sábado, 26 de junho de 2010

FOGUEIRAS DE S. JOÃO

    Celebrou-se na noite passada o S. João no Porto, com o povo na rua, alho-porro, erva-cidreira, martelinhos, algazarra, eu sei lá que mais. De Coimbra chegam-me os ecos do costume: meia dúzia de “fogueiras”, que não chegam para ser notícia de jornal. E, no entanto…
    Até meados do século passado, o S. João tinha em Coimbra uma grande tradição. Mais lógico me pareceria que se festejasse o Santo António, santo que fez os seus estudos no Convento de Santa Cruz, antes de partir para Lisboa e de ter chegado a Pádua, e que se diz que terá passado algum tempo no Mosteiro dos Olivais.

    Mas não! As preferências iam para o S. João, esse santo casamenteiro a quem as raparigas confiavam a escolha de um bom marido, perito em "desencalhar" as que se sentissem desesperadas, como se deduz desta deliciosa e bem antiga quadra:

                    Ó meu rico S. João,
                    Casai-me, que bem sabeis:
                    O casar é aos catorze
                    Eu já tenho dezasseis...
    S. João é um santo folião, eu diria mesmo, um santo “desencaminhador”, cujas festividades misturam ritos ligados à figura de S. João Baptista com ritos pagãos herdados das celebrações do solstício de Verão.

    Recordo-me bem do pátio da casa onde nasci, em Ançã, onde na noite de S. João se saltava por cima duma fogueira – enorme para as minhas pernas de garoto – e se dançava de roda, encadeando os braços, ao som das quadras matreiras do santo:
                    Fogueiras do S. João
                    N
o que elas vieram dar
                   
Roubaram-me o meu amor
                   
Na maior força de amar.
    Mas nas fogueiras do S. João no interior da cidade de Coimbra, há muito que não havia fogueira alguma com lenha e fogo vivo. Pelos anos 40 a 60 do século passado, as fogueiras eram essencialmente arraiais onde se dançava ao ar livre, com danças marcadas por um "mandador". Quando o "mandador" folgava para molhar o bico ou tratar de outras precisões, era a altura da malta "dançar agarrado", modalidade menos espectacular para os mirones mas muito do agrado de quem estava ali para tentar a sua sorte. Célebres eram as fogueiras do Bairro de Celas, onde o "povo Salatina" foi realojado depois da destruição da Velha Alta. O arraial ocupava todo o largo redondo no meio do bairro, onde pontificava a imagem de S. João Evangelista, de cuja coroa saíam - como raios de Sol - os festões enfeitados que partiam em direcção ao casario circundante. Recordam-me alguns amigos que o largo era inclinado, o que não facilitava que a mole humana fizesse a roda mas sempre desculpava alguns desequilíbrios mais afoitos aquando da "dança agarrada".

    Indo mais atrás, à segunda metade do Séc. XIX, fossem elas na Alta, na Baixa ou no Calhabé, as fogueiras são-nos descritas como um conjunto de postes colocados em redor de um outro, ao centro e mais alto, ornamentados com buxos de verdura e festões, donde pendiam balões venezianos, sendo o conjunto iluminado por bicos de gás ou candeeiros de petróleo. Ali se "prantavam" os tocadores – viola, violão, guitarra, harmónio, ferrinhos, castanholas… – e um "mandador" a quem cabia marcar a coreografia das danças enquanto, no dizer de Trindade Coelho, andava a cachopada numa roda-viva nos braços dos estudantes, e os estudantes numa roda-viva nos braços da cachopada.
    As fogueiras eram a festa das tricanas. Elas é que organizavam, punham e dispunham. Elas eram as rainhas da festa e, lá mais pelos calores adentro, eram também a causa das zaragatas em que fatalmente as fogueiras haveriam de terminar, por mor das arremetidas dos estudantes, dos risinhos folgados das tricanas e da ciumeira dos futricas.
    As letras das músicas que se cantavam e dançavam chegaram até nós em livros da época e, mais recentemente, foram compiladas numa edição da C.M.C. (ver Nota 1). Mas é interessante que algumas delas aparecem também em fados de Coimbra que ainda hoje se cantam. À primeira vista parecem quadras soltas, sem qualquer sequência. Mas, se repararmos melhor, notaremos que elas retratam as tensões existentes no triângulo amoroso "estudantes – tricanas – futricas". E, com um pouco de fantasia, poderemos até imaginá-las como fazendo parte de uma desgarrada onde as três partes se iam mutuamente provocando.
    Por exemplo, a conhecida quadra:
                    O amor do estudante
                    Não dura mais que uma hora
                    Toca o sino, vai prà aula
                    Vêm as férias, vai-se embora...
... é claramente uma provocação ou um aviso de um futrica para uma tricana. Perante o desafio, responde a tricana, com soberba:
                    O meu amor é estudante
                   
