quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A TOMADA DA BASTILHA

Coimbra, 25 de Novembro de 1920!
    6 e 45 da matina. A Alta é abalada pelo estrondo dum morteiro. Para o grupo de conjurados que tomaram de assalto a torre da Universidade, capitaneados pelo Passarinho, estudante de Medicina e jogador da Académica, é o sinal esperado. Há que trazer para a rua a Academia, para que os outros conjurados, que a esta hora terão já forçado a entrada no Clube dos Lentes, possam cumprir em segurança o resto do plano. Cabra a cabrão entram num trinado frenético que acorda toda a Coimbra, ainda mal refeita do estoiro de há momentos, enquanto uma capa negra é desfraldada no mastro da torre. Da varanda do Clube dos Lentes sai uma salva de 101 tiros!
    O primeiro frémito é de sobressalto: – Aí vem outra revolução! – Acodem todos à Rua Larga, no coração da velha Alta. O segundo é já de regozijo. Pelas portas e janelas do antigo Colégio de S. Paulo Eremita saem os trastes do Clube dos Lentes, para dar lugar à nova sede da Associação Académica de Coimbra, ali mesmo nas barbas do Governo Civil e sem que as autoridades pudessem ter mexido um dedo. Deus ajuda quem madruga…
    A Academia voltava assim a ter instalações condignas, depois de um período de 30 anos em bolandas, metade do tempo que durara a ocupação filipina (também essa, corrida pelos 40 conjurados de 1640), já que a impaciência da juventude não permitiu esperar tanto para correr com os opressores.
    Mas os 40 conjurados de 1920 não param. Apesar de terem sido obrigados a antecipar o golpe, inicialmente previsto para o simbólico dia 1 de Dezembro, por receio de que a Reitoria estivesse a par das movimentações, eles sabem o que fazer a seguir. Não basta defenestrar os Miguéis de Vasconcelos de agora, há que obter o reconhecimento de jure da situação.
    Reúnem a Assembleia Magna, decreta-se a posse das instalações e saem de imediato telegramas para o poder em Lisboa, a quem se comunica, com a maior das naturalidades, que, finalmente, os estudantes estão bem instalados na sua nova sede e «Viva a República, que muitas glórias há-de dar a Portugal»!
    Perante tal desfaçatez, ninguém desconfia. E é aí que Presidente da República, Presidente do Conselho e Ministro da Instrução respondem aos telegramas agradecendo a deferência da notícia em primeira mão e felicitando a Academia, por lhe ter sido outorgada tão antiga reivindicação. O Reitor de então, pessoa simpática, por sinal, fica completamente desarmado.
    Mas, não fosse o diabo tecê-las, havia que manter mobilizada a cidade e a Academia até ao dia seguinte. E assim se organiza da Alta à Baixa um monumental cortejo de archotes que iluminam Coimbra pela noite adentro. E bem avisados estavam os conjurados, já que nessa mesma noite vários estudantes foram presos por gritarem Viva a Academia!, sendo que os ouvidos da polícia estavam educados para considerar que vivas terminando em ia só poderiam ser vivas à Monarquia.
