
          eram só verdes na estrada
          que gozavam sem maldade:
          “Mas porque vem de tão longe?
          Não quis ver pela televisão?”
          “- Mas eu, cá, vim de Lisboa… -”
          “Antes Briosa que Lampião!”

          Vamos lá entrar pro estádio… tou lixado!

          Mas onde fica a tribuna?
          E os acessos pra peões?
          Vai de subir monte acima,
          a chocar com quem descia
          monte abaixo aos trambolhões.
          Deve haver lá uma entrada,
          penso eu c’os meus botões!

          Mas o que há é gente à nora… “E agora”?

          Já estou na fila apertado
          mas se vou pro sítio certo
          ou vou dar a outro lado
          ninguém sabe. Deus é grande!
          É um evento nacional!
          Cada qual se desenrasque…
          Viva, viva Portugal!

         Porra, está quase na hora… e eu cá fora!

          E o jogo a começar
          e eu de bilhete na mão
          “Com licença, com licença…”
          Viro as costas para o campo
          à procura do lugar.
          Há um bruá do caraças:
          era o Marinho a marcar!

          E aqui estou eu no Jamor… ai que dor!

          Vir cá e não ver o golo…
          “Ó amigo, não lamente
          foi você que nos deu sorte
          ao virar costas ao campo
          pôs a Briosa na frente!”
          Nunca mais virei as costas
          e o resultado foi rente!

          Do jogo nem vou falar… tá a andar!

          Deixo isso pra quem sabe
          mas da claque eu asseguro
          - e ali, do sítio onde eu estava,
          posso bem aquilatar -
          que a BRIOSA era mais forte!
          E malta do topo Sul
          abafou o topo Norte!

          Seis minutos! Tá na hora… é agora!

          Para mal da lagartada,
          que estava por trás de mim
          e gritavam, meio moscas,
          que queriam ver o jogo,
          a malta não se sentava.
          Os cachecóis rodopiavam
          e o Sporting acordava.

          Sofridinho até ao fim… Ai de mim!

          E o Ricardo a segurar
          o que o Edinho esbanjara
          logo no reatamento.
          Diz que quem não mata morre
          “Cale a boca seu jumento!
          O sor árbitro é que sabe
          e vai acabar o tempo!”

          E assim que o árbitro apita… agora sim! É o fim!

          A malta nem acredita:
          abraços, pulos e gritos,
          quando inda há uma semana
          andávamos pela lama
          lá pela cauda dos aflitos!
          Mas agora a taça é nossa!
          Pró ano vai ser de gritos!

          BRIOOOOOOSA!!!!!!!    BRIOOOOOOSA!!!!!!!

          Descendo o vale do Jamor,
          de cachecol e palhinhas,
          vou gozando, cá nas minhas,
          sem pressa de acabar
          aquela tarde de glória!
          A malta ganhou a Taça!
          Voltámos a fazer História!


          Zé Veloso

sexta-feira, 30 de março de 2012

VISITA GUIADA À ARQUITECTURA DO FERRO – 1.º dia

    A arquitectura do ferro, uma arquitectura tipicamente funcional, feita por engenheiros que, a partir de finais do século XVIII, começaram a utilizar plenamente o ferro como elemento resistente das construções, chegou a Coimbra na segunda metade do século XIX.

    Coimbra não tem nenhuma obra com a assinatura de Gustave Eiffel, como acontece com o Porto e Viana do Castelo, mas não deixa de ter, ainda hoje, alguns interessantes exemplares daquela arquitectura, apesar de outros terem desaparecido há já alguns anos.

    Começamos aqui a visita, no início da rua Figueira da Foz, neste local ermo e desinteressante, onde uma tabuleta anuncia PARQUE PRIVATIVO e onde, durante o dia, estacionam carros, supostamente a gasolina ou gasoil. Curiosamente, de 1929 a 1973 era este o local onde, durante a noite, estacionavam os carros eléctricos. Já poucos indícios restam da denominada Recolha do Gaz, a não ser nos degradados edifícios da portaria, onde tanto a cor como a cancela de ferro como ainda um emblema dos Serviços Municipalizados nos remetem para a anterior utilização deste espaço.