Estudante de Latim
                   
Se ele se chegar a formar
                   
Ninguém tenha dó de mim...
... ainda que não deixe de confessar quanto o amor do estudante a traz cativa e a faz sofrer:
                    Amor como o de estudante
                    N
ão há outro não há não
                    L
eva toda a nossa vida
                    R
ouba o nosso coração.
    E quando o estudante se procura justificar perante a cidade:
                    Ó cidade de Coimbra
                    A
rrasada sejas tu
                    C
om beijinhos e abraços
                    N
ão te quero mal nenhum...
... logo um futrica, despeitado, contra-ataca e deita uma acha mais para a fogueira:
                    As tricanas todo o ano
                    V
ão plantar os seus amores
                    L
á no jardim do engano:
                    N
o coração dos doutores.
   A batalha aquece. O verniz está quase a estalar. Mas o estudante não desarma e vira-se para a tricana com voz insinuante:
                    Eu vim a Coimbra ao estudo
                    C
om tenções de me formar
                    A
penas vi os teus olhos
                    N
unca mais pude estudar...
... e quando a tricana se solta, ardente e graciosa:
                    Ó amor dá-me os teus braços
                    Q
ue eu dou-te o meu coração
                    A
ndo louca por abraços
                    F
ogueiras de S. João...
... a desordem está armada. Sai murro seco entre os homens, enquanto o mulherio acode pelos de fora e se delicia com o espectáculo.

    E vai-se depois até à Fonte do Castanheiro, hoje completamente ao abandono, no arrabalde da Arregaça. Era lá que todas as fogueiras se juntavam no final da folia. E ninguém mais se deitava antes que o sol raiasse, fazendo jus à expressão “noite de S. João”. Nas Memórias do Mata Carochas, conta-se que, ali chegados, todos faziam libações e abluções e os rapazes arrancavam canas bravas, davam-nas às raparigas e voltava-se no mesmo entusiasmo, em procissão da Cana Verde.
    Dizia a tradição que, naquela noite, as águas da Fonte do Castanheiro eram abençoadas, tal como os orvalhos e ervas várias, possuindo virtudes e poderes mágicos. Mas havia que aproveitar bem a noite... já que as virtudes daquela água só duravam até ao raiar do Sol. E que virtudes, Deus meu! Escreve Octaviano Sá que aquela era a água milagrosa, que traz noivo às raparigas!
                    Lembras-te ainda, Maria
                    D
a noite de S. João?
                    T
u contavas as estrelas
                    E
u as areias do chão.
    Zé Veloso
PS1: Esta crónica foi publicada inicialmente em 26 Jun 2010, tendo sido revista e acrescentada em 26 Jun 2011.
PS2: No primeiro Comentário a este post registei alguma informação adicional sobre as quadras utilizadas.
Nota 1: Fogueiras de S. João, o que elas vieram dar..., um estudo etnomusicológico das fogueiras de Coimbra, de Avelino Rodrigues Correia.

domingo, 13 de junho de 2010

O CARROSSEL - MAIS UMA CORRIDA! MAIS UMA VIAGEM!