    Estes factos, que chegam até hoje cheios de um burlesco que nos faz sorrir, não devem esconder que a Tomada da Bastilha foi um acto de coragem de um grupo de estudantes que se arriscou a pesadas penas, tais como o "ser riscado" da Universidade, para que os estudantes de Coimbra tivessem hoje a Associação que têm. Porque foi precisamente este assalto que permitiu à Academia passar a desfrutar de amplas instalações que, ao serem desmanteladas em 1949, aquando da demolição da velha Alta, obrigaram à promessa de construção das actuais.
    A Tomada da Bastilha já foi feriado académico, antes e depois do 25 de Abril. A sua comemoração, proibida pelo regime anterior, já foi pretexto para reuniões de contestação política que juntaram todas as academias universitárias do país. O feito é comemorado todos os anos com pompa e circunstância no Casino do Estoril, pela AAECL… mas, na Coimbra de hoje, quase caiu no esquecimento.
    Coimbra é assim! Deita fora o seu potencial histórico. Coimbra é mais valorizada por quem está fora do que por quem está dentro. Não fossem duas breves referências na página da AAC no Facebook e não se daria pela Tomada da Bastilha. Basta olhar as fotografias para perceber que as comemorações na noite de 24 para 25 não conseguiram mobilizar mais do que uma ou duas centenas de estudantes (o meu abraço para eles!) numa academia que tem hoje para cima de 20.000!
    É para que a memória se não apague que aqui evoco os heróis da Tomada da Bastilha, a começar pelos cabecilhas da “revolta”: Alfredo Fernandes Martins (Direito), apontado como o principal obreiro, Padre Paulo Evaristo Alves (D), seu principal ajudante, Augusto da Fonseca Junior, o Passarinho (Medicina); João Rocha (M) e Pompeu Cardoso (M).
    Diz-se que os conjurados eram 40! Mas António José Soares só encontrou o rasto a 39… Aqui ficam mais abaixo os seus nomes e a fotografia para a posteridade. Talvez algum leitor do blogue encontre por aí um seu antepassado.
    No plano superior, da esquerda para a direita, João Gonçalves Valente (M), José Nascimento de Sousa (M), José Lopes Dias (M), José Afonso de Matos (M), Mário Celorico Drago (M), Acácio Barata Lima (M), Manuel Pedro Nolasco (D), Daniel Brazão machado (M) e Henrique Valente de Pinho (M).
    No plano intermédio, Fernandes Martins (D), P. Paulo Evaristo Alves (D), Jacinto Gomes Henriques (M), João Lacerda Pereira Rocha (M), Augusto Fonseca Junior (M), António Gomes de Pina (D), estudante não identificado, João Nabinho Amaral (M), António Geraldes Coelho (M), Martins de Carvalho (M), Jacob Correia (M), Silvino de Sousa (D), Artur Alberto Coelho (D), Pompeu Cardoso (M), Juvenal Silva Carvalho (D), estudante não identificado, Armindo Maio dos Santos (D), Joaquim Cunha Guimarães (M), estudante não identificado e Augusto Vitor Neves (Ciências).
    No primeiro plano, estudante não identificado, Albino Rodrigues de Sousa (M), Severo Figueiredo (D), António Rocha S. Miguel (M), Antero Lucena e Vale (D), Manuel Branco de Melo (D) e estudante não identificado.
    Não figuram na foto mas tomaram parte: Luís Gonzaga Peixoto (D), Gaspar Sameiro (D) e Joaquim Costa Reis (D).
    Zé Veloso