    Mas os eléctricos não ficavam ao relento, como hoje ficam aqui os automóveis. Cobriam-nos os telhados de duas naves que suponho que fossem de estrutura metálica, as quais terão substituído outras existentes no mesmo local ou, quem sabe, terão sido reconstruídas a partir delas. Em relação às mais antigas, construídas há quase 160 anos, sabe-se que eram metálicas e tenho para mim que terão sido um dos primeiros exemplares (se, não mesmo, o primeiro) da arquitectura do ferro em Coimbra. Contemos a sua história:

    Até 27 de Novembro de 1836, Coimbra não tinha iluminação pública e cada um que tratasse de se alumiar, se quisesse andar de noite na rua. A partir daquela data, Coimbra passou a ser alumiada a candeeiros de azeite, que consumiam o azeite de pior qualidade e, também, óleo de peixe. Até que apareceu um súbdito inglês – Hardy Hislop de seu nome – que, sendo já concessionário de uma instalação idêntica no Porto, se propôs construir em Coimbra uma Fábrica de Gás (ou gasómetro, como aparece referido em várias actas da Câmara) e uma rede de iluminação pública. A fábrica produziria o gás a partir do carvão, o qual, aquecido a 1000 ºC numa retorta fechada, se decomporia numa mistura combustível de monóxido de carbono e metano [1]. Vide a chaminé da fábrica e os pavilhões que a ladeavam – as tais naves do tempo da arquitectura do ferro – neste interessante postal de Coimbra, cujo ângulo de visão não é nada frequente.

    Depois de vários atrasos nas obras (ontem como hoje…) a iluminação foi inaugurada a 1 de Outubro de 1856, ficando a exploração sob a responsabilidade da, entretanto formada, Companhia Conimbricense de iluminação a gaz. Nada sabemos da qualidade que a iluminação teria nessa altura mas, 50 anos mais tarde, já com a rede completa, conta-nos António José Soares [2] que Coimbra tinha a melhor iluminação pública do país, chegando a recear-se que tanta luz pudesse afectar o romantismo das serenatas e, até, vir a acabar com elas...

    Como mergulhámos já no séc. XIX, sugiro que nos situemos agora em 1875, sigamos a pé até à Casa do Sal e nos dirijamos depois para o Mondego, onde encontraremos algumas barcas serranas na faina de descarregar o sal vindo da Figueira da Foz. Será uma dessas barcas que nos vai levar aos outros locais que, ainda hoje, iremos visitar.

        Entrados que estamos na barca, sigamos pelo rio para junto da mais antiga das pontes de ferro de Coimbra – a ponte ferroviária da linha do Norte sobre o Mondego – que foi construída em 1864. Esta ponte há-de durar, pelo menos, até ao século XXI, ainda que tenha de vir a ser reforçada quando aumentarem a velocidade da linha do Norte e lhe começarem a passar por cima os comboios do futuro – os Alfa pendulares…

    É em cima desta ponte que os viajantes costumam captar a primeira imagem de Coimbra ao chegar do Sul, já com o comboio muito perto da estação. Será recordando esta visão que Francisco de Ataíde Machado de Faria e Maia, vindo dos Açores em 1896 estudar para Coimbra, escreverá nas suas memórias [3]: Numa nêsga do rio Mondego, entre choupos e salgueiros no primeiro plano, abria-se límpida e fresca aguarela: – a água transparente, serpenteando em regatos nos meandros da areia fina; silhuetas fugitivas de lavadeiras, batendo roupa; um barco subindo à sirga, retesando-se os membros dos condutores no esforço da tracção violenta, e, ao fundo, num monte, a cidade, Coimbra, branca, lavada, banhada de sol matutino, subindo em socalcos para a Universidade que sobre ela levantava a sua Torre quadrada, numa atitude dominadora de Castelo feudal, sobre o burgo vassalo e submisso.
Momentos depois o comboio entrava na estação.

    Deixemos agora o romantismo do Choupal e subamos o rio até perto da zona [4] onde sempre ele foi atravessado, desde que há registos de pontes na cidade.

    8 de Maio de 1875! O alvoroço é grande. Pudera! Estamos no dia em que se procede à inauguração de mais uma ponte metálica, a qual veio substituir a Ponte do O, que, devido ao assoreamento do rio,  já mal permitia a passagem das barcas debaixo dos seus arcos. É a esta ponte que os vindouros hão-de chamar a velha Ponte de Santa Clara. Os carros passam na zona central entre as vigas reticuladas, como se circulassem dentro de uma gaiola, enquanto os peões se deslocam em corredores situados do lado de fora da estrutura principal. O seu custo total, ainda não calculado a esta data, será de 101:730$695, incluindo o custo de demolição da Ponte do O e a construção dos acessos do lado de santa Clara.

    A ponte ficou barata – por isso mesmo se recorreu à arquitectura do ferro – mas muitos a achavam feia e pouco digna para aquele local [5]: Contudo, o Mondego e Coimbra mereciam de certo mais e melhor do que se fez. Embora houvesse de dobrar-se a despesa, uma ponte de pedra elegante e de  estylo romano, como aquella que ha poucos annos se concluiu sobre o rio Cavado, perto de Braga, ou uma ponte de estylo gothico florido, como a de Rialto em Veneza, era o que mais conviria ao sitio afamado do Mondego em frente a Coimbra.
    Aproveitemos agora para sair da barca e matar a fome numa qualquer casa de pasto ali para os lados da praça velha, onde as regateiras já não mercadeiam desde que, há oito anos, passaram para a nova praça – o mercado D. Pedro V, que visitaremos no próximo dia.