    Andava eu no D. João III e vivia na Cumeada, na "casa verde", que ainda hoje lá está, igualzinha, e que nem sequer mudou de cor. À noite pouco havia que fazer e, diga-se em abono da verdade, as trupes que por ali vadiavam não nos permitiam ir muito além do Madeira, café de bilhares onde se deixavam umas coroas a jogar à pool, enquanto o João Villaret e o Dr. Raul Machado nos ensinavam a bem dizer e escrever a língua portuguesa, numa televisão – ainda a preto e branco – que não era suposto fazer parte do recheio de uma casa de família.
    Mas depois da Queima as coisas mudavam. Iam-se as trupes, vinha o picadeiro na Afonso Henriques, num vaivém constante entre Marrocos – que, no dizer da malta, "era para ali" – e o outro extremo da avenida. E vinha o Espírito Santo, arraial herdeiro de tradições centenárias que todos os anos assentava praça junto à Igreja de Santo António dos Olivais.
    O arraial não tinha muita coisa. Visto à distância de umas décadas, era até pequeno. Mas respirava vida e agitação, e sentia-se o seu pulsar mal os ecos dos altifalantes nos chegavam aos ouvidos, ainda íamos nós no campo do Olivais.
    Logo à entrada estava o carrossel, que mais parecia uma enorme saia ondulante de cigana rodando sempre, sempre, sem parar, ora subindo ora descendo, até entontecer de vez. Girafas, cavalos, zebras e burros, disciplinadamente lado a lado, alinhados por alturas, levavam as fantasias da rapaziada serra acima serra abaixo, enquanto os mais afoitos erguiam um punho de raiva no alto do monte mais alto para socar uma bola de futebol que rapidamente subia ao céu. E quando soava um apito de árbitro, como no final dos jogos, havia sempre mais 3 voltas de graça para gáudio da populaça, enquanto o gerente puxava do microfone e berrava para os clientes na bicha da entrada: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    E a malta lá ia encher a barriga para outro lado, mas não havia muito mais para onde ir: barracas de tiro de miras vesgas (Ó cavalheiro, vai um tirinho?), tômbolas que davam tachos de alumínio, furgonetas que vendiam bolacha americana e malaqueco, farturas e manjar branco. Feirantes de banha-da-cobra, um fotógrafo "à-la-minuta" com cenários de buraco para enfiar a cabeça, uma banca com garrafas de Porto para ver quem enfia a argola no gargalo e, para remate da noite, uns carrinhos de choque tão manhosos, que a maior festa era ver os moços de estoque a desembaraçar as molhadas de carros que se engalfinhavam na pista, como uma matilha de cães cheirando o cio de uma cadela vadia.
    Ah, havia mais! Esqueci duas fiadas de tendas onde se vendiam bugigangas de toda a sorte, desde que fossem de madeira, barro ou lata, pois que à época o brinquedo de plástico ensaiava os primeiros passos e, quando muito, dizia-se que era "de baquelite". Mas fosse o que fosse que vendessem, sempre havia uma fila interminável de Zés-povinhos, também eles alinhados por alturas, como na tropa, disparando manguitos em formatura, qual exército malcriado apresentando armas a um general de costas.
    Mas o Espírito Santo também se modernizou. Veio um poço da morte que roncava como um trovão. Cá fora, os filhos do artista exibiam a masculinidade em tronco nu e as motas destilavam a arrogância dos seus escapes abertos. Lá dentro, o verdadeiro artista nacional, um pai de família calvo e de bigodes farfalhudos, desafiava a gravidade rodopiando com a filha aos ombros, sem mãos e de olhos vendados, dentes cerrados sobre um galhardete da Académica e uma bandeirinha verde-rubra.
    Mas veio mais. Veio um carrossel novo que se "prantou" ao pé do outro, fazendo-lhe negaças. Era rápido, tinha luzes no tecto e a pista fazia um oito de meter medo. Passava-se por baixo numa descida de vertigem que nem tempo deixava para fixar a fugaz imagem de uns socquettes brancos, mal adivinhados no tropel que corria pelo andar de cima. Mais ainda! Tinha várias bolas de futebol, o que dava para libertar muito mais adrenalina, coisa importante em época de exames.
    É claro que a malta se mudou de clube e o velho carrossel ali ficou, para avós e netas e mais para criadinhas de servir ainda amedrontadas com tanta zonzaria. E enquanto a malta corria já a 7 no carrossel em oito, o gerente do carrossel despromovido desesperava para um microfone envolto num lenço de tabaqueira: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    O arraial do Espírito Santo, que eu e muitos outros conhecemos, acabou já. Nem o carrossel novo o salvou. Foi perdendo velocidade ao longo dos anos até cair no fundo da sua atracção mais arrojada, o poço da morte. Pelas notícias que me chegam, o que hoje existe em seu nome já não é a mesma coisa.
    É a vida! As coisas nascem, crescem e morrem, tal como as pessoas. Mas continuam vivendo na nossa memória. Vamos lá, malta: – Mais uma corrida! Mais uma viagem!
    Zé Veloso

Lá onde era o Espírito Santo... hoje passa o progresso.