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

QUANDO O MONDEGO E A ALTA CRIARAM COIMBRA...

    Se Coimbra teve uma Mãe, essa mãe foi a Alta. De facto, foi na Alta que germinou o primeiro embrião de vida do que viria a ser Coimbra, vai para milhares de anos; foi dentro das entranhas da Alta que Coimbra viveu os primeiros tempos; e, quando, já mais crescidinha, a menina se atreveu a sair para o arrabalde – a Baixa – era sempre debaixo das saias da mãe, ou seja, dentro das muralhas da Alta, que vinha acolher-se aquando das investidas das sucessivas hordas invasoras.
    Mas se Coimbra teve uma Mãe, deve ter tido também um Pai. E aí é que a porca torce o rabo, confirmando a máxima de que "a mãe é sempre certa, mas o pai nunca se sabe... " Para dificultar esta questão, Coimbra é tão antiga que o seu registo de nascimento se perdeu na voragem da história, não se encontrando hoje vestígios da época pré-romana. Resta-nos, pois, ir à procura do pai pelos indícios.
    Olhando em volta e procurando nas coscuvilhices das redondezas, não vejo outro candidato a Pai que não seja o Mondego, ainda que o maroto – que à época era muito mais vivo do que é hoje e, por certo, teria outros amores entre as serranias e o mar – nunca a tenha perfilhado. Mas os indícios são muitos. Se não, vejamos:
    • a Alta e o Mondego namoram desde a Antiguidade, ele cantando-lhe à porta, ela acenando-lhe lá do alto;
    • quando mais novo, eram frequentes as investidas do rio ao sopé da Alta – dizem os registos que as cheias chegavam ao altar-mor da Igreja de Santa Cruz – como frequentes eram os seus amuos, quase desaparecendo da vista da sua amada na época do estio;
    • já com a filha crescida e desempenada, Mondego e Alta atingiram o período de acalmia, ele enroscado aos pés dela, espreguiçando-se ao sol, enquanto ela nele revê, espelhada, a sua vaidade de grande senhora;
    • last but not the least, à noite, depois de terminado o bulício e apagadas que são as luzes, continuam a dormir juntos.
    Aliás, o povo não costuma enganar-se e por alguma razão se chama a Coimbra Cidade do Mondego e não à Figueira da Foz ou a outras terras ribeirinhas, remetidas ao estatuto secundário de meras amantes.
    Passadas que estão as conjecturas de alcova, vamos aos factos históricos. O que levou a que Coimbra tivesse um desenvolvimento superior ao das outras povoações resultantes da fecundação do Mondego, desenvolvimento este que é muito anterior à instalação da Universidade e à própria nacionalidade e que viria a fazer de Coimbra a capital do reino, de Afonso Henriques a Afonso III?
    A resposta é curiosa: ser um local de passagem, tanto terrestre (N-S) como fluvial (E-O), por vontade e culpa dos seus paizinhos: a Alta e o Mondego.
    Comecemos pela passagem terrestre.
    Desde a Antiguidade que quem se deslocava na faixa costeira entre o norte e o sul do território que dá hoje pelo nome de Portugal, tinha que fazê-lo passando por Coimbra. Por nascente de Coimbra não dava: tudo é serrania, a começar pelas serras do Roxo, Lousã, Buçaco e por aí fora; é na Alta de Coimbra que a serra começa. Por ocidente, a travessia do Mondego tornava-se imprevisível, dadas as cheias que alagavam o vale em cada Inverno. Por tais razões, Coimbra, junto ao Largo da Portagem (onde a dita era paga pelas mercadorias que entravam na cidade), sempre foi o melhor local de atravessamento do Mondego.
    Isso mesmo acontecia ainda há três décadas, antes de terminada a A1, a qual, para fugir a Coimbra, obrigou à construção de um extenso viaduto sobre os campos do Mondego. Isso mesmo tinham já descoberto os melhores engenheiros de estradas da Antiguidade, vindos de Roma, que fizeram passar pelo Largo da Portagem, em Emínio (Coimbra), a célebre estrada que unia Olisipo (Lisboa) a Bracara (Braga), passando igualmente por Conimbriga.
    E quanto à passagem fluvial?
   Numa época em que o leito do Mondego era mais profundo, Coimbra foi um importante porto fluvial. Do interior das Beiras, os produtos eram escoados via Mondego pelas barcas serranas, das quais não resta hoje qualquer espécime original. Mas o que talvez muitos não saibam é que foi na foz do Mondego que se cobraram à navegação estrangeira os primeiros direitos aduaneiros portugueses e que já em 1145 – 2 anos antes da conquista de Lisboa! – as posturas municipais de Coimbra taxavam o preço da pimenta, sendo Coimbra o primeiro porto português em comunicação com o comércio do Oriente, conforme nos conta Jaime Cortesão no Guia de Portugal.
    É frequente ouvir-se o lamento de que Coimbra tem sido essencialmente um local de passagem (de gerações e gerações de estudantes), não fixando nem gentes nem indústria, nem o mais que traz riqueza. É uma sábia lamentação, mas é inútil. A grandeza de Coimbra sempre se deveu, precisamente, ao facto de ser um local de passagem! Tiremos partido disso, já que quem por Coimbra passa raramente dela se esquece.
    Zé Veloso

terça-feira, 2 de novembro de 2010

POR QUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA? (Parte III)