    Terminado o repasto, voltemos ao largo da Portagem, subamos um pouco a Couraça da Estrela e viajemos no tempo até aos inícios do século XX, para assistirmos à construção do novo paredão que, roubando terreno ao rio, criará condições para a passagem do caminho-de-ferro e para a construção do Parque da Cidade. Fácil será perceber que irá sobrar um tramo da ponte, por sinal, o mais comprido [6]... Irá ele para a sucata? Será reaproveitado? Vamos encontrá-lo no fim da visita. Mas a parte que agora ficar de pé não durará mais que meio século. Será desmantelada em 1954 para dar lugar à nova Ponte de Santa Clara, que durará, pelo menos, até ao século XXI.

    Seguimos agora rio acima, afastando-nos cada vez mais dos limites da cidade, que há muito ficou para trás. O vento está de feição e em breve chegamos à Portela, junto à foz do Ceira. Acostamos a barca e acenamos às lavadeiras que aqui vêm lavar e corar a roupa, aproveitando o branco areal desta zona do rio. Alguma dessa roupa regressará a Coimbra numa barca serrana igual à nossa.

    Mas é hora de voltar ao século XXI, é hora de voltar a 2012!

    Entremos agora na segunda ponte metálica mais antiga de Coimbra – a ponte rodoviária da Portela, a qual podemos visitar a pé, pois que, ainda que abandonada à sua sorte, não aparenta ruína. Inaugurada em 13 de Julho de 1873, foi há poucos anos fechada ao trânsito. Nesse intervalo de tempo, assegurou a ligação entre Coimbra e o interior, através da estrada da Beira, uma estrada que, de acordo com o Guia de Portugal, ostentava em 1940 o n.º 9, o que atesta bem a sua antiguidade. Está hoje à espera que apodreça e caia de vez ao rio. Uma ponte centenária, que nem é feia, a merecer melhor sorte num Portugal que pouca liga aos mais velhos!...

    Olhando para montante do rio, vemos lá no alto a ponte ferroviária do ramal da Lousã – ponte das Carvalhosas – que tem a idade daquele ramal, o qual foi inaugurado a 16 de Dezembro de 1906. Está hoje de cara bem lavada, quase pronta a receber os comboios que se diz que hão-de voltar a passar… só não se sabe quando! Quase pronta, escrevi eu. É que as travessas e os carris já se foram embora e ninguém os substituiu! Não recomendo que vão lá acima ver (é perigoso!). A fotografia diz tudo.

    Mas não vamos acabar a visita de hoje sem dar um salto ali ao lado, à estrada da Conraria, para ver um bom exemplo de reutilização, que me traz à memória o que dizia Lavoisier: na natureza nada se perde nem nada se cria… tudo se transforma. Aquela ponte metálica sobre o Ceira, pintadinha dum verde ecológico, com um gradeamento delicado que tão bem vai com o bucólico do rio… aquela ponte é, nem mais nem menos, o que sobrou da velha ponte de Santa Clara.



    Caros amigos, o dia foi muito longo e ainda temos mais arquitectura do ferro para visitar em Coimbra. Ficará o resto da visita para um segundo dia, em data a anunciar. Obrigado pela vossa atenção.

    Zé Veloso

Agradeço ao António Figueiredo, à Catarina Padez Duarte, ao João Baeta, ao Jorge Oliveira, ao Pedro Rodrigues Costa e ao Ricardo Figueiredo a disponibilização de elementos vários que permitiram compor este "post".

[1]  "Percursos Químicos - À procura da antiga Fábrica do Gás", http://percursosquimicos.blogspot.pt/2010/06/pq-cc-procura-da-antiga-fabrica-do-gas.html
[2]  "Saudades de Coimbra", Vol I, António José Soares, Edição Almedina, 1985
[3]  “A minha velha pasta: tempos de Coimbra e gente do meu tempo, 1896-1901”. Ponta Delgada: Tip. do "Diário dos Açores", 1937.
[4]  Todas a pontes vinham desembocar na portagem e todas foram construídas sobre os alicerces das anteriores. Apenas a actual ponte de Santa Clara (local assinalado no Google) foi construída ligeiramente a montante das anteriores.
[5]  "Escriptos Diversos", Augusto Filipe Simões, Imprensa da Universidade, 1888
[6]  Os tramos da ponte metálica eram desiguais por as fundações dos seus pilares terem aproveitado as fundações dos pilares da ponte de pedra anterior.