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quinta-feira, 3 de junho de 2010

RECORDAÇÕES DO PENEDO

    Coimbra, 19 de Julho de 1955 – Os cruzados à vista do Santo Sepulcro não deviam sentir emoção maior do que um magote de garotos da aldeia, que vieram fazer exame, ao descobrirem há pouco do Penedo da Saudade o relvado do campo de futebol, no Estádio Municipal. Só faltou ajoelharem-se dentro do eléctrico.
    Para se entender o texto acima, retirado do Diário VII de Miguel Torga, é preciso estar familiarizado quer com a geografia da cidade de Coimbra quer com o sistema de ensino que imperava àquela data. Nos anos 50, a entrada para o 1º ano dos liceus (hoje 5ª classe) era antecedida de um exame de admissão, que trazia a Coimbra miudagem das aldeias que, nalguns casos, era a primeira vez que andavam de eléctrico, subindo da baixa no 3 e passando no Penedo da Saudade a caminho do Liceu D. João III (hoje Liceu José falcão).
    Foi este mesmo trajecto que resolvi fazer um dia destes, numa romagem a Coimbra. Apontei da Praça da República até aos Arcos do Jardim e segui, a partir daí, o trajecto do antigo 3, Cumeada acima. Ao chegar ao Penedo, parei o carro na meia laranja onde o 3 se quedava uns minutos à espera de se cruzar com o outro 3 que haveria de vir dos Olivais, ao seu encontro. Terá sido algumas dezenas de metros à frente daquele local que os garotos quase ajoelhavam no eléctrico à vista do campo da bola.
    Foi também dali, e não longe da data inscrita no Diário do Torga, que vi o meu primeiro jogo da Académica, encarrapitado no muro que ladeia a rua, o que seria impossível nos dias de hoje, quer pela vegetação que entretanto cresceu quer porque a cobertura das bancadas cortou as vistas aos borlistas.
    Visto de cima, o relvado do Calhabé parecia uma mesa de matraquilhos onde o movimento de uma bola invisível era adivinhado pela movimentação dos jogadores. O entusiasmo dos golos fazia chegar até nós um bruá tremendo, cujo atraso era bem a prova de que o som caminha ao pé-coxinho enquanto a imagem viaja de avião.
    Jogava a Académica contra o Benfica e este haveria de ganhar por uma batelada de 7-3, que me ficou marcada a ferros na memória até aos dias de hoje. Sei agora que foi na época de 1954-55, graças à obra enciclopédica ACADÉMICA – HISTÓRIA DO FUTEBOL (olá João Santana! Obrigado João Mesquita, estejas tu onde estiveres…), época em que o guarda-redes da Briosa era o Ramin, herói dos jogos contra o Sporting mas que me fez chorar de raiva contra o Benfica.
    Mas o tempo passa. O Calhabé já não é mais fora de portas, como o era em 55, e como mais ainda o era no Séc. XVIII, quando ali havia uma taberna famosa ligada à boémia coimbrã, onde um taberneiro chamado Calhabé, cujo nome se estendeu depois ao sítio, vendia o peixe frito e o vinho que animavam as fogueiras de S. João no arrabalde de S. José, juntando estudantes, futricas e tricanas numa noite que só acabava com o raiar do dia.
    Também o tempo do Penedo já se transformou. Dizem que se chama “da Saudade” porque uma lenda conta que D. Pedro ali ia chorar a morte da sua Inês. Seria então um sítio ermo, um local de paz e de silêncio…
    A vista ainda hoje é bonita mas todo o vale é agora de betão. Perdeu-se o bucolismo da paisagem. E é só quando me volto para Sul e estendo os olhos na direcção da Ponte Rainha Santa Isabel, que revivo o cheiro daquele ambiente calmo, onde o olhar se demorava e os namorados se esqueciam do tempo.
    O Penedo da Saudade continua a ser um ícone da cidade e uma recordação de quantos nela estudaram. A prová-lo está a profusão de placas de antigos cursos que ali continuam a fazer as suas romagens, placas essas que, aliás, me parecem de gosto duvidoso, emprestando ao local um certo ar de “cemitério de recordações”.
    Já as antigas lápides, com versos líricos de antanho, me parecem bem enquadradas. Um grupo no Facebook, animado por gente nova, chama a atenção para a necessidade do seu restauro, para que os poemas se possam ler. É sinal de que o Penedo da Saudade continua vivo. E a intervenção, se bem pensada e bem executada, poderá ser positiva. Mas fico dividido. Pessoalmente, gosto mais que as marcas do passado aparentem a idade dos acontecimentos que evocam. Saber envelhecer é uma virtude.
    Zé Veloso