sexta-feira, 25 de março de 2011

A CAPA E BATINA VOLTA À RIBALTA

    No rescaldo do Prós e Contras que antecedeu a manifestação da Geração à Rasca, Pacheco Pereira referiu-se aos representantes da AAC naquele fórum como sendo uns tipos vestidos de gafanhoto ou de padres do séc. XVIII. Não gostei da deselegância, já que ninguém precisa de achincalhar as convicções dos outros para defender as suas próprias convicções. E, no entanto…
    A capa e batina, também a mim, apesar do meu passado de estudante de Coimbra, me pareceu algo anacrónica e deslocada naquela plateia do Séc. XXI. E se isto se passou comigo, imagine-se o que não se passará com o comum dos mortais, que vê os estudantes de jeans no seu dia-a-dia, e não entende muito bem por que razão insistem em vestir o “traje académico” – e esta simples denominação diz quase tudo – na Queima das Fitas e mais umas quantas ocasiões. Pensarão que não passa de uma praxe social, tal como vestir um fraque para ir a um casamento ou envergar uma toga para brindar com a Confraria do Vinho do Porto. E, no entanto…
    Tempos houve – até à instauração da República – em que a capa e batina era obrigatória para entrar no Pátio da Universidade, chegando, mesmo – de 1718 e 1834 – a ser condição necessária para um estudante circular na cidade, quer na Alta quer na Baixa. Nessa época ela era um verdadeiro uniforme escolar – o “traje académico”, afinal – acabando por ser abominada como qualquer outro uniforme, até cair em desuso com a implantação da República, para renascer das cinzas na década de 20 – tal como viria a renascer nos anos 80, depois do interregno pós crise académica de 69 e pós 25 de Abril. E, no entanto…
    Ao invés dos dois extremos acima – o “traje-académico-para-as-ocasiões-especiais” e o “traje-académico-por-obrigação” – houve uma época ímpar – dos anos 30 aos anos 60 do século passado – em que a capa e batina era vestida, ao mesmo tempo, com gosto, naturalidade e… necessidade. Gosto de quem se sentia bem a traçar a capa; naturalidade de quem não tinha de ver-se ao espelho pois que, vestindo-a no dia-a-dia, já conhecia a albarda de ginjeira; necessidade de quem tinha na capa e batina o seu melhor e único fato.
    Mas que traje é esse que, à primeira vista, parece de uma incomodidade absoluta mas que tinha, de facto, uma notável capacidade de adaptação a todas as circunstâncias, em todo o lado ficando bem, fosse na sala de aulas ou no banco do jardim, numa celebração académica, num casamento ou numa cerimónia fúnebre?
    Veja-se, a título de exemplo, o que acontecia na Queima do meu tempo: logo quinta- feira à noite, em plena Serenata Monumental, a capa traçada nos defendia do frio cortante das vielas convergentes na Sé Velha. Na noite de sábado, eram os colarinhos à bife e o laço espichado que nos permitiam entrar no baile de gala, capa pelos ombros, disfarçando a batina ainda amarrotada dos apertos da coxia do Teatro Avenida, onde, na noite de sexta, tivera lugar o Sarau. E era com esta mesma indumentária que corríamos à garraiada de domingo. E a mesma capa que servia de manta na praia e servia depois para atiçar o touro, logo na segunda-feira, escorrida pelos ombros, conferia um ar grave e paternal aos quintanistas que vendiam as pastinhas, acompanhados das meninas do Dr. Elísio de Moura. Finalmente, depois de bem pisada nos relvados do Parque da Cidade, servindo de enxerga aos corpos já cansados no final de cada dia, era ainda aquela capa, mil vezes ao ar atirada, o ex-libris do cortejo de terça-feira, enquanto as batinas se travestiam de fraques nos corpos dos cartolados, antecipando-lhes um futuro de prosperidade.
    Tenho vindo a observar, com alguma curiosidade, o renascer da capa e batina, a qual foi considerada nos anos 70 uma espécie em vias de extinção, mesmo em Coimbra, onde a Câmara chegou a promover descontos nos transportes públicos para promoção do seu uso, medida discutível numa época em que os sinais exteriores de riqueza eram tão cobiçados. E o que noto é que, pese embora o ar folclórico e menos genuíno deste “trajar” ou “andar trajado”, os estudantes que o fazem – e não apenas os de Coimbra – evidenciam no gesto um assinalável orgulho.
    Lembro-me de ter visto na televisão,  há já 10 anos, o desfile dos estudantes do Instituto Superior Técnico, de luto pela morte de um seu colega assassinado. Os alunos que seguiam na frente, representando a respectiva Associação, faziam questão de vestir capa e batina. O mesmo tenho visto regularmente em manifestações de alunos de outras Faculdades de Lisboa e demais terras, já sem falar nas Queimas da Fitas, nas Bênçãos das Pastas ou nas tunas universitárias que se multiplicam a cada dia.
    Não há dúvida. A capa e batina extravasou definitivamente Coimbra, não se ficando por pequenos núcleos académicos tradicionais, como Évora ou Santarém, invadiu Lisboa e Porto e consolidou-se como traje académico, ou seja, a vestimenta que o estudante universitário da generalidade das universidades portuguesas usa quando pretende afirmar-se, formalmente, na sua qualidade de estudante.
    Como é evidente, falta ao universitário de hoje alguma cultura sobre as regras ligadas à utilização de um tal traje e, por isso mesmo, os estudantes do IST desfilaram com as abas das batinas abertas, num cortejo de luto!... Talvez aconteça, até, que as batinas que hoje se fazem em Lisboa não tenham casa nem botão na lapela, que as permita fechar em situação de luto; os alfaiates poderão ter pensado que tal casa serviria apenas para pôr um emblema e, sendo assim, uma só casa seria totalmente incapaz de suportar os autênticos “monstruários” de ourivesaria em que se transformaram algumas bandas de batinas que hoje se vêem um pouco por todo o país e sei lá, até, se por Coimbra também! Espero bem que não… e, no entanto…
    Circulou na internet uma Petição Por uma Capa e Batina Negra, a mostrar o desconforto de alguns, em Coimbra, pelas “imparidades” entre o rigor que se exige a quem veste capa e batina e o menor cuidado (ou desrespeito, melhor falando) dos que, simplesmente, “trajam” e se esquecem, quiçá por desconhecimento, do mais a que a capa e batina obriga, nomeadamente quando usada em Coimbra, onde reside a sua origem.
    Mas qual é, então, a origem desse traje ao qual tão bem assenta o adágio popular Quem tem capa sempre escapa? Como o tema dá pano para mangas – fora as bandas e as labitas... – vou ter de me estender por mais algumas crónicas, à maneira das novelas. Não percam os próximos episódios!...
    Zé Veloso
PS: Continua em AS ORIGENS DA CAPA E BATINA, CAPA E BATINA. DA “LOBA” ECLESIÁSTICA À BATINALAICA e CAPA E BATINA. A FÉNIX RENASCE DAS CINZAS 

Nota: A fotografia acima é pessoal e não deverá ser reproduzida.