    Vimos nos posts anteriores (vide Nota no final) que, no seio da Academia de Coimbra nos idos de 1888, os polainas ou polainudos chamavam aos mais modestos e menos bem trajados, os briosos, Academia Briosa, ou Briosa simplesmente. Resta perceber como é que este epíteto de Briosa se colou à equipa de futebol da Académica, a qual só viria a ter o seu primeiro jogo oficial em 28 de Janeiro de 1912, quase três décadas passadas sobre os tumultos no Teatro da Trindade e a saída da Niveleida.
    Mas é aí que a porca torce o rabo. Ainda que muito tenha procurado, pouco encontrei que faça uma ligação segura entre aquelas datas e os anos 40 do Séc. passado, o que é, de facto, intrigante e sugere que o termo Briosa tenha estado meio-esquecido ou tenha sido muito pouco utilizado durante algumas décadas.
    Passando em revista entrevistas a antigos jogadores e recortes de jornais que aparecem transcritos em livros sobre a nossa Académica de antanho, a palavra Briosa nunca é referida – ou se o é não dei por ela – preferindo-se antes epítetos tais como os estudantes e o team académico. Os próprios livros de António José Soares, que retratam, mês a mês, a Coimbra Académica da primeira metade do Séc. XX, não referem uma única vez aquela palavra mágica!
    No entanto…
    … Octávio Abrunhosa, pai do músico Pedro Abrunhosa, que cursou Direito entre 1945 e 1951, conta no seu livro de memórias A Academia tinha o seu grupo de futebol, a chamada Associação Académica de Coimbra, a Briosa, como era vulgarmente conhecida…
    … e Eduardo Lourenço, que viveu perto do campo de Santa Cruz na década de 40, escreveu para o livro A Académica um texto inédito sobre a sua passagem por Coimbra, onde refere A Académica ou como diziam os castiços, a Briosa…, afirmação que leva a pensar que o termo Briosa, ainda que não sendo utilizado correntemente naquela época, era um termo com origens num passado mais longínquo, mais arreigado à raiz das coisas…, algo que os castiços se encarregavam de não deixar cair em desuso!
    É baseado nestes testemunhos – e ainda na singularidade de a palavra Briosa ter servido para designar uma parte da Academia meio século antes – que me atrevo a deixar aqui duas hipóteses de explicação, que manterei como boas até que factos novos as venham contradizer.
    A primeira é que, uma vez criada a AAC em 1887, o nome Briosa se lhe tenha de alguma forma colado, fosse porque os seus dirigentes estavam entre aqueles que se opuseram aos polainudos fosse porque a estudantada que aderiu à AAC incluía a arraia miúda, a denominada Academia Briosa.
    Para que esta hipótese fique fechada, falta ainda explicar como é que o nome de Briosa, depois de ter servido para designar uma boa parte da Academia e, eventualmente, a própria AAC, teria passado a aplicar-se apenas à sua equipa de Futebol! Mas se nos lembramos de que, durante décadas, aquela equipa foi a face mais visível e emblemática da Academia de Coimbra por todo esse país fora, a hipótese faz algum sentido.
    A segunda hipótese é mais engenhosa… e bem mais romântica!
    Se procurarmos quais os desportos praticados pelos académicos de Coimbra no primeiro quartel do Séc. XX, encontraremos o ténis, a esgrima, a equitação, a ginástica, o tiro, o remo, a natação, o ciclismo, a luta greco-romana, o atletismo, o basquetebol e... o futebol.
    E agora pergunto: – Qual destes desportos é o mais simples e o mais “básico”, qual deles se poderia jogar com menos meios, com menos iniciação técnica, com menos dinheiro, necessitando apenas de uma bola (a dividir por 22) e de um terreno plano, mesmo que fosse a Praça da República (à época Largo de D. Luís)? E qual daqueles desportos seria o mais apropriado para juntar uma equipa de comparsas que através da união fizessem a força e se afirmassem perante os demais?
    É claro que é o futebol! E se não foi a equipa de futebol da Académica a chamar para si própria o nome de Briosa, poderiam ter sido os colegas polainudos das modalidades mais elitistas ou, até, os adversários, a botar-lho.
    É curioso notar que, em qualquer das hipóteses, o epíteto de Briosa, inicialmente com um âmbito mais lato, foi como que capturado pela equipa de futebol da Académica. Se nos lembrarmos que o emblema que foi desenhado para a equipa de futebol é hoje o emblema de toda a Academia, poderemos dizer que as contas estão saldadas!
    Comecei esta série de posts chamando a atenção para a visibilidade crescente da denominação Briosa. É hoje claro que, sobretudo entre a malta nova, a Briosa se tornou mais popular do que a Académica. Basta olhar a blogosfera e o Facebook. É um fenómeno que me parece não acontecer por acaso: numa altura em que a equipa da Académica se torna cada vez menos académica – o jogador-estudante não passa já de uma miragem – a malta agarra-se a outros paradigmas, a outros ícones. E o jogador brioso surge como sucedâneo natural do jogador-estudante.
    E assim voltamos, de alguma forma, às nossas origens. Porque o brio sempre foi apanágio dos bons estudantes. É preciso é que a Académica – a Briosa – continue a ser briosa!
    Zé Veloso
PS – Chegou-me há alguns anos a informação de que teria sido Cândido de Oliveira quem lançou o nome Briosa, ao vir para Coimbra treinar a Académica em 1955/56. Tal não é compatível com os textos que acima transcrevi. Mas mestre Cândido poderia ter ajudado a reavivar um epíteto que já então existia.

Nota: O tema PORQUE É QUE A BRIOSA É BRIOSA é tratado em 3 crónicas sequenciais: Parte I, Parte II e Parte III.