quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ZECA AFONSO, UMA BANDEIRA DE COIMBRA

    Passam hoje 24 anos sobre a morte de Zeca Afonso.
    24 anos! Como é possível?! Estou a vê-lo entrar no palco para o seu último concerto e arrancar, já sem o fulgor de outros tempos,
        Do Choupal até à lapa
        Foi Coimbra os meus amores
        A sombra da minha capa
        Deu no chão, abriu em flores
para, pouco depois, ter a coragem de cantar, voz embargada pela comoção, a premonitória “Balada do Outono”:
  
        Águas das fontes calai
        Ó ribeiras chorai
        Que eu não volto a cantar
.
    Zeca era, foi, o maior. Todos os outros procuraram imitá-lo, segui-lo, mas de cada vez que o tentavam agarrar ele já não estava no mesmo sítio. A sua incrível intuição musical – Zeca Afonso sabia da música apenas os rudimentos – e o seu apurado sentido poético logo o atiravam mais para a frente.
    Quando a moda era a canção de Coimbra acompanhada à guitarra e à viola, ele surgiu acompanhado apenas pela viola do Rui Pato; quando os demais imitaram as suas baladas acompanhadas à viola, ele surgiu com Maio, maduro Maio, acompanhado pela mini-orquestra e coros dos arranjos do Zé Mário Branco, no mesmo disco em que arriscou lançar uma canção sem acompanhamento algum: Grândola, Vila Morena.
    A saída do LP Cantigas do Maio, cuja novidade não se esgotou ainda, 40 anos depois (!), foi algo que eu costumo comparar ao aparecimento do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Cada um no seu estilo musical, mas o estrondo foi o mesmo: os consagrados rompiam em absoluto com o que até aí tinham feito, mostrando aos mais novos que “velhos são os trapos”.
    Não conheci pessoalmente o Zeca. Ele era da geração de 50, enquanto eu pertenci à de 60. Mas fui colega de músicos que o acompanharam: Rui Pato, “Bóris”, Phil Colaço, 15 anos mais novos do que ele, o que dá bem a ideia da sua juventude de espírito.
    Zeca Afonso não era de modas. Mas ele acabava por fazer a moda, com o seu estilo anti-vedeta. Como não era capaz de decorar as letras – nos tempos em que cantava fado de Coimbra era a malta que lhe fazia de ponto – começou a cantar com a letra escarrapachada num tripé à sua frente… e a moda pegou. O que até aí era parolo passou a ser chique!
    Sobre o Zeca Afonso muito foi dito e escrito. Mas tem ficado esquecida a sua ligação à Briosa. Zeca Afonso jogou um ou dois anos na equipa B dos juniores da Académica, nos finais da década de 40, a extremo-direito e a interior-esquerdo. Como ele próprio confessou numa entrevista que deu a José A. Salvador poucos anos antes de morrer, foi sempre extremamente irregular: sem saber népia metia assim um golo… mas no desafio seguinte jogava pouco. Não aguentava mais que vinte minutos de jogo.
Pergunta o jornalista: - E se a Académica ia jogar fora, também ias? – É claro. – E se havia porrada no campo? – Considerava uma obrigação, um dever, quase um autêntico juramento, uma autêntica profissão de fé defender a chamada Briosa. E, quando o entrevistador lhe pergunta: – Mas o que te marcou em Coimbra? - responde o mesmo que eu e muitos outros teríamos respondido: – Essa atmosfera romântica e irreverente ao mesmo tempo.
    Depois de Abril, Zeca Afonso passou ainda mais a património nacional e foi bandeira de muitas causas. O seu espírito desprendido, ingénuo, anarquista, revolucionário, “o rosto da utopia” como lhe chamou José Salvador, levou a que se entregasse sem nada pedir em troca às mais diversas causas, tornando-se o patrono dos mais fracos.
    Não admira, por isso, que muitos se apropriassem da sua imagem; e muitos são aqueles que hoje reclamam Zeca Afonso para o seu lado. Mas é bom não esquecer que Zeca foi, antes de mais, um produto de Coimbra e da sua Academia! E é para essa Coimbra e para essa Academia que eu o reclamo.
    Zeca Afonso é vinho da mesma cepa que produziu as gerações solidárias de estudantes da Coimbra dos anos 50 e 60, aquelas gerações que - como escreveu Amadeu Homem num comentário que li no Facebook – partilhavam quase tudo, menos as namoradas.
    O Zeca nunca esqueceu Coimbra e a sua Academia. E nunca as renegou, mesmo que se tenha referido posteriormente aos seus tempos de estúrdia coimbrã com algum distanciamento crítico. Por isso, ao dar no Coliseu de Lisboa o seu último espectáculo, o concerto em que revisitou toda a sua vida artística, fez questão de abri-lo com uma guitarrada de Coimbra, tocada por antigos estudantes de Coimbra, capas negras pelos ombros, numa época (1983) em que nem todos tinham coragem de assumir esse passado que, à altura, era frequentemente tido por reaccionário.
    Zé Veloso

domingo, 6 de fevereiro de 2011

BENTES OU VENTES?

    Dizia-se, no meu tempo, que era em Coimbra que melhor se falava o Português. Não admira que assim fosse e julgo que ainda assim será. Coimbra é uma terra de cultura. Para além disso, é uma terra de passagem, não longe do centro demográfico de Portugal continental. Logo, o português que nela se fala deve ser o mais representativo do país. Em Coimbra não se usa a pronúncia do Norte, nem a de Bijeu, não se diz mensa como em Lisboa, não se diz compádriii como no Alentejo, nem se fala cantando, como acontece em muitas outras terras. A pronúncia de Coimbra não é pronúncia, é o padrão. É como a água pura, cristalina, incolor, insípida e inodora, com densidade 1 a 4 graus centígrados e fervendo a 100 quando à pressão normal.
    Mas se a pureza da língua era um facto nas gentes de Coimbra, não é menos verdade que as populações rurais dos arredores costumavam trocar os vv pelos bb, tal como é característico do Norte. Mas também aí havia excepções. Recordo que na quinta onde nasci e vivi a meninice havia um criado da lavoura, de nome César, que fazia gala em falar bem, gabando-se de nunca trocar os vv pelos bb, não fosse ele de Ançã, ali tão perto de Coimbra, e adepto da Académica.
    Foi com ele que aprendi a admirar o Ventes, numa altura em que pouco ligava ao futebol, já que os relatos do hóquei em patins eram muito mais emocionantes e as finais tinham um saborzinho a Aljubarrota – embora, no caso do hóquei, a táctica do quadrado tenha vindo de Castela!...
    Mas voltemos ao Ventes. Aos domingos jogava-se o futebol e às segundas lá vinha o César, doido pela Académica, clube dos estudantes bem-falantes a que ele pertencia por direito próprio – por nunca trocar os vv pelos bb – lá vinha o César gabar os golos e as jogadas do Ventes
    Não foi apenas ao César que o Ventes enfeitiçou. Enfeitiçou a muitos mais. A sua magia ficou nos olhos de quantos o viram jogar, ou de quantos, como o César, não o tendo nunca visto, apenas o puderam imaginar.
    Como diria o poeta, melhor é experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não puder experimentá-lo. E já que entrámos pelo campo da poesia, deixo-vos com a Balada do Bentes, de Manuel Alegre (Nota). Quem nunca o viu jogar… que o julgue agora.
                Nem tudo era só bota de elástico
                havia alguém capaz de alguns repentes
                a fuga para a frente e o fantástico
                a festa e a alegria: havia o Bentes.
                Ele fintava ele driblava ele ganhava
                os jogos que ninguém nos consentia.
                Era a Académica e a aventura era a palavra
                que de súbito golo se fazia
                quando corria pela esquerda e nos levava
                nas jogadas da sua fantasia.
                No tempo devagar ele era a pressa
                trazia o imprevisto e o inesperado
                um golo de pé esquerdo ou de cabeça
                que virava o domingo e o resultado.
                Ele avançava sem pedir licença
                contra a rotina o tédio a vida anémica
                era a ousadia e a diferença
                ele era outra maneira – era a Académica.
                Fosse o Porto o Sporting o Benfica
                ele era o que rompia.
                De seus dribles nasciam as serpentes
                como o poema o seu jogo não se explica
                ele era a fantasia
                ele era o Bentes.
    António Bentes – o “rato atómico”, como carinhosamente era conhecido pelos adeptos da Briosa – faleceu com 75 anos a 6 de Fevereiro de 2003. É sua a frase O meu primeiro clube é, como toda a gente sabe, a Académica. O segundo, as reservas da Académica. E o terceiro, os juniores da Académica.
    Zé Veloso

Nota: Poema escrito para o livro ACADÉMICA, da AAC (OAF) e da Casa da Académica em Lisboa, editado em 1995.
Foto acima: Equipa da Académia de 1955-56.